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Número 2
EDITORIAL
O primeiro número da Medievalista, a revista on line do Instituto de Estudos Medievais (IEM), saiu em 2005, numa altura em que já se encontrava gravemente doente o presidente do IEM...
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Instituto de Estudos Medievais
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa
Av. Berna 26 C, 1069-061 Lisboa

ISSN 1646-740X

estudosmedievais@fcsh.unl.pt

ano 2 ● número 2  ● 2006

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A Idade Média e o Bestiário *

Angélica Varandas
Instituto de Estudos Medievais/FCSH-UNL

* Apresentação no III Seminário Aberto 2006, organizado pelo Instituto de Estudos Medievais da Universidade Nova de Lisboa (25 de Maio / 2006).

 

O Bestiário ou Livro das Bestas assume-se como uma obra singular no âmbito da literatura da Idade Média. Em primeiro lugar, por nele se descreverem várias espécies animais, sejam elas existentes ou não. Em segundo lugar, por subordinar essa descrição a uma interpretação de cariz simbólico e alegórico. Em terceiro lugar, ao integrar iluminuras que se cruzam com o texto escrito, estabelecendo com ele um diálogo permanente. Por fim, porque se constitui como uma obra literária que se circunscreveu à época medieval que o viu nascer e morrer. Todos estes aspectos se relacionam mutuamente como passaremos a demonstrar.

O Bestiário organiza-se em torno de pequenas narrativas que descrevem várias espécies animais, com propósitos morais e didácticos. Neste sentido, cada uma dessas narrativas é composta por duas partes distintas: uma parte descritiva de sentido literal (a descrição, proprietas ou naturas) e a sua moralização e interpretação teológica de sentido simbólico-alegórico (também designada como moralização, moralitas ou figuras). Os termos que aqui adoptamos, naturas e figuras, são utilizados, por exemplo, no Bestiaire de Philippe de Thaon. Subordinando a naturas à figuras, na maioria das vezes por intermédio da citação bíblica que organiza as narrativas, o Bestiário remete para o modo de significação característico da Idade Média: nele os animais deixam de ser apenas animais para se assumirem como exempla, isto é, como simbolos de vícios ou virtudes e fonte de ensinamentos religiosos e morais. Por este motivo, embora muitos críticos tenham defendido o carácter científico do Bestiário, a descrição dos animais nele apresentada não pretende ser factual. Na verdade, ele afasta-se, em larga medida, dos Tratados de História Natural e até dos seus congéneres mais próximos: os herbários e os lapidários, estes últimos fornecendo, respectivamente, uma descrição detalhada de plantas e pedras, não com propósitos didácticos e moralistas, mas com o objectivo de veicular a sua utilidade prática para fins medicinais. O que nele se procura transmitir, pelo contrário, é uma verdade espiritual de ordem cristã, preocupação para a qual terá contribuído o facto de ter sido produzido nos mosteiros e destinado a um público religioso – noviços e conversos (sendo os últimos pessoas que se haviam convertido à vida monástica numa fase mais tardia das suas vidas e que, por isso, não podiam celebrar o ritual religioso)- para o qual funcionava como manual de estudo.

Para exemplificar estas afirmações, recorramos à narrativa do leão, o primeiro animal a ser habitualmente descrito nos manuscritos dos bestiários.

De acordo com os bestiários, são três as características do leão: o animal apaga com a cauda o próprio rasto para não ser capturado por caçadores; dorme de olhos abertos; e a fêmea dá à luz as crias mortas. De acordo com a última característica, a leoa, durante três dias, vigia os corpos inanimados dos seus filhos e ao terceiro dia, diz o Fisiólogo, é o rugido do pai que os acorda para a vida:[1]
After birth he does not wake up until the sun circles for the third time, but his father rouses him by giving a roar; then, so to speak, he comes alive, then he takes hold of his five senses and he never shuts his eyes however often he sleeps. [2]

No Bestiário, o rugido é transformado em sopro:
(...) on the third day the father comes, blows in their faces, and awakens them to life. [3]

A alusão bíblica não poderia ser mais explícita: também o Senhor acordou o Seu Filho ao terceiro dia, ressucitando-O para a vida eterna. O leão é, assim, símbolo animal de Deus Pai e de Deus Filho ressuscitado, como se afirma no bestiário MS. Ashmole 1511:

au troisième jour surgit leur père qui souffle sur leurs corps et leur insuffle la vie. Ainsi fit le Tout-Puissant pour Notre-Seigneur Jésus-Christ qu’il ressuscita des morts le troisième jour. [4]

Aqui, a voz é o sopro da vida, o mesmo sopro com que Deus criou o primeiro homem – Adão – e ressuscitou também para a vida o seu anti-tipo – Cristo.[5] O sopro é, portanto, sinónimo da Palavra criadora, remetendo também para a respiração e, mais precisamente, para a expiração, outro símbolo de vida.

Além disso, a imponência do rugido do leão é tal que nenhum ser lhe fica indiferente, ou não fosse o leão o rei de todas as criaturas animais. No MS. Bodley 764 pode ler-se:
Which animal dares to resist him whose voice is by nature terror itself, so that many animals who could escape him by virtue of their speed are so terrified by his roaring that they are already vanquished? [6]

Deste modo, torna-se ainda mais relevante a comparação do rugido potente do leão com a Palavra omnipotente de Cristo.

Figura 1: o leão sopra para a boca da cria. (MS. Bodley 764)

A maioria dos bestiários ilustra o ressuscitar das crias do leão, exibindo o progenitor a lamber os filhos, acentuando claramente a língua, uma vez que essa é um orgão indispensável para a articulação da Palavra, entendida como sinónimo de Voz e de Verbo. O MS. Bodley 764 tem a particularidade de ilustrar dois leões: um, de facto, lambe a cria (repare-se como a língua se destaca), mas o outro emite o seu sopro – o sopro da vida – directamente para a boca aberta do filho inanimado, como se estivesse a praticar aquilo que designamos hoje por respiração boca-a-boca. O sopro e a respiração são ilustrados através de vários riscos suaves e paralelos que saem da boca do animal. Note-se ainda que este leão tem as patas pousadas sobre o peito da cria, assim evidenciando a ideia da ressurreição pelo amor filial e pela Fé que deveria estar contida no coração dos homens.

A narrativa do leão é aquela que, de modo geral, abre todos os manuscritos dos bestiários, confirmando a ideia de que é ele o rei dos animais. Também pelo mesmo motivo, é ao leão que cabe o capítulo mais longo e o maior número de iluminuras, nas quais se torna igualmente claro um maior empenho por parte dos artistas. É normal a sua história vir acompanhada de cerca de três ou quatro iluminuras que pretendem ilustrar as várias características de que é dotado, o que é raro acontecer com os outros animais. Na verdade, o leão é dos animais do Bestiário o que mais claramente identifica Voz e Palavra, facto acentuado por ser também o primeiro a ser descrito: o leão é o rei das criaturas terrestres, como de resto se salienta quando se descodifica o significado etimológico da palavra leo que significa, afinal, rei. [7] Lembremos ainda que simboliza o Apóstolo S. Marcos.

Ainda que a narrativa do leão seja sensivelmente a mesma em todos os bestiários conhecidos, a versão longa do bestiário francês de Pierre de Beauvais atribui à leoa uma característica semelhante à da doninha: a leoa dá à luz pela boca uma cria morta que irá ser ressuscitada pelo macho. Contudo, a ideia de que também a leoa, como a doninha, dá à luz pela boca não vingou a nível do imaginário medieval.

Figura 2: dois leões reanimam as suas crias, lambendo-lhes o corpo. (MS. Royal 12.C. XIX).

As origens do Bestiário remontam à época clássica greco-latina e a autores como Heródoto ou Plínio, embora a fonte mais importante seja o Fisiólogo. O Fisiólogo, ou o Naturalista, foi uma obra escrita em grego e produzida em Alexandria, entre os séculos I e III. Este original grego nunca foi encontrado e o único manuscrito grego que, hoje em dia, se conhece é uma retradução dessa fonte perdida. Sabe-se, porém, que a sua popularidade foi tal que logo se começaram a produzir traduções para várias línguas, tendo a primeira surgido na Etiópia, no século V, e as seguintes na Síria e na Arménia. A partir do mesmo século V, apareceu possivelmente a primeira tradução para latim, embora os manuscritos latinos mais antigos comecem a circular apenas no século VIII. No entanto, a corroborar a existência desta versão latina anterior, encontra-se o documento oficial do Papa Gelásio (492-496), conhecido como o Decretum Gelasium, no qual se apresenta uma lista de livros proibida pela Igreja.[8] Aí se refere um Fisiólogo latino, o que levou a crítica a aceitar que, por volta do século V, já circularia uma tradução latina do Fisiólogo grego. Entre os autores a quem se tem atribuído a primeira versão cristã do Fisiólogo, contam-se: Santo Ambrósio (referido no Decretum Gelasium), S. Pedro de Alexandria, Santo Epifânio, São Basílio, São João Crisóstomo, Santo Atanásio e São Jerónimo. Mas é, de facto, apenas após o século VIII que começam a surgir as muitas versões latinas do Fisiólogo que, por sua vez, vieram originar o aparecimento do Bestiário. Foi também a partir desse século que o Fisiólogo foi vertido para línguas tão variadas como o anglo-saxónico, o árabe, o islandês, o provençal, o castelhano e o italiano, entre outras.

