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ISSN 1646-740X

estudosmedievais@fcsh.unl.pt

ano 3  ● número 3  ● 2007

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Recensão

Jacques Voisenet,
Bêtes et hommes dans le monde médiéval.
Le bestiaire des clercs du Ve au XIIe siècle
,
Turnhout, Brepols, 2000.

Pedro Chambel
Instituto de Estudos Medievais FCSH-UNL

 

No seu primeiro livro sobre o bestiário da Alta Idade Média, Bestiaire chrétien. L’image animal des auteurs du Haut Moyen Age (Vº - XIº s.), Toulouse, Presses Univ. du Mirail, 1994, Jacques Voisenet estudou as fontes utilizadas pelos clérigos da época na construção das imagens textuais dos animais que viriam a utilizar nos seus textos. No presente volume, a partir das fontes produzidas na Cristandade medieval, dando especial atenção às do Ocidente, estuda as funções dos animais nestas. Se o âmbito espacial da recolha das fontes é amplo, o mesmo acontece no plano temporal, pois o autor considera o que denomina de uma longa Idade Média, que se inicia no século V, com a implantação crescente do Cristianismo no Ocidente medieval, e se prolonga até ao XII, ou seja, ao momento do surgimento dos bestiários românicos, considerados como um ponto de chegada na simbologia animal, após as elaborações e propostas realizadas no período anterior. Jacques Voisenet propõe-se, assim, compreender como se estruturou a visão do animal até ao momento em que as grandes sínteses presentes nos bestiários do século XII e seguintes se impuseram. No entanto, o autor considera que as funções que os animais adquiriram nos escritos da Alta Idade Média, tornam-no num período que se individualiza do posterior no que respeita à visão da natureza.

Neste sentido, Jacques Voisenet constata, inicialmente, duas constantes que caracterizam a visão do animal nos textos elaborados durante o período por si considerado. Assim, assinala como não existiu por parte dos letrados qualquer interesse pela observação da natureza, surgindo a descrição dos seus seres e respectivos comportamentos em função do que lhes foi transmitido pelas fontes da Antiguidade Clássica, nomeadamente pelos textos dos naturalistas, e pela Bíblia. Na verdade, se para os autores da época o homem possui dois “livros” cujo estudo permite orientar a sua conduta como cristãos, as Sagradas Escrituras e o “livro da natureza”, nunca se interessaram pelo estudo desta em si. Por outro lado, nas fontes então produzidas, os animais surgem sempre referidos em função do próprio homem e como instrumento ao serviço da ideologia clerical.

No entanto, as funções atribuídas aos animais pelos letrados da Alta Idade Média, assim como as relações que estabeleceram com o homem relevam-se variadas e diversas. Assim, na primeira parte do livro, o autor estuda os simbolismos dos animais transmitidos pelos textos da época. Para tal, considera a classificação que para estes foi estabelecida pelos enciclopedistas, em particular por Isidoro de Sevilha e Rabano Mauro, ou seja de forma antropocêntrica. Tal expediente permite ao autor aproximar-se da mentalidade dos letrados medievais e, assim, explicar as funções que estes atribuíram aos animais em função da sua classificação. Ora, esta foi elaborada tendo em conta a proximidade do animal ao homem, considerando as características físicas dos animais, o meio geográfico que habitavam, o seu tamanho e os elementos em que viviam. Assim, inicialmente são analisadas as simbologias dos monstros, ou seja das denominadas raças híbridas, mais próximos do homem pelos atributos físicos, seguindo-se as dos animais domésticos, do gado de pequeno e grande porte, das bestas selvagens, incluindo as que habitavam o Ocidente medieval e as exóticas, dos pequenos animais, mamíferos e insectos, dos rastejantes, répteis e lagartos, as da abrangente designação de “vermes” e as dos animais que se movimentam nos espaços diferentes dos do homem, os peixes e as aves.

Ora, ao considerar esta classificação, estabelecida pelos autores da Alta Idade Média, Jacques Voisenet constata como as funções atribuídas aos animais surgem em função dela. Assim, a proximidade ao homem implica muitas vezes a atribuição de simbologias positivas a estes e o progressivo “afastamento” deste tendo a conotá-los de forma negativa. No entanto, para além desta longa cadeia formada pelos animais tendo em conta o antropocentrismo, também surge outra divisão segundo um eixo vertical que os divide entre os que se encontram “em baixo”, como os peixes e os animais rastejantes, e os que se encontram num plano mais elevado, como é o caso das aves, o que igualmente influencia a simbologia dos animais que se tendem a orientar de forma mais positiva de “baixo” para “cima”. Mas, dentro destas duas classificações, os animais também se repartem segundo uma ordem descendente, dos maiores para os mais pequenos, numa representação simbólica que se manifesta, igualmente, como um “abaixamento” em relação ao plano terreno.

