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ISSN 1646-740X

ano 5  ● NÚMERO 6  2009
ISSN 1646-740X

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O Culto de Nossa Senhora dos Mártires em Alcácer do Sal, a Senhora da Cinta e as Cantigas de Santa Maria


Teresa Lopes Pereira
Membros do IEM, FCSH-UNL
teresalp@netcabo.pt

 

As Cantigas de Santa Maria são a maior compilação medieval em louvor da Virgem, destinadas a ser cantadas e a que Afonso X, o Sábio, dedicou grande parte do seu labor artístico. Escritas em galaico-português, as cantigas são composições em verso, de carácter narrativo que descrevem e ilustram milagres de Nossa Senhora como gestas gloriosas de forte pendor lírico. Nelas se procura a exaltação e o louvor à Mãe de Cristo, vista como intercessora dos homens junto do seu Filho.

Os poemas narram muitos milagres da Virgem concedidas em diversos santuários marianos da Europa, muitos deles já antes circulavam em colecções de milagres, em latim e nas línguas vulgares e nem todos ocorreram em templos peninsulares. Se na compilação afonsina há muitos milagres de fontes conhecidas e confirmadas, desconhecem-se, ainda hoje, as origens de outros, alguns possivelmente transmitidos apenas por via oral[1].

Afonso X procurou, com esta compilação de poemas musicados, espalhar a devoção e o louvor a Nossa Senhora. Cantados pelos peregrinos ou por jograis itinerantes, eram uma forma de difundir o culto da Virgem e de tornar conhecidos os principais santuários a Ela dedicados, cujos nomes, geralmente figuram nos versos das Cantigas.

Entre elas encontram-se também algumas referentes a peregrinos e a milagres ocorridos em terras portuguesas, como Mário Martins apontou na sua obra sobre milagres e peregrinações medievais[2]. O Rei Sábio conhecia estas narrativas “através de cópias manuscritas e ambulantes dos milagres de Nossa Senhora” e por narrações orais. Assim, por exemplo, dedica treze cantigas ao santuário de Santa Maria de Terena. Narra também milagres de outros locais portugueses de devoção mariana, como Évora, Monsaraz, Alenquer, Odemira, Faro, Lisboa, Estremoz, Santarém, Riba de Lima e menciona outros locais de forma mais geral[3]

Entre as cantigas de origem portuguesa comentadas por esse Autor, encontra-se a cantiga 245, onde se conta que um homem de S. Salvador da Torre foi salvo pela Virgem, que lhe abriu a porta da prisão e o fez passar um rio sem se molhar. Este milagre sucedeu em Riba de Limia, nas terras de Entre Douro e Minho[4]. Não comenta, porém, nem integra no seu estudo a cantiga imediatamente a seguir (246), possivelmente por não considerar que a acção se passasse em território português. Todavia podemos apontar algumas afinidades entre elas:

- Santa Maria aparece a socorrer aflitos que antes sempre a haviam honrado, no primeiro caso um homem, no segundo uma mulher;

- abre-lhes milagrosamente portas fechadas - do castelo e do mosteiro na 245, da igreja e da vila na 246.

 -  a cada um a Virgem lhes pega pela mão (fillou pela mão);

- nos dois casos aparece a expressão “par San Denis”;

- o autor ouviu alguém relatar estes milagres – “e per quant’ eu aprendi” (245)[5], “segundo que aprendi” (246);

 

Pensamos que, tanto a cantiga 245 como a 246 decorrem em terras lusas, no “reyno de Portugal”, como Afonso X explicita na cantiga 245.

 

1.1. A Cantiga “A que as portas do ceo abriu pera nos salvar…”

Será o milagre descrito na cantiga nº 246 da edição de Mettman[6] e ricamente iluminado no início do códice de Florença[7] que iremos focar neste trabalho, propondo considerá-lo também ocorrido em Portugal. Mais concretamente no Santuário de Santa Maria dos Mártires, junto a Alcácer do Sal.

O Santuário de Santa Maria dos Mártires ou Nossa Senhora dos Mártires emergia na Baixa Idade Média por entre olivais, a ocidente do castelo de Alcácer. O templo aparece assim nomeado na documentação do século XIII ao século XVII, passando então a ser conhecido por Santuário ou Igreja do Santo Cristo dos Mártires ou Senhor dos Mártires[8].

Era um templo mariano que pertencia aos Espatários, muito devotos da Virgem Maria e dos Santos Mártires, que o dotaram de um considerável conjunto de bens rurais e urbanos cujo rendimento permitiu cumprir, ao longo dos séculos, as obrigações que lhe foram atribuídas e que tinham a ver com o facto de, para além de espaço funerário, ser um centro de peregrinação.

Ao estudarmos esta cantiga de Afonso X (246)[9] e as iluminuras que a ilustram decoram no códice florentino[10], procuramos estabelecer a relação deste santuário mariano, existente desde o século XIII, com a descrição do milagre que o seu autor diz ter sabido “que aveo en Alcaçar”. Qual seria a fonte desta cantiga? Algum livro de milagres ou uma narrativa oral? O rei não explica claramente, embora pareça apontar para a segunda hipótese, quando diz: “Desto direi un miragre, segundo que aprendi”.

É muito possível que, depois da reconquista de Alcácer[11], o Santuário de Santa Maria dos Mártires, administrado pela Ordem de Santiago e com enraizada devoção popular, tivesse ganho fama e fosse conhecido além fronteiras. Talvez algum cavaleiro da Ordem tivesse contado o milagre ao rei. Por exemplo o próprio Mestre D. Paio Peres Correia. Recorde-se que este esteve à frente da comenda-mor santiaguista (1235 e 1242), então sedeada em Alcácer. Desempenhou depois o cargo de mestre geral de toda a Península Ibérica, de 1243[12] até à sua morte, em 1275. Foi pois contemporâneo de Afonso X, que viveu entre 1221-1284[13] e com ele manteve contactos importantes. Com efeito na sua Crónica Geral, Afonso X relata vários episódios sobre a acção daquele Mestre no cerco de Sevilha.

