15
Mar
Ciclo Rinocerite
Foto: Carlos Porfírio | Puro Conceito
Encontro
18:00 às 19:00
Teatro da Garagem

Ciclo Rinocerite

Org. Cláudia Madeira (ICNOVA NOVA FCSH)

Incluído na apresentação do espetáculo Rinoceronte, a partir de Ionesco

Último espetáculo do ciclo de Teatro Clássico – “Metamorfoses”, parceria Teatro da Garagem e Mestrado de Artes Cénicas NOVA FCSH, Apoio DGARTES.

Espetáculo de 12, 13, 14, 15, 19, 20, 21, 22  de março, vários horários

Bilhetes aqui!

Adaptação dramatúrgica: Cláudia Madeira;

Encenação: Carlos J. Pessoa.

Produção: Teatro da Garagem

 

Conversa com:

João Constâncio (IFILNOVA NOVA FCSH) e Alexandre P. Calado (ESTC)

Domingo, dia 15 de Março de 2026/ Teatro Taborda/ A seguir ao espetáculo às 18h00

Entrada livre para a conversa.

 

 

Na peça O Rinoceronte de Eugéne Ionesco, escrita em 1959, este animal possante invade as ruas de uma pacata cidade do interior de França gerando tanta sensação como a que assombrou Lisboa, no ano de 1515, quando desceu de uma nau um rinoceronte proveniente da Índia, um presente do sultão de Cambaia para a corte portuguesa, que pela sua raridade D. Manuel decidiu ofertar ao Papa. O rinoceronte, adornado com uma coleira em veludo verde, apresentando rosas e cravos dourados, viajou pela Europa mas morreu no naufrágio da nau por via de uma tempestade a caminho de Roma. Recuperado o corpo do mar foi entregue empalhado mas a sua imagem tornou-se icónica pela xilogravura de Albrecht Dürer que fez a sua representação, entre realidade e ficção, através da descrição que dele lhe fizeram.

De alguma forma Ionesco continua esta viagem imaginária do rinoceronte. Na sua peça há uma rinocerite que é  símbolo e metáfora de uma estranha epidemia, a banalidade absurda que é associada pelo autor à consolidação das ideologias políticas, particularmente do fascismo, no século XX. Hoje não podemos deixar de nos perguntar: o seu fantasma por onde viaja? Ele está entre nós?

 

Ambroise Paré na sua obra Monstres et Prodiges, datada de 1573, definia monstro como o que é “raro”, definição a partir da qual apresenta as  “espécies monstruosas” onde destaca o rinoceronte, a par da baleia, do camaleão, ou até de fenómenos celestes como os cometas. Fortunio Liceti, por seu turno, em 1665 evidencia que há no Humano uma compulsão da exibição do monstruoso: “os monstros não se chamam pois assim por serem sinais que pressagiam de algum modo coisas vindouras: mas é por serem como são que a sua novidade e extravagância nos faz considerá-los com admiração, surpresa e espanto e cada um os mostra reciprocamente. Trata-se de um comportamento comum entre os homens que, quando alguém vê algo de maravilhosamente extravagante, o mostra aos vizinhos ou àqueles que encontra. E mesmo quando não tem ninguém a quem contar a sua surpresa e espanto por ter visto esse monstro, não descansa até encontrar alguém a quem o mostrar. De tal maneira o homem gosta de mostrar a outro o que ele próprio viu de raro e surpreendente!”. Perspetiva que já Aristóteles tinha indiciado quando considerou os monstros como “lusus naturae: piadas ou brincadeiras da Natureza. Sendo assim, tais criaturas não deveriam ser objeto de horror, mas de divertimento”. Compulsão, portanto, que teve o seu registo nas mostras de raridades de todos os tipos que percorreram a Europa.

É a partir de um registo autobiográfico vivido por Ionesco, que viu em seu torno a humanidade ser transformada por via da ideologia nazi, que este autor usa este animal, um dos que foi considerado na História um monstro, como símbolo do absurdo, mostrando que afinal o lúdico e o horror podem seguir juntos. No seu texto Presente Passado, de 1968, escreve ter presenciado um processo de metamorfose: “Eu vi as pessoas metamorfosearem-se. Eu constatei, eu segui o processo de mutação, vi como os irmãos, os amigos se tornaram progressivamente estrangeiros. Eu senti como germinava neles uma nova alma”. 

A partir desta realidade, que Ionesco considera trans histórica, cria na sua peça uma abordagem trágico-cómica. Aqui se conjugam elementos da História e da ficção, do atual e do não-atual ou mesmo do anacrónico, ou, dito de outro modo, do que tende a permanecer ciclicamente na História longa. Na sua peça, os rinocerontes invadem uma pequena, pacata e remota localidade francesa, transformando as suas gentes através de um estranho contágio ideológico numa animalidade feroz. Os rinocerontes nesta peça surgem como algo insólito, estranho e ilógico que invade o quotidiano, transformando-o, até a sua presença se tornar algo normal e banal na paisagem comum. A peça termina com Berenger como último resistente à metamorfose, todos à sua volta se transformaram em rinocerontes. Abandonado por todos, este chega a ter a tentação de se juntar a eles. Nesse momento, questiona-se se não será afinal ele o monstro, alguém incapaz de se integrar na realidade.  

Neste ciclo de conversas motivado pela adaptação dramatúrgica e cénica proposta pelo Teatro da Garagem, entre o clownesco e a rave, e ainda por um novo palco expandido onde entramos  na “barriga”  do Rinoceronte, podemos refletir a peça de Ionesco a partir deste final assistindo a outras possíveis metamorfoses: Como se auto-reflete hoje esta rinocerite? Tratar-se-á de um contágio ambiental, algo que paira no ar? Um efeito hipnótico que contamina as massas sem que estas possam ganhar sentido crítico?  Que antídotos podemos tomar? Serão os rinocerontes vítimas também? Ou, afinal, o Rinoceronte não tem culpa nenhuma?

Cláudia Madeira, 2 de março, 2026

 

 

 

 

 

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