Assim, o simbolismo de cada animal é explicado em função das categorias consideradas, ou seja, da proximidade/distanciamento, quer do homem, quer da esfera celeste e da terra, ou do tamanho do animal. No entanto, estas classificações não impedem que se mantenha uma ambivalência fundamental que se exprime no facto de certos animais poderem ter simultaneamente simbologias positivas e negativas, evocando, quer o bem, quer o mal, enquanto outros adquiriram funções que os remeteram fundamentalmente para conotações negativas ou positivas. 

Em suma, os animais encontram-se ordenados segundo dois eixos fundamentais, um que se baseia na classificação antropocêntrica e outro, ascendente, onde se situam em função da escala de valores que “sobem” do Inferno para o Céu.

Na segunda parte do livro, Jacques Voisenet aborda as relações entre o homem e os animais presente nos escritos dos letrados da Alta Idade Média. Neste sentido, afirma que elas nunca se revelam neutras. Na verdade, pouco interessou aos autores da época o relato da vivência quotidiana entre homens e animais. Estes surgem ao serviço daqueles para permitir ao homem sair do quadro da “animalidade”. Ou seja, o animal aparece perante este para servir-lhe de espelho de forma a fazer-lhe reconhecer as suas fraquezas e defeitos, mas também como modelo a imitar. O animal surge ainda ao serviço do mundo do invisível para ameaçar o homem, encorajando-o a seguir o caminho da Salvação.

O autor, após estas observações preliminares, estuda as funções dos animais nos milagres, nos sonhos e nas visões, onde surgem como portadores de “sinais” que uma vez descodificados permitem ao homem entender a mensagem que o aparecimento do animal lhe transmite. Assim, nestes contextos, as bestas surgem sempre como uma expressão da divindade e os protagonistas humanos são, globalmente, os santos. Na verdade, os encontros relatados centram-se nos que acontecem entre os eleitos de Deus e o animal. Assim, nas hagiografias da época este surge ao santo como um ser ameaçador, mas também susceptível de por ele ser apaziguado. Neste sentido, o encontro do animal com o santo contribui para que este surja perante a comunidade dos fiéis, o auditório a quem os textos se destinam, como os mediadores entre o Céu e a Terra, ao mostrar a capacidade do eleito de modificar o comportamento do animal, fazendo surgir a sua capacidade de agir miraculosamente sobre a matéria e a condição de homem ou mulher capaz de ultrapassar os estreitos limites da experiência humana, em particular, os ligados ao espaço e ao tempo, para servir de exemplo à humanidade.

Assim, nos textos da Alta Idade Média, a realidade da convivência entre os homens e os seres da natureza é constantemente traduzida em termos teológicos, transmitindo histórias exemplares que pretendem suscitar nos homens o desejo de ultrapassar a sua condição de pecadores de forma a restabelecer a primitiva ordem harmoniosa que orientava a relação homem/animal. Neste sentido, este último surge sempre com uma função simbólico-alegórica, encontrando-se ao serviço do primeiro, nomeadamente ao permitir-lhe descobrir-se a si próprio e ao seu lugar na Criação. O animal aparece, deste modo, “requisitado” pelas forças do Além que dele se servem para enviar as mensagens destinadas às comunidades dos crentes ou às que se pretendia evangelizar.

Jacques Voisenet, conclui que nos textos dos letrados da Alta Idade Média, o animal surge ao serviço da ideologia clerical, perdendo a sua realidade física para servir de utensílio à divulgação de normas comportamentais a serem seguidas pelo seu auditório. A “personalidade” do animal desaparece para se resumir a pôr em evidência as qualidades e defeitos a seguir ou a evitar pelos homens. Ao surgir como um prolongamento do desejo do homem de se aperfeiçoar, como um modelo, como um espelho ou como um mediador entre o mundo terreno e o do Além, o animal remete sempre para o “outro, seja o homem, o Diabo ou Deus, aparecendo com uma marcada função simbólico-alegórica.

Na terceira e última parte do livro, Jacques Voisenet afirma que nos vários textos que os letrados da Alta Idade Média nos legaram, hagiografias, sermões, crónicas, enciclopédias, o animal neles é referido, essencialmente como um mediador. A sua presença responde a uma necessidade imperiosa de possuir um intermediário para melhor conhecer a realidade material e espiritual. O animal estabelece nos textos uma relação tangível entre os elementos, os lugares, o presente e o passado, o corpo e o espírito, os mundos natural e espiritual, entre a Terra e o Céu, a Salvação e a danação, o pecado e a graça. Ou seja, serve de unificador ao que a mentalidade dos homens da época tem dificuldade em unir e relacionar, contribuindo, assim, para formar uma imagem de unidade e coerência do mundo. Ora, esta função fundamental, torna-o um elemento essencial para os clérigos transmitirem ensinamentos e condutas e para afirmar ideologicamente o poder terreno da Igreja. Mas a presença do animal nos textos da Alta Idade Média surge, igualmente, como um meio de evasão para o auditório a que são destinados, ajudando o homem a ultrapassar as contingências e dificuldades da rude vida quotidiana.

