Veremos que alguns textos, independentemente das tradições textuais em que se integraram e das expressões culturais que lhes deram origem (cristã moçárabe, cristã não-moçárabe ou islamo-árabe), estavam unidos pelo facto de compartilharem algumas das suas fontes.
II. Especificidades da Cultura Moçárabe
A ‘translacção’ cultural moçárabe apresentou características próprias, as quais evidenciam sinais de um claro hibridismo cultural. Ao nível dos conteúdos são identificáveis - em primeiro lugar -, marcas de uma natural continuidade em relação ao que vinha do anterior período visigótico, e mesmo romano, pelo facto de os autores moçárabes continuarem sendo cristãos, como também o tinham sido os letrados visigodos, principalmente os que se conhecem como contemporâneos ou posteriores a 589 [4]. Em segundo lugar, reconhecem-se, por vezes, também a incorporação de excertos provenientes de fontes árabes, facto também natural atendendo à sociedade em que os moçárabes estavam integrados.
Um outro aspecto importante sobre o papel dos moçárabes foi a contribuição que deram às traduções que foram feitas do latim para o árabe[5].
Ao nível do discurso literário em si mesmo, parece constatar-se uma certa deriva que fez com que a inicial utilização do latim viesse a ser posteriormente substituído pelo idioma árabe[6].
Outra característica da literatura moçárabe é o anonimato quase geral dos seus autores. As obras surgem geralmente identificadas como Crónicas reportada a uma certa data, como no caso da Crónica Moçárabe de 754, ou a um determinado assunto. Não se lhes conhecem os autores, ou qualquer dado seguro a eles referente. Têm sido aventadas hipóteses, a maioria das vezes relativas às possíveis origens locais ou, quando muito, regionais, dos textos, atendendo geralmente às características textuais apresentadas.
III. Álvaro de Córdova e os meios letrados moçárabes dos séculos IX e X
Há, no entanto, uma figura que consideramos de importância em todo esse conjunto, mais ou menos nebuloso, da produção literária moçárabe. Trata-se de Álvaro de Córdova [7]. Embora não tenha sido, pelo que se sabe, autor de nenhuma obra de cariz historiográfico, os seus interesses e combatividade pela sobrevivência da cultura cristã peninsular fizeram-no ter interesse pelos textos antigos, alguns dos quais estudou e comentou [8].
A emergência dramática do cristianismo em meados do século IX, na qual Álvaro de Córdova foi um dos principais intervenientes, acabou por dar origem, no seu extremo mais radical ao chamado ‘movimento dos mártires de Córdova’ [9]. Mas deu origem também a iniciativas literárias, às quais não é difícil reconhecer também um carácter apologético, em especial na circulação dos textos chamados ‘proféticos’ ou ‘pseudo-proféticos’, os quais, desde o século VIII, vinham propagando a ideia de que o fim do domínio islâmico estaria para breve[10].
Assim, entre os finais do século IX e o início do segundo quartel do século X, é extremamente significativa a tradução das Historias de Orósio de latim para árabe. Aquela tradução da obra de Orósio terá sido levada a cabo pelo filho do mesmo Álvaro, Hafs ibn Albar (sendo ‘Albar’ a forma arabizada de Álvaro), então o Juiz dos cristãos cordoveses[11].
O filho de um dos principais mentores das insurreições moçárabes de meados do século IX optou, assim, por uma metodologia de manutenção da cultura cristã-latina (aquela que seu pai já identificava como em clara decadência [12]), através da tradução para árabe daquela obra basilar da cultura medieval em geral, mas também, e especialmente, da cultura hispano-medieval.
Era, portanto, evidente que, pelo menos nas comunidades moçárabes dos grandes meios urbanos, o nível de arabização dessas mesmas comunidades seria praticamente completo: era-lhes mais fácil ler Orósio em árabe do que em latim[13].