 

1.2. As iluminuras

A cantiga “A que as portas do ceo abriu pera nos salvar…” surge preciosamente iluminada como a primeira no Códice de Florença e com o número 246 na edição publicada por Mettmann no século XX[14].

No códice florentino, antes do refrão, encontra-se uma iluminura que ocupa cerca de um terço do fólio e que está dividida em dois espaços.

  

Fig. 1 – Miniatura da Cantiga de introdução do Códice de Florença.

 

O primeiro, representando o Céu e a Terra, tem dois níveis: na parte superior, a abóbada celeste azul, cheia de estrelas pintadas a ouro, com Cristo no centro, sentado num trono também dourado; na parte inferior, a Virgem com o Menino Jesus ao colo a ser incensada por dois anjos e fazendo a ligação entre a Terra e o Céu; repare-se que as auréolas douradas da Mãe e do Filho estão já no interior da abóbada celeste, confirmando o papel de Nossa Senhora como intermediária entre Deus e os homens. No espaço à direita, destaca-se a presença do rei Afonso X, de pé e em posição frontal, coroado, preenchendo com a sua figura o vão de quase todo o arco, em clara superioridade sobre os seus súbditos. Parece estar com uma das mãos a segurar a porta que separa a cidade celestial da cidade terrena, indicando, assim, o caminho seguro da salvação.

A cidade terrena é indicada pelas arquitecturas que encimam os gabletes dos arcos trilobados que por sua vez dividem de forma trinitária este espaço. O Monarca exorta os homens da sua corte, “ataviados com ricas vestiduras”[15], a amar e a venerar Santa Maria. Por intermédio da iluminura, o artista dá-nos a leitura em imagens do conteúdo do próprio refrão: “A que as portas do ceo abriu pera nos salvar…”

A cantiga começa com o refrão, escrito na totalidade, abaixo das linhas destinadas às notas musicais que não chegaram a ser escritas. O “A” inicial do poema é ornado. A decoração policromada consiste em elementos geométricos e vegetalistas entrelaçados, com uma pequenina cabeça de animal, em cima, ao centro. No texto da cantiga, as primeiras letras das estrofes aparecem pintadas alternadamente em azul, filigranadas a vermelho, e a vermelho, filigranadas a azul. O refrão está sempre rubricado a tinta vermelha.

                    

Fig. 2 – Fólio 1 vº do Códice de Florença; Cantiga e um pormenor do mesmo.

O fólio 2 está delicadamente iluminado, dividido em 6 quadros que ilustram a história do milagre com algum pormenor e clareza, sendo emoldurado por uma orla de flores geometrizadas com um colorido vivo, em cujos quadrados de intercessão estão alternadamente as armas do reino de Leão – um leão negro em campo branco – e as armas de Castela – um castelo dourado em fundo vermelho. 

Em cima de cada pequeno quadro figurativo, está escrita uma frase explicativa do assunto tratado, em forma de legenda, alternando a tinta azul com a vermelha:

1º - Como a bõa moller achou cerradas as portas da egreja (azul).

2º - Como uiu a porta aberta e entrou pos sa ouferta sobelo altar (vermelho).

3º - Como saýu da egreia e uýu como sse serraron as portas (vermelho)

4º - Como achou as portas da uila serradas e fez sa oraçõ a sancta maria (azul).

5º - Como sancta maria lhi abriu as portas da uila e a leuou pela mão a sa casa. (azul)

6º - Como a bõa moller contou este feyto aa gente e loarõ sancta maria. (vermelho).

 

Afonso X, que aparece representado na primeira iluminura, surge também como narrador no início da composição, ao referir, nos dois primeiros versos: “Desto direi un miragre, segundo que aprendi, / que aveo en Alcaçar, e creo que foi assi (…)”[16]. Na edição de Mettman, o título, em prosa, resume o conteúdo histórico da narrativa: Esta é dũa bõa moller que ya cada sabado a hũa eigreja que chaman Santa Maria dos Martires…”[17].

 

Fig. 3 - Afonso X, Cantigas de Santa Maria,
(ed. facsímil do Códice da B.N. de Florença, fl. 2).

 

O Rei Poeta diz concretamente que, segundo lhe contaram, o milagre aveo en Alcaçar, de onde se deduz ter o relato uma origem oral próxima do Rei Sábio. Embora os especialistas que se têm debruçado sobre as Cantigas de Afonso X continuem a localizar este milagre em Alcázar de San Juan (Ciudad Real)[18], o próprio Mettmann refere não ter encontrado aí documentada nenhuma Igreja de Santa Maria dos Mártires[19].

O facto de Mário Martins não incluir o milagre de Alcácer no seu estudo sobre os milagres e romarias portuguesas nas Cantigas de Afonso X[20] poderá explicar-se pela mudança de nome que ocorreu no templo português, em finais do século XVII ou inícios do século XVIII: a invocação medieval de Igreja de Santa Maria dos Mártires mudou para Senhor dos Mártires[21], designação do santuário nos dias de hoje.

No poema regista-se que era esta ygrej’ alongada da vila (…)[22] e a protagonista levou algum tempo a lá chegar. No seu regresso apressado, encontrou as portas do castelo amuralhado, já encerradas. Estes dados encaixam perfeitamente com o templo de Alcácer, situado extra-muros, a pouco mais de um quilómetro para poente da povoação.

