on line

 

mero 3
EDITORIAL
DESTAQUE
ARTIGOS
RECENSÕES
APRESENTAÇÃO DE TESES
RESUMOS


EDIÇÕES ANTERIORES
Todos os números >>

DIRECTOR
Bernardo Vasconcelos e Sousa
COORDENAÇÃO EDITORIAL
Pedro Chambel
Maria Adelaide Miranda
CONTACTO

Instituto de Estudos Medievais
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa
Av. Berna 26 C, 1069-061 Lisboa

ISSN 1646-740X

estudosmedievais@fcsh.unl.pt

ano 3  ● número 3  ● 2007

[COMENTAR ARTIGO]

Os Padres do Deserto na Galiza:
Apropriações e usos da
Literatura Monástica Oriental na
Autobiografia de Valério do Bierzo.
Implicações no Imaginário sobre o Mal

Ronaldo Amaral
UNESP-Assis

A apropriação literária no âmbito hagiográfico na Idade Média, ou em seu alvorecer, como a época que nos ocupa, deve ser vista pelo historiador do imaginário, como um processo que implica, não só a subtração de textos, e mesmo ideias, mas, de alguma forma, a “presentificação”, com suas devidas adequações, do lido e do apropriado pelo leitor, a seu vivido. O texto e suas circunstâncias criam a “realidade” do leitor, aflora na sua mesma práxis, no seu cotidiano sensível, e se o vive novamente; e, ainda mais “plenamente”, pois o acontecimento se vê asseverado e justificado pela força de verdade e autoridade do antigo, tão caro ao homem medieval, principalmente no âmbito das religiosidades, em que ocupa um lugar premente a mentalidade e o imaginário. Apresentamos aqui, um texto talvez único na Antiguidade Tardia, o de um monge santo, nada abastado social e economicamente, que se auto-incumbiu de hagiografar-se. E neste seu trabalho, deixou-nos um testemunho, talvez igualmente único, das vicissitudes mentais de um monge asceta, que engendradas em grande medida por suas leituras, passaram a práxis do seu cotidiano, pois ambas as circunstâncias deveram comungar de situações e estados análogos. A leitura, e seus mecanismos mentais, realizados por Valério do Bierzo, frente à “vida” e os “feitos” dos Padres do Deserto se realizavam para que, de alguma forma, justificassem sua mesma existência e suas realizações, e não porque o eremita hispano se apropriava das virtudes e das circunstâncias daqueles tão só aplicando-as a seu texto, mas porque igualmente as vivia de forma tão “sensível” e “real” como acreditara vivenciado por aqueles.

Dentre as parcas hagiografias da época visigótica, encontramos a Vita Fructuosi e a “autobiografia” de Valério do Bierzo, ambas de um mesmo ambiente monástico e geográfico, a região que dera o cognome a este último eremita, e cujas linhas nos legaram um testemunho privilegiado da religiosidade camponesa frente a um cristianismo pouco arraigado, e, por outro lado, das visões de mundo e do sagrado ligados à ascética cristã tão cara aos monges e eremitas daquele entorno. E para o presente trabalho, cuidaremos de um dos aspectos, a percepção dos demônios, a nosso ver, um dos mais relevantes daquela segunda constatação acerca das hagiografias acima citadas.

Um cristianismo fundado eminentemente em uma espiritualidade e prática monástica, encontramos naquela realidade apresentada pelas hagiografias do autor anônimo da Vita Fructuosi e da autobiografia de Valério do Bierzo.[1] A vida monástica e particularmente sua forma eremítica, largamente praticada por estes ascetas, esteve assentada em arrazoamentos inerentes à realidade imediata hispânica da época, ou seja, a desorganização político-econômica provenientes da derrocada do mundo romano, e com ela as escassezes, a insegurança, a bipolarização crescente da sociedade entre possuidores/ possuídos e, sobretudo relevante para nós, uma nova religião que emergia e fundava seus alicerces e suas certezas mais verdadeiras e perenes em um mundo que havia de vir e cujo ingresso passava quase necessariamente pelo desdém deste mundo, que já pouco pródigo em benesses, haveria ainda de corromper o homem e “roubar-lhe o ingresso”.

Uma sensibilidade escatológica eminente, seja do mundo, ou de cada individuo em específico; a visão de um Deus justo juiz e irascível, ainda muito ligado a sua sensibilidade veterotestamentária; e, sobretudo, a crença do demônio como príncipe deste mundo, nos esclarecem sobremaneira as razões mais intrínsecas e efetivas   para estes  homens se ocuparem desde já do “real” mundo que havia de vir, o reino dos céus, e nos explicam existências como a de Valério do Bierzo.[2] No entanto, Valério em sua própria vivência como eremita, extrapolava suas razões mais imediatas e autóctones para a fuga mundi, uma vez que, a ascese que praticara, sua justificação e modos, igualmente se regia pela “imitatio patrum”, pois muitos homens antes dele, e ao parecer dos escritos que legaram suas vitae já o haviam feito com grande perfeição e sucesso evangélico. Referimos-nos aos padres do deserto, os quais o próprio Valério conheceu e deu a conhecer com grande panegírico, ao copiar para si e seus companheiros de solidão, suas “vidas” e seus “feitos”.  E aqui, nosso esforço em afirmar que se a vida eremítica adotada por Valério do Bierzo teve suas razões mesmas, materiais, mentais e religiosas, ele se incumbira ainda de aprimorá-la pela tentativa de viver segundo aqueles que já a tinham vivenciado, e não só por se inserirem em contextos físicos, mentais e sociais análogos, mas sobretudo, por perseguirem um mesmo ideal, o evangélico.