Através da comparação entre estes textos, verificou-se que o Fisiólogo integra habitualmente quarenta e oito ou quarenta e nove capítulos que começam por descrever o animal para logo o relacionarem com o dogma cristão. Assim, cada um destes capítulos obedece a um esquema padronizado, iniciando-se por uma citação da Bíblia, à qual se segue a expressão “O Fisiólogo diz que ...” que introduz a descrição do animal, imediatamente seguida da sua interpretação moral e alegórica. A maioria da crítica acredita, contudo, que o original perdido procurava apenas descrever a criatura de forma literal, tendo as moralizações sido introduzidas posteriormente pelos autores cristãos. [9]

Ao longo dos séculos, o Fisiólogo foi-se transformando gradualmente até dar origem ao Bestiário. Esta transição é marcada pela interferência das Etimologias de Santo Isidoro de Sevilha. De facto, a partir do século XII, os manuscritos do Fisiólogo são reorganizados de acordo com a classificação proposta pelo bispo de Sevilha nem “De Animalibus” – o Livro XII das suas Etimologias. A divisão dos capítulos, a importância atribuída à etimologia dos nomes dos animais, o tipo de descrição da criatura e sua respectiva moralização baseiam-se em Isidoro. Esta transformação de um texto no outro tem sido sublimada por vários autores, entre os quais Florence McCulloch que a compara à que aconteceu, no mesmo século, na arquitectura medieval, em que o estilo românico deu lugar ao gótico. E se os textos do Bestário disso são testemunha, também as imagens que o integram se situam na transição de um estilo para o outro.

Os bestiários propriamente ditos desenvolveram-se particularmente em Inglaterra, embora também tenham conhecido algum prestígio em França, como demonstram os bestiários de Philippe de Thaon, Guillaume Le Clerc, Pierre de Beauvais e Richard de Fournival. Enquanto os manuscritos ingleses foram, todos eles, escritos em latim, os franceses são traduções para vernáculo do Fisiólogo latino.

No início do século XX, confrontando-se com esta enorme quantidade de manuscritos, quer do Fisiólogo, quer do Bestiário, o crítico inglês M. R. James entregou-se à tarefa de classificar e organizar os manuscritos por famílias, numa obra fundamental, embora muito difícil de encontrar, intitulada The Bestiary.[10] Uns anos mais tarde, num estudo hoje considerado paradigmático, Florence McCulloch adicionou uma subfamília à Primeira Família de James.[11] Passamos pois a apresentar a classificação dos dois críticos.

 

Classificação e Tipologia do Fisiólogo e dos bestiários

O FISIÓLOGO

As Versões Latinas
1. A versão Y
O Fisiólogo grego, nas suas múltiplas versões, deu origem ao Fisiólogo latino, também ele divulgado através de uma variedade de textos.

Os manuscritos latinos mais antigos são aqueles que de mais perto seguem o original grego, o que é visível na forma como utilizam palavras gregas que surgem transcritas por entre o latim. A estes textos atribuíram-se as letras Y e C, em que a versão Y, editada pelo Professor Francis J. Carmody, contém os seguintes manuscritos: [12]
Y - Munich, Lat. 19417, século IX
Y2 - Munich, Lat. 14388, séculos IX-X
Y3 - Bern, Lat. 611, séculos VIII-IX.
Em cada um deles se atribui a autoria a um nome diferente. Assim, São João Crisóstomo terá sido o autor de Y, São João de Constantinopla o de Y2 e um bispo ortodoxo, de nome desconhecido, o autor de Y3.

Esta versão, que consiste aproximadamente em 49 capítulos, desapareceu de circulação por volta do século XI, não tendo tido influência em versões posteriores.

A - Brussels, Bibl. Roy. 10074, f. 140v.-156v. - século X
Composto por 36 capítulos, este manuscrito contém partes da versão Y. É ilustrado com imagens de origem carolíngia que, algumas vezes, mais do que o texto, pretendem descrever a alegoria subjacente.

3. C - Bern, Burgerbibliothek, lat. 318, f. 7-22v., século IX
Este texto é outra das traduções do Fisiólogo grego. Composto por 24 ou 26 capítulos, é o primeiro Fisiólogo latino ilustrado.

4.   Glossário de Ansileubus
Colecção de 22 pequenas descrições de animais muito semelhantes às das versões Y, A e C. Estas descrições não são seguidas da componente alegórica.

5.   Versão B
A importância fulcral desta versão, contida no manuscrito Bern, Lat. 233, f. 1-13, séculos VIII-IX, radica no facto de ser ela a originar as mais importantes versões latinas que se desenvolveram em França e em Inglaterra durante a Idade Média. Ela é, portanto, também com o Fisiólogo de Teobaldo, a versão mais disseminada do Fisiólogo latino.

 

A Primeira Família
1. A Versão B – I
Nesta subfamília incluem-se os manuscritos que, embora sigam em larga medida os textos da versão B, contêm também passos das Etimologias de Isidoro de Sevilha (daí a designação B-I). Na verdade, a obra do bispo de Sevilha, em particular o Livro XII - “De Animalibus” -, foi de uma importância extrema, não só na cultura medieval em geral, mas, muito especificamente, na evolução do Fisiólogo latino até à sua forma mais elaborada, isto é, os bestiários produzidos entre os séculos XII e XIV. Para além das Etimologias de Isidoro, outras das obras que originaram novas adições ao Fisiólogo latino foram, por um lado, a História Natural de Plínio, e, por outro, o Polyhistor de Solino. É também esta subfamília que está na origem dos bestiários de Philippe de Thaon e Pierre de Beauvais. Esses manuscritos são os seguintes:
Bodl., Laud Misc. 247, f. 139v.-166v.   início do século XII
Bodl. 602, f. 1-36.  Final do século XII (contém Aviarium entre os folios 36-65).
Bodl., Douce 167, f. 1-12.   Início do século XIII
                     
40.2
London, Sion College L -------, f. 73-116.  século XIII (contém Aviarium entre os folios 1-54).                                         L 28
Perrins 26, f. 67-102v.  século XIII (contém Aviarium entre os folios 1-45).
M., Stowe 1067, f. 1-15v. início século XII
Camb., Corpus Christi Coll. 22, f. 162-169.  Século XII

H - Livro II de Pseudo Hugo de S. Victor e o Aviarium
O texto De bestiis et aliis rebus, atribuído durante muito tempo a Hugo de S. Victor, mas da autoria de Hugo de Folieto, divide-se em dois livros: o livro I, no qual se descrevem diversas aves, sendo, por essa razão denominado de De Avibus (Aviário), e o Livro II, dedicado aos mamíferos (ver apêndice II). Este segundo livro, embora siga de muito perto os manuscritos da subfamília B - I, deles se distingue claramente uma vez que descreve apenas duas aves. Os manuscritos são os seguintes:
Camb., Sidney Sussex Coll. 100, f. 26-43.  Século XIII (Aviarium, f. 1-26)
Valenciennes 101, f. 189-201.  
Século XIII (Aviarium, f. 171-189).
N., lat. 14429, f. 109v.-118.  Século XIII (Aviarium, f. 96-109).
Chalon-sur Saône 14, f. 55-89.  Século XIII

Manuscritos de transição
São textos que se dividem entre 24 e 40 capítulos, tal como os textos da primeira família, aproximando-se ainda em termos de forma e conteúdo das subfamílias B-I ou H. Contêm também secções copiadas de Isidoro de Sevilha. São os seguintes:

Camb., Trinity Coll. R.14.9 (884), f. 89-106v.   século XIII
M., Royal 2 B. vii, f. 85-130v.  início século XIV
New York, Morgan 81, f. 1-89.  finais século XII
Leningrad, Qu.V.1, f. 1-98.  finais século XII
M., Royal 12 C. xix, f. 1-94.  finais século XII
Alnwick Bestiary, f. 1-73. Mid.   Século XIII
Munich, gall. 16 (Queen Isabella’s Psalter).  Século XIV

 

A Segunda Família - Os Bestiários
Ao longo do século XII, os textos do Fisiólogo latino vão sofrendo as mais variadas transformações, até atingirem aquela que é a sua forma mais estilizada - os bestiários dos séculos XII, XIII e XIV.

b)  Os bestiários propriamente ditos distinguem-se dos manuscritos das versões e famílias já referidas em vários aspectos fundamentais. São eles:
a) maior quantidade de material retirado do Livro XII das Etimologias de Isidoro de b) Sevilha, incluindo a própria divisão dos capítulos.
c) introdução de alguns capítulos que não fazem eco da componente moral.
d) adição de excertos da obra de Solino.
e) cópia de longos excertos do Hexaemeron de Santo Ambrósio.
f) adição de passos extraídos de De Universo de Rábano Mauro e do Pantheologus de Pedro da Cornualha.
h) acrescentamento de um sermão no capítulo dedicado ao cão que começa com a expressão  “Quocienscumque peccator”.

