A NOVA casa da Adília
Adília Lopes na Quinta Alegre/Palácio do Marquês de Alegrete (Charneca do Lumiar), em Lisboa. © Espólio Adília Lopes

O espólio documental e bibliográfico de Adília Lopes foi doado pelas herdeiras da poetisa, as artistas Margarida Jardim e Armanda Duarte, à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH). Para garantir a preservação do acervo de uma referência fundamental da poesia contemporânea portuguesa, promover o seu estudo e divulgá-lo junto da sociedade, acaba de ser criado o Centro de Estudos e Documentação Adília Lopes – CEDAL, integrado no Instituto de Estudos de Literatura e Tradição (IELT) e contando desde já com o apoio financeiro da Fundação Calouste Gulbenkian. 

“O CEDAL é dedicado a uma figura maior da literatura portuguesa contemporânea, portadora de um estilo singular e original, cuja importância, tanto da vasta obra poética quanto do legado intelectual, deve ser reconhecida, apoiada e divulgada”, declara a Diretora da NOVA FCSH, Alexandra Curvelo.  

O acervo é composto por centenas de livros, documentos, obras de arte e objetos, incluindo vários referidos na Dobra, coletânea que reúne toda a poesia de Adília Lopes, de 1983 a 2023. O espólio bibliográfico “permitirá perceber que autores Adília Lopes lia e que relações têm essas leituras com a sua obra”, explica Joana Meirim, investigadora do IELT e coordenadora do CEDAL. “A biblioteca de um autor é fundamental para o seu estudo”, adianta, garantindo que “o CEDAL tudo fará para incentivar novos estudos sobre a obra e para aproximar novos leitores da sua obra.”.  

A riqueza e diversidade do acervo vão permitir o desenvolvimento de várias linhas de investigação em torno da obra de Adília Lopes muito além dos Estudos Literários, em diálogo com outras disciplinas e centros de investigação da NOVA FCSH, nomeadamente nas áreas do cinema, da escola (área já desenvolvida no IELT), das artes plásticas e das “duas culturas”, a das Ciências e a das Humanidades.  

Adília Lopes, pseudónimo de Maria José da Silva Viana Fidalgo de Oliveira, estudou Física antes de se licenciar em Línguas e Literaturas Modernas. Morreu a 30 de dezembro de 2024, com 64 anos. Os 36 livros que publicou, desde o inicial Um Jogo Bastante Perigoso, em 1985, estão reunidos na Dobra, que “um dia será lida como um dos mais poderosos e elucidativos retratos do mundo absurdo em que nos coube viver”, escreveu Rosa Maria Martelo, investigadora e professora catedrática da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 

 

                                           

(Da esquerda para a direita) Desenho de Adília Lopes, 2012.; capa do livro Bandolim (2016). Fotografia de Adília Lopes em menina. Livros e objetos pessoais de Adília Lopes; nas fotografias, a escritora em menina, à direita, a preto e branco, e à esquerda na adolescência (imagem reproduzida a preto e branco num dos seus livros). © Espólio Adília Lopes. © Espólio Adília Lopes


O espólio enquanto fonte científica
 

A biblioteca de Adília Lopes, por ora ainda encaixotada, integra várias obras com marginália – conjunto de anotações na margem de um livro, caderno ou manuscrito –, “o que certamente contribuirá para perceber de que forma essas leituras influenciaram a sua”, refere Joana Meirim, que efetuou um inventário preliminar do espólio documental em conjunto com Armanda Duarte e Margarida Jardim. A coordenadora destaca ainda o facto de a coleção abranger diversos autores que não são de língua portuguesa, bem como livros de diferentes áreas científicas. Várias obras exibem dedicatórias de escritores e artistas. 

O conjunto de bens doados inclui também ilustrações de artistas com quem Adília Lopes colaborou e que assinaram as capas de várias edições da sua obra, desenhos da própria poetisa e cadernos integralmente manuscritos, com versões de poemas e a preparação da edição de alguns dos seus livros. Além de manuscritos e datiloscritos abarcando diferentes géneros literários, os investigadores terão ao seu dispor documentação biográfica, incluindo fotografias de família, e vários objetos pessoais da autora.  

Graças ao CEDAL, o espólio de Adília Lopes não será apenas um conjunto de documentos e objetos guardados, mas uma coleção de materiais em processo de organização e inventariação que poderá vir a constituir uma fonte de investigação científica. É precisamente esse processo de organização, descrição e tratamento técnico que permitirá transformá-lo numa fonte de investigação, abrindo a possibilidade de estudar processos criativos, redes intelectuais e relações entre diferentes áreas disciplinares. Mais do que preservar, pretende-se criar condições para a produção de novo conhecimento. 