O editor das obras de São Valério, em sua introdução, (VALÉRIO DO BIERZO,194, p.8) nos informa que o anacoreta Bergidense faria, no que respeita às fontes de procedência oriental, um uso bastante significativo da Historia Monachorum de Rufino, e de sua mesma versão, das Vitae Patrum. Geraldes Freire, por sua parte, visualizou o uso realizado por Valério dos Apophthegmas Patrum, (GERALDES FREIRE,1967, p.306) na parte final do seu último escrito autobiográfico, como pudemos mesmo averiguar sem maiores dificuldades pela nomeação do solitário Arsênio, o qual, de alguma forma, o próprio Valério se identificara para validar sua vida e suas atitudes de anacoreta,[3] (VALÉRIO DO BIERZO, 1942, p.193) já que  Arsênio aparece em muitas versões dos apophthegmas dos padres,  entre seus demais exemplos e ensinamentos, como aquele que se destacara por sua radical e austera atitude de “fugir dos homens”, sentença esta que, ouvida  da própria divindade, levaria o futuro asceta a segui-la em todas as suas circunstâncias. O solitário do Bierzo, segundo Freire, teria ainda se inspirado nas traduções das “Vidas” e dos “Ditos” dos padres orientais realizadas por Pascásio de Dume e Pelágio, (LAS SENTENCIAS DE LOS PADRES DEL DESIERTO,1989) sem saber precisar, todavia, a preeminência de um sobre o outro, ou se seriam mesmo excludentes. 

Valério, não obstante, reservaria ainda uma considerável quantidade de tinta para descrever e enaltecer a vida dos solitários, suas origens, seus modelos, seus lugares geográficos e, dentro da espiritualidade cristã, suas virtudes e feitos. Ao reunir em sua compilação hagiográfica o Itinerarium Egeriae aproveitar-se-ia deste para informar os monges do Bierzo sobre o ambiente monástico em que estivera Egéria. Deter-se-ia, como não haveríamos de estranhar, Valério, em enfatizar o desejo de Egéria em visitar a Tebaida com suas “[...] gloriosíssimas congregações de cenóbios e igualmente com seus santos ergástulos de anacoretas [...]” (VALÉRIO DO BIERZO, 1942, p.103). Valério, talvez, lançaria mão de termos e circunstâncias mais denotativas da vida e dos lugares dos solitários, em sua versão do Itinerarium de Egéria, do que o mesmo texto da própria peregrina.

Denunciativo de seu interesse pela vida e profissão dos monges solitários, dentre os quais, os do Oriente, egípcios sobretudo, seria o conteúdo de duas de suas obras, de pequena extensão literária, que estariam reservadas a descrever a Tebaida e suas diferentes ordens de monges, sublinhando, como não poderia deixar de se fazer, os anacoretas – Hinc Anacoritas, na primeira delas e, uma vez que os distinguiria, pelo menos nominalmente, os eremitas, descrevendo-nos principalmente suas origens – Incipit de Heremitis, na segunda. Na primeira, respeitando ao termo anacoreta, conheceria e descreveria as regiões mais tradicionais do monacato egípcio, Alexandria e a Tebaida no alto Egito, localizadas em suas regiões mais extremas, onde em suas solidões habitariam monges, encontrando-se ainda em grandes quantidades nos ermos contíguos ao rio Nilo. Parece considerá-los, pela vida de solidão no ermo e pelas circunstâncias desta advinda, os de maiores virtudes, entre outras características igualmente positivas. (VALÉRIO DO BIERZO, 1942, p.130-134)

Podemos também, conhecer por meio do Incipit de Heremitis, a familiaridade que Valério teria, além do deserto da Tebaida no Egito, com outro célebre viveiro de solitário, o deserto da Nítria e seus monges igualmente célebres. (VALÉRIO DO BIERZO,1942, p.135) Mais adiante Valério nos informaria, que entre estes solitários, conheceria os santos Antão e Paulo, o primeiro eremita. Dado de valor singular para nosso propósito, pois mais do que conhecê-los por fontes outras da vida monástica oriental, como os famosos apotegmas, poderia conhecê-los por meio mesmo de suas Vitae, as quais como veremos mais adiante, acreditamos ter influído, direta ou indiretamente, no autor da VF para construir seu anacoreta ideal.[4] Demonstrar-nos-ia Valério assim, que se conheceria no noroeste hispânico, particularmente no ambiente monástico fundado por Frutuoso, as fontes concernentes a estas duas figuras capitulares do monacato oriental, talvez mesmo suas respectivas hagiografias. 

