Pensar antes de agir, para um jornalismo melhor
O curso "Jornalismo e Desordens Informativas" arrancou a 7 de setembro.

“As certezas absolutas, que contaminam o jornalismo quotidiano dos nossos dias, poderão, na sequência desta formação, começar a ser postas em causa se, efetivamente, conseguirmos transmitir aos formandos a urgência da dúvida”, acredita Pedro Coelho, coordenador do curso Jornalismo e Desordens Informativas, que começou nesta semana no Cenjor – Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas.

“Produzir um jornalismo de qualidade é uma meta dificilmente alcançável, mas esta formação tem esse como o objetivo principal”, adianta o investigador do ICNOVA, docente de Ciências da Comunicação na NOVA FCSH e jornalista de investigação da SIC.  

A partir da discussão de casos concretos – estudos de caso nos campos da História, Ciência Política e Ciências da Comunicação – e do debate à volta de conceitos-âncora que lhes estão associados, como populismo, fascismo, discurso de ódio, desordens informativas, reportagem ou jornalismo de investigação, pretende-se “sensibilizar os formandos para a necessidade de pensar antes de agir, contrariando, de forma deliberada, o ritmo frenético, que cede às pressões, da redação.” 

 

Pedro Coelho com Rita Luís, investigadora do IHC e docente do Departamento de História, e Marisa Torres da Silva, investigadora do ICNOVA e docente do Departamento de Ciências da Comunicação.

 

Reflexão, precisa-se 

Alguns formandos jornalistas admitiram aliás que, no quotidiano profissional, se habituaram a usar conceitos cujos verdadeiros significados desconhecem, conta Pedro Coelho. E esperam que este curso os ajude a fazerem melhor jornalismo, para o qual a reflexão é a chave. 

“Os jovens estagiários rapidamente apreendem e adotam as rotinas produtivas da redação, muito centradas no ‘fazer rapidamente’, seguindo práticas consolidadas, mas que tendem a omitir a necessária reflexão no tratamento de temas complexos” e esquecendo as ferramentas que trazem da academia, observa o investigador e docente da NOVA FCSH.  

“A rotina pesada da redação reclama muito mais ação do que pensamento”, remata o jornalista da SIC, e “o resultado desse processo está à vista de todos: produzimos um jornalismo maculado, que cede às pressões do mercado, incapaz de ser distintivo”.  

 

Rita Luís é responsável pelo módulo dedicado aos fenómenos políticos contemporâneos e à História. Marisa Torres da Silva aborda a sua investigação no módulo “Ecossistemas do ódio e desinformação: impactos, prevenção e formas de atuação”. Alexandre Malhado (à direita) é doutorando de Ciência Política, jornalista de investigação da Sábado e participa no módulo “Desinformação e populismo na era digital: partidos, líderes e eleitores”. 

 

Aliança entre academia e sociedade 

Dos 26 inscritos, 15 são jornalistas, três são recém-licenciados em Ciências da Comunicação, cinco são técnicos de comunicação e três têm outras profissões. Os jornalistas em causa desenvolvem a sua atividade em órgãos como o Expresso, a SIC, o Observador, a Lusa, o Jornal do Fundão e também jornais de Angola e Moçambique.  

Contam com uma equipa multidisciplinar de formadores, que inclui investigadores, docentes e recém-licenciados da NOVA FCSH, lado a lado com jornalistas de diversos órgãos de comunicação social. “A bolsa de formadores regular do Cenjor, mas também todos aqueles que o Cenjor convida e recebe para ações especiais, como é o caso, tem um perfil diversificado do ponto de vista de formação, conhecimento e prática”, refere Miguel Crespo, diretor deste centro que completa 40 anos em novembro. 

O objetivo é “conjugar uma vertente de saber, mais teórico e contextual, com o fazer, mais prático e aplicado”, explica Miguel Crespo, adiantando que “as formações do Cenjor, em geral, mesmo quando muito funcionais, integram sempre uma componente contextual, reflexiva”. Depois há os cursos mais focados “no contexto, na ética, na deontologia e em tudo o que está na base de ser jornalista, como é este o caso”. 

 

Desordens informativas vs. desinformação 

Além da reação negativa dos jornalistas ao termo “desinformação”, refere o diretor do Cenjor, o uso da expressão “desordens informativas” tem outro motivo: “Falar de desinformação, hoje, começa a parecer redutor perante a complexidade dos ecossistemas comunicacionais atuais”.   

O problema não está apenas nas mensagens desinformativas, mas também na forma como as pessoas reagem e interagem com elas, pelo que esta deixa de ser apenas uma questão comunicacional e passa a ser também política, psicológica, sociológica e transversal a muitas outras ciências sociais, explica Miguel Crespo.

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