Além de conservar, inventariar, digitalizar e estudar o espólio da poetisa, o novo centro de estudos e documentação compromete-se a garantir o tratamento técnico-documental do acervo bibliográfico, trabalhando em estreita colaboração com a Divisão de Bibliotecas e Documentação da NOVA FCSH, quer com a equipa do Arquivo, na inventariação e tratamento do espólio documental, quer com a equipa das Bibliotecas, na catalogação e descrição do fundo bibliográfico de Adília Lopes. 

Linhas de investigação como as referidas acima estão já identificadas, bem como um conjunto de atividades científicas que contribuam para o aprofundamento da investigação sobre a obra de Adília Lopes, incluindo colóquios e seminários, e, a médio prazo, também publicações.  

Um plano estratégico de estudo e de divulgação do espólio será elaborado, estando prevista a criação de um site dedicado à poetisa e a organização de ciclos de cinema. Nesta fase, não estão previstas visitas ao CEDAL mas serão estabelecidas parcerias com outras instituições universitárias e não só.  

 

                                   

O conjunto de bens doados inclui pontos de exames, guarda-chuvas, desenhos, cadernos, manuscritos, datiloscritos, fotografias e uma mala de viagem com etiquetas da TAP e da PGA, companhias de aviação portuguesas, onde são visíveis o nome e a morada da poetisa.


História de uma doação
 

Outro aspeto distintivo é a possibilidade de todo o acervo ficar no mesmo espaço, “que será uma espécie de ‘Casa de Adília’, mas sem ser uma casa-museu típica”, refere Joana Meirim. “Não repartir o espólio por diferentes espaços era uma vontade das herdeiras” e um compromisso do projeto submetido à Gulbenkian.

Armanda Duarte e Margarida Jardim assinaram o termo de doação a 5 de junho de 2026, depois de, em maio do ano passado, terem apresentado à Fundação Calouste Gulbenkian, com Joana Meirim e Luís Prista, professor de português no ensino básico e secundário, um pedido de financiamento para o inventário, catalogação e digitalização do espólio, que foi atribuído.  

A investigadora do IELT levou então o projeto à Comissão Executiva do Instituto, nas pessoas de Teresa Araújo e Abel Barros Baptista, respetivamente coordenadora científica e vice-coordenador científico, “que prontamente reconheceram a importância deste espólio e apoiaram a iniciativa”, conta Joana Meirim. 

O IELT tem promovido atividade científica sobre Adília Lopes no âmbito do cruzamento entre Literatura e Ensino, incluindo um colóquio na Biblioteca Nacional de Portugal em 2023, trabalhos de alunos de mestrado e o ensino da obra da poetisa no Departamento de Estudos Portugueses da NOVA FCSH, quer na licenciatura, quer ao nível da pós-graduação.  

“Apresentei depois uma proposta para o acolhimento do espólio à Direção da Faculdade, em nome das herdeiras, tendo recebido uma resposta muito positiva”, recorda Joana Meirim. “A decisão de doar o espólio documental e bibliográfico de Adília Lopes à NOVA FCSH implicou o envolvimento, e vontade, de mais de duas pessoas”, sublinha Armanda Duarte, referindo-se a Joana Meirim, que lhes mencionou a existência do arquivo documental de Almada Negreiros e Sarah Affonso na Nova FCSH.

“No início, não me sentia preparada para conduzir um processo de tanta responsabilidade”, admite Margarida Jardim. “A dedicação, o profissionalismo e a amizade da Joana Meirim foram determinantes na escolha”, explica a artista plástica, desejando “que a NOVA [grafia da própria] ‘casa’ da Adília Lopes acolha os que foram tocados e se sintam inspirados pelas suas palavras.”  

Para Armanda Duarte, faz também sentido que “o espaço de maior memória” de Adília Lopes exista em Lisboa, onde a poetisa nasceu e sempre viveu. “O corpo da Adília está guardado num cimo, os seus documentos, livros e certos objetos estão depositados na sala de um outro cimo. Estão lado a lado, de certo modo”, diz a artista, que considera a criação do CEDAL “de grande importância para o aprofundamento e perpetuação da obra da escritora”. 

Juntando-se aos dois centros de estudos e documentação já existentes na NOVA FCSH, o Centro de Estudos e Documentação Almada Negreiros – Sarah Affonso (CEDANSA) e o Centro de Estudos e Documentação José Mário Branco – Música e Liberdade, “o CEDAL será um novo espaço de investigação e de formação, aberto à comunidade, em linha com o compromisso da instituição com a transferência de conhecimento para a sociedade”, garante a Diretora da NOVA FCSH, Alexandra Curvelo. 

 

Nota biográfica de Adília Lopes, por Joana Meirim  

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