Será um aspecto quase sintomático: sempre que o poder islâmico se apresentou debilitado, paralelamente recrudesceu nos meios moçárabes a apologia da Hispânia, associada à tristeza pela perda do seu domínio, por parte dos cristãos[14].
IV. Crónica Moçárabe de 754 (CM 754)
A chamada Crónica Moçárabe de 754 (também conhecida como Continuatio Hispana)[15] é uma obra que terá sido composta em meados do século VIII, se atendermos àquela primeira forma que envolve uma datação.
É, portanto, contemporânea da crise que na Península se prolongou pela década de 40 e que acompanhou, na década seguinte, a trágica mudança da dinastia califal no oriente, quando os Abássidas destronaram e massacraram os depostos Omíadas[16].
Este texto reflecte de alguma forma, do ponto de vista cristão, a maneira como então aquela crise foi sentida em terras da Hispânia.
Historicamente a CM 754 é um dos poucos, e por isso tão importantes, textos cristãos peninsulares que se conhecem, e que foram compostos no período que medeia entre o reinado do monarca visigodo Wamba e o reinado do rei Afonso III das Astúrias, ou seja durante um lapso temporal de, pelo menos, dois séculos[17].
A instabilidade político-militar que tinha tomado conta do espaço hispânico sob a autoridade islâmica, desde 740, com as revoltas berberes, veio a radicalizar-se após o derrube dos Omíadas em Damasco. Aquele conjunto de circunstâncias fez surgir, ou ao menos recrudescer, nos meios cristãos, a circulação e divulgação de textos pseudo-proféticos, com cariz mais ou menos esotérico, e que prognosticariam o fim breve do domínio islâmico na Península.
Esta Crónica, de autor desconhecido, tem sido vista como produto de um círculo letrado moçárabe, sem que, no entanto, os investigadores tenham chegado a algum consenso quanto à sua origem. Já lhe foi atribuída origem cordovesa[18], toledana[19] e até eventualmente murciana[20].
Entre as fontes que foram utilizadas para a sua redacção contam-se a Crónica de João de Santarém ou de Bíclaro, na sua versão de 742, e a chamada Crónica Arábico-Bizantina de 741[21].
A utilização posterior da CM 754, constatar-se-á mais tarde como fonte da Crónica Pseudo Isidoriana, numa última redacção ainda efectuada em meios moçárabes[22]; e já no período da ‘reconquista’ castelhano-leonesa na obra de Rodrigo Ximénez de Rada, como veremos adiante.
Uma particularidade textual que se verifica na CM 754 é o facto de integrar um novo elemento discursivo, de evidente origem cristã, e que fez história, pois continua a encontrar-se em textos de séculos posteriores.
Este elemento do ‘dolo’ vem a constatar-se já em pleno século XIII em obras de Rodrigo Ximénez de Rada e de Afonso X, respectivamente, De Rebus Hispaniae e Primera Crónica General, que vieram a ser compostas cerca de meio milénio depois da redacção da CM 754 [23].
O que tem sido designado como ‘Dolo’ ou ‘Dó da Hispânia’ é um discurso lamentoso, uma narração triste e dolorosa em que se relata que, em consequência do desaparecimento do Reino Visigodo e da instalação do poder islâmico na Hispânia, se tinham abatido sobre este extremo do mundo todas as desgraças e inclemências[24]. É o pranto pelo ‘Paraíso Perdido’, que urgia recuperar[25].
Este ‘dó’ tinha uma função semelhante à da ‘laude’, ambos produzindo um efeito de exortação. No caso em que ambos se conjugam e complementam o efeito ganha muito maior impacto. A diferença essencial entre ambos é que a ‘laude’ exorta através da criação de uma exaltação positiva resultante de uma evocação da unicidade espacio-temporal da memória hispânica; enquanto o ‘dó’ busca fazer surgir um sentimento negativo, resultante da evocação da diferença, do ‘outro’, e da condição ‘estrangeira’ do último e mais recente dos possessores da Hispânia, apresentando assim a sua ilegitimidade para nela continuarem [26].
