Devolver a pintura mural à vida pública
21 de Setembro de 2026, 10:29
Há murais no Porto que poucos têm oportunidade de ver. Não porque tenham desaparecido, mas porque a pintura mural está intimamente ligada aos edifícios para os quais foi criada. Quando estes espaços mudam de função, são reformados ou deixam de estar acessíveis, também as obras que neles existem podem tornar-se difíceis de visitar.
O projeto de investigação Mural in Motion estudou a pintura mural de Dordio Gomes no Porto e explorou o potencial das tecnologias digitais para investigar, preservar e divulgar um património que, em alguns casos, permanece distante do alcance do público. A exposição física do projeto deu lugar a uma experiência digital que permite conhecer estas obras a partir de outros ângulos.
É este o ponto de partida do Mural in Motion, acolhido pelo Instituto de História de Arte (IHA), que toma como caso de estudo os murais realizados por Dordio Gomes no Porto entre 1944 e 1961. O objetivo passa pela “exploração crítica das ferramentas digitais para a curadoria em história da arte”, como explica a investigadora responsável (IR), Begoña Farré Torras.
O que fazer quando não podemos levar um mural para a exposição?
A pergunta ganha particular importância no caso de Dordio Gomes. Os 14 painéis estudados pela equipa distribuem-se por seis conjuntos murais e resultam de diferentes tipos de encomenda (pública, religiosa, comercial e privada), abrangendo temas que vão da mitologia clássica a episódios históricos e religiosos. Com exceção de um mural que foi retirado do seu local original e integra atualmente uma coleção privada, estando inacessível até para a equipa do projeto, os restantes permanecem nos espaços para os quais foram concebidos.
A dificuldade é evidente: como expor uma obra que está pintada numa parede e que não pode simplesmente ser transportada? Foi aqui que entrou a tecnologia. A exposição Dordio Gomes e a pintura mural no Porto. Cal, pigmentos e píxeis, apresentada na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto no início deste ano, resultou do projeto Mural in Motion e procurou precisamente experimentar novas formas de apresentar este património.
No catálogo da exposição, Lúcia Almeida Matos, investigadora do Instituto de Investigação em Arte, Design e Sociedade (i2ADS) e curadora, explica que a exposição procura ultrapassar as dificuldades colocadas por estas “grandes composições não transportáveis” através de tecnologias recentes. A fotogrametria permite, segundo a autora, observar detalhes, aproximar-se da escala das obras e perceber melhor o processo e o tempo da sua execução.
Reconstrução 3D da exposição Dordio Gomes e a pintura mural no Porto. Cal, pigmentos e píxeis. © Lety Crespillo
Digitalizar não é apenas reproduzir
A digitalização dos murais através de fotogrametria foi pensada como parte de uma estratégia de investigação e curadoria. A técnica permite construir modelos tridimensionais a partir de centenas de fotografias feitas de diferentes ângulos e alturas. No caso de As Artes, do antigo Café Rialto, foram necessárias 414 capturas fotográficas, para O Mito de Prometeu, foram 575.
Esta digitalização permite não só criar registos em alta definição dos murais, contribuindo para a sua preservação virtual e para o seu estudo aprofundado, mas também abrir novas possibilidades de divulgação, afirmam Begoña Farré Torras e Leticia Crespillo Marí, também investigadora do IHA, envolvida neste projeto.
Essa preocupação está igualmente presente na forma como a exposição virtual foi construída. “O objetivo não era unicamente mostrar gémeos digitais e modelos 3D de forma isolada, mas preservar também o discurso curatorial, a relação espacial entre as peças e o percurso do visitante”, clarifica Leticia Crespillo Marí.
A tecnologia, neste projeto, não procura substituir a obra original nem transformar a pintura mural num espetáculo digital. Pelo contrário, a equipa propõe uma utilização crítica das ferramentas digitais: tornar a obra mais visível, compreensível e acessível sem apagar o seu contexto.