Neste sentido, o autor analisa as funções do animal em quatro perspectivas: o animal como estratégia de conhecimento, como instrumento pedagógico ao serviço da ordem moral que os clérigos pretendem estabelecer, como um expediente ao serviço do poder terreno da Igreja e como um meio de evasão para os homens ao maravilhá-los com as suas naturezas, exotismo e comportamentos. O autor reitera então como a natureza e os seus seres não motivaram em si o interesse dos autores da Alta Idade Média, surgindo antes como um meio para proporcionar ao homem o conhecimento de si próprio e do universo, para manter a ordem social e a autoridade eclesiástica, ou como um meio de evasão. Assim, ele adquiriu, fundamentalmente, uma função ideológica, uma vez que os clérigos dele se serviram para transmitir a sua visão do mundo e dos seres que supostamente o povoavam.

Na conclusão, Jacques Voisenet reafirma como os letrados da Alta Idade Média se serviram dos mundos vegetal e animal para transmitirem lições morais e edificantes, exemplos para meditação e explicações sobre os mistérios divinos. A natureza foi observada a partir da visão dos autores da Antiguidade, da Bíblia e dos Padres da Igreja e nela procuraram encontrar uma verdade que ultrapassasse o simples quadro da experiência concreta e que se revestisse de um carácter intemporal.

O autor interroga-se, então, se é possível reconhecer um sistema geral simbólico e coerente da animalidade transmitida na visão clerical do mundo. Ora, não obstante a variedade dos modos de descrição dos animais, da sua relação com o homem e das funções que adquiriram, o estudo da presença dos animais nos textos permite concluir e sublinhar a existência de alguns grandes sistemas de representação. Estes caracterizam-se pelas funções que neles adquiriram os animais, como a de ilustrar os ensinamentos das Escrituras ou transmitir os enganos e armadilhas do demónio a partir de uma abundante fauna maléfica. Mas, sobretudo, persiste a função moral, que se apoiou em esquemas binários, como o bem e o mal, a vida e a morte, a ordem e a desordem, a salvação e o perigo. A natureza ambivalente do animal no plano simbólico que lhe permite significar, quer o bem, quer o mal, põe em destaque os binómios antagónicos que regem toda a existência da humanidade.

A fauna participa assim activamente na elaboração do sistema de representação do universo, no seio do qual permite aos crentes ajuizar os seus próprios comportamentos, indicando o caminho da Salvação. A presença do animal nos textos dos letrados da Alta Idade Média nunca é, pois, acidental e responde sempre a uma intenção bem precisa. Ele integra-se numa estrutura de pensamento coerente e que expressa ao homem o caminho a seguir em direcção à divindade.

Em suma, os clérigos medievais preocuparam-se, essencialmente, na representação textual do animal, pelo que esta podia transmitir à comunidade dos crentes. Assim, o bestiário por eles elaborado e divulgado, adquiriu um carácter exclusivamente didáctico. A Igreja serviu-se dele como de um verdadeiro instrumento para inculcar nas populações o respeita pela ordem social e moral que defendia e transmitir-lhes os ensinamentos teológicos.

No entanto, a presença do animal nos textos da Alta Idade Média contribuiu, igualmente, para que o homem conhecesse o seu lugar no universo, quer no aspecto físico, quer no moral e espiritual. Face a um mundo mal conhecido, compreendido e ameaçador, ela ajudou-o a encontrar o seu lugar como o ser privilegiado da Criação e o seu centro, manifestando uma função de segurança ao contribuir para apaziguar os temores espirituais dos homens da época.

O autor finaliza o livro com um anexo onde aborda a problemática do estudo dos animais na literatura da Alta Idade Média a partir das questões que lhe surgiram ao longo da sua investigação e perspectiva novas contribuições para a temática por ele estudada.

Revelando uma notável erudição, Jacques Voisentet estuda na sua obra, a partir de diversas perspectivas, as funções que os animais adquiriram na literatura da Alta Idade Média, pondo em relevo a sua importância para o estudo, descodificação, análise e compreensão dos textos então produzidos. Trata-se, igualmente, de um livro essencial para o estudo da mentalidade medieval, o que explica a importância crescente que nos diversos países europeus, e mais recentemente, nos Estados Unidos, a temática que aborda tem adquirido. Na verdade, ela revela-se de crucial importância para a compreensão do mundo medieval, da sua cultura e valores, mas que infelizmente não tem motivado de forma persistente a elaboração de estudos por parte dos autores e investigadores nacionais, salvo raras excepções. O livro apresenta ainda um elucidativo prefácio de Jacques Le Goff onde este reitera a importância do estudo da presença dos animais nas fontes medievais para o desenvolvimento da análise da cultura e das mentalidades medievais. Neste sentido, a presente obra revela-se como um dos mais importantes contributos para o estudo da simbologia animal na Idade Média que se produziu nos últimos anos a nível internacional.