Este santuário foi transformado pela agregação de elementos arquitectónicos faseados no tempo, sendo a Capela do Tesouro, a mais antiga, a primeira a ser construída pelos Cavaleiros de Santiago. Enraizara-se nele uma grande devoção popular e Santa Maria dos Mártires de Alcácer ganhara tal fama que o seu eco chegara além fronteiras, ouvindo-o contar o rei Afonso X: “Desto direi un miragre, segundo que aprendi, que aveo en Alcaçar”.

Na cantiga, o Rei descreve que a um sábado uma mulher de Alcácer, mui bõa crischãa, que confiava totalmente em Nossa Senhora, pelos muitos afazeres da sua casa, atrasou-se e só bastante tarde partiu para rezar e levar a sua oferta semanal a Santa Maria dos Mártires, como por amor fazia habitualmente. Por ser já muito tarde, encontrou as portas da igreja fechadas. Contristada, chorou enquanto orava e para seu espanto, as portas abriram-se, permitindo-lhe a entrada. Fecharam-se após a sua saída, sem que ninguém se vislumbrasse por perto. Com alguma pressa, dirigiu-se para a vila, cujas portas achou também encerradas. Rogou com muita fé à Virgem e as portas abriram-se de par em par e uma dona muito bela conduziu-a pela mão para dentro de Alcácer, mesmo até à sua casa. Admirada, perguntou:

- “Sennor, quen sodes, que a tan pobre molher com eu tan gran bem fezestes?” Respondeu-lhe ser a que nas aflições acode aos necessitados, pois “Deus por sa merce quis de mi carne fillar”. Então a Mãe de Jesus desapareceu e a mulher, maravilhada e agradecida, contava a todos o milagre que lhe havia acontecido[23].

O milagre tem a ver com a solução de problemas do quotidiano das pessoas. A Virgem acode nas aflições aos que nela confiam. Como se pode verificar nas imagens atrás inseridas e que pertencem a esta cantiga do códice de Florença, as miniaturas expressam de forma artística o que o texto nos dá em palavras. Deixam de ser apenas decoração ou ilustração para se tornarem numa visualização da história que se conta e se canta[24], acrescentando dados mais ligados ao conhecimento figurativo do artista. Apesar de ter ficado inacabado, este é um dos aspectos inovadores do códice florentino.

O refrão, sempre repetido no fim de cada estrofe, insiste na ideia chave do poder que a Virgem tem no céu e na terra: A que as portas do ceo abriu pera nos salvar, / Poder á nas destes mundo de as abrir e serrar. Desejava, assim, Afonso X dar a conhecer os milagres de Nossa Senhora, para que cada vez mais fiéis a Ela recorressem com grande devoção, pois o seu objectivo ao compilar e narrar os milagres era a exaltação do culto de Santa Maria e da forma plena como ela correspondia à fidelidade dos seus devotos[25].

Focando os seis quadros da iluminura que ilustra a cantiga, verifica-se que, nos dois primeiros, correspondentes ao local de culto, da parte de fora está uma árvore, provavelmente uma oliveira, único elemento que remete, no contexto da iconografia das Cantigas, para uma paisagem fora de portas; vê-se uma torre, com uma porta de arco ultrapassado e uma mulher ajoelhada, rezando perante a proximidade do sagrado. Aberta a porta do templo, por intervenção da Virgem, repare-se que o artista representa a abertura da porta através da alternância claro-escuro. A mulher é, na segunda cena, representada nos dois momentos mediados pelo milagre operado por Santa Maria, em cujo altar pode finalmente apresentar a sua oferta. A Senhora, sentada num trono, está com o Menino Jesus ao colo, de frente para o leitor/observador. À semelhança dos ícones orientais, apresenta os elementos que lhe eram devidos pela grande veneração: a iluminação directa dada pela vela acesa no candelabro, pela chama na lâmpada suspensa ao lado e a posição prostrada da mulher. Esta, quando termina a sua oração, parte apressada para a vila, deixando para trás o espaço rural, representado pela árvore, e o templo cuja porta está encerrada, não sem antes se voltar em ar de despedida e sinal de respeito para com o sagrado. Ao chegar à muralha, reza de novo, aflita porque encontra as portas fechadas.

No quarto e quinto quadros, o iluminador dá-nos uma representação pictórica da vila: as muralhas, a torre, as portas (de arco ultrapassado); no intramuros, avistam-se um edifício religioso e o imbricado casario com telhados de duas águas. É uma imagem que procura retratar a urbe, com os seus elementos definidores numa época de Reconquista mas, ainda assim, reconhecendo o primado da descrição do milagre, dando o primeiro lugar às figuras humanas e à presença do Sagrado, em detrimento de uma preocupação em representar, de forma exacta, como hoje se poderia crer, o lugar aí mencionado[26].

É interessante, a este propósito, reparar-se nas duas arcadas de arco quebrado vazias na quarta representação – o vazio significa verdadeiramente uma representação mental da invisível presença da Virgem – como se pode comprovar no preenchimento das mesmas arcadas na cena seguinte com Nossa Senhora presente e a alcacerense de joelhos. O último quadro inicia-se com a porta entreaberta, encimada por um sino, elemento que de forma muito interessante, parece marcar o tempo, tal como as arquitecturas nos dão a noção de espaço. Nesta cena a Virgem aparece novamente representada de forma icónica e a mulher de braços erguidos louva, agradecida e dá a conhecer à multidão as maravilhas que Ela concede a quem fielmente se confia à sua intercessão.

Esta última cena invoca a noção de peregrinação mariana, presente em muitos outros milagres historiados. Para além da presença da mulher a quem Santa Maria acudiu, surge uma imensa multidão de homens e mulheres (homens em primeiro plano e mulheres atrás) que louva e agradece a ajuda prestada[27].

