Cinema indígena no Brasil: história, colonialismo e ensino
Objetivos
____
O curso tem como objetivo introduzir os participantes ao campo do cinema indígena no Brasil como ferramenta crítica para o ensino da História, com particular enfoque nos temas da expansão europeia, conquista, missionação, expropriação territorial, violência colonial e resistência indígena. Pretende-se oferecer instrumentos teóricos, historiográficos e pedagógicos que permitam aos formandos analisar filmes indígenas e excertos audiovisuais como fontes históricas e como práticas de autorrepresentação, distinguindo entre representações dos povos indígenas produzidas a partir de olhares externos e aquelas elaboradas pelos próprios povos indígenas. No final do curso, os formandos deverão ser capazes de contextualizar historicamente as obras trabalhadas, identificar o seu potencial para o ensino, relacionar os conteúdos curriculares com questões como conquista, escravização, colonialismo cultural, território e memória, e conceber propostas didáticas que integrem o cinema indígena de forma crítica, ética e pedagogicamente consistente. Pretende-se ainda promover uma reflexão sobre o papel do audiovisual na descolonização do ensino da História e no reconhecimento da pluralidade de perspetivas sobre o passado e o presente.
Programa
____
1.ª Aula (3h): Cinema indígena e História: como ensinar a expansão a partir de outras vozes.
Introdução ao campo do cinema indígena e ao seu potencial no ensino da História. Diferença entre os povos indígenas como objeto de representação e como sujeitos e autores de imagens. Discussão sobre autorrepresentação, arquivo, testemunho e memória. Reposicionamento do ensino da expansão europeia a partir da presença histórica de sociedades indígenas anteriores à chegada dos europeus e da resistência dessas sociedades no presente. Análise de excertos de filmes como Já Me Transformei em Imagem (Zezinho Yube, 2008, 32’); A Câmera é a Flecha (Coletivo Kuikuro de Cinema, 2022, 10’); Minha Câmera, Minha Flecha (Natália Tupi e Guilherme Fascina, 2023, 19’); Tupinambá na Baixada Santista (wescritor, 2022, 6’). Debate sobre usos pedagógicos iniciais do cinema indígena na sala de aula.
2.ª Aula (3h): Conquista, bandeiras e violência colonial nas Américas.
Estudo da conquista ibérica como processo violento, desigual e prolongado, articulando guerra, escravização, captura de indígenas, deslocação forçada, destruição de mundos sociais e imposição de novas formas de ocupação do território. Análise das relações entre expansão colonial, entradas e bandeiras no Brasil e violência sistemática sobre os povos indígenas. Reflexão sobre a persistência de estruturas coloniais no presente e sobre a forma como o cinema indígena permite historicizar essas continuidades. Visionamento e discussão de Mokoi Tekoá Petei Jeguatá — Duas Aldeias, Uma Caminhada (Ariel Ortega, Patrícia Ferreira, Jorge Morinico, Germano Beñites, 2008, 63’) e Ava Yvy Vera – Terra do Povo do Raio (Genito Gomes, Valmir Gonçalves Correia, Jhonn Nara Gomes, 2016, 52’). Construção de pistas didáticas para trabalhar conquista, resistência e colonialismo.
3.ª Aula (3h): Missionação, colonialismo cultural e disputa de cosmologias.
Análise da missionação como prática de transformação forçada de modos de vida, espiritualidades, línguas e formas de organização social. Discussão sobre colonialismo cultural, catequização, disciplinamento e tentativas de apagamento de cosmologias indígenas, bem como sobre a persistência e reinvenção dessas cosmologias apesar da violência colonial. Exploração da relação entre memória, ritual, oralidade, território e conhecimento. Análise de excertos de Shuku Shukuwe – A Vida É para Sempre (Agostinho Manduca Mateus Ika Muru Huni Kuin, 2012, 43’) e No Tempo do Verão (Wewito Piyãko, 2013, 22’). Debate sobre formas de articular estes materiais com conteúdos curriculares ligados à missionação, à conquista e às dinâmicas de imposição cultural no contexto colonial.
4.ª Aula (3h): Território, territorialidades e meio ambiente.
Reflexão sobre o território como dimensão central da vida social indígena, entendido não como suporte passivo ou mero recurso económico, mas como rede de relações entre humanos, rios, florestas, animais, espíritos, caminhos, memórias e práticas. Discussão sobre os efeitos da colonização na transformação do território em propriedade, fronteira, mercadoria e espaço de extração. Análise das noções de territorialidade, desterritorialização, reterritorialização e conflito ambiental, relacionando expansão, exploração económica, devastação ecológica e resistência indígena. Visionamento e análise de excertos de Yvy Pyte – Coração da Terra (José Cury, Alberto Alvares, 2023, 111’) e Mãri hi – A Árvore do Sonho (Morzaniel Ɨramari, 2023, 17’). Elaboração de propostas de trabalho didático sobre território, meio ambiente e história colonial, adequadas ao ensino básico e secundário.
5.ª Aula (3h): Memória, resistência e práticas de ensino: como levar o cinema indígena para a aula de História.
