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ISSN 1646-740X

estudosmedievais@fcsh.unl.pt

ano 4  ● número 4  ● 2008

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Recensão

Caroline Walker Bynum,

Wonderful Blood – Theology and Praxis in
Late Medieval Northern Germany and Beyond
,
University of Pennsylvania Press, Philadelphia, 2007.

 

Gilberto Coralejo Moiteiro
ESTM-IPL

Caroline Walker Bynum quase dispensa apresentações. O seu extenso currículo tem-se centrado na compreensão da cultura europeia durante o período medieval com particular ênfase nas temáticas associadas à história da espiritualidade. Desde os anos 70, o nome daquela historiadora americana tem figurado em cerca de uma trintena de estudos que cobrem uma cronologia bastante variada e que vai desde os primeiros séculos da Idade Média até ao seu desfecho, dos quais destaco Jesus as Mother: Studies in the Spirituality of the High Middle Ages (University of California Press, Berkeley e Los Angeles, 1987), Holy Feast and Holy Fast: The Religious Significance of Food to Medieval Women (University of California Press, Berkeley e Los Angeles, 1987), Fragmentation and Redemption: Essays on Gender and the Human Body in Medieval Religion (Urzone Publishers, Nova Iorque, l991), The Resurrection of the Body in Western Christianity, 200-1336 (Columbia University Press, Nova Iorque, l995), Metamorphosis and Identity (Zone Books, Nova Iorque, 2001) e, mais recentemente, o título indicado em epígrafe. Caroline Walker Bynum é, desde 2003, Professor of European Medieval History no Institute for Advanced Study, da School of Historical Study, em Princeton (New Jersey), encontrando-se neste momento a trabalhar sobre o lugar dos objectos na religião tardo-medieval, à luz das teorias sobre o milagre e a materialidade.

No seu mais recente livro, Bynum retoma o tema que a vem a ocupar desde há alguns anos, o do sangue de Cristo na teologia e devoção cristãs naquele a que ela chama o “longo século XV”, entendido como o período que se estende entre as últimas décadas do séc. XIV e as primeiras do séc. XVI, aquele em que, tanto no discurso dos letrados como na praxis religiosa dos fiéis, o sangue assumiu contornos de uma relevância nunca antes conhecida. O mote para o seu estudo reside no facto de, a partir do séc. XIII, a devoção ao sangue de Cristo ter proliferado na literatura e na iconografia e na constatação de um fenómeno marcadamente setentrional. Daí que tome as regiões alemãs do Brandenburgo e do Mecklenburgo como estudo de caso, uma vez que elas conheceram uma elevada concentração de locais de culto que atraíram fluxos significativos de peregrinos em busca de contacto directo com relíquias do sangue de Cristo e hóstias ensanguentadas.

A historiografia tem interpretado o facto à luz de condicionalismos de ordem política, de poder e controlo, ou associado a uma piedade mecânica e quantitativa. Bynum alega que o fenómeno não traduz tanto motivações de carácter disciplinar, político ou eclesiológico, mas antes soteriológico e ontológico. Para ela, o sangue de Cristo desempenhou uma tripla função simbólica, objectiva e doutrinal que encapsulou todo um conjunto de ansiedades, complexidades e contradições quatrocentistas. O argumento funda-se numa perspectiva segundo a qual a religião é explicada pela religião, a cultura através da própria cultura e propõe essa abordagem como método. A autora aconselha a questionarmo-nos acerca da forma como as assumpções religiosas fazem compreender a sociedade. Sem pretender substituir um determinismo por outro, sugere o estudo dos paradoxos e complexidades nas concepções religiosas medievais como mote para o levantamento de novas problemáticas acerca de temas como a família, a sociedade ou a política.