A vida eremítica seria ainda louvada por Valério em seu De Genere Monachorum, (DÍAZ Y DÍAZ,1958, p.49-61) na medida em que, realizando uma classificação bastante singular sobre os gêneros de monges em sete classes, ainda que aqui seguisse a classificação proposta por Isidoro de Sevilha em seu De ecclesiasticis officiis 2,16, muitas das quais pouco aceitáveis, criticaria o relaxamento dos costumes monásticos de seu tempo por parte de alguns, dando a estes como modelo de perfeição, mais do que a vida cenobítica, a vida anacorética, esta última sempre tendo o Oriente por inspiração.

Haveríamos que anotar aqui ainda, como um dos traços mais demonstrativos do conhecimento de Valério sobre a realidade monástica oriental, a sua curiosa comparação entre os padres da Tebaida e Frutuoso, a mesma que, segundo Diaz y Diaz, teria inspirado o autor da VF para escrever uma passagem bastante similar no seu primeiro capítulo. Valério compararia Frutuoso aos solitários da Tebaida, na medida em que este comungaria praticamente das mesmas virtudes e das mesmas circunstâncias, tanto físicas como geográficas, em que aqueles seriam encontrados.

[...] Quando tempos atrás o bem aventurado Frutuoso de santa memória, no começo de sua proveitosa conversão, fazia vida eremítica nas fragosidades e vastas solidões do retiro no que habitamos por diferentes riscos, covas e quebradas, vivendo ao modo dos monges orientais com toda classe de privações e santos exercícios, brilhou tão admirável pelos prodígios prodigiosos de suas virtudes que facilmente se equipara aos antigos padres da Tebaida [...] (VALÉRIO DO BIERZO,1942, p.119)

O conteúdo da compilação hagiográfica de Valério do Bierzo, cujos textos tratam em sua maioria da vida monástica e de seu louvor, e como vimos mostrando, particularmente sob sua forma eremítica, permitiria mesmo que estas fontes oferecessem as nuances de seu próprio monacato, um monacato rudimentar, alicerçado em uma literatura, por exemplo, nas Sentenças, ressonante de uma cultura cristã de leituras factuais e poucos exegéticas, que transmitia um ensinamento de práxis, um saber que emergia de situações vivenciadas e experimentadas pelos solitários orientais, cuja grande maioria estava constituída por homens simples e pouco letrados, mas que criavam uma prática e uma literatura monásticas de grande eficácia as aspirações e necessidades destes tempos, principalmente as de cunho moral e espiritual. Como muito bem observou Peter Brown, (BROWN, 1972, p.105) será por meio desta literatura sentenciosa, que gozou de grande difusão por toda a Idade Média, que o camponês mais humilde poderá ser ouvido e transmitir seu saber cristão, que consideramos por nossa parte, simples mas enfático, pois mais assimilável pela maioria dos cristãos conversos igualmente humildes, cultural e socialmente. E Valério do Bierzo seria não só transmissor desta literatura mas seu criador e protagonista, pois como seus congêneres orientais, proveria e se estabeleceria em lugares e condições materiais e mentais análogas, o que por sua vez, nos explica novamente seu interesse e identificação. 

Valério conheceu, leu e copiou estes escritos, e o fez muito provavelmente não só para sua edificação pessoal, mas para difundi-los aos seus companheiros. Testemunho disto é sua autobiografia, na qual Valério apresenta mais do que a ele próprio, em suas circunstâncias mesmas, à vida, os combates e as virtudes de outros solitários ascetas insignes que ele aplica a si. Valério em sua autobiografia, ou talvez como seria mais acertado, auto-hagiografia, faria “reviver”  em sua própria “carne”, por exemplo, a Antão, o mais antigo e argumentado solitário cristão, modelo em todas suas dimensões para os eremitas cristãos. As circunstâncias da vida anacorética de Valério, ou partes precisas desta, para além dela mesma, seriam as daquele eremita copta e de muitos outros eremitas egrégios. E aqui vamos tão somente explorar alguns aspectos da “autobiografia” de Valério, como a demonologia, cujas ocorrências e percepções há muito vinham ocorrendo na Tebaida e outras solidões orientais.

Mas, porque Valério se auto-atribuiria situações e condutas de outros personagens de mesma profissão religiosa? Parece que tal mecanismo, próprio inclusive da escrita hagiográfica, de suas necessidades e difusão, fora uma constante; contudo, mais recorrente e justificável, quando hagiógrafos atribuiriam a terceiros apropriações de outros e anteriores personagens, além daqueles já se constituírem em personalidades imediatamente já fabulados pelo tempo interposto entre as “testemunhas orais piedosas” e a escrita de sua “vida”.

