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ISSN 1646-740X

estudosmedievais@fcsh.unl.pt

ano 3  ● número 3  ● 2007

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Troféu Latino

Intervenção do Prof. José Mattoso

Quando a Drª Renée Gomes me telefonou a perguntar se aceitaria o «Troféu Latino» deste ano, e me disse que a cerimónia da entrega incluiria uma apresentação isenta de formalidades por alguém escolhido por mim, pensei logo no Luís Miguel Cintra. Quero agradecer ao júri do «Troféu» ter escolhido o meu nome e ao Luís Miguel ter aceitado apresentar-me. Sinto-me profundamente comovido pelo caloroso afecto com que o fez. Apetecia-me agradecer apenas com um «muito obrigado» e um longo silêncio que deixasse frutificar na alma as sementes da concórdia. Mas não é isso o que está prescrito no ritual. Por isso tenho de dizer alguma coisa mais.

Pelo que o Luís Miguel disse, já se percebeu que não o escolhi por ser historiador, mas porque compreende melhor do que ninguém o que procuro quando estudo a História, e a maneira como a entendo. Como ele disse, «lutamos os dois», embora «de maneira diferente, contra a solidão humana que atravessa os nossos dias». Talvez o júri do prémio considerasse o valor científico da minha obra histórica como critério principal. Também é, para mim, importante, mas insuficiente. O Luís Miguel Cintra ajuda-me a explicar porquê. Ele representa, pela sua própria vida e obra, aquilo em que também acredito. Tem consagrado toda a sua vida ao desenvolvimento cultural do País. Coincidem com os dele os valores que mais prezo na minha vida profissional e cívica. Actuamos há aproximadamente o mesmo tempo em similar contexto social e político, em virtude dos mesmos princípios, embora em campos culturais diferentes.

Na verdade, apesar da nossa diferença de idade, pertencemos ambos àquela geração que nos anos 60 julgava poder imprimir um impulso decisivo à implantação no mundo de estruturas sociais e políticas mais justas. O nosso encontro deu-se, creio eu, em 1967, quando assisti a uma representação de «O Anfitrião». Nunca lho disse (de resto nunca convivemos muito), mas foi nesse dia, e nessa mesma hora, que compreendi o papel que o teatro tinha como motor de transfiguração da vida humana no plano social e no plano pessoal. Para me envolver nessa onda, contribuiu também outro factor ligado ao Luís Miguel: a inesquecível experiência da campanha de alfabetização organizada pouco antes pelo Graal, em que participei, nos arredores de Portalegre, sob a orientação Professor Lindley Cintra. A sua atitude exemplar perante a sociedade, a vida, a arte e a ciência criou naqueles que o têm como referência o sentimento de pertencerem a uma verdadeira família espiritual. Quando o Luís Miguel há pouco se referia a seu pai, sabia muito em quanto me é grato envolvê-lo neste nosso diálogo de hoje acerca daquilo que nos toca mais profundamente.

Só vim a falar com o Luís Miguel muitos anos depois de ter visto «O Anfitrião». Não posso dizer que nos anos seguintes tenha frequentado assiduamente os espectáculos da Cornucópia. Mas a vida e as vicissitudes de lutas com os mesmos ideais, embora em campos diferentes, levaram-me a admirar cada vez mais a paixão, o rigor, o talento e a persistência, com que ele e a Cornucópia foram cumprindo o seu programa de desenvolvimento cultural do País. Foi sempre para mim um estímulo e um encorajamento nas ocasiões em que o combate me parecia mais duvidoso. Ajudou-me sempre a crer, como ele disse há pouco, que «a vida vale pela verdade que, em cada momento, soubermos dar aos nossos actos». Em boa verdade nem precisámos muito de falar um com o outro. Sempre comungámos dos mesmos ideais, e fomos sendo obrigados, pelas mesma razões, a adaptar os nossos métodos de actuação às profundas alterações que entretanto se deram em Portugal.

