Um olhar sobre o Sindicato do Serviço Doméstico
Se o Portugal é novo, que seja novo para tudo — um olhar sobre o Sindicato do Serviço Doméstico.
Menos de um mês depois do 25 de abril de 1974, a 22 de maio, centenas de trabalhadoras do serviço doméstico reuniam‑se no Teatro de São Luiz para fundar um sindicato que fosse representativo das mais de 100 mil trabalhadoras empregadas neste setor. Uma reportagem desse plenário, disponível nos arquivos da RTP, regista as reivindicações e esperanças aí verbalizadas.
“Uma vez que há um dia de união, uma vez que o Portugal é novo, que seja novo para tudo” é uma das primeiras frases gravadas no pós‑25 de abril, dita por uma das trabalhadoras reunidas naquele plenário. Assim, trazemos essa frase como título e como interrogação: que “Portugal novo” viria a ser consolidado com a transição democrática e de que forma seria capaz de dar resposta à vulnerabilidade das trabalhadoras e dos trabalhadores mais segregados?
Criado por e para as trabalhadoras, o Sindicato do Serviço Doméstico veio afirmar‑se como um movimento singular, num campo do trabalho historicamente marcado pela informalidade, invisibilidade e exclusão dos direitos consagrados no Código do Trabalho.Em 1976, este movimento expande‑se com a criação da Cooperativa de Prestação de Serviços Domésticos (COOPERSERDO), ativa até 1985, com sede no Porto e delegações em Lisboa e Évora. Entre a ação sindical e a experiência cooperativa, o projeto político do movimento é amplo: retirar o trabalho de cuidado da esfera privada e individualizada e inscrevê‑lo numa lógica coletiva, afirmando que cuidar, limpar, alimentar e sustentar a vida pode deixar de ser feito de forma invisível ou em condições degradantes, para se tornar um novo fundamento organizativo.
Chegada a Portugal em 1978, vinda da Bélgica e de um percurso ligado a lutas operárias, Lieve Meersschaert junta‑se ao Sindicato do Serviço Doméstico e faz um retrato raro de um movimento visto por dentro, de uma organização diária de alternativas à condição servil do trabalho doméstico. Esta exposição mostra pela primeira vez uma pequena parte da sua vasta coleção.
A este olhar junta-se a voz das trabalhadoras domésticas no 25 abril, com um discurso de Conceição Ramos (então presidente) a perpassar os cartazes criados para esta exposição. A iniciativa partiu da Junta de Freguesia de Arroios, com apoio da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e do Metro de Lisboa. A recolha, tratamento e curadoria do espólio é de Mafalda Araújo e Dinis Santos; o design gráfico ficou a cargo de Pedro Nora.
