Espólio Samuel Schwarz

Esta coleção conserva a biblioteca de Samuel Schwarz, notável estudioso judeu polaco que viveu a maior parte da sua vida em Portugal. Este acervo, com características únicas, versa sobretudo a história, cultura e religião do povo judeu, conservando obras que datam desde 1510 a 1953.

Samuel Schwarz nasceu em 1880, na pequena cidade de Zgierz, no centro da Polónia, sendo o primeiro filho de um casal da comunidade judaica local. De seu pai, Issucher Schwarz, jurista de profissão, bibliófilo por paixão e sionista por convicção, tomou o gosto pelos livros e identificou-se com a cultura judaica. Profissionalmente, decidiu percorrer um outro caminho que o conduziu à Escola Superior de Minas de Paris, onde obteve o grau de engenheiro, em 1904. Em trabalho, iniciou um ciclo de viagens que o levaram de ponta à ponta da Europa e até mais além, ao Cáucaso e Azerbeijão, passando pela Polónia natal, por Itália, Espanha e, finalmente, Portugal onde acabou por se fixar.

Em 1914, constituiu família, casando com Agata Barbash. Estando em lua de mel na Península Ibérica os ventos da guerra impediram-nos de regressar a Odessa, terra de origem da noiva, onde pensavam radicar-se. Assim, foi em Portugal que nasceu, em 1915, a única filha do casal, Clara.

Uma vez em Portugal, usando o seu equipamento fotográfico (e de filmar!) recolhe momentos e lugares significativos, frequenta a comunidade judaica de Lisboa e, necessariamente, começa a trabalhar na sua área profissional. Por mais uma coincidência da vida, a dada altura foi trabalhar para a região de Belmonte. Aí detectou indícios da existência de judeus marranos e iniciou a recolha de informação e o estudo dessa questão, acabando por revelar ao mundo a permanência ancestral de comunidades cripto-judaicas no nordeste de Portugal, que durante séculos haviam permanecido incógnitas e discretas, o que lhes teria garantido a sobrevivência. Este assunto tinha-o interessado havia já algum tempo, desde quando vivera na Galiza, mas só em 1917 conseguiu encontrar as pessoas e a realidade de que há muito suspeitava também poder existir em Portugal. Escreve os resultados da sua investigação na obra Cristãos Novos em Portugal no século XX, publicado pela primeira vez em 1925, no que é uma síntese dos seus mais profundos tópicos de interesse intelectual e cultural: o judaísmo, a história, a arqueologia.

Na década de 30, em Lisboa, aprofundou as suas ligações ao país de acolhimento, pedindo e obtendo a naturalização, mas também cultivou os laços com o país de origem, criando e presidindo à Câmara de Comércio Polaca. Numa outra vertente, aprofundou o seu empenho nas questões hebraicas, não apenas do ponto de vista cultural e arqueológico, pois localizara e adquirira a antiga sinagoga medieval de Tomar que ofereceu ao Estado, tendo em vista a valorização da presença judaica em Portugal, através da criação de um Museu, algo que nunca chegou a concretizar-se, no seu tempo.

Ao longo da sua vida aproximou-se cada vez mais da causa política hebraica, tendo em conta o contexto daqueles tempos que o afectaram directamente: a morte do pai, octagenário, na sequência da invasão da casa da família, queimada com a biblioteca que albergava, em 1939; a deportação de uma das suas irmãs e sobrinho, mortos num campo de extermínio; a morte de todos os familiares que permaneceram na Polónia, excepto um que sobreviveu. Estes e outros factos ligados ao contexto da guerra levaram à diáspora da família.

A idade e debilidade física, nos últimos anos, adiou e acabou por impedir que cumprisse um último desiderato: o de reencontrar irmãos, sobrinhos e outros parentes, a sua grande família que se dispersara pelo mundo e que planeava uma magna reunião em Israel, entretanto tornado independente.

Morreu em Lisboa, em 1953, pouco tempo depois do falecimento da mulher.

Texto de Filomena Melo

 

A biblioteca que Samuel Schwarz reuniu ao longo da sua vida está à guarda da NOVA FCSH. Tendo surgido a oportunidade de beneficiar do apoio e do financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, através do programa de financiamento “Recuperação, tratamento e organização de acervos documentais” (2015), a NOVA FCSH pretendeu, através da Biblioteca Mário Sottomayor Cardia, valorizar este acervo, para o que desenvolveu um projeto de investigação destinado a tornar disponíveis os seus conteúdos.

 

Em parceria com a Assembleia da República, a NOVA FCSH organizou exposição A Biblioteca de Samuel Schwarz, espelho de uma vida, que decorreu entre os dias 18 de abril e 22 de maio de 2018, na Assembleia da República.

O Presidente da Assembleia da República, Dr. Eduardo Ferro Rodrigues, presidiu à Cerimónia de Inauguração, na qual estiveram presentes várias personalidades, incluindo o Embaixador de Israel em Portugal, Raphael Gamzou, e o Reitor da Universidade NOVA de Lisboa, Prof. Doutor José Sáàgua.

Contrariar o esquecimento: tributo a Samuel Schwarz

 

Este colóquio, realizado a 22 de maio de 2018, pretendeu ser um tributo a Samuel Schwarz, no momento em que a sua Biblioteca passou a estar disponível não só a investigadores como ao público mais geral.

Em conjunto com a Exposição A Biblioteca de Samuel Schwarz, espelho de uma vida, que decorreu na Asssembleia da República, este Colóquio teve o propósito de partilhar os resultados do projeto de conservação e investigação que incidiu sobre este acervo. No entanto, a frutífera discussão gerada permitiu abrir novos caminhos para o estudo, não apenas da obra de Samuel Schwarz e das suas consequências, mas também da sua notável biblioteca.

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