O eremita do Bierzo, por sua vez, não se auto-atribuiria virtudes e ocorrências anteriores a ele, se não houvesse uma correspondência imediata e sensível entre o “seu” vivido e o vivido “daqueles”. As inúmeras apreensões dos demônios, os lugares recônditos e apartados, o rechaço pela vida mundana, o fazia viver em um ambiente e em uma realidade mental bastante similar a de seus predecessores no deserto. E, entre o texto lido, acreditado e de algum modo assimilado por Valério, que narravam à vida e as realizações de eremitas anteriores, e sua existência mesma, igualmente permeada por aquelas circunstâncias envoltas no fantástico e no miraculosus cristão, não deveria existir uma separação tão clara e absoluta. E na relação vivência factual/ vivência no textual, entre o monge solitário e suas fontes, vivia-se eremita antes do texto, durante o texto e, sobretudo, compreendido pelo texto.

A percepção do demônio tido por Valério extrapolava assim suas sensibilidades mais inerentes. A leitura da Vita Antonii, e das demais literaturas monásticas envoltas no fabuloso, compunham e entrelaçavam-se com suas percepções do mal, próprias de suas circunstâncias locais e psicológicas. Desse modo, se a morada eremítica de Valério seria abalada pelo demônio, como acontecera anteriormente com a morada eremítica de Antão, de acordo com suas respectivas hagiografias, isto fora, por parte de Valério, mais do que uma “cópia” textual e um “plágio”, uma nova ocorrência de um fato já dado, uma explicação plausível para um asceta, e finalmente um acontecimento similar, pois similar as atitudes, os objetivos e as aspirações de ambos os anacoretas.

A partir de sua autobiografia, das descrições que esta nos dá dos demônios e suas aparições, podemos mensurar o quanto Valério se embebera das fontes relativas ao primitivo monacato e edificara desse modo sua própria percepção do sagrado ou do demoníaco, gestando, por extensão, sua própria prática monástica e daqueles para os quais ele a teorizou.

A observação mais imediata que poderíamos fazer é a da visão dualista do sagrado que permeia as percepções e as impressões de Valério. O solitário do Bierzo, como a maioria de seus contemporâneos, principalmente entre estes religiosos professos, via-se envolto em uma luta continua entre o bem e o mal, e a eles só bastariam se aliar a uma destas forças, pois o homem, principalmente o partícipe da milícia cristã, só com o auxílio e a proteção de Deus poderia se desvencilhar do “mal” que, por sua vez, estava a cargo do antigo inimigo, o diabo. Assim as virtudes cristãs advinham necessariamente da providência de Deus que coroava os esforços humanos para combater os vícios, a contrapartida devida a ingerência dos demônios.[5] O solitário Valério, freqüentemente manifesto em contendas humanas,[6] atribuiria as condutas de seus opositores, em qual grau fosse, a instigação do demônio. E ao gozar de algum prestígio e auxílio por parte de muitos por sua vida ascética e solitária, que certamente causava grande admiração e respeito, Valério seria perseguido e invejado por um presbítero,[7] (VALÉRIO DO BIERZO, 1942, p.160) cujas atitudes se deveria ao seu conluio com o demônio, tornando ainda mais grave e sérias sua dificuldades. Em outra passagem, Valério que se encontrava recluso em uma pequena ermida ao lado de uma igreja, e pelo que nos conta, sobre a proteção de muitos cristãos e mesmo do proprietário daquele lugar onde se encontrava escondido, teve sua pequena morada destruída para que talvez viesse a ser melhor acomodado. Entretanto, não conforme com aquela atitude, descontente por ter-lhe tirado da humilde e apaziguada reclusão, via as atitudes de Recimer, o senhor daquele lugar, como uma manipulação do demônio contra ele. Para Valério seria ainda mais grave a vontade de lhe fazer presbitério da nova igreja que erigiria, pois isto implicava relações com o “mundo” mais intensas, e o mundo para Valério, como para os austeros solitários, era o território do diabo com seus instrumentos mais eficazes. (VALÉRIO DO BIERZO, 1942, p.163) O anacoreta do Bierzo novamente confirmará ao demônio a oposição de um presbítero de nome Justo que se colocara contra ele. As atitudes de maledicência, perseguição e mesmo agressão física devida a este presbítero, serão devidamente justificadas pelo partidarismo deste homem ao demônio que se opunha a ele, um humilde servo de Deus em busca de paz e tranqüilidade.

Outros casos poderiam ser aqui citados, todos os quais em que as oposições humanas a Valério, não se deveria a suas circunstâncias sociais e as vicissitudes do humano, mas ao demônio que se oporia continuamente contra o solitário servindo-se de homens e ocorrências que imporiam empecilhos a sua buscada vida evangélica. Suas dificuldades e a oposição freqüente que sofreria do demônio nos afirmaria ainda o intento, talvez não tão explícito assim por parte do próprio Valério, mas de qualquer modo incontestável, de sua auto-santificação, pois, o diabo, só persegue e combate com tenacidade àqueles que se mostram fortes e assegurados na providência de Deus.