Pensam os filólogos e críticos desta Segunda Família que todos os manuscritos nela incluídos são de origem inglesa. E são eles:
M., Add. 11283, f. 1-41.   Início do século XII (ou seja, é o mais antigo Bestiário conhecido hoje em dia)
Brussels, Bibl. Roy. 8340, f. 183-215.   Século XIV
Aberdeen Univ. 24, f. 1-103.   Finais século XII
Bodl., Ashmole 1511, f. 1-104.   Finais século XII
Bodl., Douce 151, f. 1-90.  Século XIV
Oxford, Univ. Lib. 120, f. 1-70.  
Séculos XIII - XIV
M., Harl. 4751, f. 1-74v.   Finais século XII
Bodl. 764, f. 1-137.   Finais Século XII
Camb. Univ. Lib. Ii.4.26, f. 1-74.   Século XII
Oxford, St. John’s Coll. 61, f. 1-103.   Século XIII
M., Harl. 3244, f. 36-71v.   Início século XIII
Camb., Gonv. and Caius Coll. 109, f. 110-133.   Século XIII
N., lat. 3630, f. 75-96.   Século XIV
Desta Segunda Família fazem ainda parte os seguintes manuscritos que não possuem uma relação iconográfica entre si:
M., Royal 12 F. xiii, f. 1-141.   Séculos XII-XIII
M. Sloane 3544, f. 1-44.   Século XIII
Camb., Gonv. and Caius Coll. 384, f.167-199.  
Século XIII
Camb., Gonv. and Caius Coll. 372, f.1-64.   Século XIII
N., lat. 11207, f. 1-40.   Século XIII
Bodl. 533, f. 1-29v.  
Século XIII
Oxford, St. John’s Coll. 178, f. 157-220.   Finais século XIII
Douai, Bibl. Mun. 711, f. 1-60v.   Finais século XIII
Bodl., Douce 88 A, f. 5-29.   Finais século XIII
Canterbury, Cath. Lib. Lit.
D 10. Séculos XIII-XIV
Camb., Corpus Christi Coll. 53, f. 189-210.   Início século XIV
New York, Morgan 890, f. 1-18.  Século XIV
Copenhagen, Gl. Kgl. 1633 4º, f. 1-76v.  Século XIV

A Terceira e Quarta Famílias
Estas duas famílias são também constituídas por bestiários, todos eles produzidos durante o século XIII, que diferem dos da Segunda Família, por um lado, em termos da sua dimensão - são bastante maiores -, por outro, porque são menos comuns e não foram utilizados como fonte para as traduções francesas. Para além disso, copiam a secção das Nações Fabulosas de Isidoro de Sevilha, assim como a sua secção sobre monstros mitológicos (como Cérbero ou a Quimera); contêm extractos das obras Megacosmus ou De Mundi universitate de Bernardus Silvestris; incluem um passo sobre a Roda da Fortuna e um excerto de De Remediis Fortuitorum de Séneca; fazem alusão às sete Maravilhas do Mundo e citam o Policraticus de John of Salisbury. Os manuscritos são:
Camb., Fitzwilliam Museum 254, f. 1-48.   Início século XIII
Camb. Univ. Lib. Kk.4.25, f. 48-86.   Século XIII
Bodl., Douce 88 E, f. 68-116v.   Finais século XIII
Bodl. E Museo 136, f. 1-47.   Século XIII
Westmisnter Abbey 22, 1-54.   Século XIII
Ao basear-se, não só em Isidoro, mas também em De Proprietatibus rerum de Bartholomeus Anglicus, o único manuscrito que faz parte da Quarta Família é:
Camb., Univ. Lib. Gg.6.5., f. 1-100.  Século XV

Verificamos que os bestiários produzidos em Inglaterra entre os séculos XII e XIV pertencem à Segunda Família de manuscritos descrita por M. R. James. Existem ainda outros manuscritos, não incluídos nestas famílias, mas igualmente importantes a nível da sua divulgação na Idade Média: o Fisiólogo de Teobaldo, a Dicta Chrysostomi e os bestiários produzidos em França que muito devem à subfamília B-I.

1.   TH - O Fisiólogo de Teobaldo
Texto atribuído a Teobaldo, abade de Monte Cassino, em cujo mosteiro, entre 1022 e 1035, ensinava ciências naturais e medicina. É um poema de cerca de 300 versos que existe em vários manuscritos aos quais, por vezes, se acrescentou o nome do abade.

2.   DC - A Dicta Chrysostomi
Texto atribuído a São João Crisóstomo, patriarca de Constantinopla no século V da nossa era. Pensa-se que o texto, todavia, terá sido produzido em França por volta do ano 1000. Foi traduzido por Gervaise e parece ter sido utilizado como fonte por Pierre de Beauvais, ou, pelo menos, assim nos fazem crer dois manuscritos que contêm a versão curta do seu Bestiaire. Um dos manuscritos da Dicta Chrysostomi é o Hofer Bestiary do século XIII.

Estas famílias e subfamílias de manuscritos permitem-nos concluir que é muito vasto o número de manuscritos que, de uma forma simples ou mais elaborada, derivam do Fisiólogo grego, contribuindo, assim, para o tornar numa das obras mais populares ao longo de toda a Idade Média.

 

Os Manuscritos Franceses

Os mais importantes bestiários franceses são quatro: o Bestiaire de Philippe de Thaon, o Bestiaire de Gervaise, o Bestiaire Divin de Guillaume Le Clerc e as duas versões de Pierre de Beauvais. Todos eles são traduções para vernáculo das versões B-I do Fisiólogo latino, à excepção do Bestiaire de Gervaise que é uma tradução da Dicta Chrysostomi. Ao contrário dos manuscritos ingleses, não são obras de luxo, denotando uma maior simplicidade na sua apresentação.

O Bestiaire de Philippe de Thaon:
 É o mais antigo bestiário francês e o que mais próximo se encontra do Fisiólogo latino. É constituído por 3194 versos, divididos por trinta e oito capítulos, e é dedicado à rainha Aelis de Louvain, segunda esposa do rei Henrique I de Inglaterra. Philippe de Thaon terá produzido também um ou dois lapidários. São três os manuscritos que incluem este Bestiaire:
L - London, B. M., Cotton Nero A. V, f. 41-82 v. Segunda metade do século XII. Possui espaços em branco que não chegaram a ser ilustrados.
O - Oxford, Merton College 249, f. 1-10. Produzido em Inglaterra no século XIII. Possui alguns desenhos de fraca qualidade.
C - Copenhagen, Royal Library 3466, f. 3-51. Séculos XIII ou XIV. Está incompleto e possui ilustrações.
Todos os manuscritos contêm um prólogo em latim, bem como rubricas na mesma língua.

O Bestiaire de Gervaise:
É um bestiário de apenas 1280 versos rimados, produzido no início do século XIII. Sobrevive num único manuscrito – o B. M., Add. 28260, f. 84-100 v. da segunda metade do século XIII. Possui algumas ilustrações na primeira parte do texto, todas elas pequenas e simples. É uma versão da Dicta Chrysostomi atribuída a S. João Crisóstomo.

O Bestiaire de Guillaume le Clerc:
É o mais longo dos quatro bestiários franceses rimados: possui 3426 versos. É conhecido apenas como Bestiaire ou como Bestiaire Divin e é dedicado a um Raoul. Foi produzido entre 1210 e 1211 e é, de todos os bestiários franceses, o mais popular, dada a quantidade de manuscritos existentes: vinte e três manuscritos copiados em França e em Inglaterra que, na sua maioria, possuem boas iluminuras. São eles:
A – B. M., Egerton 613, f. 31-59. Meados do século XIII.
B – B. N., fr. 14969, f. 1-72 v. Século XIII.
C – B. N., fr. 2168, f. 188v. – 209v. Segunda metade do século XIII.
D – B. N., fr. 25406, f. 1-30. Final do século XIII ou século XIV.
E – B. N., fr. 14964, f. 118-181 v. Final  do século XIII.
F – B. N., 1444, f. 240-257. Final  do século XIII.
G – B. N., fr. 14970, f. 1-34 v. Século XIII.
H – B. N., fr. 24428, f. 53-78 v. Século XIII.
I – B. N., fr. 25408, f. 70v. – 106v. Século XIII.
K – B. N., fr. 902, f. 137-159. Século XIV.
L – B. N., fr. 20046, f. 1-36. Século XIV.
M – B. M., Royal 16 E. Viii, f. 2-71v. Século XIII.
          (desaparecido desde 1879)
N – B. M., Cotton Vesp. A. vii, f. 4-33. Século XIV.
O – Barrois 11, anteriormente pertencente a Lord Ashburnham.
       
Nome actual: B. N., Rothchild IV.2.24, f. 140-163. Século XIV.
P – Bodl., Douce 132, f. 63-81 v. Século XIV.
Q – Vatican, Regina 1682, f. 4-26 v. Século XIV.
R – B. N., fr. 25406. (o mesmo referido em D)
S – Berlin, Hamilton 273. Hoje conhecido como Camb., Fitzwilliam Museum, J.20, f. 45-73.
Século XIV.
T – Lyon, Palais des Arts 78, f. 36-58. Século XIII.
U – Philipps 4156. Século XIII.
V ­_ Camb., Trinity Coll., 0.2.14(2), f. 32v. – 61v. Século XIII.
X _ Camb., Fitzwilliam, McLean 123, f. 20-66. Cerca de 1300.
Y _ Bodl., 912, f. 1-12. Início do século XIV.
Z _ Paris, Arsenal 2691, f. 62-95v. Século XV.

