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ISSN 1646-740X

ano 5  ● NÚMERO 6  2009
ISSN 1646-740X

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Tímpanos Românicos portugueses – Temas e Problemas.
Dissertação de Mestrado em História da Arte Medieval apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2007

Patrícia Ferreira Lopes
Membro do IEM, FCSH-UNL
raquel_lopes_12@hotmail.com

 

Durante grande parte da Alta Idade Média a escultura figurativa quase desapareceu, só em finais do século X se assistiu ao seu tímido renascimento no Ocidente. A arte românica fez renascer a escultura, aliada à arquitectura, servindo interesses religiosos e devocionais, depois de um longo período conotada com a idolatria. Este renascimento vai explodir nos capiteis e cachorros e com menor frequência nos portais das igrejas, nas arquivoltas, colunelos e tímpanos.

Temos, hoje no nosso país, de setenta tímpanos românicos ornamentados, dois dos quais já do campo de estudo da Cripto-História da Arte, os tímpanos dos portais ocidentais das igrejas de São Romão de Arões, substituído por um tímpano liso, e de São Cristóvão de Coimbra, destruído com a igreja em 1830. Longe de exibirem programas iconográficos elaborados, a escultura mostrada nos nossos tímpanos afasta-nos bastante da riqueza técnica, plástica e iconográfica de Autun, Moissac, Vézelay ou Compostela. A escultura românica portuguesa, assim como a arquitectura, reflecte uma conjuntura económico-social debilitada. A modéstia das obras revela a escassez de recursos financeiros capazes de financiar empreendimentos significativos. O conjunto de tímpanos românicos ornamentados que chegaram aos dias de hoje, muitos houve, acreditamos, que se perderam nas vicissitudes temporais, quando não nas mãos dos homens, embora longe da riqueza plástica que se assiste além fronteiras, revelam-nos a mentalidade e o gosto artístico dos nossos antepassados.

Mais que inventariar e fotografar todos os tímpanos românicos que pontuam o nosso território, este estudo teve por objectivo final identificar e definir o conjunto de factores que condicionaram as escolhas temáticas dos mesmos. A ornamentação dos tímpanos, e tendo em conta a excelência do local, não era aleatória, é um facto. A escolha dos temas aí a exibir obedecia a todo um conjunto de factores. Assim, as temáticas exibidas nos tímpanos românicos portugueses foram condicionadas por uma panóplia de factores, tais como:

1) As características peculiares da arte românica portuguesa. A arquitectura românica portuguesa é essencialmente de carácter rural. Os planos construtivos são bastante modestos e a escultura exibida nos espaços de oração vai, de um modo geral, ao encontro da modéstia arquitectónica. A escultura românica portuguesa sensibiliza-nos pela sua simplicidade e interpretação regional. O forte espírito de síntese e a quase total ausência de figuração humana são características dominantes na nossa escultura românica e que encontram explicação na ausência de uma tradição de artistas no tratamento figurativo, presença árabe que beneficiou uma arte anicónica, continuada pelos moçárabes, e nas tradições locais que preferiram manifestações abstractas e geométricas;

2) O gosto plástico e as características culturais do encomendador. Mesmo modesto, erguer um edifício era muito moroso e bastante dispendioso. Entre os principais encomendadores estava o clero, os bispos das dioceses já estabelecidas (Lisboa, Coimbra, Braga, Lamego, Guarda, Porto, Viseu e Évora), os abades ou priores dos mosteiros. Os senhores de “terra” e as ordens militares foram também importantes encomendadores;

3) A bagagem cultural e o apuro técnico do escultor. Os artistas recebiam dos encomendadores orientações dos trabalhos a executar. Embora não interferissem na escolha dos temas, os artistas imprimiam nas suas obras a sua experiência cultural e técnica;

4) As características do público a quem se dirigiam as obras. Mais que ornar, as esculturas exibidas nos tímpanos, e em todo o espaço de oração, estavam impregnadas de uma função teofanica, apotropaica e pedagógica;

5) A eficácia da mensagem a transmitir. Num território marcado pela presença de outras religiões de Livro como o Judaísmo e o Islamismo ou por heresias como o Arianismo interessava afirmar a vitória e o triunfo do Cristianismo. Esta iniciativa traduziu-se intensamente nas temáticas dos tímpanos com a representação de temas como a Cruz, o Agnus Dei ou Cristo em Majestade;