Ao apresentar o estado da questão, Caroline Walker Bynum opõe a sua interpretação às três correntes principais que têm visto o furor face ao sangue de Cristo nos finais da Idade Média ora como Eucaristia, ora como sintoma de uma sociedade marcada pela violência ou enquanto reflexo de dicotomias estruturais como masculino/feminino, dentro/fora, cultural/natural, puro/poluído, bom/mau. Segundo ela, a linguagem do sangue deverá antes ser entendida numa semiótica mais associada à ideia de sacrifício do que de comunhão eucarística, reflectindo uma piedade que equilibra crueldade e conforto, graças ao poder sacralizador do sangue e não tanto como sintomático de violência ou de dicotomias que a documentação não confirma. No entanto, toma em consideração as teorias que vêem na devoção ao sangue um instrumento de controlo clerical ou a projecção da culpa cristã em determinados grupos marginais expiatórios.

Na primeira parte do seu livro, Bynum analisa os factos. Toma como objecto de análise os cultos ao sangue que se disseminaram um pouco por todo o Norte da Alemanha nos séculos XIV e XV. Do conjunto, houve um que mereceu um destaque especial, pois para além de constituir o principal centro de peregrinação, suscitou inquéritos, visitações e disputas teológicas que se prolongaram até à primeira metade do séc. XVI: Wilsnack, onde, em 1383, três hóstias terão sobrevivido intactas a um incêndio na igreja local, bem como à água da chuva que o extinguiu, um milagre reforçado pelo surgimento de uma gota de sangue que permaneceu no centro de cada uma. Para a autora, a propagação de semelhantes centros de peregrinação deve-se à difusão do culto ao sangue de Cristo, particularmente junto de movimentos flagelantes e heresias que viam no sangue um meio privilegiado de salvação. A cronologia do fenómeno naqueles territórios do Norte é, no entanto, mais lata. Ela remonta aos finais do séc. XII, expandindo-se fortemente durante os sécs. XIV e XV, e conhece duas tendências evolutivas principais: na tipologia do objecto sagrado e na causa da manifestação sagrada. O objecto do culto é, numa primeira fase, a relíquia de sangue, substituída paulatinamente pela hóstia ensanguentada. Esta deve-se, por sua vez, e nos primeiros tempos, a profanações infligidas por cristãos, estando rodeada por uma retórica menos acusatória do que aquela que, no período tardo-medieval, marcaria as narrativas que atribuíam os sacrilégios a judeus, de contornos muito mais brutais.

A historiografia tem visto neste fenómeno razões de ordem política e económica. Caroline Walker Bynum acrescenta-lhe motivos puramente religiosos, como a necessidade de provar a presença integral do corpo e do sangue de Cristo na hóstia consagrada, para responder à dúvida e descrença dos próprios cristãos. A culpa que daí advém é, no entanto, canalizada para os judeus, num misto de anti-semitismo e de projecção da dúvida religiosa. Por outro lado, a autora argumenta que o fenómeno a que se assiste no Norte da Alemanha não é tanto o da substituição das relíquias pela Eucaristia, como alguns defenderam, em que o visual substitui o táctil, mas antes a passagem da relíquia de sangue para a hóstia milagrosa, no fundo, a substituição de um objecto sagrado por outro. O facto de este fenómeno se mostrar marcadamente setentrional deve ser igualmente explicado à luz da escassez de relíquias de santos e mártires no Norte, que abundam no Sul da Europa. O meio mais eficaz é trazer à terra a presença real do próprio Cristo, relíquia das relíquias, palpável no seu corpo e, especialmente, no seu sangue, espécies divinas não veladas pelo pão e pelo vinho. Mas o sangue de Cristo não aparece na hóstia inusitadamente, ele precisa de um facto dramático (abuso, profanação, violação, incêndio) para se manifestar o divino, numa lógica de sacralização do dessacralizado. Nesta acepção, o sangue é o resultado da dor e a prova da vida, numa associação directa à salvação alcançada pelo sofrimento de Cristo na cruz. O próprio texto bíblico se encontra gasto, fruto de uma certa habituação, conduz à negligência e à desvalorização. Um sofrimento mais próximo faz ressurgir o sentido do próprio factum por excelência. Não é por acaso que, quando se manifesta, o sangue é vivo, fresco, líquido, vermelho e quente. A profanação reforça o carácter sagrado do objecto sagrado. Qual felix culpa, é o mal que provoca a revelação do divino, antevendo-se aqui a sua função pedagógica.

