Dar e receber na Noite Europeia dos Investigadores
O investigador do CRIA Carlos Moreira mostra o que se faz no LABOH (Dia Aberto das Licenciaturas 2026).

Mais do que mostrar a ciência que produzem, as investigadoras da NOVA FCSH que participam na Noite Europeia dos Investigadores (NEI) querem receber os contributos das pessoas que se deslocarem ao Museu Nacional de História Natural e da Ciência (MUHNAC), em Lisboa, a 25 de setembro, naquele que é o maior evento de encontro entre cientistas e cidadãos de todas as idades.

A partir das 17h, há modelos de ossos humanos impressos em 3D para manusear, maquetes de abóbadas para construir, edifícios que já não existem para descobrir e sonoridades de teatro-música para experimentar. Noutro ponto da cidade, no palco do auditório do Pavilhão do Conhecimento, tecem-se histórias do mar, a partir das 20h30.

“Recolher perguntas e contributos do público permite desenvolver respostas e investigar novos desafios, potenciando novos significados da investigação a explorar no futuro”, justifica Sofia Aleixo. Na Sala de Educação 3, no piso 1 do MUHNAC, a investigadora do CHAM propõe aos visitantes da NEI a descoberta de tipologias de edifícios que já não existem e de materiais de construção “tradicionais”, como o ferro e o vidro, a partir da primeira revista de arquitetura em Portugal, A Construcção Moderna.

 

                                       

Revista A Construcção Moderna; abóbadas de aresta em casas em São Brás de Alportel, Algarve, e em Moura, Alentejo; mestre abobadeiro numa obra em Baleizão, Alentejo

 

Permitindo que o público manipule réplicas de remanescentes humanos com marcas de exclusão social, uma equipa do Laboratório de Antropologia Biológica e Osteologia Humana (LABOH), do CRIA, convida à reflexão sobre a fragilidade de cada ser humano, procurando recolher testemunhos sobre as emoções e conceptualizações éticas suscitadas pela experiência.

“Reconhecemos os remanescentes, primariamente, como ancestrais que exigem considerações éticas específicas”, explica Francisca Alves Cardoso, investigadora responsável (IR) pelo projeto BeFRAIL – O Porto em Tempos de Cólera e Guerra, que analisa como assimetrias sociais se converteram em indicadores de fragilidade humana através do estudo de restos mortais de pessoas sepultadas no cemitério do hospital da Venerável Ordem Terceira do Carmo, no Porto (1801–1869).

“A exclusão social é um claro indicador de fragilidade humana”, tendo afetado muitas comunidades ao longo da história, adianta a IR, dando o exemplo das “ilhas do Porto”, zonas de autoconstrução associadas a condições de insalubridade que impulsionaram as grandes epidemias de cólera no século XIX. “Mais do que um fenómeno social, a exclusão traduz-se numa fragilidade biológica direta, capaz de deixar marcas permanentes no corpo”, clarifica Francisca Alves Cardoso.

No MUHNAC, os doutorandos do CRIA Carlos Eduardo Moreira e Steffi Vassallo tentarão prosseguir uma das principais vertentes do BeFRAIL: promover a discussão sobre a manipulação, curadoria e salvaguarda dos remanescentes humanos num crescente mundo digital. A atividade chama-se “Até ao osso: a fragilidade humana e as marcas da exclusão em réplicas de remanescentes”.

 

Ossos, arquitetura e música

“Participar na NEI permite divulgar ao grande público de Lisboa a investigação que está a ser devolvida sobre as abóbadas de tijolo em zonas remotas do país e divulgar as vantagens e o património cultural destes sistemas construtivos”, que se adaptam às exigências do clima, dos modos de vida e dos materiais disponíveis localmente, diz a investigadora do CHAM Mafalda Batista Pacheco, que estará na Sala de Educação 3 do MUHNAC com os investigadores Pedro Brito, Rafaela Maia e Luís Almada.

Durante a atividade “Abóbadas às Voltas”, é possível construir uma maquete de uma abóbada de berço (abóbada mais simplificada, com secção transversal semicircular), compreender as diferentes geometrias através de modelos 3D impressos e conhecer mais de 200 edifícios abobadados georreferenciados na plataforma Vaulted South através de fotografias, desenhos técnicos, modelações 3D e transcrições de tratados de arquitetura e manuais de construções escritos ao longo dos séculos.

A equipa, envolvida nos projetos de investigação Vaulted South e Hidden vaults, mostra ainda o processo de trabalho dos artesãos através do documentário Na obra com os mestres abobadeiros e procura recolher depoimentos de utilizadores deste tipo de construções.

Suscitar o interesse dos jovens pela sustentabilidade do ambiente construído é também um dos objetivos de Sofia Aleixo com a atividade “À descoberta da Construção Moderna…”. A coordenadora da secção de arquitetura do projeto RIC – Revistas de Ideias e Cultura espera ainda “recolher novas ideias por parte do cidadão comum, desafiar jovens a melhor conhecerem a sua cidade e inspirar o interesse pela investigação científica.”

Para Sofia Aleixo, acompanhada pela também investigadora do CHAM Patrícia Salomé Faustino, mais do que visibilizar o portal RIC e promover a literacia científica, importa validar socialmente os projetos e “demonstrar que o investimento em ciência encontra retorno na sociedade”.

No claustro do museu, das 20h às 20h50, é hora para tomar um “café de ciência” em torno da preservação do teatro-música. Filipa Magalhães leva objetos que produzem sons e instrumentos de percussão para que os participantes possam “experimentar novas sonoridades a partir de instrumentos usados em peças de teatro-música”.

 

O contrabaixista Pedro Wallenstein num momento da performance Silêncio Depois (1990) de Constança Capdeville. Fotografia de Amparo Far, realizada durante o Festival Tardor, em Barcelona. Cortesia de Pedro Wallenstein.

 

Através da interação com partituras, gravações, imagens, guiões e outros documentos de trabalho, a investigadora do CESEM espera que descubram como podemos reconstruir um espetáculo do passado a partir dos seus vestígios, “e perceber como diferentes formas de investigação nos permitem recuperar fragmentos de uma experiência artística que, por natureza, foi efémera”.

À programação organizada no MUHNAC e Jardim Botânico de Lisboa pela Universidade de Lisboa, Iscte – Instituto Universitário de Lisboa e Escola de Hotelaria e Turismo do Estoril junta-se a celebração da Noite Europeia dos Investigadores 2026 no Pavilhão do Conhecimento, onde estará a investigadora responsável pelo projeto 4-Oceans, Cristina Brito. Coorganizado com o CHAM, “Tecer Histórias do Mar” é um momento de partilha com investigadores de diferentes áreas, artistas e escritores, em torno da história dos oceanos e do passado das populações marinhas.  

 

Dar e receber
Devia ser a nossa forma de viver
(…)
Trocar a ideia pra conhecer
Essa candeia que queremos acender

Dar e receber, António Variações (1984)

 

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