As Versões de Pierre de Beauvais:
Pierre de Beauvais é também conhecido como Pierre le Picard, uma vez que o mais antigo manuscrito do seu bestiário está escrito no dialecto picardo. Antes de 1218, produziu um bestiário em duas versões: uma versão curta, de cerca de trinta e oito capítulos, e uma versão longa, de cerca de setenta e um. Os manuscritos existentes são os que se seguem:
Versão Longa:
P – Paris, Bibl. de l’Arsenal, fr. 3516, f. 198v. – 212 v. Século XIII.
Mon – Montpellier, Bibl. de la Faculté de Médecine, H. 437, f. 195-250. Século XIV.
V – Vatican, Reg. 1323, f. 2-36. Data: 1475.
Ph – Philipps 6739, f. 1-50. Final do século XIII.

Versão Curta:
R – Paris, B. N., fr. 834, f. 39-48 v. Século XIV.
S – Paris, B. N., fr. 944, f. 14-34 v. Século XV.
L – Paris, B. N., fr. Nova aqui. 13251 (anteriormente La Clayette MS.), f. 22-31. Século XIII.
Ma – Malines, Bibl. du Séminaire 32, f. 1-23.
Século XV.

Outros bestiários produzidos em França incluem o Li Bestiaires d’Amours de Richard de Fournival; o Cambrai Bestiary; a versão provençal Aiso son las naturas d’alcus auzels e d’alcunas bestias; o Bestiaire d’Amour rimado, preservado num único manuscrito do final do século XIII; um manuscrito único do século XV intitulado De las Propriotas de las animanças, que pertence ao Trinity College, em Dublin; e, por fim, o Livro I do Li Livres du Trésor de Brunetto Latini. 

Através de enorme profusão de manuscritos acima referidos, é fácil verificar que a popularidade do Bestiário na Idade Média foi enorme, sendo comparável apenas à da própria Sagrada Escritura. Este género textual foi, como já afirmámos, particularmente produtivo em Inglaterra, ao longo dos séculos XII, XIII e XIV, vindo a desaparecer por volta do século XV, como podemos observar no quadro abaixo respeitante ao número de bestiários sobreviventes, produzidos em Inglaterra, entre os séculos XII e XV:

Quadro 1

O segundo quadro, por sua vez, mostra-nos a data de produção dos bestiários ingleses escritos em latim (as cidades referidas no quadro dizem respeito ao local onde os manuscritos se encontram hoje em dia):

Quadro 2

A análise destes quadros permite-nos, mais uma vez, concluir que a maioria dos manuscritos pertence ao século XIII, existindo apenas dois manuscritos produzidos no século XV. Por sua vez, o quadro seguinte mostra-nos a distribuição geográfica dos manuscritos em Inglaterra, tendo em conta os seus centros de consumo (cada ponto representa um bestiário):

Quadro 3

Verificamos que a distribuição dos manuscritos coincide com a localização de mosteiros e casas religiosas. Na verdade, eram os mosteiros os principais centros de produção e consumo de bestiários, embora alguns manuscritos fossem encomendados por patronos seculares, como acontece com o MS. Bodley 764. Neste manuscrito, na iluminura dedicada ao elefante ostentam-se as armas do homem que o encomendou – Roger de Monhaut, como se pode observar através do escudo que adorna o topo da torre em cima do elefante:

Figura 3: elefante (MS. Bodley 764)

O desenvolvimento da produção de bestiários é coincidente com o desenvolvimento e crescimento das bibliotecas monásticas. Por estas razões, não podemos atribuir a estes manuscritos um autor particular, pois apresentam-se como fruto de várias mãos que, ao longo dos anos, os foram copiando e, ao mesmo tempo, traduzindo e ampliando.

De entre as várias ordens religiosas que apadrinharam os bestiários contam-se os monges beneditinos e os cistercienses, embora também os franciscanos e os monges agostinhos os tenham desenvolvido, como podemos apreciar a partir do quadro 4, onde testemunhamos, uma vez mais, que apenas o MS. Bodley 764, já referido, é de origem secular:

Quadro 4

Abreviaturas:
AC  Augustinian Canons (Cónegos Agostinhos)
B Benedictines (Beneditinos)
BCP Benedictine Cathedral Priory (Priorado de Catedral Beneditina)
C Cistercians (Cistercienses)
D Dominicans (Dominicanos)
F Franciscans (Franciscanos)
S Secular Use (Uso Secular)
Embora o Bestiário, como tivémos oportunidade de verificar, seja herdeiro directo do Fisiólogo e deva a sua organização ao “De Animalibus” – o Livro XII das Etimologias de Isidoro de Sevilha -, outros textos houve que determinaram o seu aparecimento, nomeadamente:
- a Collectanea rerum memorabilium de Solino (conhecida como Polyhistor, a partir da sua revisão no séc. VI);
- A Historia naturalis de Plínio, de que a obra de Solino atrás referida é uma versão;
- a obra de Aeliano;
- o Hexaemeron de Santo Ambrósio;
-  De Universo de Rábano Mauro, que, no século VIII, acrescentou às Etimologias uma vertente moralizante;
-  o Pantheolugus de Pedro da Cornualha, que fornece uma interpretação religiosa das características dos animais mencionados nas Escrituras;
- a Topographia hiberniae de Giraldus Cambrensis (Gerald of Wales);
- a Bíblia.

As fontes autorais mais importantes que terão estado na origem do Fisiólogo e do Bestiário são apontadas por T. H. White, na sua tradução para inglês do Bestiário de Cambridge (Cambridge University Library II. 4. 26) através do livro The Book of Beasts. Num quadro adaptado da obra de Ansell Robin, Animal Lore in English Literature, White considera o Bestiário filho directo do Fisiólogo e de Isidoro de Sevilha:

Quadro 5

O Bestiário foi profundamente popular na Idade Média, a ela se circunscrevendo, devido à enorme importância do neoplatonismo na cultura medieval. O Bestiário assume-se, na verdade, como obra de raízes e tendências neoplatónicas, veiculando ainda os fundamentos subjacentes à exegese bíblica e à arte da memória. De facto, caracteriza-se como um texto híbrido, revelando-se, ao mesmo tempo, como livro naturalista, livro maravilhoso, livro de estudo, livro menmónico, livro exegético, livro didáctico e livro alegórico.

Comecemos por lembrar que, no âmbito doutrina neoplatónica, da qual Orígenes e Santo Agostinho foram dois dos principais arautos, todo a realidade, incluindo a natureza e as criaturas, esconde e espelha (no sentido medieval de speculum) uma verdade divina e transcendental. Neste sentido, conhecer a realidade é um modo de conhecer Aquele que a criou, pelo que através do mundo material se pode aceder ao mundo espiritual. Neste caminho de ascese, a natureza funciona como um meio de glorificar a glória de Deus, não só porque espelha a perfeição da criação divina, mas também porque permite que, através da contemplação e do estudo, o homem ultrapasse o mundano para atingir o essencial. Na verdade, para os neoplatónicos, a natureza constitui um enorme livro aberto, escrito pela mão ou pelo dedo de Deus, como não se cansam de afirmar vários autores, tais como Santo Agostinho ou ainda Hugo de S. Victor e Bernardo Silvestre. Segundo estes, o mundo natural deve, pois, ser lido como um Livro onde o Senhor revela a sua vontade, à semelhança do que acontece com a Bíblia. Tal como o Livro dos Livros, também o Bestiário, ou Livro das Bestas, descrevendo a natureza e as criaturas, se assume como uma escrita natural, próxima daquela que deu origem à Sagrada Escritura produzida pela inspiração do Espírito Santo. E do mesmo modo que os vários livros que constituem a Bíblia possuem como objectivo último, na acepção de Santo Agostinho, revelar a Nova Lei da Caridade, também o Livro das Bestas encerra esta perspectiva agostiniana: nele se traça igualmente um caminho para o amor divino e para a perfeição. Sendo assim, entre as páginas sagradas da Bíblia e as páginas dos bestiários estabelece-se uma rede de correspondências semelhante à que une o mundo material ao mundo essencial e divino, pelo que também o Livro das Bestas contribui para glorificar o Senhor e para atingir a Sua Verdade. Por isso, também a sua escrita está próxima da escrita natural de Deus e, como ela, é teocêntrica, eterna e infinita.