 

2. Imagens da Virgem veneradas em Santa Maria dos Mártires na Idade Média

Tendo o santuário de Alcácer como patrono Nossa Senhora dos Mártires, como seria a imagem venerada na Idade Média? Não existe nenhuma descrição documental. A escultura representada na iluminura mostra-nos uma Virgem com o Menino Jesus ao colo semelhante a outras que aparecem no mesmo códice, não sendo identificadora da que existiria nesse Santuário, no século XIII.

Num relato tardio, pertencente a uma visitação de 1513 a esta igreja, fala-se de “hũua Jmagem de pao velha de nosa senhora” colocada no altar-mor que, provavelmente, seria da invocação de Santa Maria dos Mártires, mas dela não é descrito mais nenhum pormenor, a não ser que é de madeira e considerada “velha” pelos visitadores[28].

Subsistiu até ao nosso tempo uma imagem já de um gótico tardio, em pedra, de uma Virgem com um Menino, cultuada como Nossa Senhora da Cinta, que era e ainda é objecto de grande devoção popular. No entanto, não poderá ter sido essa a imagem junto à qual se teria dado o milagre narrado por Afonso X na cantiga 246.

Durante muito tempo, a escultura de Nossa Senhora da Cinta permaneceu no exterior do templo, a um canto do alpendre, colocada num nicho grande e profundo, situado por cima de um altar de alvenaria e assente sobre uma coluna de pedra. Era aí que poderia ser vista e venerada[29]. Será provavelmente essa a razão de não ter a parte posterior esculpida. Transferida mais tarde para o interior da igreja, alterou-se a forma de a olhar, de a tocar, de a contemplar de mais perto ou de mais longe, e até de a rodear. O local a que se destina uma imagem condiciona-a. Hoje, como se pode observar a Virgem a toda a volta, verifica-se que só a parte da frente da base, do pedestal e da imagem estão cuidadosamente esculpidas e policromadas.

 

  

Fig. 4 – Nossa Senhora da Cinta e pormenores.

     

A Senhora sorri para os fiéis em todos os ângulos excepto num, o que possivelmente terá a ver com o lugar para onde o escultor a imaginou. Abraça o Menino com a mão esquerda, prendendo o manto que a mão direita repuxa de modo gracioso, deixando-lhe ver as duas faces e mostrando o cinto de cabedal afivelado[30] que lhe marca a cintura alta e cuja ponta aparece junto aos pés que estão calçados. O pormenor do cinto assumiu uma tal relevância que se fixou no nome de Nossa Senhora da Cinta.

Um firmal em losango fecha-lhe o manto. O Menino Jesus, com uma mão ampara-se à cabeça de sua mãe e, com a outra, segura uma ave. Aos pés da Virgem, adossado ao pilar, do lado esquerdo, figura ajoelhado como um doador um freire de Santiago orando, de mãos-postas, com a cruz-espada visível num braço e a cabeça tonsurada[31].

A escultura assenta numa coluna de pedra trabalhada ao alto “à maneira de pilar” só com as faces da frente marcadas e que tem como que suspenso um escudo esculpido em relevo e pintado, com três faces irregulares, sendo a ponta de baixo em bico e o chefe, côncavo. O escudo tem no centro a cruz de Santiago, com conchas sobrepostas nos quatro braços da cruz e uma no centro; nos quatro ângulos da cruz, vêem-se, em cima, duas vieiras de maiores dimensões e, em baixo, à esquerda, um Agnus Dei[32] e, à direita, um escudete bandado. A ladear o vértice do escudo estão esculpidas na base arredondada duas flores em baixo relevo[33].

Os cabelos da Virgem assomam sob o véu, emoldurando o rosto oval. São esculpidos em ondas, no meio das quais se relevam pequenos caracóis redondos. O Menino Jesus tem o cabelo curto cortado em redondo, ondeado com pequenos caracóis nas pontas e o seu pé surge descalço, sob o vestido apertado na cintura por uma larga faixa franjada na orla inferior. O Menino está representado como criança e parece emergir do conjunto esculpido uma relação de ternura e intimidade entre Mãe e Filho, a imagem e os que a contemplam.


Fig. 5 – Nossa Senhora da Cinta e pormenores.

 

A escultura de Nossa Senhora da Cinta é policromada, destacando-se o verde azulado e o vermelho, para além dos motivos dourados que realçam a volumetria e o pregueado em cascata do manto que se articula com as linhas sinuosas da figura[34].

Com a oferta de um Cristo crucificado ao Santuário de Santa Maria dos Mártires de Alcácer do Sal, em finais do século XV[35], a imagem de Cristo passou a atrair cada vez mais devotos que junto dela vinham rezar e pagar promessas e, assim, com o tempo, o nome do templo mudou, sendo primeiro chamado Santo Cristo dos Mártires[36] e depois Senhor dos Mártires, nome que perdura desde os inícios do século XVIII.

Em Portugal, desde o século XVII que se assistiu ao aparecimento de santuários em honra de Jesus Cristo, como os consagrados ao Santo Cristo, em Bragança e Ponta Delgada, ao Bom Jesus em Braga e ao Senhor Jesus dos Milagres em Leiria. Estas invocações evidenciam um crescendo na devoção ao mistério da Cruz e da Paixão de Cristo na piedade europeia, com raízes no franciscanismo, arreigada desde o Renascimento[37] e que irá culminar na piedade barroca e, permanecendo, mais próximo de nós, nas procissões do Senhor dos Passos. Não é, pois, de estranhar que, dentro desta tendência de valorizar o papel de Cristo, se tenha mudado o nome de Senhora para Senhor dos Mártires em Alcácer do Sal.

 

3. Santa Maria dos Mártires, centro de peregrinação em Alcácer do Sal

Pessoas vindas das cercanias, mas também de longe, acorriam a este templo em honra de Nossa Senhora dos Mártires para rezar, pagar promessas e participar nas festas e cerimónias mais marcantes do calendário religioso.