O ‘dó’ ou ‘dolo’ terá sido o elemento emocional, o motor de arranque, da chamada ‘Reconquista’ que se foi elaborando posteriormente, em forma argumentativa, e enquanto discurso legitimador[27].
V. Kitāb Hūrūšyūš (KH) [O Livro de Orósio] (Sécs. IX-X)
As Histórias contra os pagãos, de Orósio, cerca de meio milénio depois da sua redacção, como já observámos em II.2., continuavam sendo uma referência-base de grande importância para a construção da memória hispânica. O Kitāb Hūrūšyūš (O Livro de Orósio) foi a ‘ponte’ através da qual muitos dos conceitos e memórias da Antiguidade Tardia relativamente à Hispânia, acabaram entroncando na cultura hispano-árabe. Trata-se, na sua origem, de uma tradução do latim para árabe das Histórias de Orósio[28], obra considerada como uma matriz da historiografia medieval[29] e de grande importância para esta Finisterra, por ser o autor da mesma um hispânico e a obra em causa dar um lugar especial à Hispânia[30].
Até há pouco tempo esta tradução da obra orosiana era entendida como fruto de um trabalho de equipa, equipa essa dirigida, pelo Qādī (juiz) muçulmano Qāsim ibn al-Asbaġ e constituída também pelo Juiz dos cristãos, um moçárabe ainda não identificado com segurança[31]. O texto latino em causa teria chegado a Córdova como oferta do Basileus de Constantinopla aquando de uma embaixada bizantina a al-Andalus[32]. O único ms. conhecido da tradução árabe de Orósio foi identificado há relativamente poucos decénios, em 1931, por I. Kratchkovsky[33]. Mas só em 1939 se pode dizer que foi então integrado nos meios científicos internacionais, pela mão de Levi Della Vida[34]. Deste ms. são conhecidas apenas duas edições, e algumas referências em artigos e obras mais gerais[35]. No mais recente estudo e edição da obra, da autoria de Mayte Pénelas[36], esta investigadora veio recolocar a questão da autoria da tradução, não apenas em relação aos seus executantes, mas também à metodologia da própria tradução e também ao círculo cultural que lhe deu origem; e, ainda, às motivações que tinham levado a que a mesma tradução tivesse vindo a acontecer.
Em função de tudo isto também é questionada a própria proveniência do texto latino que foi traduzido. Até então esta tradução tinha sido considerada como o trabalho de uma equipa de tradutores que se situava culturalmente junto ao círculos do novo poder califal. O objectivo ou objectivos da mesma poderiam ser um de dois, ou ambos em conjunto: enriquecer a biblioteca do príncipe al-Hakam, futuro califa e famoso bibliófilo; ou proporcionar um texto-matriz árabe que pudesse vir a ser utilizado na elaboração posterior de obras historiográficas articuladas com o novo regime e a nova ideologia califal. Facilmente se constata que qualquer um dos objectivos não exclui o outro, antes se podem interrelacionar estreitamente[37].
Segundo Mayte Pénelas tratou-se afinal de uma tradução levada a cabo por Hafs ibn Albar, o filho de Álvaro de Córdova, então juiz dos cristãos da capital omíada. Ou seja, a acção de um juiz dos cristãos parece, portanto, confirmada. O mesmo já não acontece com as demais anteriores conclusões[38] que colocavam a possibilidade de Ibn al-Asbagh ter participado naquela empresa literária.
Pela sua condição de interlocutor privilegiado junto da corte, em nome dos cristãos cordoveses, Hafs ibn Albar seria um homem já culturalmente bilingue, pois falaria e escreveria o latim mas também o árabe, e a prova desse seu domínio da língua arábica seria, de forma patente, esta mesma tradução[39].
Quanto à execução da mesma tradução a investigadora não aventa neste caso a proposta de que a mesma tivesse sido obra de uma ‘equipa’, pelo que teria sido muito possivelmente uma tradução levada a cabo apenas por um único homem, o filho de Álvaro de Córdova.
