19
Dez
De Otavalo a Los Angeles: “etno-co-biografia” e co-representação no filme “Zulay, Facing the 21st Century”
fotograma do filme "Zulay, Facing the XXIst Century"
Encontro
10:30 às 12:30
Online

Sessão aberta da Oficina de História e Imagem do Instituto de História Contemporânea.

Os filmes de Jorge Prelorán, “etnógrafo heterodoxo” (Campo), combinam metodologias etnográficas com um alto grau de experimentação formal. Ao longo da sua extensa filmografia, o cineasta argentino desenvolveu um género etno-cinematográfico ao qual chamou “etno-biografia”. Nas “etno-biografias”, a representação de uma comunidade determinada e/ou de uma dada cultura emerge da biografia do protagonista do filme. A narrativa de obras etno-biográficas como Hermógenes Cayo (1970) e Los Hijos de Zerda (1978) é, porém, profundamente marcada pela relação entre o cineasta e a personagem principal, o sujeito e o objecto, antecipando a viragem dos paradigmas representativos e epistémicos da etnografia e do documentário.

Zulay, Facing the 21st Century, filme escassamente estudado e poucas vezes projectado, co-realizado por Prelorán, a antropóloga Mabel Prelorán, companheira do cineasta, e Zulay Saravino, ameríndia Otavaleña do Equador, constitui um exemplo pioneiro do cinema antropológico reflexivo, relacional e reverso (Wagner). Filmado ao longo de um período de oito anos, Zulay, Facing the 21st Century é estruturado por um diálogo entre os três realizadores em torno das suas diferentes experiências de imigração em Los Angeles. Esta apresentação articula uma análise das estratégias estético-narrativas de Zulay, Facing the 21st Century (particularmente, das modalidades de representação das paisagens urbanas de Los Angeles em contraste com a geografia andina de Otavalo, assim como de um conjunto de procedimentos formais que aproximam o filme do cinema experimental norte-americano e, sobretudo, da filmografia de Bruce Baillie e de Chick Strand) com uma discussão sobre a desconstrução dos modelos representativos e epistémicos — assim como perceptivos — do cinema etnográfico e do cinema documental centrada nos processos de rotação do olhar e de co-representação.

Através das noções de “etno-co-biografia”, releitura do conceito de “etno-biografia” de Prelorán, e de “co-representação”, procurar-se-á entender de que maneira os processos de transculturação emergem no filme de um descentramento de perspectivas e de uma revisão de ordem dialógica da relação convencional — dual, vertical e hierarquizada — entre o observador e o observado. Resultante do encadeamento de perspectivas múltiplas ligadas a categorias de classe e género, assim como a categorias raciais, e problematizando a persistência de estruturas coloniais no continente americano, Zulay, Facing the XXIst Century é um objecto eloquente com respeito ao modelo de representação e conhecimento geralmente verticalizado da etnografia e do cinema documental. Através da sua metodologia colaborativa, da sua construção colectiva e de uma concepção do conhecimento antropológico (e da representação documental) como o resultado de uma relação que constitui o sujeito e o objecto reciprocamente, Zulay, Facing the 21st Century inverte a perspectiva convencional do olhar etnográfico e documental — historicamente centrado na alteridade — para conformar uma representação da amizade entre o casal Prelorán e Saravino e da sua vida em comum em Los Angeles. Neste sentido, a apresentação examina a presença e a desconstrução das convenções da etnografia e do sistema de representação do documentário no filme, bem como a impregnação do tecido fílmico por um olhar feminino — o olhar de Mabel Prelorán e Saravino — e ameríndio — o olhar da jovem Otavaleña.

A apresentação visa, por conseguinte, inserir Zulay, Facing the XXIst Century na história do cinema e, em particular, na história do cinema etnográfico. Examina, paralelamente, as consequências epistémicas de uma “antropologização do Centro” (Viveiros de Castro) e de um sistema de representação e de produção de conhecimento relacional, sistema que visa “corrigir o desequilíbrio entre os objectos e as suas descrições… através de um olhar mais intenso” (MacDougall) e assim desestruturar o dualismo sujeito-objecto.

Apresentação de:
Raquel Schefer é investigadora, realizadora, programadora e docente na Universidade Sorbonne Nouvelle — Paris 3. Doutorada em Estudos Cinematográficos e Audiovisuais pela Universidade Sorbonne Nouvelle com uma tese dedicada ao cinema revolucionário moçambicano, é mestre em Cinema Documental pela Universidad del Cine de Buenos Aires e licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa. Publicou a obra El Autorretrato en el Documental (2008) na Argentina, bem como diversos capítulos de livros e artigos em Portugal e no estrangeiro. Foi Professora Assistente na Universidade Grenoble Alpes, docente nas Universidades Paris Est — Marne-la-Vallée, Rennes 2, na Universidad del Cine de Buenos Aires e na Universidad de la Comunicación, na Cidade do México, e investigadora convidada na Universidade da Califórnia, Los Angeles. É bolseira de pós-doutoramento da FCT no CEC/Universidade de Lisboa, no IHC/Universidade Nova de Lisboa e na Universidade do Western Cape e co-editora da revista de teoria e história do cinema La Furia Umana. No CEC, é coordenadora do grupo “Visual Culture, Migration, Globalization and Decolonization”.

Moderação de: Lee Douglas (IHC — NOVA FCSH).

 

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