Este santuário tinha um papel relevante em Alcácer do Sal. Desde “tempos imemoriais”, nas procissões religiosas, a cruz de Nossa Senhora dos Mártires seguia primeiro que a da matriz. Como tivessem surgido desentendimentos à volta desta tradição, no século XVI, os visitadores da Ordem de Santiago ordenaram que “acy se guarde e lhe não seja tirado o seu lugar”[38], reafirmando a hierarquização antiga: a cruz da Igreja dos Mártires iria à frente da procissão e a de Santa Maria do Castelo no fim.

O Santuário dos Mártires era um local de peregrinação, oferecendo indulgências aos devotos que aí acorriam. A Infanta D. Isabel[39] obtivera uma bula papal, valorizando ainda mais esta oportunidade de venerar e tocar as relíquias dos santos mártires[40] e rezar junto à imagem da Virgem Maria, de quem os devotos esperavam muitas graças e milagres.

No entanto, dos milagres atribuídos a este santuário mariano poucas notícias nos chegaram, a não ser, se a nossa hipótese de identificação é correcta, o relatado pelas Cantigas de Santa Maria. Se existiu algum caderno narrando estas graças recebidas, não se teve dele, até ao presente, qualquer notícia. Os ex-votos que subsistiram são mais tardios e em honra do Senhor dos Mártires.

Também não se conseguiu apurar com rigor a data da festa medieval em Alcácer, em honra de Santa Maria dos Mártires, a quem o templo era dedicado. No calendário católico, a festa em honra da Virgem e dos Santos Mártires foi instituída em Roma, no início do século VII, celebrando-se no dia 13 de Maio[41]. Era também nesse dia que se festejava solenemente em Lisboa, na igreja dessa invocação, havendo todos os anos uma procissão de acção de graças em que obrigatoriamente se integravam o senado e o cabido metropolitanos[42].

A confraria em honra de Nossa Senhora dos Mártires, em Alcácer, que não sabemos quando começou, existia na referida igreja, desde tempos anteriores, com mordomo, escrivão e muitos confrades, como referem os visitadores em 1552[43]. Entre outras obrigações, competia aos confrades mandar dizer uma missa todos os sábados do ano e organizar uma festa anual, com vésperas e missa solenemente cantadas, a 15 de Agosto, dia de Nossa Senhora da Assunção[44] e ainda providenciar a existência de vinte e dois círios “de mão” que se acendiam nas missas da confraria.

A tradição que chegou até ao século XX coloca a festa maior deste santuário a 8 de Setembro, dia em que a Igreja Católica celebra a Natividade de Nossa Senhora ou festa de Nossa Senhora da Luz. As datas apontadas (15 de Agosto e 8 de Setembro) reforçam a invocação mariana medieval que este santuário manteve, mesmo depois da alteração do nome para Senhor dos Mártires.

A festa religiosa e profana que se desenrolava à volta do Santuário de Nossa Senhora dos Mártires proporcionava a solidariedade e o convívio, num estreitar de afectos, próprio das romarias. O amplo adro a poente e o rossio a nascente são ainda hoje importantes testemunhos dessa necessidade de espaço a envolver o templo. Não é difícil imaginar-se a aglomeração de gente que aí acorria para orar, pagar promessas, encontrar-se, aproveitando mesmo a ocasião para fazer um ou outro negócio ou acordo.

A existência das casas de romeiros, recentemente recuperadas, aponta para uma continuidade da componente de peregrinação neste espaço, tendo sido, com grande probabilidade, este santuário um ponto de paragem dos romeiros da Hispânia meridional no caminho para Santiago de Compostela, desde a Idade Média[45].

Para além do culto diário – horas cantadas e missa – mais acessíveis aos membros da Ordem ou às elites, eram obrigatórias as missas de domingo e dias santos de guarda, com realce para a de sábado, de devoção a Nossa Senhora, tão do agrado dos espatários. No fim dessa missa semanal em honra da Virgem Maria, devia ser sempre rezada uma oração por todos os mestres de Santiago, vivos e defuntos[46].

O sábado é, desde o século X, o dia dedicado a Nossa Senhora e aquele em que habitualmente se celebra o ofício votivo da Virgem. A partir do século X, espalhou-se no Ocidente o costume de honrar a Virgem Maria, especialmente nesse dia da semana. A missa de Sancta Maria in Sabbato[47], já no século XII, tinha lugar no Missal de Latrão. Não admira que fosse também sábado o dia mencionado na Cantiga em que, como habitualmente fazia, uma mulher devota saiu da vila, foi rezar e entregar a sua oferta à Igreja de Nossa dos Mártires, episódio narrado com grande simplicidade na canção de Afonso X que atrás estudámos[48].

O Rei/Poeta dá-nos, na descrição do milagre, uma imagem muito próxima do quotidiano, onde à aflição se segue a acção de graças e a expressão pública de exaltação da Virgem, convidando à peregrinação.

 



Bibliografia

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IAN/TT, MCO/OS/CP, mç. 3, doc. 110.

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­­______­­­­__, «Hagiografia en las Cantigas de Santa Maria: bizantinismos y otros critérios de selección», Anales de Historia del Arte, 1999, pp. 35-54.

PIZZORUSSO, V. Bertolucci, «Cantigas de Santa Maria», Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, org. e coord. De Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, 2ª ed., Lisboa, Caminho, 2000, pp. 142-146.

SOLALINDE, Garcia, A., El Códice florentino de “las Cantigas”, y su relación sobre los demás manuscritos. R.F.E, tomo V, 1918.

 


Anexo 1

Cantiga 246[49]

ESTA É DŨA BÕA MOLLER QUE YA CADA SABADO A HŨA

EIGREJA QUE CHAMAN SANTA MARIA DOS MARTIRES, E

OBRODÓ-XE-LLE, E DEPOIS FOI ALÁ DE NOITE, E ABRIRON-XE-

LHE AS PORTAS DA EIGREJA. 