Hoje, tanto tempo depois desse silencioso encontro, tornou-se lugar comum dizer que a geração portuguesa dos anos 60 em pouco conseguiu mudar o País, e, em nada, o mundo. Aponta-se a ilusão com que confiava numa generosidade romântica, nas virtudes renovadoras de demolições anárquicas, ou no sincero empenho em lutas partidárias. Com a nostalgia de quem, apesar de tudo, não lamenta o tempo perdido, admitamos que a nossa esperança de então era ingénua e a prática ineficaz. Na verdade, o mundo continua tão injusto e cruel como dantes. Continuamos sem saber como conjugar e orientar para o bem comum as energias da humanidade: as que nascem das grandes crenças e as que resultam de meros interesses. Naqueles anos, pareceu, por algum tempo, que as grandes crenças podiam superar os interesses. Hoje predomina a convicção contrária. De entre as crenças que ainda exercem alguma influência nos destinos da Humanidade parecem até prevalecer as que representam um retrocesso na via da sua humanização, isto é as crenças fundamentalistas, obcecadas, destruidoras e idólatras. Os detentores do poder não sabem combatê-las senão pela força bruta ou acenando com pseudo vantagens materiais. Ninguém, nem mesmo as hierarquias religiosas, embora não o digam, acredita já na capacidade pacificadora dos seus próprios códigos morais.

E todavia, perante este panorama sombrio, há ainda quem continue a ser movido pelo imperativo categórico da crença, isto é, pela convicção de que, por razões indemonstráveis, é preciso continuar a cultivar a fé na misteriosa força que faz o homem ser homem, e o leva a confiar na sua capacidade de regeneração. Luís Miguel fá-lo, como todos os artistas, pela via da emoção e das representações simbólicas ou dramáticas. Eu tento atingir o mesmo objectivo por meio da busca de um hipotético sentido racional da História. O caminho dele, tem sido, quase sempre, o da recriação dos grandes clássicos, a quem dá nova vida acentuando a sua intemporalidade e restituindo-lhes, na cena, toda a sua força emotiva, - aquela, como ele disse há pouco, que torna a vida verdadeira. Foi também nesse terreno mítico das histórias com significado eterno que ele levou à cena a sua versão dramática dos Sete infantes de Lara, jogando, ao mesmo tempo, com a tradição popular, a narrativa em português medieval e o significado actual. Mais ainda do que pelas reminiscências medievais, seduz-me, neste caso, como em tudo o que Luís Miguel leva à cena, a arte com que sabe dizer, de uma só vez, e com tanta força, aquilo que eu só sei traduzir, tentando compreender e explicar racionalmente os factos por meio da História.

É aqui, no campo da racionalidade, que se encontram os valores ligados à Latinidade. Refiro-me àqueles que a língua latina simbolicamente representa, ao manter a sua identidade fundamental enquanto base das línguas românicas a que deu origem, e que, através desse fundo comum, continua a lembrar ao resto do mundo que a sua estratégia cultural foi, historicamente, veículo de um complexo sistema de trocas que envolvia produtos materiais e conhecimentos intelectuais, técnicas e experiências, ideias e códigos de conduta, sistemas hierárquicos e rituais colectivos. Esquecendo as conotações imperialistas da sua realização histórica, as comunidades implantadas à volta do Mediterrâneo antigo fizeram da circulação comercial, da distribuição de produtos, de um sistema jurídico baseado em princípios uniformes, de uma administração coerente e eficaz, o fundamento da pax romana, esse ente imaginário que, apesar de mítico, nem por isso se pode deixar de considerar como um ideal realizado no passado e, portanto, realizável no futuro. Um ideal que a Cristandade nunca esqueceu, apesar da sua origem pagã. A Latinidade tornou-se assim, de algum modo, símbolo de que a troca de bens e de ideias propicia a conciliação entre crenças e interesses antagónicos. A luta entre a Cristandade e o Islão ocultou a prática, mas não a memória desse ideal. A história do Ocidente foi uma constante tentativa de o restaurar. Foi sempre renascendo apesar das cruzadas e do djihad, das heresias e da inquisição, do protestantismo e das guerras religiosas, do terror revolucionário e do terror reaccionário, das inovações políticas e das restaurações de regimes antigos, da opressão capitalista e das ditaduras comunista ou fascista. As destruições que de tantas contradições nasceram nunca esgotaram a inspiração cultural e artística, nem paralisaram as trocas de que o Mediterrâneo foi sempre o lugar sem centro. Portugal representa, como identidade nacional, uma das variantes que a Latinidade tem revestido desde a sua fundação. Embora tantas vezes dominado por uma aristocracia que invocava ideologias cruzadísticas, nem por isso deixou nunca, a nível popular, de praticar a convivência cultural e religiosa, e de promover a circulação de ideias e das trocas comerciais. Exportou-o, mesmo, para fora da Europa, na medida em que alargou ao resto do mundo a troca de costumes, produtos, formas decorativas, ideias, vestuários, técnicas e palavras de que se alimentou o fecundo diálogo entre o Ocidente e o Oriente. Aí se manteve, até, em certas comunidades de intérpretes e comerciantes que continuaram a servir de intermediários e que, por meio dos seus crioulos, demonstraram a importância da língua como veículo de comunicação.