De forma semelhante à que identificámos supra quando referimos a CM 754, também aqui encontramos uma época de crise política em al-Andalus coincidindo com a produção de uma obra importante oriunda dos meios letrados moçárabes.
Na CM 754 foi a crise que decorreu entre 740 e 756; e neste caso coincide com o bastante mais longo período das autonomias muladis, que durante mais de meio século[40], em especial no ocidente e no sul da Hispânia islâmica, eram a prova evidente da debilidade da autoridade política e militar dos emires de Córdova.
A herança cultural cristã procurava, pois, revivificar-se através de uma ‘rememorização’ de obras importantes da herança romano-visigótica, e, entre elas, a obra de Orósio, talvez a mais emblemática dos primórdios da cultura cristã hispânica.
Tratar-se-ia, pois, de mais um contributo para o espírito de resistência e de sobrevivência cultural das comunidades moçárabes.
No entanto aquela resistência já assumia formas aculturadas, pois apesar de haver a transmissão de uma memória cristã, a que acrescia o facto de ter origem hispânica, aquela transmissão já não se podia fazer em latim, tendo de ser feita em árabe.
A moçarabização, ou mais especificamente o grau de ‘arabização’ entre os cristãos peninsulares, estaria já muito avançada, em especial entre aqueles que residiam nos meios urbanos.
Ainda segundo Mayte Pénelas a questão que envolveria a chegada do texto das Histórias através da embaixada bizantina deixaria também de se colocar. Entende tratar-se afinal de um equívoco relacionado com outras ofertas de manuscritos pela mesma embaixada, mas em que não estaria integrada a obra de Orósio[41].
Segundo esta autora as Historias contra os pagãos nunca teriam deixado de ser conhecidas e de circular na Hispânia, inclusive nos círculos letrados moçárabes[42]. E o facto de Hafs ibn Albar a ter conhecido e utilizado, tendo-a encontrado possivelmente entre os textos que tinham sido propriedade de seu pai, e de a ter transposto para a língua árabe, evidencia-nos, de facto, essa presença.
Ainda assim o texto árabe que hoje conhecemos do Kitāb Hūrūšyūš (O Livro de Orósio em árabe)[43] não corresponde a uma mera tradução do texto latino das Histórias tal como genericamente é conhecido. Trata-se, ele mesmo, já de uma compilação textual, pois integra contribuições que provêm de fontes distintas das do texto matricial orosiano[44].
Um pormenor, sem dúvida importante, e que, como exemplo, é revelador de alguma da metodologia utilizada na tradução / compilação, é o facto de o tradutor ter importado para a sua obra a estrutura textual da Chronica maiora de Isidoro de Sevilha, e não a que se constata nas mesmas Histórias de Orósio[45].
O KH veio a ser uma das fontes utilizadas por Aĥmad al-Rāzī para a sua obra perdida Akhbār Mulūk al-Andalus (Notícias acerca dos Monarcas de al-Andalus), certamente usada no apartado geográfico do seu trabalho, e que é o que mais especialmente nos interessa.
O mesmo KH veio a ser usado mais tarde, no séc. XI, por al-Bakrī na sua obra geográfica Al-Masālik wa-l-Mamālik (As Vias e os Reinos)[46]. A utilização do KH quer por al-Rāzī quer por al-Bakrī levanta importantes questões textuais que abordaremos em II.5.
VI. Crónica Pseudo-Isidoriana (CPs-I) (Séc. X-XI)
Obra que levanta vários problemas, em virtude de não se lhe conhecer o autor, o qual, sendo conhecido, ajudaria, com certeza, a datar, por aproximação, o período em que surgiu a obra em causa e a situar espacialmente o seu aparecimento.
Assim, relativamente a esta obra, quer a sua datação aproximada, quer a região da sua elaboração são questões importantes e ainda não sanadas[47].
