online

 

Número 6
EDITORIAL
RESUMOS / ABSTRACTS
ARTIGOS


EDIÇÕES ANTERIORES
Todos os números >>

LINKS
Revistas Internacionais
Normas para Autores

DIRECTOR / EXECUTIVE EDITOR

José Mattoso
SUBDIRECTOR
Bernardo de Vasconcelos e Sousa
REDACÇÃO / EDITORS

Adelaide Miranda;
Bernardo de Vasconcelos e Sousa; Luís Filipe Oliveira;
Pedro Chambel
ASSISTENTE DE REDACÇÃO / EDITORIAL ASSISTENT
Maria Coutinho
CONSELHO EDITORIAL /
REVIEW EDITORS

Maria de Jesus Viguera; Joseph Morsel; Stephane Boisselier; Patrick Geary; Maria João Branco; Mário Barroca; José Meirinhos; Gerardo Boto Varela; José Ángel Garcia de Cortázar; Hilário Franco; Teresa Amado; Maria Helena da Cruz Coelho; Cláudio Torres; Ana Maria Rodrigues; António Resende de Oliveira; Armando Luís de Carvalho Homem; Cláudia Rabel
WEB DESIGNER
Ana Pacheco
CONTACTO

Instituto de Estudos Medievais
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL
Av. Berna 26 C, 1069-061 Lisboa
medievalista@fcsh.unl.pt

ISSN 1646-740X

ano 5  ● NÚMERO 6  2009
ISSN 1646-740X

[COMENTAR ARTIGO]
◄◄ [INDICE]

Recensão

BECEIRO PITA, Isabel - Libros, lectores y bibliotecas en la España medieval. Murcia: Nausícaä Edición, 2007. 658pp.

Isabel Barros Dias
Universidade Aberta
isabelbd@univ-ab.pt

 

Isabel Beceiro Pita, investigadora do “Consejo Superior de Investigaciones Científicas” de Madrid (CSIC), reune no volume Libros, lectores y bibliotecas en la España medieval um estudo inédito e 18 artigos anteriormente publicados pela autora, em revistas e obras colectivas dispersas, entre 1983 e 2003, agora revistos. Em comum, estes artigos têm o tema geral dos livros e dos seus leitores, no quadro de espaços geográficos específicos (sobretudo no reino de Castela, com algumas incursões nos domínios da Coroa de Aragão e no reino de Portugal), e em épocas determinadas (entre os sécs. XII e XVI).

Os assuntos apresentados e discutidos são manifestamente complexos e difíceis de abordar uma vez que as fontes disponíveis, na sua maior parte, são díspares, indirectas e escassas. Por entre esta diversidade, a autora baseia-se sobretudo em testemunhos como inventários de bibliotecas, referências a traduções, cópias, menções testamentárias, indicações de dedicatórias e de empréstimos.

Em termos globais, o livro aborda assuntos de inegável interesse para os Estudos Medievais, sendo de salientar alguns vectores que percorrem o volume e que discutem questões como:

- as modalidades de acesso ao texto, o que implica a exploração de temas como os da leitura individual vs leitura colectiva ou quais os assuntos mais recorrentes (o que nos remete para os gostos e os interesses dominantes em diferentes épocas e em diferentes estratos);

- os locais de instrução e as respectivas variantes no que se refere à educação facultada (sublinhe-se aqui as indicações relativas às diferenças consoante a posição social ou o sexo de quem aprende);

- como a instrução era entendida e valorizada pelos diferentes grupos e como a cultura dominante em diferentes sectores se repercute nos modos de vida adoptados e valorizados;

- a vertente prática da leitura, seja enquanto instrução, como referente profissional ou ainda como veículo de poder e de autoridade (cf. escrituras de posse; arquivos de memória de grupos familiares e sociais...).

O volume Libros, lectores y bibliotecas en la España medieval está organizado em sete partes. Começa com o esboço de um panorama geral sobre livros, nobres e letrados em Castela, e onde se distinguem domínios fundamentais (apesar de não radicalmente opostos ou estanques) como:

- os mundos complementares das “gentes de saber” (notários, médicos, teólogos, juristas) e dos aristocratas cultos: indaga-se aqui que livros lêem e que temas predominam nas suas bibliotecas;

- os dois modos fundamentais de aproximação ao livro e respectiva funcionalidade: o estudo e a reflexão, que se associam à leitura silenciosa, ao que se contrapõe a leitura comunitária, ligada à sociabilização, ao grupo, ao debate e ao ensino.

A segunda parte, dedicada a “Los libros y la educación”, debruça-se sobre questões de base como as diferentes vias de acesso à educação, modelos e programas educativos ou ainda conceitos e entendimentos relativamente ao ensino que se estima como necessário e respectiva valorização. Estes vectores são equacionados no quadro do ensino universitário e pré-universitário, sendo discutida a função educativa do clero, a aprendizagem profissional, e ainda o papel das escolas laicas e da educação privada. Especial atenção é dada à educação feminina e à educação dos nobres, bem como aos respectivos modelos corteses e guerreiros.