Os padres da Igreja, e principalmente os padres do deserto, sensíveis a uma espiritualidade mais aflorada, às apreensões das coisas do espírito, já a muito haviam discorrido sobre a posse dos demônios no humano, e principalmente neste caso, seu grau de direito e força de possuí-los e manipulá-los. Teóricos da espiritualidade monástica, e cristã de uma forma mais ampla, como Orígines, Evágrio Pontico, João Cassiano, entre outros, haviam sublinhado que os demônios, em grande medida, regiam o mundo e poderiam se apossar do homem, se não de sua alma mesma, de seu corpo e de sua mente, principalmente quando este estivesse preso às emoções e pensamentos mundanos e viciosos. O diabo e seus satélites, embora agissem muitas vezes pelo consentimento de Deus, e assim o “mal” deveria ter por última finalidade um bem maior, exerceriam grande influxo no humano e mesmo na natureza, e seu combate só seria possível, e assim absolutamente eficaz, se o homem se prendesse às coisas de Deus. Se as armas dos demônios seriam os pensamentos, os desejos, as excitações do homem ligado à realidade mundana, o escudo do cristão e sua arma poderosa seria sua dedicação às coisas do espírito, à ascese, à contemplação das coisas divinas.

Daqui podemos entender Valério e suas verdades adquiridas acerca de sua vida virtuosa e das procedências de humores e contradições de seus inimigos, mais que humanos, diabólicos, portanto combatíveis, com armas mais que humanas, divinas.

Se as percepções do mal em Valério estiveram assentadas sobremaneira na infusão do demônio ou de seus sequazes na mente dos homens, inspirando-os, ou mesmo, constituindo-se em seus vícios, e nas atitudes de empecilho as suas boas e piedosas obras, encontraremos outras onde se faria muito mais sensível sua demonstração externa.

O demônio apareceria como tal, ou sob suas diferentes formas; seria percebido pelo odor, pela força que exerceria sob a própria natureza. Nestes casos podemos vislumbrar, e muito mais visivelmente, que muitas destas ocorrências possui seu anterior corresponde em hagiografias anteriores, destacando-se a Vita Antonii de Atanásio de Alexandria. Valério embebido certamente mais do que da literatura monástica, da realidade mesma do fantástico e do miraculoso que esta apresentava, vivenciaria aquelas mesmas realidades com grande certeza de ser igualmente a sua “real” e imediata experiência. Transcrevemos, a seguir, esta passagem

 [...] E depois de ter tolerado, por muito tempo, estas coisas e decepções de outros tipos de tentações ele (o demônio), transtornado pela ira de sua insana fúria, provocou um tal estrondo que aquele horroroso som e temeroso tremor destruíram muitas rochas deixando-as como sal, dispersando-as a grande distancia. E, no momento deste tremor, no meio da noite, eu estava contemplando a habitação e sobre mim caíram muitas fundações. E somente Deus presenciou isto. [...]. (VALÉRIO DO BIERZO, 1942, p.169) 

O demônio que sacudira e destruiria parte da cela de Valério já havia se utilizado deste mesmo artifício na Vita de Antão. O anacoreta copta que se recluiria em um sepulcro teve este seu lugar abalado pelo demônio que provocou grande ruído e partiu seus muros para que entrassem grandes quantidades de demônios em forma de espectros

[...] O diabo dispõe de mil maneiras para fazer dano. Aquela mesma noite fizeram um ruído tão grande que tremeu todo aquele lugar. Os muros de sua cela pareceram abrir-se, e entrou uma multidão de demônios; aparências de bestas selvagens e répteis, espectros de leões, ursos, leopardos, touros, serpentes, aspides, escorpiões e lobos enchiam o recinto  [...]. (ATANÁSIO DE ALEXANDRIA, 1988, p.35)

E uma ocorrência deste mesmo gênero, ou talvez, deveríamos dizer esta mesma ocorrência, encontramos novamente na Vita de Pacômio

Então estes miseráveis espíritos vendo que sua invencível firmeza não havia podido ser quebrada por tantos combates, formaram um grande batalhão e se lançaram impetuosamente sobre ele; cercaram sua morada e a comoveram até seus alicerces, de tal forma, que o santo acreditou que havia sido inteiramente derrubada (BREMOND, 1928, p.112)

O anacoreta do Bierzo descreveria certa vez assim o demônio “[...] e quando eu assentava minha cabeça, orando ou reclinando-a, ele soprava sob meu nariz, com suas baixíssimas entranhas, um incessante, fétido e quente fedor intolerável e horrível [...]” (VALÉRIO DO BIERZO, 1942, p.169) Sensações de calor, odor e aparições físicas do demônio de Valério só faziam retomar uma tradição há muito estabelecida pelos padres do primitivo monacato, conforme podemos ver, por ocorrências bastante análogas na Vita Antonii e na Vita  Hilarionis devida a Jerônimo. Com relação à primeira, o demônio seria caracterizado tanto por Atanásio como por Valério do Bierzo como um gigante, um homem de grande estatura, no claro intuito de infundir-lhes medo por sua força. Mas em ambos os casos o nome de Cristo o submeteria rapidamente. Transcrevemos novamente as passagens correspondes:

Um dia apareceu um demônio muito alto e se atreveu a dizer-me ‘ eu sou o poder do Altíssimo e a Providência. Que queres que faça contigo?’. Mas eu o retive no nome do senhor, e pus-me a golpeá-lo como se o açoitara. E ele que era tão grande, fugiu com seus demônios ante o nome do Senhor (ATANÁSIO DE ALEXANDRIA, 1988, p.62)

E seu congênere em Valério do Bierzo:

[...] encontrei ali, naquela entrada (a da Igreja de São Felix), o demonio levantado como um enorme e horrível gigante, de grande estatura, elevado sobre as nuvens. E sem falar, observando-o com infinito temor, fiz lhe frente ali mesmo. [...]. E marcando minha cabeça disse-lhe: ‘Contemplai a cruz de meu Senhor Jesus Cristo, que é minha vitória e minha esperança . Agora veremos qual de nós fugirá’ E andando para frente professei: ‘Em nome do Pai do Filho e do Espírito Santo’. E alcançando o lugar onde ele estava erguido, ele inclinou-se sobre a terra, contraindo-se, desvanecendo-se e desaparecendo. [...] (VALÉRIO DO BIRZO, 1942, p.180)

Valério, fazendo eco a uma das caracterizações mais tradicionais do mal, pois encontrada em outras religiões e sensibilidades religiosas que não a cristã, e talvez com isto implicando para o leitor da atualidade certo preconceito racial, identificaria a cor negra de um presbítero, Justo, que já citámos anteriormente, a sua condição moral depreciativa. Afirmava a feiúra externa do presbítero por sua cor escura e, sobretudo, por esta se refletir em seu interior. Identificado com o vazio, com a noite e as trevas, assim como com o mundo subterrâneo, e em última instância com a morte, e que não obstante, se contrapõe a brancura e a luz, um dos signos mais relevantes das divindades positivas e, claramente, do próprio Deus cristão, a cor negra aparecerá em outros textos monásticos de forma muito mais incisiva como uma das características dos demônios.[8] A apreensão visual do mal em Valério, na cor negra, encontraria sua existência e justificativa em uma mentalidade tão difusa quanto recuada no tempo. 

De grande criatividade, os demônios, ou nossos piedosos hagiógrafos, se utilizariam de formas diversas e curiosas para o mal fazer-se sentir. Caracterizado sempre, por aparições fantásticas, horríveis, barulhos, confusão, temor, odores fétidos, espectros de animais ou seres fabulosos, ou ainda, anjos de luz, monges, jovens belos ou belas mulheres, o demônio lutaria com grande astúcia contra os monges, aqueles homens que estavam mais próximos de Deus e da salvação. Mas, como vemos na autobiografia de Valério, o solitário sempre o submeteria e venceria pela invocação do nome de Cristo e pelo sinal da cruz. A Vita de Antão insiste em vários de seus capítulos na fragilidade do demônio a ponto de suas tentações não poderem de fato corromper definitivamente o homem, e principalmente quando este se sustentava por sua fé em Cristo. Desta certeza, dada por Antão, e antes de tudo por Atanásio, puderam os solitários posteriores, e aqui Valério, descrever não só tentações e modos análogos de sentir os demônios, mas sua vitória certa em nome de Cristo, cuja fé, eles professavam de igual forma por este modo de vida cristã tão exemplar.[9]

A tradição monástica também já deveria ter afirmado a Valério que o demônio não poderia enganar os anacoretas experimentados. E o solitário do Bierzo nos deu a conhecer ser um monge de grande experiência e força, pois enfrentou e combateu durante toda a sua vida conversa o demônio que se utilizou das mais diversas formas de a ele se opor. Afirmar-nos-ia Valério que não podendo mais o demônio enganá-lo, se dirigiria a um discípulo menos experiente que se encontrava junto de si. O menino falara então a Valério que via um anjo de face luminosa e vestes muito branca. O experiente solitário de imediato duvidara da realidade angélica daquele espírito. Pediria ao menino que recitasse com ele alguns salmos, pois deste modo, se fosse um anjo do senhor se alegria, mas se fosse um demônio não agüentaria tamanho louvor à fé cristã. E de fato, ao rezarem os salmos, o anjo desapareceu ao instante, denotando sua origem maligna e o engano por aquele causado.[10] (VALÉRIO DO BIERZO, 1942,p.181) Encontramos uma passagem bastante análoga na Vita de Martinho de Tours, cujo jovem discípulo do monge de Marmoutier, seria enganado por um demônio travestido de anjo, que só seria descoberto quando da intervenção de Martinho.(SULPÍCIO SEVERO, 1987, p.165)