A que as portas do ceo / abriu pera nos salvar,

Poder á nas deste mundo / de as abrir e serrar.

Desto direi un miragre, / segundo que aprendi,

que avẽo en Alcaçar, / e creo que foi assi,

dũa mui bõa crischãa / moller que morava y,

que sabia ena Virgen / mais doutra cousa fiar.

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…

Onde por amor da Virgen / ao sábado sempr’ ir

punnav’ a hũa ygreja / sua e oraçon oyr,

e levava ssa offerta / sigo por a offerir;

mas un sábado ll’ avẽo /que foi aquest’ obridar

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…

Por fazendas de sa casa / muitas que ouv’ a fazer.

Mas aa tarde ll’ en ente / vẽo como falecer

fora, e ar[r]epenti[u]-sse; / e por esto correger,

foi já tard’ aa eigreja / e cuidou y dentr’ entrar.

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…

Esta ygrej’ alongada / da vila já quant’ está.

Mas quando chegou a ela, / cuidou log’ entrar alá,

mas as portas ben serradas / achou, e fillou-ss’ acá

de fora fazer sas prezes / e começou de chorar.

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…

 

E pois aquest’ ouve feito / e conpriu ssa oraçon,

viu log’ as portas abertas, / e foi en seu coraçon

muit’ ende maravillada, / porque moller nem baron

non vira que llas abrisse.  E foi log’ ao altar 

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…

 

E pos y sa offerenda, / des y logo se sayu

da ygreja. E pois fora / foi, as portas serrar viu;

e com gran medo que ouve, / logo dali recodyu

e foi-sse pera a vila, / mas non de mui gran vagar.

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…

 

E quando foi aas portas / da vila e entrar quis,

achou-as assi serradas / que des ali foi bem fis

de no[n] entrar, e cuitada / foi em muit’, par San Dinis;

mas rogou enton a Virgen, / que llas abriu log’ en par.

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…

 

Enton hũa dona bela / e nobre ll’ apareceu,

que a filhou pela mão / e na vila a meteu

e levó-a ssa casa, /  ond’ ela prazer prendeu;

mas ante que y chegasse / começou-ll’ a preguntar

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…

 

Dizendo: “Sennor, quen sodes, / que a tan pobre moller

com’ eu tan gran ben fezestes?” / Respos-lle ela volonter:

“Eu soo a que nas cuitas / acorr’ a quen m’ á mester,

en que Deus por sa mercee / quis de mi carne fillar.”

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…

 

Quand’ a boa moller esto / oyu, logo se deitou

a seus pees por beijar-llos; / mas nona viu, e ficou

ende mui desconortada, / e en ssa casa entrou,

e aqueste feit’ a todos / outro dia foi contar.

A que as portas de ceo / abriu pera nos salvar…



NOTAS

[1] V. Bertolucci Pizzorusso, «Cantigas de Santa Maria», Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa, org. e coord. De Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani, 2ª ed. , Lisboa, Caminho, 2000, p. 143.

[2] Mário Martins, Peregrinações e Livros de Milagres na nossa IDADE MÉDIA, 2ª ed., Lisboa, Brotéria, 1957, p. 72.

[3]  Ver Alfonso X, el Sábio, Cantigas de Santa Maria, Edición, introducción y notas de Walter Mettmann, Madrid, Clássicos Castalia (cantiga 277), vol. III, 1989, pp. 48-50, onde é relatado um caso passado  no Algarve; ver também outro respeitante a um ermitão de uma capelinha alcandorada sobre o mar  (Nazaré?), (cantiga  95), ibidem, vol. I, 1986, pp. 292-294.

[4] Mário Martins, ob. cit., p. 77.

[5] Acrescenta a seguir “como contaron a mim”.

[6] Alfonso X, el Sábio, Cantigas de Santa Maria, Edición, introducción y notas de Walter Mettmann, vol. II, 1988, Cantiga 246, p. 343. Constará deste estudo em anexo 1.

[7] Alfonso X, el Sábio, Cantigas de Santa Maria, Edición facsímil del códice B.R.20 de la Biblioteca Nazionale Centrale de Florencia, siglo XIII, Madrid, Edilan, 1999.

[8] Ver M. Teresa Lopes Pereira, «O Santuário de Santa Maria dos Mártires de Alcácer do Sal (Séculos XIII a XVI)», Actas do V Encontro sobre Ordens Militares, coord. de Isabel Cristina F. Fernandes, C. Municipal de Palmela / GEsOS, 2009, pp. 635-676.

[9] Alfonso X, el Sábio, ob. cit, vol. II, Ed. de Walter Mettmann, 1988, pp. 343-344.

[10] Alfonso X, el Sábio, Cantigas de Santa Maria, Edición facsímil del códice B.R.20 de la Biblioteca Nazionale Centrale de Florencia, siglo XIII, Madrid, Edilan, 1999.

[11] Depois de uma permanência em mãos portuguesas de mais de 30 anos no século XII (1160-1191), Alcácer do Sal cai em mãos muçulmanos, só sendo conquistada definitivamente em 1217.

[12] Foi eleito Mestre Geral da Ordem de Santiago em Dezembro de 1242.

[13] Agustín Santiago Luque, «Las Cantigas del Códice de Florencia», El Códice de Florencia de las Cantigas de Alfonso X El sábio. Volumen complementario de la edición facsímil del ms. B.R. 20 de la Biblioteca Nazionale de Florencia, Madrid, Edilan, 1991, pp. 12-13.

[14] De acordo com este autor, a mesma cantiga tem o número 157 nos dois códices E e T do Escorial. Ver Mettmann, ob. cit., vol. I, p. 36.