É precisamente neste sentido neoplatónico que se deve entender a vertente alegórica do Bestiário. Foi a necessidade medieval de ler a Bíblia de uma forma alegórica que condicionou a própria estrutura e organização do Livro da Natureza. A exegese bíblica radica, entre outros, num princípio fundamental: o Antigo Testamento prefigura o Novo Testamento; no Novo Testamento revela-se o Antigo e vice-versa. De facto, a teologia medieval, sobretudo o pensamento de Santo Agostinho, entendia que a oposição entre signans (o significado saussuriano) e signatum (o significante saussuriano) prefigurava a oposição entre o sensível e o inteligível. Todas as coisas (res) possuíam um significatio - um sentido espiritual. Este revestia-se de uma componente alegórica, pelo que a maioria dos textos eram, por conseguinte, dotados de três sentidos alegóricos, para além do seu sentido meramente literal: o alegórico, propriamente dito, o moral e o anagógico ou místico. Todos eles se encontram no Bestiário em que os animais se assumem como signos e símbolos de uma realidade transcendente, são revelações do Logos divino, pelo que só podem ser descodificados na sua estreita articulação com a Sagrada Escritura. [13] As suas características literais reveladas na primeira parte das narrativas (a naturas) logo adquirem uma dimensão alegórica à qual se alia uma vertente moral (a figuras): o comportamento dos animais vem mostrar de que forma o homem deve evitar o pecado e aproximar-se da virtude. Além disso, vem também ilustrar determinados momentos da Sagrada Escritura, remetendo, finalmente, para uma interpretação mística e anagógica. Na verdade, as várias criaturas do Bestiário surgem constantemente referidas à voz, quer através do texto escrito quer através da imagem que o acompanha. No plano alegórico, esta voz evidencia-se como manifestação do Verbo, que, na Bíblia, é sopro de vida e unidade criadora, pelo que, também no Livro das Bestas assistimos à transfiguração dessa voz em não só em sopro, mas também em rugido (ex: o leão), hálito (ex: pantera), canto (ex: sereia) e até imitação do discurso humano (ex: hiena). Explorando, nas suas mais variadas formas, estas manifestações simbólicas da Palavra de Deus, tal como é revelada no Génesis e no Evangelho segundo S. João, o Bestiário é, portanto, sinónimo de ‘escrita natural’, na terminologia de Jacques Derrida.

A vertente alegórica e simbólica do Bestiário não se situa apenas a nível do texto escrito, mas também a nível das imagens que o acompanham. De facto, na Idade Média, as imagens surgem como uma outra forma de leitura, proporcionando aos que não sabiam ler as palavras registadas pela escrita uma compreensão igualmente eficaz e viva das histórias bíblicas; as imagens constituem-se pois como a literatura dos laicos (litterature laicorum). Tal como o texto escrito, elas contam histórias: as mesmas histórias narradas pelas palavras, ou até outras histórias, porque dão ênfase a um determinado acontecimento narrativo, omitem pormenores ou adicionam outros. Por essa razão, tal como as palavras escritas, também as imagens são dotadas dos mesmos processos complexos que essas envolvem, isto é, a sua interpretação processa-se, de igual modo, em duas etapas: a lectio e a meditatio.[14] Tal como acontece com o texto escrito, a imagem pode e deve ser lida a vários níveis, num processo gradual em que o sentido literal, através da contemplação, é ultrapassado para ceder lugar aos significados alegórico, moral e anagógico. Segundo S. Gregório, é esta dimensão das imagens como fonte de ensinamento e aprendizagem que as impede de ser encaradas como objecto de adoração e, em contrapartida, contribui para a sua função didáctica e moral.[15] A arte da iluminura medieval reflecte também uma preocupação constante em atingir o ideal de totalidade e da união com Deus, aspecto a que nos temos vindo a referir.

No século XIII, entendia-se o termo ‘imagem’ mais como uma ‘semelhança’ do que como um ‘desenho’, ou seja, o seu significado prendia-se, em particular, com a palavra latina similitudo ou species. A palavra species era, sobretudo, utilizada no domínio da óptica e havia conhecido a sua origem nas doutrinas neoplatónicas que, de acordo com o pensamento de Plotino, assumiam que todas as coisas emanavam o seu poder ao gerar múltiplas species que são apercebidas pela visão, mente e alma do receptor.[16]                                                                                                     

A imagem, a verdadeira imagem entendida como species, é, portanto, de ordem mental ou espiritual, ao passo que a imagem figurativa constitui apenas a forma material e externa do objecto. A verdadeira imagem é interna e invisível e traduz-se pela linguagem verbal e pictórica, pelo que as species são signos naturais (signa naturalia) relativamente aos objectos ou coisas que representam. Nesta acepção, também as imagens são produtoras de sentido e assumem função idêntica à dos signos da linguagem verbal.[17] Tendo em conta que a raiz da palavra speciesspec – é também aquela que encontramos no termo speculum, podemos afirmar que a mente é como um espelho no qual se reflectem as imagens dos objectos. Neste sentido, tanto a mente como o próprio conhecimento radicam na produção, reprodução e representação pictóricas.[18]

Por iluminarem, no sentido medieval do termo, a verdadeira Palavra de Deus, os bestiários encontram-se entre os manuscritos que incluem algumas das melhores e mais bem elaboradas imagens do período medieval. Por essa razão, têm sido a História da Arte a área pioneira na abordagem e discussão do Bestiário. Entre esses estudiosos encontra-se Xenia Muratova. Para a autora russa, é na tradição zoológica clássica que as ilustrações dos bestiários encontram a sua origem. Na sua perspectiva, dada a ausência de manuscritos iluminados das Etimologias de Isidoro, os primeiros bestiários terão utilizado como fontes e modelos cópias de livros antigos de zoologia e cosmografia.

Não se sabe exactamente quando surgem os primeiros manuscritos de bestiários decorados com iluminuras. Os primeiros exemplos conhecidos de manuscritos decorados datam de cerca de 1180 e integram-se na evolução do livro iluminado em Inglaterra a partir do século XII. São eles os manuscritos-irmãos: o MS. Q. V. V. I. Da Biblioteca Pública de Leninegrado (o primeiro a integrar o ciclo da criação no Bestiário) e o Ms Pierpont Morgan 81 da Biblioteca de Nova Iorque e ambos pertencem à Família de Transição proposta por Florence McCulloch. As suas iluminuras possuem uma grande variedade de cores e são também pintadas a ouro. O auge da perfeição artística a este nível é atingido com mauscritos como o MS. Ashmole 1511 e o MS. Bodley 764 e seus manuscritos irmãos, respctivamente o Aberdeen Bestiary (MS. 24) e o MS. Harley 4751, todos eles considerados obras-primas da iluminura inglesa.

A grande diferença entre as ilustrações dos manuscritos do Fisiólogo em relação às dos bestiários radica no facto de, nas primeiras, se pretender veicular, também em termos pictóricos, a leitura alegórica, o que não acontece no Bestiário. O último revela um maior interesse pela organização do mundo animal recém-criado, tal como é descrito por Isidoro. De facto, as imagens dos bestiários dedicam mais atenção ao animal e à posição que este ocupa na ordenação do mundo do que ao seu sentido moral e alegórico. Assim, nos primeiros bestiários de que são exemplo o MS Laud. Misc. 247 e o B. M. Stowe 1067 aqui referidos, é dada maior importância à descrição da Criação propriamente dita do que às moralizações cristãs que estão no centro das várias versões do Fisiólogo. É o que se pode verificar quando se comparam as imagens de um determinado animal de um Fisiólogo com as do mesmo animal de um Bestiário (ver figs. 4, 5 e 6).

Figura 4:  iluminura do antílope no MS. Bibl. Roy. 10066-77, f. 141 r.

A metade de cima mostra o antílope com os cornos presos numa árvore, não podendo assim fugir do caçador que o fere no peito com uma lança. A metade de baixo ilustra a alegoria subjacente: Cristo ensina a lição a retirar da história do antílope, nomeadamente de que o homem deve evitar as armadilhas tecidas pelo diabo.

Figura 5: iluminura do antílope no Oxford, Bodleian Library, MS. Laud Misc. 247, f. 141r. A moralização não é ilustrada.

Figura 6: iluminura do antílope em B.M., MS. Stowe 1067, f. 1v. Muito semelhante à do MS. Laud. Misc. 247.

A ênfase que no Fisiólogo era atribuída, em termos pictóricos, à dimensão alegórica do texto, transforma-se numa preocupação centrada no ciclo da criação, baseada no Génesis, de conteúdo mais enciclopédico. Ao contrário do que acontece no Fisiólogo, é frequente que alguns dos primeiros bestiários se iniciem com passos extraídos do Hexaemeron de Santo Ambrósio, dando conta do ciclo da Criação em seis dias, e com imagens que pretendem ilustrar esse ciclo, como acontece, por exemplo, com o  MS.  Ashmole  1511  (ver figs. 7, 8 e 9). [19]

Figura 7: a criação do céu. (MS. Ashmole 1511)

Figura 8: a criação das aves e dos peixes. (MS. Ashmole 1511)

Figura 9: a criação dos animais terrestres. (MS. Ashmole 1511)

Figura 10: Adão dá nome aos animais. (Aberdeen Bestiary)

O que também não acontece no Fisiólogo é que muitos destes manuscritos integram ainda uma imagem de Adão a nomear os animais que, como referimos em nota, é baseada em Isidoro e não no texto bíblico.[20] Pela imagem é, de facto, possível, por um lado, ligar o ciclo da criação ao propósito moral e didáctico do Bestiário e, por outro, salientar a importância da interpretação etimológica através da qual se cria um laço indissociável entre a coisa ou objecto (neste caso, o animal) e a sua realidade expressa através da articulação verbal. A imagem de Adão a dar nomes aos animais alia, portanto, a voz e a coisa visível; ou seja, a própria iluminura remete para a relação mística entre Adão e Cristo, o novo Adão. Para além disso, a demarcação por meio de linhas entre a figura humana e as figuras animais é também uma forma de separar o homem, dotado de razão (e, portanto, superior) dos animais irracionais.