Como muitos investigadores de Valério do Bierzo já atentaram, a vida monástica, suas fontes e personagens, cobraram de Valério um lugar de primeira e maior importância na maior parte de sua compilação hagiográfica e inclusive em sua “autobiografia”. E ao tratarmos aqui, ainda que rapidamente, do aspecto demonológico de sua narração, auferimos uma nova asseveração a esta constatação. Valério, ou pelo menos aquele monge solitário que o próprio se deu a conhecer em sua autobiografia, viveria em grande medida do espírito de seus correspondentes e anteriores monges, que mais do que ser apropriado literalmente, seria vivenciado em grande medida, por comungarem, em última instância, de um mesmo modus vivendi e de uma mesma perspectiva diante do mundo e de suas relações para com ele.

Fontes 

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA. Vida de Antonio. Traducción, introdución y notas por A. Ballano. Zamora: Ediciones Monte Casino, 1988.

EVÁGRIO PÔNTICO. Tratado Prático. In: Obras Espirituales. Introducción y notas por José I. González Villanueva. Traducción de Juan Pablo Rubio Sadia. Cidad Nueva: Buenos Aires, 1995.

JOÃO CASSIANO. Institutions cénobitiques. Edição e tradução Jean-Claude Guy, S.J. Paris: Du Cerf, 1965.

SULPÍCIO SEVERO Vida de Martin. Obras Completas de Sulpício Severo. Estúdio preliminar, traducción y notas de Carmen Codoñer Merino. Madrid: Tecnos, 1987.

VALÉRIO DO BIERZO. Obras. Edición crítica de R. Fernandez Pousa. Madrid: Instituto “Antonio de Nebrija”,1942.  

VALÉRIO DO BIERZO. De Genere Monachorum. a edição e estudo de Manuel C. Díaz y Díaz. Anecdota Wisigothica I. Estudios e ediciones de textos literarios menores de la época visigoda. Salamanca: Universidad de Salamanca , 1958

Vida y dichos de los padres del desierto. Edición de Luciana Mortari, versión de M. Montes. Bilbao: Desclée De Brouwer, 1996, v.1

La Vita de San Fructuoso de Braga. Estúdio, edición crítica y traducción bilíngüe (latim-espanhol) de Manuel C. Díaz e Díaz. Braga: s/e, 1974.

Vulgata. Edición de A. Colunga e L. Turrado. Madrid BAC, 1985.

 

Bibliografia

AMARAL, Ronaldo. Hagiografia e vida monástica. O eremítismo como ideal monástico na Vita Sancti Fructuosi, 2006, 380 p. Tese (Doutorado em História Social), Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista, Assis, 2006.

BLÁZQUEZ, José María. Intelectuales, ascetas y demonios al final de la Antigüedad, Madrid, Cátedra, 1998.

CORTAZAR, Garcia. La época medieval, História de España Alfaguara II, Madrid, Alianza Universidad, 1985  

COLLINS, Roger. España en la Alta Edad Media, Barcelona, Crítica, 1986.

COLOMBÁS, Gárcía. O Monacato primitivo, Madrid: BAC, 1974, 2v.

GERALDES FREIRE, J. “Os “Apophthegmata Patrum” no mosteiro de Dume” in Bracara Augusta, Braga, v.21, p. 298-308, 1967.

BREMOND, Jean. Los Padres del Yermo, Prólogo de Henri Bremond, Madrid: Aguilar, 1928.

BROWN, Peter. O fim do mundo clássico, Lisboa, Verbo, 1972, p.105.

DÍAZ Y DÍAZ. Manuel C. “La vida eremítica en el reino visigodo” in: España Eremitica, Actas de la VI Semana de Estudios Monásticos. Abadia de San Salvador de Leyre, 15-29 de Septiembre, 1963, Pamplona:s.e, 1970

DÍAZ Y DÍAZ, Manuel C. Anedóctica visigótica  y estudios y ediciones de textos literarios menores da Época Visigoda. Salamanca, Anaya, 1958.

GARCIA MORENO, Luis A. “El campesinato hispanovisigodo entre bajos rendimientos y catástrofes naturales. Su incidencia demografica” in GONÇALEZ BLANCO, A. (Dir.) Los visigodos. Historia y civilización. Antiguidad y cristianismo. Monografias historicas sor la antiguidad tardia III. Murcia, Universidade de Murcia, 1986.

LE GOFF, Jacques. O maravilhoso e o quotidiano no Ocidente Medieval, Lisboa: Edições 70, s.d

LE GOFF, Jacques. O Imaginário medieva, Lisboa: Estampa, 1994.

LE GOFF, Jacques. “As mentalidades. Uma história ambígua” in LE GOFF, Jacques; NORA, Pierre, História: Novos objetos, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976, p. 68-81.

RUSSEL, Jeffrey Burton, Lucifer. El diablo en la Edad Media, Alertes, Barcelona, 1984.

