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Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa
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ISSN 1646-740X

estudosmedievais@fcsh.unl.pt

ano 3  ● número 3  ● 2007

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Recensão

Michael Camille,
Le Monde Gothique,
Paris, Flammarion, 1996.

Joana Ramôa
FCSH-UNL

A obra Le Monde Gothique, de Michael Camille (1958-2002), falecido professor de História da Arte da Universidade de Chicago, formado na instituição universitária de Cambridge, define, em muitos dos seus contornos, o olhar da nova investigação sobre a medievalidade, nascido de uma luta imperiosa contra conceitos oitocentistas fortemente enraizados e de uma vocação dupla para a aproximação isenta e a construção parcelarmente consumada mas sempre projectada em extensão. A busca de novas Idades Médias, na consciência da sua multiplicidade e igual dignidade, tendo em vista um entendimento progressivamente depurado e que se pretende verdadeiramente amplo, no qual a produção artística desempenha um papel determinante e enriquecedor (donde o sentido, em larga medida, da condensação a que o tradutor francês submete o título, eliminando o substantivo mais óbvio de arte, em proveito do de mundo), desenvolve-se, na presente obra de Michael Camille, num olhar atento às realidades tradicionalmente feitas periféricas no que concerne ao estudo da arte gótica, olhar que se patenteia visualmente nas ilustrações da obra e, no texto, na variedade das referências, sempre pertinentes e demonstrando de forma exemplar a profundidade do discurso da arte e o potencial da sua justa consideração no mundo da História.

A célere tradução, no mesmo ano de 1996, em língua francesa, do original inglês Gothic Art, Visions and Revelations of the Medieval World[1], de Michael Camille, impõe-se, assim, como sinal do lugar que a obra ocupa no seio da historiografia de arte medieval recente.

Oferecendo-se, desde logo pelo exterior, à curiosidade daqueles que nela encontram exaltado o seu reino periférico (por este recurso tornado corolário da reflexão sobre um mundo mais vasto e cheio de muitos outros fascínios), a versão francesa, revela, na surpresa de uma capa consagrada a um painel de São Vicente de Fora, de Nuno Gonçalves, uma das forças maiores desta obra que concretiza afinal, no seguimento nunca desvirtuado de uma vocação descentralizadora, o pilar de uma originalidade refrescante que neutraliza os riscos de uma cedência à monotonia das visões generalistas sobre o período medieval. A tal linha de orientação não serão, naturalmente, alheias a especialização do autor na área da iluminura, essa arte quase isenta de fronteiras, e sobretudo a sua origem insular, suficientemente afastada da força centrífuga dos grandes centros, permitindo uma distância crítica que não esmorece um fascínio estimulante pelos mesmos. Na leitura da obra, deparamo-nos com toda uma construção teórica feita de referências-chave, não de ideias fechadas mas de pontos de partida, no seio da qual vemos associarem-se mundos artísticos variados, sem separações estanques, mas evidenciando, no seu confronto, simultaneamente a pertença a um mundo que é o mesmo e a diferença de soluções que, na articulação das tendências difundidas com realidades diversas, constroem a especificidade de cada um dos mundos do mundo gótico.

Esta sensibilidade à diversidade que anima a realidade medieval, muitas vezes desembocando mesmo na coexistência surpreendente de contrastes que o espírito moderno seccionador diria inconciliáveis (e que tendem a exacerbar-se na parte final do período), serve de motor, na obra em análise, a um projecto quase idealista de questionar de forma inocente todo um mundo porventura mal conhecido mas já criticado, com vista à assimilação do seu próprio modo de ver e sentir – ou seja, de questionar o mundo medieval com o seu próprio olhar interrogador, apesar da dificuldade e da insegurança de uma aventura desta natureza (porque todo o discurso histórico é, afinal, um discurso historicamente situado, como sublinha o próprio autor).

A exposição de Michael Camille procura desenvolver-se, assim, no quadro de uma via de aproximação à arte gótica que o próprio afirma alternativa, embora delas herdeira, às duas propostas de entendimento forjadas no século XIX (a racionalista e laica de Viollet-le-Duc; a mística e literária de Émile Mâle) – no fundo, numa associação ideal entre a análise da forma e a reflexão sobre o conteúdo e assumindo como instrumento determinante da seriedade, profundidade e novidade do estudo apresentado, a investigação orientada para o contexto, que permita uma percepção mais verdadeira e pura, porque liberta de conceitos exteriores ao tempo em análise. O estudo da percepção medieval, do poder atribuído ao olhar e dos graus em que, na época, se considera o seu processamento (da apreensão imediata das formas à intelectualização dos conteúdos) é, por isso, para Michael Camille, fundamental e ocupa nesta obra lugar individual, na abertura de um discurso cuja estruturação tutela.

Se este constitui o princípio fundamental do método em uso, a ideia que orienta toda a reflexão é a de que as transformações que definem a inauguração de uma nova estética (a gótica) são, mais do que o reflexo, parte integrante de um mundo em mutação, que é berço de uma nova forma de olhar e, consequentemente, de sentir. E é este novo sentido das coisas, ou os elementos definidores de uma percepção que se renova nos vários domínios da vida e da arte – no do espaço (cap. I), no do tempo (cap. II), no do sagrado (cap. III), no da natureza (cap. IV), no da consciência humana individual (cap. V) -, que Michael Camille analisa e expõe, assumindo a arte gótica como “l’incarnation de la vision médiévale du monde” (p. 12), visão que se transforma, na modernidade, num novo modo de perceber e sentir que o Renascimento artístico traduz.



[1] Londres, Calmann and King Ltd, 1996.