Para além disso, a iluminura de Adão a dar o nome aos animais revela uma perspectiva, também ela de raiz neoplatónica que radica, por exemplo, em Santo Agostinho, segundo a qual todas as criaturas, por mais estranhas e curiosas que possam parecer, foram todas criadas por Deus e, como tal, todas exprimem a beleza suprema da criação divina. [21]

É esta nova perspectiva que está na origem da deslocação das ilustrações do final do texto, tal como surgiam no Fisiólogo, para o seu início. Ao abrirem o capítulo em vez de o fecharem, as imagens deixam de depender única e exclusivamente da leitura do texto para introduzirem, quase como um título, o animal que é descrito. Esta é, na verdade, a primeira grande alteração revelada pelos primeiros bestiários relativamente ao Fisiólogo.

Enquanto os manuscritos da Segunda Família reflectem sobre o mito da Criação genesíaca, a Terceira Família de bestiários apresenta uma preocupação de ordem diferente: neles os animais descritos são precedidos das raças monstruosas e seguidos de monstros fabulosos em secções que são baseadas novamente nas Etimologias de Isidoro e que revelam ainda o impacto da nova literatura de viagens na cultura e literatura medievais. A ênfase aqui parece ser dada ao género humano, aos seus próprios limites e também às suas diferentes manifestações.

Figura 11: raças monstruosas. (Westminster Abbey, MS. 22)

Segundo Debra Hassig, as imagens dos bestiários dividem-se em dois tipos fundamentais: as imagens narrativas e os retratos de animais. As imagens nos Bestiários pertencem a um de dois tipos fundamentais: as imagens narrativas, que representam as características do animal tal como são descritas no texto (neste caso, as ilustrações contribuem para dar ênfase à moralização registada no texto escrito), e os retratos de animais em que o animal surge isolado sem estar associado a qualquer tipo de comportamento.[22]

Os retratos são especialmente utilizados quando se trata de aves. Por vezes, estas formam desenhos geométricos como a imagem da poupa no MS. Ashmole 1511 e a belíssima imagem da lebre, no MS. Bodley 764, que, não sendo uma ave, está incluída neste segundo tipo de figuração.

Figura 12: Poupa. (MS. Ashmole 1511)

Figura 13: Lebre. (MS. Bodley 764)

Por sua vez, as imagens narrativas, muitas delas evocando paisagens rurais ou ambientes urbanos, têm a particularidade de representar a passagem do tempo, bem como os movimentos e direcções tomados por certas figuras e as sequências narrativas da história ilustrada. É o que acontece, por exemplo, com as imagens do castor a fugir dos caçadores ou do cão que reconhece o dono, em que a repetição das figuras dos animais em momentos diferentes da acção representa a passagem do tempo e episódios variados (ver fig. 14). De resto, o número existente de retratos e de ilustrações narrativas é sensivelmente o mesmo.

Figura 14: passagem do tempo na iluminura do cão. (MS. Ashmole 1511)

O tamanho das iluminuras varia de bestiário para bestiário: alguns animais ocupam toda a página. É o caso paradigmático do leão, embora a página inteira seja também dedicada às imagens relacionadas com a Criação – (ver novamente figs. 7, 8 e 9) - ou as imagens de Adão a atribuir nome aos animais (ver novamente fig. 10).[23] À excepção destes casos, a grande maioria das criaturas surge em imagens mais pequenas que podem ser enquadradas, tanto em formas rectangulares como circulares. Deste modo, as imagens variam de manuscrito para manuscrito, o que depende não só da arte do pintor e dos aspectos que esse pretende realçar, mas também da vontade expressa pelos patronos da obra.[24]

Além disso, alguns destes manuscritos funcionavam como modelos a partir dos quais se copiavam futuras ilustrações. É o caso do Bestiário Hofer-Kraus que teria sido utilizado como manual, em virtude do picotado que rodeia as iluminuras.[25] Apesar da existência destes manuais, a maioria das criaturas teria sido ilustrada de memória, em especial aquelas que eram familiares, como é o caso dos animais domésticos. No que diz respeito aos animais selvagens, a situação tornava-se um pouco mais complicada. A população medieval desconhecia o aspecto de um leão ou de um tigre, ainda que alguns espécimens fossem, por vezes, exibidos em feiras e até em festas da aristocracia.[26] O crocodilo é um exemplo claro de como um animal desconhecido pode estimular a imaginação de um criador de iluminuras: as imagens que acompanham o crocodilo mostram-no, em geral, como um quadrúpede, que muitas vezes se assemelha a um touro ou a um urso (ver fig. 15). A despreocupação destes artistas relativamente ao verdadeiro aspecto dos animais que representam deve-se ao facto de entenderem o Bestiário como uma obra de vertente alegórica, destinada ao ensinamento moral e à formação espiritual e não como uma obra de carácter naturalista.[27]

Figura 15: crocodilo.

Ainda que os bestiários sejam obras de propósito didáctico, controladas pela Igreja, não apresentando grandes variações no que diz respeito aos símbolos animais que aí são utilizados como exempla, a sua estrutura não é monológica. Por um lado, porque a articulação entre o texto escrito e a imagem que habitualmente o acompanha permite uma infinidade de leituras diferentes. Estas são, por vezes, estimuladas pelo facto de as ilustrações veicularem informação que pode estar ausente do texto escrito. Aquilo que se opta por ilustrar nas iluminuras estabelece com a parte escrita do género uma relação dialógica, em que, frequentemente, o que está em causa é questionar a ideologia dominante. Por outro lado, as próprias narrativas animais podem ser ambivalentes, uma vez que as criaturas nelas descritas não funcionam como símbolos uniformes, podendo ser lidas in bono ou in malo, dependendo do contexto em que surgem. É exactamente o que nos diz o precursor dos exegetas medievais na sua obra canónica De doctrina christiana. Santo Agostinho, neste texto, defende a ambivalência dos símbolos, recorrendo aos animais para confirmar a sua teoria.

Se o Bestiário desapareceu no final da Idade Média, isso deve-se decerto à dissolução do neoplatonismo cujas preocupações simbólicas e alegóricas deixaram de se coadunar com as novas preocupações naturalistas fomentadas pela tradução dos tratados de Aristóteles divulgados a partir do século XIII. E se Aristóteles começou por ser condenado no ensino universitário medieval, logo os seus estudos passaram a ser aceites com entusiasmo por homens como Alberto Magno, Roger Bacon ou Robert Grosseteste. O naturalismo aristotélico originou uma nova visão do mundo natural, mais racionalista, baseada na observação directa e no raciocínio lógico que dominaram o pensamento europeu até ao século XVII e à Revolução Científica. Esta nova visão da natureza, que encontrou no nominalismo de William of Ockam a sua fundamentação filosófica, originou primeiro o desmembramento e depois o desaparecimento do Bestiário. As várias narrativas animais começaram a autonomizar-se e a surgir noutros manuscritos, como missais e Livros de Horas, como testemunham os Livros de Salmos das rainhas Isabella e Mary, ambos do século XIV (respectivamente, Munique, Bayerische Staatsbibliothek, MS. Gall.16 e London, British Library, MS. Royal 2.B.VII) . No primeiro, por exemplo, existem várias iluminuras que se baseiam no Bestiário, entre as quais a de uma raposa que falseia a morte para capturar as aves que lhe começam a debicar o corpo.

Figura 16: Isabella Psalter (Munique, Bayerische Staatsbibliothek, MS. Gall. 16).

Compare-se esta imagem com uma iluminura de um Fisiólogo:

Figura 17: a raposa finge a morte (Physiologus - versão Y)

O Bestiário propriamente dito havia já desaparecido na transição da época medieval para a renascentista. De facto, no século XVI, o drama shakespeariano revela que as metáforas animais não possuem já uma preocupação teológica ou exegética, mas pretendem, por outro lado, discorrer sobre a organização do mundo social e político, cumprindo ainda funções de natureza estética e ideológica. Deste modo, na sua apropriação da temática animal, Shakespeare não recorre aos bestiários, mas a fontes clássicas, em especial às fábulas esópicas circulavam pela Europa no século XV. A presença dos animais nas peças de Shakespeare revela o espírito antropocêntrico característico dos tempos da época.

Hoje em dia, perduram ainda algumas metáforas animais que remontam ao simbolismo medieval, porventura as mais populares, como a da raposa manhosa e bajuladora, do leão régio e majestoso ou do cão fiel. Outras histórias, contudo, como a da pantera de hálito doce ou da doninha que concebe pela boca e dá à luz pelo ouvido, ficaram perdidas no tempo, nas páginas dos manuscritos medievais ou nos bestiários em pedra constituídos pelas igrejas e catedrais.

 

Bibliografia

1. Bibliografia Primária:

a) manuscritos dos bestiários latinos produzidos em Inglaterra

Aberdeen Bestiary

Aberdeen, University Library, MS. 24
North Midlands (?), c. 1200.

A D D. 11283

London, British Library, Add. MS. 11283
Inglaterra, c. 1170.

Ashmole Bestiary

Oxford, Bodleian Library, MS. Ashmole 1511
Inglaterra, c. 1200.

Bodley 602

Oxford, Bodleian Library, MS. Bodley 602
Sul de Inglaterra, c. 1230.

