Helder Godinho (1947-2020)

Helder Godinho partiu, inesperada e prematuramente, no dia três de julho, deixando mais pobres a NOVA FCSH e a universidade portuguesa, mas também deixando um legado de sabedoria e de cultura humanística que permanecerá para o futuro na memória de quantos tiveram o privilégio de com ele conviver intelectualmente.

Membro fundador da NOVA FCSH, desde o início ligado ao Departamento de Línguas e Literaturas Românicas, que ajudou a criar, e, mais tarde, ao Departamento de Línguas, Culturas e Literaturas Modernas, por ele dirigido durante vários anos, dedicou-se, ao longo da sua carreira académica, à investigação sobre a obra de Vergílio Ferreira, de quem foi grande especialista e amigo pessoal, aos estudos sobre o imaginário e à literatura medieval, construindo uma obra notável nestes domínios científicos considerada como uma referência muito além dos limites da academia do nosso país.

Como professor, deixou uma marca indelével nos discípulos que tiveram o privilégio de ser por ele formados. O seu grande prazer de ensinar estava patente em todas as suas aulas e seminários, e imprimiu uma marca duradoura nos estudantes com o seu espírito intelectualmente inquieto e irreverente. Possuía o poder de desassossegar as mentes mais
conformadas desafiando-as com novas interrogações ou inesperadas correlações entre textos e ideias, orientado para uma visão epistemológica do mundo. Foi responsável pela introdução na NOVA FCSH de estudos pioneiros em Portugal como a obra de Vergílio Ferreira, a literatura medieval francesa, o francês antigo e os mitos e modelos heróicos.
Trouxe o programa de mestrado Erasmus Mundus para a nossa instituição, e desenvolveu os programas Erasmus com Bordéus e Perpignan, que permitiram contactos regulares e profícuos dos estudantes com grandes especialistas internacionais dos estudos literários e dos estudos sobre o imaginário. Enquanto investigador, na área dos estudos sobre o imaginário, a sua obra foi marcada pelos trabalhos de pensadores como Gilbert Durand, na área da mitocrítica, alguns dos quais também traduziu, tendo publicado estudos de grande relevância, como o Mito e o Estilo. Introdução a uma mitoestilística (1982) ou a obra magistral sobre o autor a quem dedicou mais de um terço dos seus trabalhos, O Universo imaginário de Vergílio Ferreira (1985), que atestam uma leitura pessoal e inovadora e nunca acomodada dessa matriz teórica. Formou várias gerações de investigadores que, pela sua mão, puderam contribuir para o alargamento do âmbito destes domínios científicos. Foi responsável pela criação do Centros de Estudos sobre o Imaginário – CEIL e, mais tarde, do Grupo de Estudos Interdisciplinares sobre o Imaginário Literário (EISI), que liderou até à sua aposentação, e para além dela, manifestando sempre uma grande dedicação ao estudo e a crença inabalável numa atividade do pensamento que não prescinde da discussão e no convívio intelectual.

Ultimamente, estava empenhado na revisão crítica dos estudos sobre o imaginário numa perspetiva da ligação entre o imaginário e o pensamento científico, área a que dedicou diversos seminários e grande parte da sua reflexão e trabalho de investigação. Nesta área, participou na dinamização de vários projetos no âmbito da rede internacional CRII2i – Réseau International des Centres de Recherche sur l’Imaginaire.

A longa carreira académica do Professor Helder Godinho confunde-se com a história da NOVA FCSH também no que respeita aos cargos de gestão que preencheu, sendo uma marca constante, o exercício inteligente, lúcido e dedicado das funções desempenhadas, e um elevado sentido de missão e empenhamento institucional.

O sentido de rigor, de disciplina e de dedicação à atividade do pensamento do Professor Helder Godinho, o prazer da partilha do saber que se aprofunda na discussão, o seu espírito profundamente humanista, e também crítico e insubmisso, ficarão para sempre impressos na memória da NOVA FCSH.

Sol frio da minha mortalidade. Ilumina mas não aquece. Vejo com ele as estradas do mundo e de tudo o que as percorre. Mas calor que me faça mover não vem. Aqueço-me à memória de quando também passava e do que em mim ia comigo e me fazia existir.Calor brando de um fogão que me esqueci de acender. Sol frio do meu ser mortal. —
Vergílio Ferreira, Escrever, ed. Helder Godinho, Bertrand, 2001.

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