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ISSN 1646-740X

ano 5  ● NÚMERO 6  2009
ISSN 1646-740X

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9º Curso sobre Ordens Militares e Religiosidade

Luís Filipe Oliveira;
João Luís Fontes

Membros do IEM, FCSH-UNL
lfolivei@ualg.pt ; joaolfontes@hotmail.com

 

Nos passados dias 7 e 8 de Fevereiro de 2009, decorreu em Palmela mais um Curso sobre Ordens Militares. A organização coube ao Gabinete de Estudos sobre a Ordem de Santiago (GESOS) da Câmara Municipal de Palmela, que desde 1989 promove estes cursos destinados a quantos se interessam pela presença e pela acção das ordens militares no território português. Tal como vem sendo habitual, a edição deste ano contou com a colaboração de uma instituição científica — o Instituto de Estudos Medievais, sob a direcção do Prof. José Mattoso —, e dedicou-se a um tema mal conhecido e pouco estudado: a vida religiosa dos freires das ordens.

No texto que servia de apresentação, José Mattoso apontava já algumas das dificuldades inerentes ao estudo deste tema, dado o desaparecimento quase completo «dos testemunhos directos acerca das práticas religiosas, dos textos doutrinais e das leituras dos membros das ordens militares». Para se preencher tal lacuna, tarefa indispensável para compreender aqueles que se dedicavam à guerra externa por motivos religiosos, propunha que se realizasse «um primeiro levantamento das fontes disponíveis, das questões a esclarecer e dos métodos a utilizar». Era a melhor forma, dizia, quer para desbravar caminho numa área de investigação mais difícil, que requeria conhecimentos especializados e a reunião de muitas informações indirectas, quer para estimular, sobretudo entre os mais jovens, « investigações mais sistemáticas e completas».

Foi o próprio José Mattoso quem apresentou o tema e abriu o Curso. Na ocasião, insistiu na necessidade de entender a motivação religiosa dos freires — como sentiram e viveram o ideal de vida que os levou a professar — e de evitar as explicações, ou, melhor, os preconceitos, que reduzem o seu comportamento a motivos de ordem política, económica e social. Sugeria, pois, que têm muito de apriorístico, ou de grosseiro, as interpretações que defendem a secularização completa das ordens durante o século XV. O facto justifica-se, muitas vezes, por referência à decadência que teria caracterizado as instituições eclesiásticas nessa época, mas esquece os esforços de renovação religiosa que então se observam um pouco por toda a parte, e, também, nas próprias ordens militares. Com isso, mostrava o interesse desta área de investigação e convidava a interrogar de outra forma muitos dos testemunhos conhecidos.

Também procurou apontar alguns rumos de investigação. Mencionou, em particular, as temáticas que se cruzam com o universo da vivência religiosa das ordens militares, caso da difusão do ideal de guerra santa, ou da recepção da temática cavaleiresca pelos freires das ordens. E lembrou a necessidade de as analisar não só por meio da interrogação dos testemunhos directos, mas através da reconstituição da tradição e circulação dos textos a elas ligados, ou dos seus reflexos em fontes tão diversas como os epitáfios, as listas de bibliotecas e as actas de visitação. Os testemunhos materiais — arquitectónicos, iconográficos, litúrgicos, ou outros —, poderão também ser revisitados sob esta perspectiva, sobretudo se forem olhados e interrogados não apenas na sua materialidade, mas também na fundamentação teórica que lhes subjaz e lhes confere todo um outro alcance e eloquência simbólica.

A intervenção de Luís Filipe Oliveira situou-se igualmente nesta linha de preocupações. Após recordar aquilo que definia o essencial da vida religiosa dos freires, isto é, a opção de fazerem da guerra um instrumento do serviço de Deus, procurou inventariou as fontes para o estudo da religiosidade dos freires, a partir dos fundos documentais acumulados pelas milícias. Insistiu sobretudo nos textos desaparecidos, mas outrora existentes, nos testemunhos inéditos que se conservam nos arquivos e na necessidade de completar o inventário a partir de outros fundos. A esse propósito, mencionou a colecção dos Manuscritos da Livraria, cujo catálogo está longe de estar completo.

