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ISSN 1646-740X

ano 5  ● NÚMERO 6  2009
ISSN 1646-740X

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Luciana Stegagno Picchio, tributo a uma Medievalista

Maria Coutinho
Membro do IEM, FCSH-UNL
maria1coutinho@gmail.com

 

Luciana Stegagno Picchio dedicou grande parte da sua vida aos Estudos Portugueses e Brasileiros, daí resultando centenas de trabalhos sobre cultura lusófona e uma longa amizade com o Brasil e Portugal. No caso deste último, e não raras vezes, esse interesse traduziu-se em luta convicta pelos valores da liberdade e democracia. Daqui, todo um país grato pela obra imensa e pela estima a esta sua “língua outra”. As inúmeras homenagens e reconhecimentos que ainda em vida lhe foram votados assinalam a expressão dessa gratidão consciente, uma procura de fazer a justiça possível à figura ímpar e ao legado científico herdado. Fica mais um contributo, simbólico.

Nasce em 1920 em Itália, Alessandria - Piemonte, no seio de uma família burguesa culta, o que lhe possibilita desde cedo o acesso à música e às artes e proporciona o contacto com escritores e artistas italianos e alemães que frequentavam a sua casa. O pai, advogado, de sólida formação clássica e ainda germanista, fluente em diversos idiomas, foi uma figura chave na sua educação sobretudo pela relação que tinha com a literatura. Colaborava com jornais publicando artigos sobre literatura alemã e traduzia e compunha poesia. Deste tempo, entre as lembranças de infância, fica-lhe o amor pela pintura, a prática de leitura e escrita e, muito provavelmente pelo contacto com interlocutores privilegiados, os alicerces das suas convicções políticas. Aos 15 anos viaja até Paris para aprender francês, ficando em casa de um tio que lhe oferece de presente Amor de Perdição de Camilo Castelo Branco, proporcionando-lhe assim o primeiro contacto com a Literatura Portuguesa.

Em 1941, em plena Segunda Guerra, a família muda-se para Roma e é daí que pela pressão das dificuldades inerentes ao conflito e pelas atrocidades que testemunha ou de que ouve falar, assoma a sua cultura de esquerda e uma profunda aversão ao fascismo, convicções que a acompanharão ao longo da vida. É também neste período, que conhece três jovens portugueses matemáticos, bolseiros em Roma. Este é um contacto que desencadeia um verdadeiro processo de aculturação, onde não só lhe é ensinada a língua e literatura portuguesas, como uma cartilha privilegiada de anti-salazarismo. Foi ainda à conta dessa amizade que durante semanas recebeu um pacote clandestino em casa, para se encarregar da sua distribuição: O jornal Avante. Finda a Guerra, e terminado o curso de Arqueologia na Universidade de Roma, trabalha aproximadamente 10 anos para a Embaixada portuguesa (Legação de Portugal), nomeadamente como tradutora. Neste período escreve alguns artigos para enciclopédias e recensões, publica traduções e é convidada a tratar temas portugueses na televisão e na rádio. Quando em 1956 viaja pela primeira vez a Portugal o seu trabalho é já bem aceite e conhecido, facilitando o contacto com inúmeros portugueses do meio académico que a recebem em Coimbra e em Lisboa como colega e amiga. Conhece, assim, grandes vultos da literatura e cultura portuguesas, muitos dos quais viriam mais tarde a ser interlocutores e amigos. Da viagem fica-lhe a confirmação do lugar duma nova pátria, um afecto como plataforma dum imenso trabalho em devir, mas não sem a perturbação de um cenário político desolador.