Na segunda parte, Caroline Bynum analisa os debates teológicos que se desenrolaram ao longo da Idade Média em torno da problemática do sangue de Cristo. Tratam-se tanto de apontamentos marginais como de tratados redigidos antes dos factos sucedidos nos territórios alemães, remontando ao séc. VII, que conhecem um maior desenvolvimento a partir do séc. XII e particularmente no séc. XV. A autora assinala três linhas de análise: disputas acerca de visões eucarísticas e hóstias transformadas; debates sobre a possibilidade teórica de relíquias do corpo de Cristo e sobre o estado do sangue por Ele derramado no Calvário durante o triduum mortis. Bynum conclui que a teoria da concomitância, desenvolvida a partir do séc. XI, serviu para explicar como Cristo se mantém integer et totus em cada missa, em cada lugar e momento, em cada partícula da espécie consagrada. Ela é reforçada quando, a partir do séc. XIII, o cálice é paulatinamente retirado aos leigos, para lhes mostrar que, ao comungarem da hóstia, os fiéis recebem tanto o corpo como o sangue do Salvador. A retirada do cálice faz, no entanto, crescer ainda mais o sentido do poder do sangue e os milagres de sangue – visões eucarísticas e hóstias ensanguentadas –, que constituíram simultaneamente a resposta e a ilustração do paradoxo da presença invisível de Cristo na hóstia e da sua presença visível no Paraíso, numa lógica de presença/ausência. Já no que toca à questão da possibilidade de Cristo ter deixado na terra porções do seu corpo, as opiniões dos teólogos são bastante diversificadas, embora a maioria a admita. Todos integram o contexto teológico da questão na doutrina da Ressurreição Final e todos fazem uso da teoria fisiológica para determinar o que realmente constitui a verdadeira natureza humana, a qual ressuscitará no fim dos tempos, à semelhança do que sucedeu a Cristo. O cerne dessas explicações é encontrado no sangue. Todos concluem que ele é presença e ausência e, reconhecendo o seu significado soteriológico, justificam a necessidade devocional e pastoral do seu culto. Mas há vozes que se levantaram no séc. XV – como a de Jan Hus – e que chamam a atenção para o facto de a procura do visual estar a substituir o invisível (a fé), conduzindo à dúvida quanto à possibilidade da presença do divino na ausência de visibilidade e de palpabilidade. Os debates acerca do estado do sangue de Cristo nos três dias que mediaram entre a Sua morte no Calvário e a Ressurreição opõem dominicanos e franciscanos nos sécs. XIV e XV. Apesar das suas divergentes concepções fisiológicas e exegéticas, os dois grupos aproximam-se no tocante à questão devocional – pois ambos possuem relíquias de sangue e intensas devoções ao sangue – e na assumpção do seu poder salvífico.

Na terceira parte, a autora começa por rejeitar a dicotomia religião letrada versus popular, pelo que toma conjuntamente tanto os textos dos universitários como os dos contemplativos, dos visionários, as lendas hagiográficas, os sermões, os manuais de prática devocional e a iconografia religiosa. A experiência tem-lhe mostrado que, no que se refere a assumpções básicas sobre Deus e a sua relação com a natureza e a humanidade, não há distinção entre as categorias popular/letrado, clerical/leigo, latino/vernáculo. Nessa multiplicidade de fontes, a autora encontra os princípios categóricos de que o sangue de Cristo é fertilidade, tem poder criador e gerador de vida, cura e possibilita a ressurreição, pois é do Cristo exangue no sangramento provocado pela lança que trespassa o seu lado que fluíram os sacramentos; ele é garante da sobrevivência social, da união da família cristã; e é, segundo muitas opiniões, a sede da alma. Por outro lado, o sangue de Cristo é objecto de múltiplos paradoxos. Ele simboliza simultaneamente a imutabilidade e a capacidade de transformar; mesmo separado do corpo, ele continua vivo e incorruptível. O sangue de Cristo é profundamente bipolar: cruor/sanguis, tem um lado horrível, pois implica violência, sofrimento e morte e, ao mesmo tempo, significa vida; ele é a parte e o todo, a parte do corpo e o corpo por inteiro, simultaneamente presente e ausente (Cristo no Céu presente na terra). Para Caroline Walker Bynum, o sangue de Cristo representa mais do que conforto/amor e culpa, ele ocupa um lugar central na devoção tardo-medieval exactamente porque aglutina e dá expressão às assumpções religiosas mais elementares. Por detrás dos textos há uma teologia subliminar que se prende com a teoria do sangue enquanto sacrifício. O sangue completa o trabalho da salvação e fá-lo não pelo poder da Encarnação e da Ascensão aos Céus, mas pelo acto do derramamento. Ele não é apenas acepção simbólica, é objecto de acção. O derramamento do sangue constitui o preço da redenção do Homem.