“O seu valor não reside unicamente em gerar modelos tridimensionais de alta qualidade, mas em ampliar as possibilidades de documentação, análise e comunicação de obras que, pelas suas condições de acesso, raramente podem ser estudadas ou conhecidas de forma continuada”, acrescenta Leticia Crespillo Marí.

As Artes (1944), fresco de Dordio Gomes realizado para o antigo Café Rialto, no Porto. A obra foi digitalizada através de fotogrametria no âmbito do projeto Mural in Motion, a partir de 414 capturas. © Mural in Motion
O mural como documento do seu tempo
Estudar estes murais significa também olhar para o contexto em que foram produzidos. A própria escolha da pintura mural de Dordio Gomes permitiu à equipa abordar diferentes questões relacionadas com o património, como a invisibilidade, a inacessibilidade, o estado de conservação, o valor societal contemporâneo ou as iconografias problemáticas, explicita Begoña Farré Torras.
As obras de Dordio Gomes no Porto foram realizadas entre 1944 e 1961 e incluem encomendas oficiais, religiosas e privadas. O catálogo dedica, por isso, espaço à relação entre pintura mural, política, sociedade e Estado Novo, incluindo um ensaio sobre as artes, a valorização do Porto e as obras públicas durante a ditadura. Outros textos analisam especificamente os murais da Igreja Paroquial da Senhora da Conceição, em contexto colonial, os murais dos Paços do Concelho, relacionados com identidade nacional, geopolítica e diplomacia, e os do Palácio da Justiça, associados à história jurídica e à construção nacional.
A investigação permite, assim, olhar para os murais não apenas como objetos artísticos, mas como testemunhos de um determinado momento da história artística, social e cultural da cidade.
Da parede para o ecrã
A exposição física teve uma componente digital que permanece agora disponível online. Na reconstrução virtual da exposição é possível percorrer a sala em 3D, aproximar-se dos objetos, clicar em pontos de informação e aceder aos conteúdos digitais que fizeram parte da exposição. Entre eles estão dois filmes de animação: O Mito de Prometeu e A Quimera do Muro.
Os filmes de animação nasceram também da investigação. O Mito de Prometeu foi desenvolvido por Paulo Diogo Simão, então estudante de mestrado em Animação, que teve liberdade para escolher um dos 14 painéis estudados. O trabalho foi considerado tão relevante pela equipa que o estudante acabou por ser integrado formalmente no projeto como investigador.
Já A Quimera do Muro foi desenvolvida por quatro estudantes da Licenciatura em Animação Digital a partir da investigação de Mariana Escoval dos Santos sobre os murais do Tribunal. A utilização da animação teve, assim, uma função que ultrapassa a dimensão visual. Nas palavras de Begoña Farré Torras, o projeto procurou explorar “o enorme potencial da animação como estratégia de mediação para a comunicação de ciência”.
A animação não foi, neste caso, apenas uma forma de tornar a exposição mais apelativa: foi utilizada para comunicar conhecimento produzido pela investigação. O objetivo não é substituir uma visita aos murais no seu contexto original. As duas experiências são diferentes e complementares. Como explica a IR, a plataforma digital pretende ser “uma ferramenta de exploração através de um ecrã, de aquisição de conhecimento que poderá informar uma eventual observação ao vivo.”
O projeto Mural in Motion coloca, assim, uma questão que ultrapassa o caso de Dordio Gomes: como podemos estudar, preservar e voltar a aproximar do público um património que está fisicamente condicionado? A resposta passa, neste caso, por juntar História da Arte, património, tecnologia e novas formas de curadoria.
Explore o Mural in Motion e descubra a pintura mural de Dordio Gomes aqui.

O Mito de Prometeu (1953–1954), fresco de Dordio Gomes realizado para a antiga Escola de Belas-Artes do Porto, atual Pavilhão Carlos Ramos da Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto. A obra foi digitalizada através de fotogrametria no âmbito do projeto Mural in Motion. © Mural in Motion