José Gabriel Pereira Bastos (1943-2021)

Para todos/as os/as que conhecem os seus textos e para os/as que tiveram a fortuna de assistir às suas aulas e múltiplas conferências, José Gabriel Pereira Bastos foi um dos cientistas sociais portugueses mais criativos e mais inovadores, com um fôlego e uma ambição teóricas raras neste país.

Sendo psicanalista de formação e tendo uma experiência acumulada de décadas como terapeuta, era também uma das pessoas que, em Portugal, mais profundamente conhecia o pensamento de Freud e os meandros da sua obra. Tomou as teorias deste autor como ponto de partida para um quadro explicativo capaz de fundar uma antropologia geral, uma teoria global do ser humano cuja dimensão integrativa e transdisciplinar visasse derrubar o que chamava de “estilhaçamento disciplinar”.

O seu primeiro ensaio para a exploração deste vasto programa epistemológico consistiu numa teoria “estrutural-dinâmica”, construída em diálogo crítico com o estruturalismo francês então dominante, aplicada à análise do texto literário desenvolvida no âmbito da disciplina de Psicanálise e Literatura que lecionou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. O segundo passo foi a sua transição para a Antropologia, área científica onde também se licenciou e doutorou (com uma tese de doutoramento a que deu o título provocatório de Portugal, minha Princesa), tendo integrado o departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

Articulando a psicanálise com os saberes antropológicos, desenvolveu uma teorização sobre a antropologia dos processos identitários, testada minuciosamente na sua obra Portugal Europeu: Estratégias Identitárias Inter-nacionais dos Portugueses (Celta Editora 2000). Este trabalho seminal forneceu a fundamentação teórica, sempre reconstruída, para mais de uma dezena de projetos de investigação financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia no âmbito do Centro de Estudos de Migrações e Minorias Étnicas da FCSH da Universidade Nova, avaliado com Muito Bom.

A sua construção teórica mais complexa, e talvez a mais ambiciosa, foi publicada num texto longo, intitulado “What are we talking about when we talk about identities”, integrado na obra da qual foi co-editor Identity Processes and Dynamics in Multiethnic Europe (Amsterdam University Press, 2011). Todavia, para lá dos seus textos, a grande obra-prima que José Gabriel Pereira Bastos nos lega foram as suas aulas e intervenções públicas, nacionais e internacionais (nomeadamente na Universidade da Califórnia, Berkeley). Aqueles/as que o conheceram e que desejaram tornar-se pessoas melhores pelo simples facto de o ouvirem reconhecem a qualidade imensa de tudo o que tinha para transmitir.

A sua perda é realmente irreparável na medida em que estava na plena posse das suas capacidades, da sua acutilância, da sua criatividade; e, mais especificamente, prende-se com o facto de não ter conseguido finalizar o texto que deveria ser a sua obra mais significativa: um livro sobre o pensamento de Freud o qual, na verdade, seria um livro sobre o pensamento de José Gabriel Pereira Bastos a partir da obra do criador da psicanálise.

A NOVA FCSH apresenta as suas condolências à família e amigos/as de José Gabriel Pereira Bastos.

(foto cedida por qinews.pt)

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