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ISSN 1646-740X

ano 5  ● NÚMERO 6  2009
ISSN 1646-740X

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Recensão

¿Existe una identidad mozárabe? Historia, lengua y cultura de los cristianos de al-Andalus (siglos IX-XII),
Estudios reunidos por Cyrille Aillet, Mayte Penelas y Philippe Roisse. Madrid: Casa de Velázquez, 2008. 334 pp.

António Rei
Membro do IEM, FCSH-UNL
ajrei@sapo.pt

 

Esta obra publica doze estudos sobre os Moçárabes, os cristãos que viveram sob o domínio islâmico, na Península Ibérica e na Sicília. Na Introdução (pp. IX-XVI), Cyrille Aillet faz o ponto de situação. Tenta precisar melhor o conceito de ‘moçárabe’, e refere a sua utilização ideológica e histórica por vários autores em textos de diferente natureza. Refere a dificuldade de reconstruir uma imagem global da comunidade moçárabe, se é que tal é possível, pois não existia uma unidade dos cristãos dentro da sociedade hispano-árabe.

Manuel Díaz y Díaz “Los mozárabes. Una minoría combativa” (pp. 1-8) trata da violência do discurso da maioría dos escritores moçárabes de Córdova do século IX tentando averiguar se ela se ficou a dever somente à sua atitude frente ao Islão ou se estariam em jogo conflitos internos das próprias comunidades. Observa que surgem em grupos reduzidos e preocupados com a ortodoxia das suas próprias tradições mas não abrangiam a maioria da população cristã. Os escritos que chegaram até nós representam um grupo “muy minoritári[o]”, embora os moçárabes fossem bastante numerosos. Em complemento às conclusões de Díaz y Díaz, Fernando González Muñoz “En torno a la orientación de la polémica antimusulmana en los textos latinos de los mozárabes del siglo IX” (pp. 9-32), salienta o acesso a tradições polémicas anti-islâmicas procedentes do cristianismo oriental, a que os escritores moçárabes do século IX tiveram acesso. A partir delas e da sua experiência própria do Islão, produziram textos polémicos destinados a impedir qualquer entendimento do Islão, apesar das suas raízes comuns com o cristianismo e o judaísmo, e a bloquear qualquer hipótese de diálogo e de mediação entre as três religiões. Com efeito Samir Khalil Samir, S.J. observa que a conhecida obra árabe, Apologia de al-Kindi (c. 830 dep. C), com uma versão latina, um elevado número de manuscritos e inúmeras vezes citada por cristãos, demonstra a existência de habituais contactos entre ambas as comunidades (“La versión latine de l’Apologie d’al-Kindi (vers 830 ap. J.C.) et son original arabe’’, pp. 33-82).

A identidade moçárabe, porém, apesar do nome pelo qual é conhecida, não nasce apenas depois da invasão de 711. Com efeito, Federico Corriente num brilhante artigo “Vigencia del romandalusí y su documentación en los botánicos, particularmente AbulKhayr” (pp. 83-90), observa que a nomenclatura usada pelos botânicos nas descrições de plantas já seria usada, desde o século X, mesmo em zonas periféricas e mais afastadas dos grandes meios, e estaria totalmente morta no século XIII. Daí as explicações erróneas emprego incorrecto de vários termos pelos botânicos tardios, mesmo nos meios cristãos. Este fenómeno aponta para a existência de uma diferenciação linguística anterior à ocupação árabe. Por isso, para Corrientes, não se deveria falar de uma ‘linguagem moçárabe’ mas ‘romandalusi’.

Cyrille Aillet “Recherches sur le christianisme arabisé (IXe-XIIe siècles). Les manuscrites hispaniques annotés en arabe’’(pp. 91-134) ocupa-se dos manuscritos latinos, chamados ‘visigóticos’, mas com anotações em árabe. Versando diferentes matérias dão testemunho da existência, entre os séculos IX e XIII, de um cristianismo que se define e chama ‘latino’, mas adopta o árabe como língua escrita. Estas anotações proporcionam matéria para a história ainda mal conhecida dos usos linguísticos, das práticas e das concepções culturais dos cristãos arabizados da Península Ibérica.

Mayte Penelas “El Kitâb Hurûšíyûš y el «Texto mozárabe de historia universal» de Qayrawân. Contenidos y filiación de dos crónicas árabes cristianas” (pp. 135-158), compara o Kitāb Hurūšiyūš [ O Livro de Orósio (das Histórias contra os Pagãos)], com o «Texto moçárabe de História Universal de Qayrawân [Tunísia]. Ambos entroncam na tradição historiográfica anterior ao século VIII, e apresentam estreitas analogias com outras obras posteriores à de al-Kindi, famoso filósofo árabe do século IX, e redigidas na Península Ibérica, em árabe e em latim, por muçulmanos e por cristãos. Baseando-se em argumentos de crítica textual a autora pretende demonstrar que algumas passagens da primeira chegaram à segunda por intermédio da tradução árabe da obra latina de Orósio, redigida em finais do século IX ou princípios do X, e da qual só se conhece o exemplar tardio que se encontra na Universidade de Columbia (E.U.A.).

