Os Seminários CRIA 2026 constituem um ciclo anual que reúne, num calendário comum, os quatro grupos de investigação, promovendo a apresentação e discussão de investigações em curso, projetos de investigação, bem como livros e outras publicações científicas.
A iniciativa tem como objetivo reforçar a partilha de trabalho científico e promover o diálogo entre diferentes áreas de investigação, oferecendo uma visão abrangente dos temas, abordagens e metodologias que caracterizam a produção científica do CRIA. Os encontros realizam-se sempre às sextas-feiras, pelas 12h.
Sessão 6 – Entre Águas e Terras Crescentes: O Sistema Agrícola Tradicional, a Resistência Territorial e a Luta por Justiça Ambiental dos Vazanteiros no Médio São Francisco – Brasil
Local: Av. de Berna – FCSH Torre A sala A005
Com Ana Thé (Visitante CRIA NOVA FCSH | UNIMONTES)
Resumo
A apresentação abordará o Sistema Agrícola Tradicional (SAT) das comunidades quilombolas, vazanteiras e pesqueiras do Médio São Francisco em Minas Gerais, Brasil. Partindo de uma análise dos conflitos agrários e ambientais que marcam a região desde a década de 1970, o evento percorrerá o contexto histórico de expropriação territorial — desde a aplicação da Lei de Terras do Brasil até o estabelecimento de grandes empreendimentos, como o Projeto Jaíba e a construção de hidrelétricas — e a criação paradoxal de Unidades de Conservação de proteção integral como forma de compensação, que resultaram na criminalização e no deslocamento forçado dessas populações.
Em contraponto à narrativa do conflito, será apresentado o modo de vida vazanteiro a partir de seus saberes etnoecológicos, de sua identidade múltipla (quilombola, vazanteira e pesqueira), da territorialidade marcada pelos ciclos das águas, do manejo do SAT Vazanteiro, da cosmopolítica ribeirinha e das relações com seres não humanos e mais-que-humanos.
A palestra destacará as estratégias de resistência construídas coletivamente, como as autodemarcações e retomadas de territórios (casos de Pau Preto, Lapinha e Caraíbas), a Nova Cartografia Social, a elaboração de protocolos de consulta livre, prévia e informada e, mais recentemente, a mobilização pelo reconhecimento do SAT Vazanteiro como património biocultural. Esta última se inspira na troca de experiências com outras comunidades, como as Apanhadoras de Flores do Espinhaço — primeiro sistema agrícola tradicional brasileiro reconhecido como GIAHS (Globally Important Agricultural Heritage Systems) pela FAO. A exposição também evidenciará o papel da pesquisa participante e da escolha por uma “antropologia por demanda” adotada pela equipe do NIISA/LEAEH-Unimontes na coprodução de conhecimentos que fortalecem a luta por direitos territoriais, justiça ambiental e defesa da soberania sobre seus sistemas alimentares como estratégia de resistência à crise climática.