Na terceira parte, sobre “Conocimientos y diplomacia” discute-se a importância da cultura nas relações peninsulares, com base nos dados disponíveis relativos às movimentações diplomáticas entre os principais reinos peninsulares e às características culturais e, inclusivamente, às aptidões literárias de alguns aristocratas que viajaram entre estas cortes.

A quarta parte centra-se no tema de “La cultura aristocrática y sus mitos” e retoma questões já afloradas na segunda parte, sublinhando e discutindo temas como:

- a valorização do saber das elites, muito centrada em alguns modelos de homens instruídos e cultos;

- a valorização (e tradução) de obras clássicas por incentivo de grandes senhores, em consequência do interesse e da curiosidade que por elas tinham;

- as regiões onde mais intensamente se fez sentir a presença dos mitos arturianos (menor em Castela do que em outros pontos da Península, como na Galiza);

- os modelos de conduta e programas educativos aplicados no ensino da aristocracia feminina, sendo aqui de salientar o estudo que é feito dos modelos veiculados: algumas rainhas (como Leonor de Inglaterra, esposa de Alfonso VIII e de sua filha, Berenguela de Castela, mulher de Alfonso IX de Leão) mas sobretudo a Virgem Maria e algumas santas (como Santa Ana e Santa Catarina de Alexandria). As características veiculadas por estes modelos, por seu turno, vão repercutir-se na educação ministrada (valorização da castidade, da sabedoria, da prudência, das virtudes pacificadoras, da dedicação aos lavores, bem como a associação às vitualhas);

- os referentes ideológicos do cavaleiro e seus modelos: heróis da Antiguidade, tanto da história bíblica como da Antiguidade clássica (Salomão, Alexandre o Grande e Júlio César, entre outros), heróis da Reconquista peninsular (caso de Fernão González, do Cid e de alguns reis conquistadores de territórios) e ainda figuras da mitologia peninsular (como Hércules).

A quinta parte, dedicada exclusivamente a bibliotecas, debruça-se sobre os casos concretos das bibliotecas de alguns grandes senhores, sendo constatadas algumas especificidades, bem como a evolução dos gostos e das preferências literárias ao longo dos tempos. São estudadas as bibliotecas de Alfonso Tenório (de origem portuguesa); Álvar Pérez de Guzmán, senhor de Orgaz; Fernando Álvarez de Toledo, primeiro conde de Oropesa; Francisco Álvarez de Toledo, segundo conde de Oropesa; Antonio de Rojas y Velasco, senhor de Villerías, sendo editados os respectivos inventários. Especial atenção é dada aos livros pertencentes aos condes de Benavente entre 1434 e 1530. É ainda feita uma incursão no domínio dos espaços e dos locais que serviam para o armazenamento dos livros e onde se praticava a respectiva leitura.

A sexta parte é dedicada a “Lecturas de laicos y eclesiásticos”. Com base no testemunho deixado em sínodos, é discutido o nível geral de instrução e a função da leitura no âmbito paroquial da Coroa de Castela na Baixa Idade Média; temas e tipos de leitura em sectores laicos da Península Ibérica (sécs. XIII-XV), onde cabe realçar as referências aos livros possuídos por membros da casa real portuguesa de Avis; a relação das mulheres castelhanas com a cultura escrita (séc. XIII - in. séc. XVI), seja como leitoras, como possuidoras de livros, como mecenas ou como autoras, sendo de salientar a atenção aqui dada aos testemunhos iconográficos.

A sétima e última parte incide sobre “La función de la escrita” e inicia-se com um interessante estudo sobre a presença dos ausentes graças ao recurso ao epistolar, seja de âmbito privado, seja público (cartas divulgadas por pregoeiros), bem como a documentos públicos de posse (escrituras). São ainda abordados domínios como a importância das chancelarias, a escrita utilitária dos comerciantes e a escrita da história como memória de fundação e do passado de um reino, consequentemente, responsável pela constituição da respectiva identidade. No último artigo do volume, a autora debruça-se sobre a(s) função(ões) do escrito, da palavra e do gesto nas tomadas de posse senhoriais: os gestos, objectos e actos simbólicos, a prova escrita como escritura legitimadora, a palavra enquanto leitura solene ou como proclamação pelo pregoeiro que, na praça, torna público um juramento de fidelidade.

Libros, lectores y bibliotecas en la España medieval, na diversidade dos artigos que o compõem, revela-se assim um livro abrangente e sólido que fornece e discute dados fundamentais sobre quem lê e o que lê em épocas e locais específicos, tendo em conta variantes como a posição social dos leitores, o seu sexo e a sua profissão. Apesar de ter na sua base sobretudo os métodos e os procedimentos próprios dos Estudos Históricos, o livro tem interesse, não só para esta área específica, mas também no quadro mais amplo dos Estudos Medievais em geral, ancorados na fértil confluência de fontes e de áreas de investigação distintas mas complementares.