Marie-Thérèse Urvoy “Que nous apprend la poésie arabe des chrétiens d’al-Andalus ?’’ (pp.159-166). Apesar do limitado corpus poético conhecido dos cristãos de al-Andalus, o seu estudo permite reconstituir vários aspectos do processo de arabização dos moçárabes, como identificar os grupos mais afectados, as formas que assumiu e os conflitos a que deu origem, quer dentro das comunidades cristãs, quer nas relações com outras religiões. Se o processo de arabização não foi uniforme, não admira que a composição da comunidade moçárabe também não fosse homogénea. Assim, Juan Pedro Monferrer Sala “ ¿ Circularon textos cristianos orientales en al-Andalus? Nuevos datos a partir de una muestra véterotestamentaria andalusí” (pp.167-210), descobre no Pentateuco do Codex Monachensis Aumer 234 um texto alheio à tradição textual latina. Parece tratar-se de uma tradução árabe trazida por cristãos nestorianos para uso próprio. Este facto vem reforçar o pouco que se sabe acerca da presença de cristãos orientais estabelecidos na Península Ibérica e da tradução dos textos bíblicos realizados em al-Andalus.

Se até agora podiam haver algumas reticências quanto ao uso litúrgico do árabe entre os cristãos andaluzes, não restam hoje quaisquer dúvidas a esse respeito. Com efeito, Philippe Roisse “ Célébrait-on les offices liturgiques en arabe dans l’Occident musulman ? (pp. 211-254), além de publicar e traduzir o Capitulare Evangeliorum arabe (Munich, Bayerische Staatbibliothek Cod. Aumer 238) mostra e esta obra é a prova de que, perante o duplo fenómeno de arabização e islamização, as autoridades eclesiásticas reagiram levando a cabo, pelo menos desde o século IX, a tradução árabe das Escrituras que foram usadas nas igrejas, pelo menos os Salmos, os Evangelhos e as Epístolas, assegurando assim a sua identidade, a sua coesão e a sua permanência.

Para terminar o elenco de estudos sobre os moçárabes ibéricos, esta colectânea publica um artigo de Jean-Pierre Molénat sobre “ La fin des chrétiens arabisés d’al-Andalus. Mozarabes de Tolède et du Gharb au XIIe siècle’’(pp. 287-296).  Segundo o autor, os meados do século XII marcaram o fim da presença moçárabe em al-Andalus. A partir de então começou a sua integração social e cultural nos territórios de domínio feudal importado do norte peninsular. O seu destino em Toledo desde o fim do século XI até ao fim do século XIV é bastante significativo do que lhes aconteceu no resto da Península, como se pode verificar comparando-o com o das comunas moçárabes de Lisboa e de Coimbra, cujas manifestações sociais desaparecem em meados do século XII. Observemos, todavia, que certos estudos recentes de investigadores portugueses, entre os quais Mário de Gouveia e Pedro Picoito, mostram o prolongamento da sua identidade cultural nas duas cidades portuguesas até, pelo menos, meados do século XIII.

A história dos moçárabes da Sicília é menos conhecida, entre nós. Annliese Nef “ L’histoire des «mozarabes» de Sicile. Bilan provisoire et nouveaux matériaux’’(pp. 255-286) explica-nos porquê e oferece-nos acerca deles uma informação sumária suficiente para uma primeira aboradagem. Ficamos assim a saber que uma das causas deste relativo silêncio é o facto de estarem melhor documentados durante o período normando (séculos XI-XII), do que durante a dominação islâmica. É preciso, pois, estudar com cuidado a identidade dos indivíduos que surgem referidos nas fontes depois da conquista da ilha pelos Hauteville.

Para terminar, Maria Jesús Viguera Molíns “ «¿ Existe una identidad mozárabe ?» A modo de conclusión’’(pp. 299-316). Analisa as conclusões dos diferentes artigos e enquadra-os cronológica e conceptualmente, o que lhe permite propor novas abordagens e linhas de investigação. Confirma assim a sua autoridade sobre uma temática em que há ainda muito para descobrir e na qual se desafia a prosseguir o uso de métodos de investigação e de abordagens até hoje pouco utilizadas mas cujas potencialidades ficam demonstradas.