Tendo sido entendida como uma continuação da obra de Isidoro de Sevilha, tal facto deu origem à designação que surge no ms. de Paris: Cronica Gothorum a sancto Isidoro edita [48]. Mais recentemente, veio a fixar-se a sua denominação em Chronica Gothorum Pseudo Isidoriana [49] ou simplesmente Crónica Pseudo Isidoriana (CPs-I) [50].
Diversos autores que trataram este tema têm feito diferentes propostas no que toca à época da redacção desta Crónica[51]. Ramón Menéndez Pidal num primeiro momento entendeu tratar-se de uma obra compilada na primeira metade do século XI[52], seguindo Mommsen e Cláudio Sanchez-Albornoz[53], para depois se fixar na primeira metade do século X[54]. Levi Della Vida apontou, como possível época de redacção, o final do século XI[55].
Pela nossa parte, cremos que todos têm uma parte de razão nas propostas que fazem. Assim, quanto a nós, a CPs-I será o resultado final de uma evolução textual que se foi processando ao longo dos séculos IX a XI. Seria um conjunto de textos que circulavam entre os letrados moçárabes e que foram sofrendo retoques e acrescentos, principalmente durante os períodos críticos, como foi o das autonomias muladis que tiveram lugar entre o último terço do século IX e o primeiro do século X ou a crise que levou à desagregação do Califado e ao início das Taifas[56]. E, por último, e num cenário e numa lógica completamente diferentes, durante o período de resistência cultural que os moçárabes hispânicos protagonizaram na segunda metade do século XI[57] e no início do século XII, contra o cada vez maior predomínio do cristianismo romano e cluniacense, o qual acabou por vencer e levar, por parte das monarquias cristãs hispânicas, ao abandono do rito visigótico-moçárabe[58].
Atendendo ao cada vez maior grau de arabização dos moçárabes, a sua língua literária teria passado a ser o árabe, e nesse idioma terá sido ainda redigida a última versão da CPs-I.[59]
Enquanto texto, mantém ainda mais um outro conjunto de questões relacionadas com a forma como a CPs-I se articulará com o KH e com o LR, atendendo a algumas grandes semelhanças textuais entre todas. Nenhuma delas depende directamente de qualquer uma das outras,
KH = CPs-I ≠ LR |
LR = CPs-I ≠ KH |
CPs-I = LR ≠ KH |
sendo de admitir a existência de um texto que serviu de fonte a todas e foi diferentemente aproveitado pelos autores; ou poderá ainda ter existido uma outra possibilidade, a qual abordaremos em seguida.
A génese destes textos parece ter-se dado durante a primeira metade do século X: o KH [60] e a CPs-I [61] ligados ao espírito de resistência cultural moçárabe; e o LR, na sua versão primeira, das mãos dos al-Rāzī, ligado às memórias califais, mas iniciado por Aĥmad al-Rāzī, ainda no reinado de ‘Abd al-Rahmān III [62].
Sabemos que quer a CPs-I quer o LR foram alterados nos séculos seguintes. A CPs-I presumivelmente, e com a sua versão final no último terço do século XI[63]; o LR, seguramente, refundido por Ibn Ġālib no terceiro quartel do século XII [64].
Admitamos pois que o KH seja portanto a obra menos alterada desde a sua redacção / tradução, algures entre os finais do século IX e o primeiro terço do século X. Sem pretendermos formular uma conclusão, porque não cremos que existam dados para tal, queremos ainda assim levantar esta questão: sabendo-se que al-Bakrī também usou o KH e que al-Bakrī foi usado por Ibn Ġālib para redigir a sua obra, matriz do LR, e que a CPs-I pode também ter tido al-Bakrī como uma das suas fontes, ao menos na altura da sua tradução, já no século XII, então a compilação árabe desconhecida que deriva do KH e que foi usada quer pelo LR quer pela CPs-I poderá ser a obra de al-Bakrī [65].
É apenas mais uma proposta, que futuramente poderá vir a ser confirmada ou não, mas não é aqui o momento nem o local para esse estudo.