6) A simbologia dos diferentes portais de acesso ao templo. Cada um dos portais tinha uma simbologia dentro do templo românico: o portal ocidental era entendido como a Porta do Céu, o portal lateral sul encarnava a presença de Cristo Salvador e o portal lateral norte assumia uma função dissuasora ao mal. Esta simbólica vai também reflectir-se na escolha dos temas dos tímpanos dos diferentes portais;

7) As áreas de influencia geográfica. Podem definir-se grupos artísticos ou áreas de influência artística no território português: os focos artísticos do Minho, do Porto, de Braga, Lisboa, Coimbra e o foco tardio da bacia do Sousa. Estes focos ou grupos coexistiram e receberam uns dos outros muitas influências e têm entre si muitas afinidades, mas a diversidade que neles há permite isola-los. As afinidades artísticas regionais vão reflectir-se no tratamento formal escultórico e na abordagem temática conferida às obras;

8) A relação afastamento vs. proximidade aos grandes centros culturais. Verifica-se uma maior liberdade quer formal, quer iconográfica na escultura dos nossos tímpanos à medida que nos afastamos dos centros mais eruditos, Também, o veto a figuração humana é mais sentido nos principais centros culturais, pois é também por aqui que a censura eclesiástica, empreendida pelos altos elementos da hierarquia eclesiástica, mais se faz sentir;

9) Finalmente, o orago do templo. Não é estranha a representação do santo padroeiro do templo nos portais das igrejas. Entre os nossos tímpanos românicos, um pequeno conjunto homenageia o padroeiro da igreja. Nas igrejas de São Salvador de Bravães e Anciães, com a representação do próprio Criador e na Capela de Santo Abdão exibia-se, também, no tímpano do portal ocidental, no centro da composição, a figura de Adão desnudado, mutilada numa data posterior.

 

Nos tímpanos românicos resume-se a mentalidade religiosa e artística da época. Nestes espaços, de excelência decorativa, concentrava-se a mensagem de maior importância religiosa de todo o edifício. O conjunto de factores, anteriormente apresentados, terá condicionado as escolhas dos temas dos tímpanos dos diferentes portais. As opções temáticas, de que há testemunho, não são muito variadas. Os temas exibidos nos tímpanos românicos portugueses reduzem-se às representações de:

- Cristo em Majestade isolado como na obra de São Pedro de Rubiães, ladeado pelo Tetramorfo como em Anciães ou Sepins, embora nesta última escultura apenas se mostre a águia de São João e o homem alado de São Mateus, os outros dois símbolos dos evangelistas em falta talvez se fizessem representar noutra parte do portal que não chegou aos dias de hoje. Em Bravães, Cristo é acompanhado por apóstolos ou anjos, conforme as diferentes leituras. A escultura de Rates (figura I) apresenta-nos a composição mais complexa e elaborada do tema.

 

Figura I – tímpano do portal ocidental da igreja de S. Pedro de Rates.

A representação de Santos aparece em Rio Mau, no tímpano do portal ocidental (figura II) com a alusão a Santo Agostinho, em Arnoia, numa placa proveniente de um dos tímpanos da igreja, mostra-se São Miguel combatendo o demónio personificado numa serpente. Na capela de Santo Abdão mostrava-se também, no tímpano do portal ocidental, Adão desnudado, mutilado numa data posterior.

 

Figura II - Tímpano do portal ocidental da igreja de São Cristóvão de Rio Mau.

- Outra figuração humana. É muito reduzida a representação de figuração humana entre os nossos tímpanos românicos. A sua apresentação faz-se apenas em dez tímpanos: nos ocidentais de Rates, Anciães, Bravães, Rubiães, Rio Mau, Paço de Sousa, no reverso do ocidental de Rates, nas esculturas provenientes de Sepins e Arnoia e a figura já desaparecida de Adão no tímpano do portal ocidental da capela de Santo Abdão.