[15] Afonso X El Sábio, Cantigas de Santa Maria, Ed. facsímil del Códice de Florencia, vol. compl. (vol. 2), 1991, p. 151.

[16] Afonso X El Sábio, ob.cit., Edición facsímil del Códice de Florencia, 1989, fl. 1.

[17] Mettmann, ob. cit.,  vol. II, p. 343. Ver anexo nº 1.

[18] A título de exemplo, cite-se Afonso X El Sábio, ob.cit., Edición facsímil del Códice de Florencia, volume complementario (vol. 2), 1991, p. 24: “Hechos situados en Alcázar de San Juan (Ciudad Real). Cantiga de tradición probablemente local, oral y, por todas las trazas, reciente”.

[19] “S. M. dos Mártires: No encuentro documentado este nombre para la iglesia dedicada a la Virgen en Alcázar de San Juan (Ciudad Real)”. Cf. Alfonso X, el Sábio, ob.cit., vol. II, Edición de Walter Mettmann, 1988, p. 343.

[20] Mário Martins S. J., ob.  cit, 1957, p. 71.

[21] Em 1716, Frei Agostinho de Santa Maria refere que este templo é dedicado ao Santo Cristo dos Mártires, o que prova que, nesta altura, o nome já tinha mudado (cit. por Vergílio Correia, «O Senhor dos Mártires de Alcácer», Monumentos e Esculturas (séculos III-XVI), 2ª ed., Lisboa, Férin, 1924, p. 140).

[22] Alfonso X, el Sábio, ob.cit., Edición de Walter Mettmann, vol. II, cantiga nº 246, 1988, p. 343.

[23] Ibidem, pp. 343-344.

[24] Ver M. Victoria Chico Picaza, «La ilustración del Códice de Florencia», ob. cit., vol. complementario, 1991, p. 125.

[25] Cf. J. Mattoso, «O léxico feudal”, Obras Completas, vol. I – Naquele Tempo, Rio de Mouro, C. Leitores, 2000, p. 117.

[26] A envolvente urbana que rodeia o rei Afonso X, bem presente nesta obra pela geografia dos milagres e pela recorrente representação das cidades na sua iconografia, traduz-se, sobretudo, no emprego constante dos motivos que estruturam, para os seus leitores, a ideia de cidade, ainda que com criatividade e recorrendo a múltiplas soluções em torno de alguns elementos constantes. O leitor pode, por exemplo, observar a vila, vendo-a de um ponto alto exterior, mesmo quando a história se desenrola no seu interior (como é o caso da última cena descrita no penúltimo quadro). Não seria muito viável, aliás, o miniaturista ir a cada cidade ou vila que ilustrava, sendo inúmeras as terras apresentadas nos manuscritos historiados e de localização por vezes bem distante da corte afonsina. Ainda que, em alguns casos, aqui se integrem representações específicas de determinados lugares, reveladoras de um bom conhecimento de algumas cidades da Hispânia (Laredo, Castrojeriz, Mayorca…) ou das que constituíam destino de grandes peregrinações, certamente acessíveis em relatos de viagens ou em representações iconográficas, como era o caso de Roma ou Jerusalém, uma utilização literal das imagens aí construídas das diversas urbes parece, de acordo com os estudos existentes, ser metodologicamente perigosa. Ver M. Victoria Chico Picaza «La ilustración del Códice de Florencia», ob. cit., vol. complementario, 1991, pp. 126-127; E. H. Gombrich, L’art et l’ilusion, traduit de l’anglais par Guy Durant, Paris, Gallimard, 1971, p. 119.

[27] M. Victoria Chico Picaza, «Hagiografia en las Cantigas de Santa Maria: bizantinismos y otros critérios de selección», Anales de Historia del Arte, 1999, nota 3, p. 36.

[28] Cf., entre outros, 1513, IAN/TT, MCO/OS/CP, liv. 285, fl. 28 vº, ou liv. 154, fl. 30.

[29] Ibidem, liv. 285, fl. 29 vº.

[30] Frei Agostinho de Santa Maria no Santuário Mariano, tomo VI, refere que em Alcácer na Igreja dos Mártires existia uma Nossa Senhora da Cinta com uma correia de couro, semelhante à que usavam os Agostinhos. A propósito da Assunção de Nossa Senhora na poesia medieval, Mário Martins explicita o pormenor da cinta, referindo que a Virgem Maria para provar que era ela própria em corpo e alma a ser levada para os Céus deu a S. Tomé a “cinta que a cingia” que ele exibiu na mão, mostrando-a aos outros discípulos, ao entrar em Jerusalém. Ver Estudos de Cultura Medieval, vol. III, Lisboa, Brotéria, 1983, p. 70. Referindo-se ao detalhe iconográfico do cinto, Joaquim Oliveira Caetano refere, a propósito da Virgem da Misericórdia, “que a importância do cinto se liga normalmente às representações da Assunção da Virgem, relacionado com a incredulidade de S. Tomé”. Cf. «Sob o Manto Protector. Para uma Iconografia da Virgem da Misericórdia», Mater Misericordiae, Museu de S. Roque e Livros Horizonte, Lisboa, 1995, p. 30.

[31] Por ter a cabeça tonsurada deveria ser um freire clérigo de missa. Na Ordem de Santiago existiam os clérigos encarregados da assistência religiosa e espiritual e os freires leigos que poderiam casar de que se destacam os comendadores e os cavaleiros. Cf. Isabel Lago Barbosa «A Ordem de Santiago em Portugal nos finais da Idade Média (Normativa e Prática), Militarium Ordinun Analeta, nº 2, Porto 1998.