É por isso que a União Latina, que hoje nos trouxe aqui, persiste em lembrar as potencialidades do tesouro simbólico contido no conceito da Latinidade. O ruído ensurdecedor provocado nos nossos dias pelo desenvolvimento desenfreado das técnicas da comunicação ignora-o. Assim, o poder que elas conferem parece não ter limites; por isso, abre o caminho à destruição total. Mais uma razão para não esquecer a herança latina, inseparável dos valores humanísticos.

Muitas vezes me apeteceu dizer, como o profeta Elias quando iniciou a sua caminhada no deserto e, cansado da sua luta contra a idolatria, pedia a Deus a morte: «Já basta, Senhor, pois não sou melhor do que meus pais» (1 Reis, 19.4). Também nós, quando recordamos as esperanças dos anos 60, e as comparamos com a actual multiplicação da violência e da injustiça, perguntamos para que valeram os nossos esforços. Mas, se, ao olharmos à nossa volta, nos sentirmos irmãos dos atormentados pelo desejo da verdade, irmãos dos desesperados pelas suas próprias contradições ou inseguranças, e formos capazes de descobrir, nascidos, não se sabe como, neste mundo sombrio, os que persistem em cultivar a infinita variedade de formas que revestem o amor, a justiça, a esperança, a beleza, a alegria, a paz; e se aprendermos a ver, com os que sabem olhar através da espessa camada da vulgaridade quotidiana, a maravilha do que é justo e simples, deixamos de lamentar a frustração das esperanças. Luís Miguel Cintra não fez outra coisa, ao longo destes quarenta anos, senão mostrar isso mesmo, na sua intemporalidade, sob as aparências mais inesperadas e mais tocantes. Devo-lhe a percepção desse olhar capaz de descobrir os lugares escondidos onde se refugia, no seu último reduto, a verdade do homem. Não resisto a citar aqui o que ele escreveu a propósito de A Gaivota de Tchecov: «A vida passa-se a todos os níveis e porventura mais nos que não conseguimos nomear. Ninguém vale mais que o outro, tudo conta e tudo depende de cada destino. Cada silêncio tanto como o que se diz. O infinitamente grande só se vê com um microscópio». Descobrir isto, é como compreender todo o alcance da inesperada resposta que Javé deu a Elias, quando o conduziu ao cimo do monte, e aí, depois de parecer manifestar-se no meio de uma terrível tempestade e de um pavoroso terramoto, lhe apareceu de verdade sob a forma de uma brisa ligeira e quase imperceptível.

Hoje, ao receber o Prémio da Latinidade, queria dizer quanto devo ao exemplo de outros irmãos e companheiros de crença – e temos mais do que por vezes pensamos. O mais próximo é Luís Miguel Cintra. Queria também dizer que aceito o prémio, com honra e alegria, em nome dos que continuam a acreditar naquilo que sustenta a esperança. É por isso que não me envergonho de pertencer à geração dos anos 60.