RUSSEL, Jeffrey B. El diablo. Percepciones del mal, de la antiguidad al Cristianismo primitivo. Alertes, Barcelona, s.d.



[1] A similaridade entre ambas as hagiografias, tanto no seu âmbito temático como geográfico, acrescido a informação de ser Valério do Bierzo um admirador e discípulo de Frutuoso de Braga, dado que se ocupara do seu mesmo estilo de vida, a anacorese, habitando ainda os mesmos lugares eremiticos por ele fundados, ou tão só ocupados, como as moradas rupestres, fizeram que por muito tempo se acreditasse que Valério fosse o autor da Vita Fructuosi. O filólogo Manuel C. Díaz y Díaz, demonstrou, contudo, que quanto a escrita, suas origens de redação, e as precisões de caráter geográfico e de recorrência ao miraculosusVita Fructuosi  se afasta muito dos  escritos de Valério, o que não concordaria com a autoria deste para àquele texto. Por nossa parte, nos imiscuindo desta discussão, colaboramos com a questão autoral da Vita Fructuosi na medida em que, por meio da mesma hagiografia, conseguimos precisar algumas das características deste autor e trazer a luz um pouco da personalidade.

[2] As razões inerentes a desestruturação da vida material da sociedade romana e de uma nova mentalidade acerca do mundo e do sagrado inaugurada pelo cristianismo nascente no Ocidente e especificamente na Hispânia, que incitaria, entre ouros comportamentos, a anacorese, temos apontado em nossa tese (Amaral, 2006, p. 131-153). Para as circunstâncias socioeconômicas da Hispânia desta mesma época, suas transformações e desencadeamentos, pode-se ver (Cortazar, 1985) e (Garcia Moreno, 1986, p. 171-187.)

[3] Pode-se ver uma breve “biografia” de Arsênio acompanhado de seus sentenças em Vida y dichos de los padres del desierto, 1996, p. 95-112).

[4] Pudemos averiguar, no entanto, que em um dos manuscritos da compilação hagiográfica de Valério do Bierzo, encontrado na Biblioteca Nacional de Madrid, n. 10007, e datado do século X, encontram-se a Vita Antonii, as três Vitae escritas por Jerônimo, as de Palus, Hilarion e Malchus e algumas passagens da Historia Monachorum de Rufino, assim como algumas Sentenças dos Padres, e trechos das Conferências de João Cassiano. Se este manuscrito remete com fidelidade as obras copiadas por Valério, ou seja, se não as incorporou posteriormente, temos a comprovação que estas hagiografias foram conhecidas in loco pelo ambiente monástico fructuosiano, as quais, entretanto, e segundo nosso ponto de vista, já estavam comprovadas para este ambiente, pela utilização clara que delas fizeram, por exemplo, Valério e o autor da VF em seus escritos.

[5]  As virtudes seriam, de acordo com a tradição espiritual do monacato primitivo, o contraponto dos vícios suscitados pelos demônios que os instigariam e mesmo se constituiriam em cada uma de suas categorias. Assim haveria para cada gênero de vício um demônio específico, e a cada vitória sobre um vício, vencer-se-ia igualmente um demônio, obtendo, não obstante, a conseqüente conquista de uma virtude contraria àquele vício. Os expoentes desta teoria espiritual são Evágrio Pôntico (346 ou 347 a 399) e João Cassiano. Este, por sua vez, retomaria do primeiro e daria a conhecê-la ao Ocidente ainda nestes primitivos séculos cristãos.

[6] Esta pode ser considerada uma nas percepções mais recorrentes do demônio na “autobiografia” de Valério, pois o anacoreta sempre argumentara que o demônio se apossava de algum modo das pessoas à sua volta e com quem se relacionava para colocar empecilhos a sua vida “santificada” pela busca da paz e solidão. Estando os “adversários” de Valério mais ligados ao século, estariam, por antonomásia, mais susceptíveis  aos  pensamentos e emoções ligados ao humano e ao mundo, as “armas” que os demônios moviam e personificavam contra os homens.

[7] O sacerdote de nome Flaino, como muitos outros membros da Igreja secular, se oporia à “humildade” monástica de Valério. Este quadro, se não de oposição, ao menos de tensão entre vida monástica e vida eclesiástica, fora também um tema por nós largamente tratado em nossa tese de doutorado aqui já citada.  

[8] A Vita Antonii apresenta mais de um caso em que o demônio é não só identificado à negrura mas aparecera como um ser humano negro. A tradição religiosa cristã e mesmo outras crenças anteriores ou paralelas a ela terão como lugar recorrente a cor negra como significação do mal ou de suas vicissitudes, ainda que, algumas vezes possa não necessariamente assim significar.

[9] São inúmeros e incisivos os capítulos na Vita Antonii que insiste na debilidade dos demônios, apesar de sua continua tentação aos monges.

[10] Valério do Bierzo. Replicatio sermonum a prima conversione,  6.