A festa da construção da Festa (do Avante!)
4 de Setembro de 2026, 09:27
Quando a orquestra subir ao palco 25 de Abril na Festa do Avante!, mais logo, para interpretar a 9.ª Sinfonia de Beethoven, estará a pisar uma estrutura que Shannon Garland, etnomusicóloga da Universidade de Pittsburgh (EUA), e Andrew Snyder, etnomusicólogo da NOVA FCSH, ajudaram a erguer.
A investigadora visitante no INET-md está em Portugal até dezembro, com uma bolsa Fullbright, para estudar a influência da natureza voluntária do trabalho de construção da Festa do Avante! na forma como militantes, voluntários e demais público visitante vivem e entendem o evento como diferente e especial. E sugere mesmo que o prazer social de construir a Festa pode ajudar a explicar a longevidade deste festival musical, cultural e político que agora completa 50 anos, para além da militância.
“Construir a Festa é trabalho árduo, mas é também um momento de encontros e de convívio, de recordar o passado, de rever velhos amigos e de conhecer novos”, afirma Shannon Garland, que participa pelo terceiro ano consecutivo, desta vez aliando a condução das entrevistas etnográficas às tarefas no Pavilhão dos Imigrantes, Espaço Internacional ou no palco principal.
Durante os muitos meses de construção de cada Festa, as várias organizações participantes promovem muitos encontros sociais, frequentemente envolvendo refeições. “Há quase uma ‘festa’ durante o próprio processo de construção da Festa”, afirma Garland, que pretende compreender melhor este aspeto do significado que este trabalho tem para quem o faz, muitas vezes há décadas.
“Penso que a Festa do Avante! é um evento único no mundo”, diz a investigadora visitante no INET-md, explicando: “Embora existam outros festivais políticos e comunistas na Europa que são semelhantes, tanto quanto sei, este é o único que ainda é inteiramente gerido por um partido comunista e o único construído pelos próprios membros do partido, em vez de por trabalhadores externos contratados.”

(À esquerda) Andrew Snyder ajuda a organizar um arquivo das revistas da Festa do Avante!.
(À direita) Madalena Santos, membro da direção da Festa do Avante!, responsável da Comissão de Espetáculos, e o músico Carlão (Carlos Nobre) a olharem fotografias da atuação dos Da Weasel na Festa do Avante! em 2002. Fotografias de Shannon Garland.
Não há festa como esta?
A forma como a Festa é montada, com quase todo o trabalho de construção e organização a ser realizado por militantes ou voluntários, e não por trabalhadores contratados e remunerados, está no âmago do projeto Sentimento Musical e Trabalho Voluntário na ‘Festa do Avante.
“Esta organização do trabalho torna a Festa muito diferente de outros eventos culturais, mesmo daqueles que têm uma forte vertente política”, defende Shannon Garland, que se interessa há muito pelo fenómeno do trabalho não remunerado na indústria musical comercial e se propõe agora a analisar o tema do “trabalho em eventos musicais” de uma forma mais “isolada”, que não só não está orientada para a produção de capital, como faz de facto parte de um projeto político mais vasto que visa pôr fim ao domínio do capital enquanto forma social.
A investigadora norte-americana procura compreender se esta estrutura de trabalho é a principal razão pela qual a Festa do Avante! é percebida como uma experiência intensamente afetiva, e também a sua importância mais ampla, não só para o PCP, mas também enquanto grande evento cultural em Portugal, semelhante a grandes festivais musicais de verão para muitas pessoas, embora com diferenças muito evidentes.
No terreno, Garland conta com a colaboração de Andrew Snyder, também norte-americano, frequentador da Festa desde que chegou a Portugal, em 2021. Investigador de carreira no INET-md/NOVA FCSH, tem estudado a ligação entre festivais e ativismo, e está a desenvolver um novo projeto sobre algumas festas ligadas a partidos políticos europeus, incluindo a Fête de l’Humanité (França) e a Festa de l’Unità (Itália), além da Festa do Avante!.