- A temática do Agnus Dei, logo depois da Cruz, é a mais representada entre os tímpanos românicos portugueses. A iconografia do tema apresenta múltiplas variações. O cordeiro pode mostrar-se de pé, representado à esquerda ou à direita do observador, com a cabeça em frente ou voltada para trás contemplando a Cruz que ergue ora com a pata dianteira esquerda, ora com a dianteira direita. Outra variante na representação do tema passou por apresentar o Cordeiro de Deus numa atitude de prostração como nas obras de Arnoia, São Pedro das Águias (figura III) e Travanca. Apenas nas esculturas de Rates, nos tímpanos do portal sul e reverso do ocidental, o animal é apresentado nimbado. Ainda, no reverso do tímpano ocidental de São Pedro de Rates o Cordeiro não se apresenta isolado, acompanham-no duas figuras humanas, talvez dois apóstolos ou evangelistas. Também na escultura de Paradela o Cordeiro não está só, é seguido por outro animal mais pequeno, como uma cria que segue a progenitora. Na obra de Paradela, como na escultura de Fonte Arcada, o carácter apocalíptico do tema desaparece completamente.

 

Figura III- Tímpano do portal lateral norte da igreja de São Pedro das Águias.

- A representação de Bestiário. Nos nossos tímpanos românicos faz-se alusão a bestiário diverso. Desde os voadores (aves, água e pomba), os quadrúpedes (leão, touro e cavalo), anfíbios (serpente) e o bestiário fantástico e mítico (dragão, harpia e o grifo). Animais ou cenas com forte carga apotropaica mostram-se geralmente nos tímpanos dos portais laterais norte, como o leão de Melgaço (figura IV), o dragão de Ferreira de Aves, o leão e o cavalo que ladeiam a Cruz central em Bravães, ou a cena de luta literal entre um grifo e um dragão, aludindo respectivamente ás forças do Bem e do Mal, em Rio Mau.

 

Figura IV- Tímpano do portal lateral norte da igreja de Santa Maria de Melgaço.

- A Árvore da Vida. Chegaram aos nossos dias um número muito reduzido de tímpanos com a representação do tema da Árvore da Vida. A árvore pode apresentar-se ladeada por bestiário como nas esculturas de Orada (figura V) ou São João Baptista de Tomar. Em Orada um leão e uma harpia protagonizam o afrontamento entre as forças do Bem e do Mal respectivamente. Os leões que ladeiam a arvore de Tomar assumem uma função apotropaica. Nas esculturas de Constança e Tarouquela a arvore mostra-se isolada. Embora nesta ultima se possa questionar a intenção da representação do tema. A flor-de-lis pode ser compreendida como um símbolo de Maria, mãe de Jesus, padroeira do templo.

 

Figura V- Tímpano do portal lateral norte da igreja da Nossa Senhora de Orada.

- O tema da Cruz é o mais representado nos tímpanos românicos portugueses. Mostra-se tanto nos tímpanos dos portais laterais norte e sul como no ocidental. Vazada na pedra, revelada ou gravada no duro granito, a temática da Cruz é tema em mais de uma vintena dos nossos tímpanos românicos. Domina a representação da Cruz grega tantas vezes inscrita num círculo, reforçando-lhe o seu valor apotropaico, como nas obras de Arnoso, Jazente, Varais, entre outras. Nos tímpanos dos portais ocidentais de São Cláudio de Nogueira, Verim, santo Abdão, no norte de Bravães (figura VI), no sul da Sé bracarense e no tímpano do portal adossado ao portal ocidental de São Pedro das Águias a Cruz é acompanhada por bestiário variado, reforçando-lhe o seu carácter apotropaico. A Cruz pode também, como nos tímpanos dos portais ocidental de Paço de Sousa e sul de Fonte Arcada, apresentar-se na companhia do Sol e da Lua. A associação destes três elementos, o Sol, a Lua e a Cruz, conjugam o poder apotropaico com o escatológico.

Figura VI- Tímpano do portal lateral norte da igreja de São Salvador de Bravães.

A par destas temáticas marcam presença nas composições, também outros elementos que participam e dinamizam as representações. São os motivos geométricos e vegetais, com valor simbólico ou com presença meramente decorativa; elementos astrais como o Sol, a Lua e as estrelas e os motivos arquitectónicos que se resumem ás arcadas dos tímpanos dos portais ocidental e sul da capela de Távora e da escultura proveniente de Sepins.