Admitir que a CMR não depende directamente da obra dos al-Rāzī e tomar esta hipótese anterior como uma conclusão de trabalho são pressupostos que poderão ajudar a clarificar situações textuais que envolvem quer os textos árabes quer as crónicas moçárabes e não só.
Compilada a CPs-I em ambiente moçárabe, usou entre as suas fontes a CM 754, a Historia Gothorum de Isidoro de Sevilha[66]; também se constatam passagens de João de Santarém e de Orósio, entre os autores hispânicos[67], e ainda usou os códices moçárabes das Nomina Sedium[68].
Trata-se, no seu conjunto, de uma síntese da História Hispânica, desde Noé até à invasão árabe, sendo introduzida por uma descrição geográfica da península[69].
VII. As Nomina Sedium moçárabes
Outras fontes importantes, também de mão moçárabe, e que não podemos deixar de referir são as chamadas Nomina Sedium, listas das divisões eclesiásticas da Hispânia, que embora compostas já durante o período de domínio islâmico, perpetuavam as divisões espaciais da igreja visigótica.
A criação daquelas circunscrições eclesiásticas era tradicionalmente atribuída ao imperador Constantino[70] e a memória dessa mítica origem acabou passando mesmo para os textos árabes[71].
Existem três códices moçárabes, anónimos, que foram recolhidos e editados por Simonet: o códice ovetense do Escorial, escrito em 780; o códice moçárabe do século IX; e o códice conciliar da Biblioteca Nacional de Madrid[72].
Todos aqueles códices provirão da chamada “divisão de Wamba”, texto que descreve uma repartição e definição dos limites entre as diferentes dioceses hispânicas. O texto primitivo dessa divisão remete para o rei Wamba, rei visigodo que reinou entre 672 e 680 [73] e que presidiu a um Concílio onde se teriam reunido todos os bispos da Hispânia[74].
Aqueles códices moçárabes atrás citados serviram, mais tarde, de fontes, num caso ainda em meio cultural moçárabe, ao compilador da CPs-I e, já no século XIII, no meio cultural da monarquia leonesa, à Chronica de Lucas de Tuy [75].
Apesar da sua origem moçárabe as Nomina também foram utilizadas por autores hispano-árabes. Uma das utilizações mais extensas das Nomina é a que remeterá para Aĥmad al-Rāzī, e que Ibn Ġālib terá mantido. Al-Bakrī também as utilizou, chamando-lhe ‘de Constantino’[76].
E uma prova evidente dessa utilização aconteceu após a conquista de Valência por Jaime I o Conquistador, rei de Aragão, em 1239. Existindo uma disputa entre Toledo e Tarragona relativamente ao bispado de Valência então recém-restaurado, os nome dos dois al-Rāzī e de al-Bakrī foram citados como autores de obras passíveis de serem usadas como critérios para ajudar naquela delimitação das arquidioceses. As obras daqueles autores acabaram mesmo por ser utilizadas e, em virtude das informações nelas contidas, ficou então comprovado que Valência, no período visigótico, era um bispado sufragâneo de Toledo, e não de Tarragona[77].
VIII. Conclusão
A cultura moçárabe, foi, enquanto existiu, produto da herança cultural hispano-visigoda em contínua relação e consequente aculturação com a cultura islamo-árabe que se instalou na Península Ibérica.
Uma das principais razões da sua existência e, eventualmente, o principal valor da sua identidade, foi o da resistência aos poderes hegemónicos que se lhe foram impondo. Foram de alguma maneira os herdeiros de uma cultura intrinsecamente hispânica, a qual se assumira politicamente com a acção unificadora da monarquia visigótica, e culturalmente fora elevada a hino laudatório por Isidoro de Sevilha
Mas, também, por outro lado, e apesar da existência de fronteiras políticas e diacrónicas, apercebemo-nos de que não houve realmente fronteiras culturais entre a Hispânia visigótica, o al-Andalus hispano-árabe e a Hispânia neo-goda.