Bodley 764

Oxford, Bodleian Library, MS. Bodley 764
Salisbury (?) c. 1240-50.

Cambridge Bestiary

Cambridge, University Library, MS. Ii.4.26
North Midlands (?) c. 1200-10.

Canterbury Bestiary

Canterbury, Cathedral Library, MS. Lit.D.I0
Inglaterra, c. 1300.

Corpus Christi 22

Cambridge, Corpus Christi College, MS. 22
Inglaterra, século XII.

Fitzwilliam 254

Cambridge, Fitzwilliam Museum, MS. 254
Região de Londres (?) c. 1220-30

Fitzwilliam 379

Cambridge, Fitzwilliam Museum, MS. 379
Inglaterra, c. 1300

FR. 14969

Paris, Bibliothèque Nationale, MS. fr. 14969
Londres (?) ou Oxford (?) c. 1265-70

Gonville and Caius Bestiary

Cambridge, Gonville and Caius College, MS. 384/604
Inglaterra, c. 1270-90.

Harley 3244

London, British Library, MS. Harley 3244
Inglaterra, depois de 1255.

Harley 4751

London, British Library, MS. Harley 4751
Salisbury (?) c. 1230-40.

Laud. Misc. 247

Oxford, Bodleian Library, MS. Laud. Misc. 247
Inglaterra, c. 1120.

Morgan Bestiary

New York, Pierpont Morgan Library, MS. M. 81
Lincoln (?) c. 1185.

Northumberland Bestiary

anteriormente Alnwick Castle, MS. 447 (de momento faz parte de colecção privada)
Norte de Inglaterra (?) c. 1250-60.

Nuneaton Book

Cambridge, Fitzwilliam Museum, MS. McClean 123
Inglaterra, c. 1280-1300.

Peterborough Bestiary

Cambridge, Corpus Christi College, MS. 53
Inglaterra, c. 1300 (junto a Psalter and Peterborough Chronicle - c. 1304-21).

Rochester Bestiary

London, British Library, MS. Royal 12.F.XIII
Sudeste de Inglaterra, c. 1230.

Royal 12.C.XIX

London, British Library, MS. Royal 12.C.XIX
Durham (?) c. 1200-1210.

St. John's 61

Oxford, St. John's College, MS. 61
York (?) c. 1220.

St. John's 178

Oxford, St. John's College, MS. 178
Abadia de
Westminster, c. 1300.

St. Petersburg Bestiary

(anteriormente Leningrad Bestiary)
São Petersburgo, State Public Library Saltykov-Shchedrin, MS. Lat. Q.v.V.I
North
Midlands, c. 1190-1200.

Trinity College Bestiary

Cambridge, Trinity College Library, MS. R.14.9
Oxford (?) c. 1260-70.

University Library Bestiary

Cambridge, University Library, MS. Kk.4.25
Londres, c. 1230.

Vatican Bestiary

Roma, Biblioteca Apostolica Vaticana, MS. Reg. Lat. 258
North Midlands (?) c. 1200-1210.

Westminster 22

London, Westminster Abbey Library, MS. 22
York (?) c. 1270-90.

Manuscritos relacionados:

FR. 24428

Paris, Bibliothèque Nationale, MS. fr. 24428
N. França (Champagne), c. 1270 (?)

Isabella Psalter

Munique, Bayerische Staatsbibliothek, MS. gall.16
Inglaterra, 1303-8(?)

Queen Mary Psalter

London, British Library, MS. Royal 2.B.VII
Inglaterra, c. 1310-20.

b) edições dos manuscritos do Fisiólogo e dos bestiários
BEAUVAIS, Pierre de, Le Bestiaire de Pierre de Beauvais (version courte), Guy Mermier (ed.), Paris, A. G. Nizet, 1977.

- - -   Le Bestiaire de Pierre de Beauvais in Gabriel Bianciotto (trad.), Bestiaires du Moyen Âge, Paris, Stock, 1980.

Le Bestiaire (Réproduction en fac-similé des miniatures du manuscrit du Bestiaire Ashmole 1511 de la Bodleian Library d’Oxford), Marie-France Dupuis et Sylvain Louis (trad.), Paris, Philippe Lebaud, 1988.

The Bestiary. Being an English Version of the Bodleian Library, Oxford MS. Bodley 764 with all the original miniatures reproduced in facsimile, Richard Barber (ed.), Woodbridge, The Boydell Press, 1993.

The Epic of the Beast. Consisting of English Translations of the History of Reynard the Fox and Physiologus, William Rose (ed.), London, George Routledge & Sons, 1925.

El Físiólogo. Bestiario Medieval, Marino Ayerra Redín e Nilda Guglielmi (eds. e trads),  Rivadavia, Editorial Universitaria de Buenos Aires, 1971. (tradução baseada na edição de Francis J. Carmody, “Physiologus Latinus. Versio Y” in Publications in Classical Philology, vol. 12, nº. 7, 1941, pp. 95-134.).

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FOURNIVAL, Richard de, Le Bestiaire d'Amour, ed. C. Hippeau, Geneva, Slatkine, 1969.

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ÍNDICE DAS ILUSTRAÇÕES

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(in Barber (ed.), The Bestiary. Being an English Version of the Bodleian Library, Oxford M. S. Bodley 764 with all the original miniatures reproduced in facsimile, Richard Barber (ed.), Woodbridge, The Boydell Press, 1993, p. 22).

Figura 2: London, British Library, MS. Royal 12. C. XIX, f. 6.
(in Ann Payne, Medieval Beasts,
London, New Amsterdam Books, 1991, p. 17).

Quadro 1: in Ron Baxter, Bestiaries and their Users in the Middle Ages, Gloucestershire, Sutton Publishing Ltd., 1998, p. 167.

Quadro 2: ibidem, pp. 147-148.

Quadro 3: ibidem, p. 171.

Figura 3: Elefante e as armas de Roger de Monhaut – Oxford, Bodleian Library, MS. Bodley 764.
(in The Bestiary, p.39).

Quadro 4: in Baxter, op. cit., pp. 150-151.

Quadro 5: in T. H. White, The Book of Beasts. Being a Translation from a Latin Bestiary of the Twelfth Century, New York, G. P. Putnam's Sons, Capricorn Books, 1954 (reeditado por Dover Publications, 1984), p. 233.

Figura 4: iluminura do antílope no MS. Bibl. Roy. 10066-77, f. 141 r.
(in Baxter, op. cit., p. 65).

Figura 5: iluminura do antílope no Oxford, Bodleian Library, MS. Laud Misc. 247, f. 141r.
(in Baxter, op. cit., p. 86).

Figura 6: iluminura do antílope em B.M., MS. Stowe 1067, f. 1v.
(in Baxter, op. cit., p. 101).

Figura 7: a criação das luzes do céu - MS. Ashmole 1511.
(in Le Bestiaire (Réproduction en fac-similé des miniatures du manuscrit du Bestiaire Ashmole 1511 de la Bodleian Library d’Oxford), Marie-France Dupuis et Sylvain Louis (trad.), Paris, Philippe Lebaud, 1988, p. 18).

Figura 8: a criação das aves e dos peixes - MS. Ashmole 1511.
(in Le Bestiaire, p. 27).

Figura 9: a criação dos animais terrestres - MS. Ashmole 1511.
(in Le Bestiaire, p. 37).

Figura 10: Adão dá nome aos animais – Aberdeen University Library, MS. 24 (Aberdeen Bestiary), f. 5r.
(in
http://www.clues.abdn.ac.uk:8080/besttest/alt/comment/best toc.html)

Figura 11: raças monstruosas.
London, Westminster Abbey Library, MS. 22, f. 3.
(in Debra Hassig,
Medieval Bestiaries: Text, Image, Ideology, Cambridge, Cambridge University Press, 1995, fig. 117).

Figura 12: Poupa – Oxford, Bodleian Library, MS. Ashmole 1511.
(in Le Bestiaire, p. 124).

Figura 13: Lebre – Oxford, Bodleian Library, MS. Bodley 764.
(in The Bestiary, p. 66).

Figura 14: Cão – Oxford, Bodleian Library, MS. Ashmole 1511.
(in Le Bestiaire, pp. 103-104).

Figura 15: Crocodilo - Worksop Bestiary, f. 70r.
(in
Janetta Rebold Benton, The Medieval Menagerie: Animals in the Art of the Middle Ages, New York and London, Abeville Press Publishers, 1992, p. 83).


[1] O Fisiólogo parece ser o primeiro texto a referir o facto de as crias do leão nascerem sem vida. A ideia, contudo, pode ter tido origem em Plínio que cita Aristóteles, para quem as crias nascem muito pequenas e sem forma.

[2] in P. T. Eden (ed.), Theobaldi Physiologus, Leiden und Koln, E. J. Brill, 1972, pp. 26-7.

[3] Richard Barber (ed.), The Bestiary. Being an english version of the Bodleian Library, Oxford M. S. Bodley 764 with all the original miniatures reproduced in facsimile, Woodbridge, The Boydell Press, 1993, p. 25.

[4] Marie-France Dupuis et Sylvain Louis (trad.), Le Bestiaire.reproduction en fac-similé des miniatures du manuscrit du Bestiaire Ashmole 1511 de la Bodleian Library d’Oxford, Paris, Philippe Lebaud Éditeur, 1988, p. 58.