É depois convidada para trabalhar como redactora interna da Enciclopedia dello Spettacolo. Tirando partido dos sectores da sua responsabilidade, estuda a fundo o teatro em línguas ibéricas, nomeadamente o medieval, litúrgico e em latim vulgar, projectando-se, inconscientemente, uma futura História do Teatro Português. Começa ainda a aproximar-se da Universidade colaborando como assistente voluntária no Instituto de Filologia Românica. A sua visita ao Brasil em 1959 proporciona-lhe uma experiência fundamental e transformadora não só pelos contactos feitos no “III Colóquio Internacional de Estudos Portugueses e Brasileiros” , como pelo Congresso em si ou ainda pela descoberta cultural que a visita a Salvador da Baía representou. Neste período desenvolve diversas pesquisas sobre o teatro peninsular, sendo que a mais polémica e talvez mais conseguida tenha sido a que a levou ao Congresso da Baía em 1959 “o problema do arremedilho”, onde propõe uma brilhante síntese do modo como a partir de uma única informação contida num documento da Chancelaria de D. Sancho I se estabelece um género dramático dentro do filão profano. Esta vai ganhando corpo e forma através dos estudos de Teófilo Braga e Carolina Michaëlis, concluindo que o termo remete para uma acção, sendo um equivalente de “imitação grotesca” ou de “macaquear” (imitar alguém de modo jocoso), não significando representar uma farsa ou um entremês típicos da tradição dramática portuguesa. Deste modo se desfaz a lenda do arremedilho como primeiro género dramático português pré-vicentino.

Ainda no ano de 1959 é convidada a dar aulas em Pisa, na Faculdade de Letras, onde fica como Professora de Língua e Literaturas Portuguesas até 1968, altura em que ganha um concurso para a Universidade de Roma. Em Roma lecciona de 1969 até 1996, chefiando durante várias décadas o Departamento de Língua e Filologia Românica. Contudo, é no ano de 1968 que vive uma das suas experiências mais marcantes: o linguista Roman Jakobson desafia-a para um estudo sobre o texto português, e a ligação perpetuar-se-á até à morte de Jakobson em 1983. A colaboração com o linguista representará uma transformação muito profunda da sua posição filológica, claramente afirmada a partir de “A Lição do Texto”. Socorrendo-se de Machado de Assis que coloca em epígrafe em jeito de painel de abertura, alegará que nos seus estudos compreende todas as posições críticas e vários métodos, sob a convicção de só assim atingir um trabalho completo captativo da verdade, no passado e no presente. A partir daqui a Filologia dilui-se como disciplina e afirma-se como ordem filosófica à procura da verdade num sentido total, absoluto, na vida até mais do que nos textos literários, como dirá. O filólogo é proposto como crítico e o comportamento filológico é entendido como actividade crítica em toda a sua extensão: uma atitude com uma constante fixável no contínuo processo de adequação (com a rigorosa verificação de todos os dados, ou de tudo o que se presume dado) a uma determinada situação histórica que se pretende «reconstruir». A sua postura metodológica e as técnicas que usou têm a marca de uma herança jackobsiana, aliás por ela reafirmada amiúde depois dos trabalhos que com ele desenvolveu.

Luciana Stegagno Picchio foi membro de inúmeras Academias, entre as quais a Academia das Ciências de Lisboa, como correspondente desde 1975, era ainda Doutor Honoris Causa de várias universidades, nomeadamente da Universidade Nova de Lisboa. Foi professora visitante em Portugal, no Brasil, nos Estados Unidos e em vários outros países.

A sua longa carreira de trabalho estudo e divulgação das línguas, literaturas e culturas portuguesa e brasileira, compreende cerca de 500 trabalhos que atestam o seu fascínio pela cultura lusófona, valeu-lhe uma série de reconhecimentos públicos pelo seu trabalho em Portugal e no Brasil ainda em vida. Em 1988 recebe o colar da ordem de Santiago de Espada e em 2001 é-lhe feita uma grande homenagem pelo Instituto Camões que aproveita a ocasião para lançar a sua fotobiografia A Língua Outra – Luciana Stegagno Picchio uma fotobiografia, da autoria de uma das suas discípulas, Alessandra Mauro, e para a entrega do “Diploma de Mérito” como forma de reconhecimento pela dedicação a uma outra língua que não a sua.

Luciana Stegagno Picchio morreu a 28 de Agosto de 2008, com 88 anos. Será recordada com saudade e agradecimento pela sua faceta humana que se caracterizava por uma crença profunda nos valores da democracia, e ainda por uma disponibilidade exímia para albergar os perseguidos, valores alimentados com rigor desde cedo pelo pai e amigos de família. É talvez este seu lado humano que dignifica e torna único o seu trabalho em filologia, do qual, aliás, não se pode dissociar, ‘o estudo filológico da obra de arte literária tem a função de contribuir no seu sector de conhecimento para a formação da consciência que cada época tem do passado, e portanto de si mesma.’