Frei Agostinho de Santa Maria parece identificar a imagem deste clérigo de Santiago com o próprio Apóstolo quando diz: “no mesmo pilar está esculpida a imagem de Santiago apóstolo das Hespanhas, à parte esquerda com as mãos postas, olhando para a Senhora”, Santuário Mariano, 1976, p. 304; Vergílio Correia, que faz esta citação em Monumentos e Esculturas, pp. 141-144, põe a hipótese de o pilar ser mais alto e publica na p. 141 um desenho da autoria de Alfredo Cândido que o induziu em erro, quando partindo desse esboço afirma na p. 144: “no lado direito de quem olha, um menino nu levanta as mãos”. Na verdade o que hoje se observa é um clérigo de Santiago ajoelhado numa grande verosimilhança com a descrição de Santiago feita por Frei Agostinho de Santa Maria.

[32] O cordeiro imolado, mas triunfante é o símbolo da Ressurreição.

[33] A imagem de Nossa Senhora da Cinta é uma escultura de vulto a ¾ com as costas planas, medindo de altura a base juntamente com o pedestal 66 cm e a Virgem 1, 03 m: o total de altura é aproximadamente 1,70m, 1,69m; a largura das costas = 51cm, o perímetro 90cm e a profundidade aproximadamente 28,6 cm.

[34] Agradece-se a Maria João Vilhena a ajuda que nos deu para podermos observar com um olhar novo a imagem de Nossa Senhora da Cinta. M. Teresa Lopes Pereira, Alcácer do Sal na Idade Média, Colibri, 2000, p. 162.

[35] Oferecido por Estêvão Eanes, contador e sua mulher Inês Eanes. Esta também lhe deixou um olival para que do seu azeite se mantivesse sempre acesa uma lamparina diante do Cristo Crucificado. Cf. ibidem, p. 162.

[36] Em 1716, Frei Agostinho de Santa Maria refere que este templo é dedicado ao Santo Cristo dos Mártires, o que prova que, nesta altura, o nome já tinha mudado. In Vergílio Correia, ob. cit., p. 140.

[37] Ver João Francisco Marques, «Rituais e manifestações de culto», sobretudo o sub-capítulo: “Devoção à Paixão de Cristo, História Religiosa de Portugal, vol. II, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2000, pp. 570-577.

[38] IAN/TT, MCO/OS/CP, mç. 3, doc. 110, fl. 1.

[39] IAN/TT, MCO/OS/CP, liv. 194, fl. 74 vº. Pensamos poder tratar-se da Infanta D. Isabel, filha de D. João I e D. Filipa de Lencastre e que se tornou Duquesa da Borgonha, mas como este nome era frequente na família real portuguesa, outras hipóteses são possíveis, por exemplo D. Isabel casada com D. João, também filho de D. João I e que foi Mestre de Santiago.

[40] Ibidem, fl. 67.

[41] No início do século VII (609), o Papa Bonifácio IV consagra o Panteão de Roma, dedicando-o à Virgem Maria e aos Santos. Pouco tempo depois é instituída a festa litúrgica em honra de Nossa Senhora dos Mártires que passou a celebrar-se a 13 de Maio. Cf. Soledade Martinho Costa, Festas e Tradições Portuguesas. Novembro/Dezembro, Lisboa, Círculo de Leitores, 2003, p. 15.

[42] Vd. Frei Agostinho de Santamaria, Santuário Mariano E História das Imagens…, 1º Livro, 2ª. Ed., Lisboa, Imprensa Libanio da Silva, 1933, p. 44.

[43] O escrivão da visitação registou que a confraria fora instituída por pessoas devotas, mas não diz quando, nem quais. Refere que um cálice de prata com o peso de um marco e uma onça, pertença da confraria, estava partido em dois, o que denota alguma passagem de tempo. Na altura, era mordomo da confraria Pedro Homem e escrivão Pedro Eanes. Alguns anos atrás fora-o João Afonso, casado com Inês Rodrigues. Não sabe que descaminho levou o livro de receita e despesa da confraria de Nossa Senhora dos Mártires de que fala o escrivão visitador, Gaspar Rodrigues. IAN/TT, MCO/OS/CP, liv. 194, fl. 75 vº. Em 1560 era mordomo António Vasques e escrivão da confraria Manuel Vasques. Ibidem, liv. 198, fl. 25 vº.

[44] É de salientar que a imagem da Senhora da Cinta parece relacionar-se com a Assunção da Virgem.

[45] Ver M. Teresa Lopes Pereira, «O Santuário de Santa Maria dos Mártires de Alcácer do Sal (Séculos XIII a XVI)», C. Municipal de Palmela / GEsOS, 2009, p. 669.

[46]IAN/TT/ MCO/OS/CP, liv. 154, fl. 29 vº.

[47] Foi inserta por Alcuíno no seu sacramentário votivo e já no século XII figurava no Missal de Latrão. O Missal romano de S. Pio V consagrou esta devoção. A. G. Martimort, A Igreja em Oração. Introdução à Liturgia, Mosteiro de Singeverga, Ed. Ora & Labora – Desclée & Cie., 1965, p. 793.

[48] Afonso X, El Sábio, ob. cit., p. 343, escreve: “Esta é dua bõa moller que ya sábado a hua eigreja que chaman Santa Maria dos Martires (…)”.

[49] Alfonso X, el Sábio, Cantigas de Santa Maria, Vol II, Édición, introduccion y notas de Walter Mettmann, Madrid, Clássicos Castalia, 1988, pp. 343-344.

Na p. 343,  Mettmann refere em rodapé:

S. M. dos Mártires: No encuentro documentado este nombre para la iglesia dedicada a la Virgen en Alcazár de San Juan.

Alcazár de San Juan (Ciudad Real).


Como citar este artigo:
PEREIRA, M. Teresa Lopes – “O Culto de Nossa Senhora dos Mártires em Alcácer do Sal, a Senhora da Cinta e as Cantigas de Santa Maria”. Medievalista [Em linha]. Nº6, (Julho de 2009). [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/. ISSN 1646-740X.