O segundo grupo de intervenções esteve a cargo de Hermínia Vilar e de Saúl Gomes e também se centrou na época medieval. Através dele, procurou-se indagar a relação das ordens com o poder episcopal e os horizontes espirituais abertos aos cavaleiros e freires das milícias. O primeiro aspecto foi tratado por Hermínia Vilar a partir dos dados recenseados para a diocese de Évora e trouxe diversas interrogações sobre a formação da rede paroquial e o enquadramento dos fiéis, a que só uma investigação dirigida poderá dar resposta. Foi com base numa releitura do Elogio da Nova Milícia de S. Bernardo que Saúl Gomes deixou diversas sugestões, sobretudo no que respeita à presença de textos doutrinários de referência nos diplomas exarados pelas chancelarias das ordens. Pelos dados que poderá proporcionar sobre as leituras dos freires, trata-se de um inquérito a prosseguir. Também apontou, por fim, a provável influência dos templários na Vida de S. Martinho de Soure, se bem que esse texto não faça parte da herança cultural da milícia.

Outro caminho de abordagem foi o dos cultos promovidos, acolhidos, ou apoiados pelas Ordens. O culto dos mártires foi tratado por Pedro Picoito, que o analisou como símbolo de identidade, e, em particular, como modelo de conduta para quem fazia a guerra por amor. O interesse dos freires por outras formas de vivência religiosa, mais exigentes, foi abordado por João Luís Fontes, a partir dos Eremitas da Serra de Ossa. Os dados que apresentou documentam uma ligação pessoal dos mestres de Avis e de Santiago com tais comunidades de anacoretas. Instalados em grande parte no território controlado por estas Ordens, os eremitas beneficiavam da sua protecção e do seu claro apoio, com a concessão de bens e a dispensa de uma atenta vigilância. Isso mostra, pois, que as aspirações religiosas não estavam ausentes do horizonte de vida dos freires.

Para o período moderno, coube a Fernanda Olival evocar os traços da religiosidade cultivada pelos freires e apresentar os elementos que, também por essa via, poderiam ser factores de distinção e de afirmação social. Os dados que deu a conhecer são particularmente significativos, uma vez que respeitam a um período caracterizado por profundas transformações no interior das Ordens Militares, após a sua definitiva sujeição à Coroa. De uma forma muito didáctica, que tinha em conta o público a que este Curso se destinava, esta investigadora procurou clarificar o estatuto dos freires e cavaleiros das Ordens nos séculos XVI-XVIII, bem como as formas de vivência religiosa por estes desenvolvidas, ou a eles associadas.

O Curso foi ainda pretexto para o lançamento das actas do V Encontro sobre Ordens Militares, realizado em Fevereiro de 2006, e para a apresentação da obra A Coroa, os Mestres e os Comendadores: As Ordens Militares de Avis e de Santiago (1330-1449). As Actas foram apresentadas por Maria Cristina Pimenta, tendo sido José Mattoso quem deu a conhecer a obra de Luís Filipe Oliveira, que corresponde à sua dissertação de doutoramento e que foi publicada pela Universidade do Algarve. No dia 8 de Fevereiro, o Curso terminou com uma visita a monumentos religiosos de Setúbal medieval e moderna, conduzida por José Custódio Vieira da Silva.

Pela qualidade dos intervenientes, e, sobretudo, pela ousadia do tema, o Curso foi uma iniciativa importante, que poderá fazer história ao abrir caminhos numa área onde os estudos mais escasseiam. Sem escamotear as dificuldades, nem as dúvidas e os problemas, nele se convocaram alguns contributos e várias sugestões. Apontaram-se sobretudo muitos rumos de investigação, alguns dos quais já começaram a ser trilhados, a par de outros que poderão vir a sê-lo num futuro próximo. Oxalá tragam novos dados para o conhecimento das Ordens Militares e da vida religiosa as caracterizava.

(Palmela, 7 e 8 de Fevereiro de 2009)