Consolidação dos temas trabalhados ao longo do curso e reflexão sobre as potencialidades e os limites do uso do cinema indígena no ensino. Discussão sobre memória, infância, transmissão intergeracional, resistência cultural, práticas de arquivo e pedagogias da imagem. Análise de questões éticas e metodológicas relacionadas com a seleção, contextualização e exploração pedagógica de filmes indígenas em contexto escolar. Visionamento e debate a partir de excertos de Das Crianças Ikpeng para o Mundo (Kumaré Ikpeng ,Karané Ikpeng, Natuyu Yuwipo Txicão, 2001, 35’), O Que Me Leva Não É a Mercadoria de Bolso (Barbara Matias Kariri, 2022, 6’) e Teko Haxy – Ser Imperfeita (Patrícia Ferreira Pará Yxapy, Sophia Pinheiro, 2018, 9’). Oficina final de transposição didática, com conceção de sequências de aula, atividades e estratégias para integrar o cinema indígena no ensino crítico da História.
Bibliografia
____
- Bergala, A. (2022). A hipótese cinema: Pequeno tratado sobre a transmissão do cinema dentro e fora da escola. Imprensa Nacional–Casa da Moeda / Plano Nacional das Artes.
- Brasil, A. (2016). Ver por meio do invisível: O cinema como tradução xamânica. Novos Estudos CEBRAP, 35(3), 125–146.
- Córdova, A. (2025). Frames of resistance: The cinemas of Abya Yala. Oxford University Press.
- Krenak, A. (2019). Ideias para adiar o fim do mundo. Companhia das Letras.
- Lima, E. (2021). Ixé ygara voltando pra’ y’kûá (sou canoa voltando pra enseada do rio). Urutau.
Pré-requisitos
____
N/A
PROPINA
____
Ver tabela em informações úteis.
docentes
____
Isabel Araújo Branco – Professora Associada na Universidade NOVA de Lisboa. É Investigadora Integrada do CHAM – Centro de Humanidades, de que atualmente é subdiretora. É diretora de Cultura. Revista de História e Teoria das Ideias. É membro do Grupo de Investigación en Literatura Contemporánea (GILCO) (Uni. Alcalá) e participa no projeto «EDGES.Entangling Indigenous Knowledges in Universities» e no projeto «Transficción: La Literatura de la transición democrática española y las narrativas transicionales europeas» (Uni. Zaragoza). Colabora com o Centro de Estudos Comparatistas (Universidade de Lisboa).Recebeu o Prémio Científico Internacional Mário Quartin Graça 2015, concedido pela Casa da América Latina (Lisboa) pela sua tese de doutoramento. Entre outros, publicou Recepção literária das literaturas hispano-americanas em Portugal (Münster, LIT, 2021) e Tradução e edição de obras hispano-americanas em Portugal (Berlin, Peter Lang, 2020).
Rodrigo Lacerda – Antropólogo e realizador de documentários. É doutorado em Antropologia: Políticas e Imagens da Cultura e Museologia pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade NOVA de Lisboa (NOVA FCSH) e pelo ISCTE-IUL, e mestre em Antropologia, com especialização em Culturas Visuais, pela NOVA FCSH. É investigador no Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA), onde coordena o Laboratório Audiovisual. Integra o projeto EDGES: Entangling Indigenous Knowledges in Universities, no qual exerce funções de coordenador científico e lidera o Work Package 5, “Reclaiming and Redefining Heritage: Data Governance, Displays and Preservation in Collections and Museums”. Desde 2017, é professor convidado na NOVA FCSH, tendo exercido o mesmo cargo na Universidade de Coimbra entre 2019 e 2020. As suas áreas de investigação são a antropologia visual, o cinema indígena, a etnologia indígena e o património.
Pedro Cardim – Centra-se na história das formações políticas ibéricas da Época Moderna e na sua dimensão imperial no Atlântico, com um foco particular no período em que Portugal integrou a Monarquia Hispânica (1580–1640). Dedica-se também ao estudo das reformas políticas e administrativas dos finais do século XVII e do século XVIII. Outro tema que capta a sua atenção são as assembleias representativas e a participação política. Recentemente estudou este tema para Portugal entre 1579–1580, analisando as tentativas das classes populares de instaurar um regime político centrado nas Cortes, a assembleia representativa portuguesa. Além disso, estuda também o Brasil Colonial, analisando as categorias legais e morais impostas pelos portugueses às populações indígenas, bem como a resistência contra essas categorias. Por fim, estuda a memória do império português e da sua dominação colonial.
Susana de Matos Viegas – Antropóloga e investigadora no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Doutorou-se em Antropologia na Universidade de Coimbra, onde foi docente. É Editor-in-Chief da revista Tipití – Journal of the Society for the Anthropology of Lowland South America e foi membro da Mission Assembly for Adaptation to Climate Change, including Societal Transformation – Horizon Europe 2030, da Comissão Europeia. Tem como interesses de investigação a etnologia indígena, os estudos ameríndios, a pessoa, o parentesco e o género, a experiência vivida e as suas historicidades. Realizou pesquisa entre os Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia, tendo coordenado o Relatório Circunstanciado de Identificação da Terra Indígena Tupinambá de Olivença (FUNAI, 2009). Continua a desenvolver investigação na área dos estudos ameríndios, tendo integrado, em março de 2019, a equipa organizadora da Mostra Ameríndia: Percursos do Cinema Indígena no Brasil, realizada na Fundação Calouste Gulbenkian.