[5] Sobre o sopro da vida, ver Génesis: 2: 7. Sobre ser Cristo o Novo Adão, ver Epístola de S. Paulo aos Romanos 5: 12-21 e 1ª. Carta de S. Paulo aos Coríntios 15: 20-22.

[6] Barber, op. cit., p. 26.

[7] A explicação etimológica provém de  Isidoro: “El ‘león’ griego se interpreta en latín como ‘rey’, porque es la más importante de todas las bestias.”  In Isidoro de Sevilha, Etimologias, Edicion bilingue preparada por Jose Oroz Reta y Manuel-A. Marcos Casquero, Madrid, Biblioteca de Autores Cristianos, 2ª. Ed., 1993, pp. 68-69. (XII, 2, 3).

De resto, o texto de abertura do Bestiário sobre o leão segue de muito perto as Etimologias de Isidoro.

[8] “Liber Physiologus, quid ab haereticis conscriptus est, et beati Ambrosii nomine praesignatus, apocryphus”. (em português : o livro conhecido como o Fisiólogo, escrito por heréticos e atribuído a Ambrósio, é apócrifo). in Jan Ziolkowski, Talking animals. Medieva latin beast poetry, 750-1150, Philadelphia, University of Pennsylvania Press, 1993, p. 35.

[9] Pensa-se que a obra mais antiga na qual a descrição animal se encontra, pela primeira vez, explicitamente associada à especulação de ordem teológica é o tratado de Plutraco intitulado Ísis e Osíris. A este respeito, veja-se Michael Curley (ed.), Physiologus, Austin and London, University of Texas Press, 1979, pp. xi-xii.

[10] M. R. James, The Bestiary; being a reproduction in full of the manuscript Ii. 4. 26 in the University Library, Cambridge, with supplementary plates from other manuscripts of english origin, and a preliminary study of the latin Bestiary as current in England, Oxford, Roxburghe Club, 1928.

[11] Florence McCulloch, Medieval latin and french bestiaries, North Carolina, Studies in the romance languages and literatures, number 33, The University of North Carolina Press, 1962.

[12]  “Physiologus latinus versio Y” in University of California Publications in Classical Philology, XII, 1933-44.

[13] De facto, para o homem medieval, no Grande Livro que é a Natureza, cada criatura é também um Livro e um speculum do Verbo Divino através do qual tudo foi criado, como nos recorda Alanus de Insulis: Cada criatura do universo, / quase como um livro ou um quadro /é para nós como um espelho; / da nossa vida, da nossa morte, / da nossa condição, da nossa sorte /fiel signo. (« Omnis mundi creatura / quasi liber et pictura / nobis est et speculum;/ nostrae vitae, nostrae mortis,/ nostri status, nostrae sortis / fidele signaculum. » - Alanus de Insulis, De incarnatione Christi. Citado por Umberto Eco, Arte e beleza na  estética medieval, Lisboa, Editorial Presença, 1989, p. 87.

[14]  Lectio e meditatio são as duas fases da lectio divina tal como é concebida pela Regra de S. Bento: “In the Rule we can distinguish the two elements which we have seen in the life of St. Benedict: the knowledge of letters and the search for God. The fundamental fact that stands out in this domain is that one of the principal occupations of the monk is the lectio divina, which includes meditation: meditari aut legere.” Jean Leclerq, (1961), The love of learning and the desire for God. A Study of monastic culture, New York, Fordham University Press, 1982, p. 13.

[15] Relacionada com esta concepção neoplatónica da imagem transitória, veículo para a formação mental e intelectual da verdadeira imagem (esta entendida como species e associada à memória), encontra-se a distinção entre lux e lumen, também ela integrada nas teorias ópticas estabelecidas por Robert Grosseteste. Segundo estas teorias, a lux é a luz apreendida pelos olhos, sendo, portanto, a luz natural e imediata, enquanto o lumen designa a luz primordial, produzida pela radiação divina. Deste modo, também a luz contém em si mesma uma natureza dual em que um dos seus elementos (a lux) é considerado inferior ao outro, mas necessário como meio privilegiado de condução a um estádio superior, corporizado no seu outro elemento (o lumen). Significativamente, a etimologia da palavra iluminura radica no étimo latino lumen e não em lux. Logo,  não só o termo sugere que as iluminuras são formas de captar e reflectir a luz (daí a utilização do ouro na pintura e dos metais nas encadernações), mas, acima de tudo, indica que é também pela iluminura que se alcança a verdadeira luz do conhecimento, protótipo da luz divina. Neste sentido, a iluminura não vem apenas ilustrar, vem também clarificar, explicar e comentar (illuminare). Dela resultam a leitura, a meditação e o estímulo da memória, pelo que, também ela permite alcançar o conhecimento e chegar mais perto da tão desejada comunhão com Deus.

[16]  “All existences, as long as they retain their character, produce – about themselves, from their essence, in virtue of the power which must be in them – some necessary, outward-facing hypostasis continuously attached to them and representing in image the engendering archetypes.” Plotino citado por Suzanne Lewis, Reading images. Narrative discourse and reception in the thirteenth-century illuminated Apocalypse, Cambridge and New York, Cambridge University Press, 1995, p. 8.  – Esta teoria cognitiva, que radica na ideia da species como um poder ou uma força, permitindo alcançar poder espiritual sobre o objecto que é apreendido pala visão e pelo intelecto, foi formulada por Grosseteste e Roger Bacon. Para o último, a palavra species foi entendida como poder, forma, imagem ou semelhança.

[17] Cf: teorias sobre o signo de Santo Agostinho.

[18] O termo speculum, de acordo com o Oxford English Dictionary, para além de outros significados, refere-se a um espelho metálico que faz parte de um telescópio, assim como a uma lente reflectora (feita de vidro ou de metal) utilizada para fins científicos, pelo que podemos afirmar que a palavra speculum  está relacionada com a ciência da óptica.

[19] Os manuscritos introduzidos pela história da criação, para além do MS. Ashomole 1511, são os seguintes: o MS. Q. V. V. I. Da Biblioteca Pública de Leningrado, MS. 24 da Biblioteca de Aberdeen, o MS. 61 do St. John’s College em Oxford, o bestiário de Alnwick Castle e o MS. 372 da Biblioteca Gonville & Caius College em Cambridge. Todos estes manuscritos pertencem ao século XIII.

[20] Os manuscritos em que a imagem de Adão a dar nomes aos animais precede o texto escrito que, por sua vez, se inicia com a descrição dos seis dias da Criação, são exactamente os seis manuscritos citados na nota anterior.

[21] Cf: Santo Agostinho, A cidade de Deus, trad. J. Dias Pereira, capítulo VIII, Livro XVI, vol. 3, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1995, p. 1473, p. 1476.

[22] “Generally speaking, an image may be considered a portrait if one creature, a pair, or a group of the same type are represented doing nothing in particular against a plain or decorated ground in a framed or unframed space. (…) Narrative imagery either corresponds to an accompanying textual anecdote or represents an action or characteristic described as typical of the animal.” Debra Hassig, Medieval bestiaries: Text, image, Ideology, Cambridge, Cambridge University Press, 1995, p. 11.

[23] Cf: Génesis 1:20-5; Génesis 2:19-20.

[24] Segundo Varga, esta escolha das imagens, por parte dos copistas, depende do momento que decidem seleccionar para representar pictoricamente (o designado ‘pregnant moment’), mas também daquilo que adicionam ou omitem do texto escrito. O copista, ao optar por determinada imagem, está na verdade a interpretar, como diz Varga: “The interpreter is never an exact translator; he selects and judges.” (Kibédi A. Varga, "Criteria for describing word-and-image relations" in Poetics today 10 (I), 1989, pp. 31-53, p. 44).

[25] Cf: S. A. Ives and H. Lehman-Haupt, An english thirteenth-century bestiary: A new discovery in the technique of medieval illumination, New York, H. P. Kraus, 1942.

[26] Matthew Paris desenhou, na Chronica majora, um elefante doado, em 1255, a Henrique III pelo rei Luís XI de França, o Rei Santo, que o havia trazido de África durante as Cruzadas. Ver imagem em Janetta Rebold Benton, The medieval menagerie: Animals in the art of the Middle Ages, New York and London, Abeville Press Publishers, 1992, p. 97.

[27] Há, contudo, autores contemporâneos que muito têm acentuado a reprodução pictórica exacta de alguns animais, em especial de aves, assim tentando demonstrar que, pelo menos a este nível, existia por parte destes artistas um cuidado posto na observação directa da natureza – Brunsdon Yapp, como ornitólogo, dedicou grande parte das suas publicações a esta questão. Cf: Brunsdon Yapp, “Animals in medieval art: the Bayeux tapestry as an example” in Journal of medieval history, vol. 13, nº. 1, March 1987, pp. 15-75; “Birds in bestiaries: Medieval knowledge of Nature in The Cambridge Review, 105, Nov. 1984, pp. 183-90; “A New Look at English Bestiaries” in Medium Aevum, Vol. LIV, . 1, 1985, pp. 19;  obra publicada em parceria com Wilma George, The naming of the beasts: Natural history in the medievalbBestiary (1991).