Esta teoria é assumida como o argumento central da autora, que irá explanar ao longo da última parte do seu livro. Para ela, apesar de os teólogos medievais não teorizarem explicitamente o conceito do sacrifício de Cristo, subjaz nos seus textos uma teoria complexa, tendo os séculos XIV e XV conhecido, em relação a essa especulação, dúvidas que viriam a ser eclipsadas pelo dogmatismo quinhentista. Por outro lado, a ideia de sacrifício cria nos fiéis alguns problemas no que toca ao ambicionado ponto de contacto com a divindade. Na teologia medieval, a salvação pela morte de Cristo constitui satisfação e implica resposta. Tanto nos textos dos universitários como na piedade vernácula o tema da satisfação/redenção mostra-se recorrente, implicando a ideia de que Cristo é o instrumento da satisfação de Deus para corrigir o pecado cometido pela humanidade, mas essa satisfação apenas poderá realizar-se com o derramamento do seu sangue. Na linha dos textos vetero e neotestamentários está presente, embora de modo subliminar, a ideia de que o sacrifício da morte implica violência/imolação para que o acto seja valorizável aos olhos de Deus. Nesse sentido, o sacrifício é oblação. Mas esta acepção provoca ansiedades. A teologia do sacrifício apresenta-se como uma aporia, o que explica a própria subliminaridade na forma como a questão é encarada. Ela levanta problemas no que respeita à própria eleição do sangue como objecto do sacrifício, uma opção arbitrária talvez, inexplicável, no fundo, pela razão humana. Ela arvora a possibilidade da repetição do sacrifício em cada cerimónia eucarística, bem como a hipótese de admitir a participação dos judeus no papel de sacerdotes que oferecem a vítima em sacrifício. Porém, Cristo tem de ser forçosa e simultaneamente vítima, sacerdote e receptáculo. Ao considerar a cerimónia eucarística como um espaço de exclusiva comemoração e oblação do sacrifício, qual o papel que os cristãos poderão desempenhar em toda esta soteriologia? A autora alega que o furor por algum tipo de contacto palpável com o sangue de Cristo, seja no cálice, visualmente ou por algum milagre, reflecte um desejo de participação na acção salvífica do sacrifício do único modo possível, por alguém que não pode ser nem sacerdote nem vítima, mas que, sendo marcado pelo sangue do cordeiro imolado, é purificado e salvo.

Recorrendo a uma multiplicidade de fontes, escritas e iconográficas, produto tanto da cultura letrada como da devoção religiosa popular, focando primordialmente o Norte da Europa, mas sem ignorar os dados provenientes do Sul, a autora adopta uma perspectiva funcionalista, que compreende o sangue de Cristo no limiar das ansiedades vividas pela cristandade Ocidental nos séculos finais da Idade Média e a ambivalência, complexidade e paradoxo das posições assumidas, vistas, acima de tudo, à luz da necessidade de alcançar o significado soteriológico da dádiva da morte de Cristo. Para esta historiadora, o sangue de Cristo constitui o símbolo e o objecto de culto central da devoção tardo-medieval e – sugere mesmo – provavelmente o seu problema central.