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Número 2
EDITORIAL
O primeiro número da Medievalista, a revista on line do Instituto de Estudos Medievais (IEM), saiu em 2005, numa altura em que já se encontrava gravemente doente o presidente do IEM...
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ISSN 1646-740X

estudosmedievais@fcsh.unl.pt

ano 2 ● número 2  ● 2006

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D. Afonso, 4º Conde de Ourém
viagens, cultura visual e formação de um gosto*

Alexandra Leal Barradas
FCSH-UNL

(*) O presente texto corresponde a uma síntese dos Capítulos 2.4, 2.5 e 2.6 da Dissertação de Mestrado Ourém e Porto de Mós – a obra mecenática de D. Afonso, 4º Conde de Ourém, realizada sobre a orientação do Professor Doutor José Custódio Vieira da Silva e defendida no Departamento de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, em Dezembro de 2005.

D. Afonso, 4º Conde de Ourém e Marquês de Valença (1402/3[1] ?- 1460), filho de D. Afonso, Conde de Barcelos e 1º Duque de Bragança (1370 ? – 1460) [2] e de D. Brites Pereira (1378 ? – 1408/9 ou 1414 ?)[3], foi uma das figuras mais importantes da primeira metade do século XV.  E, por ser neto por via paterna de D. João I e por via materna de D. Nuno Álvares Pereira, os dois homens mais importantes de Portugal, no início de quatrocentos, foi considerado por Pedro Dias, mais um dos membros da Ínclita Geração[4]. (Fig.1).
Fig. 1 – Painel dos Cavaleiros (pormenor). Painéis de S. Vicente. Nuno Gonçalves. Segunda metade do século XV. D. Afonso, 4º Conde de Ourém e Marquês de Valença é a segunda figura de opa verde com colar – identificação avançada por José de Figueiredo, seguindo a observação de Virgílio Correia em 1924, da semelhança com o respectivo jacente (1485-87)

Apesar dos primeiros anos da sua vida terem sido passados em Chaves, localidade onde o pai, Conde de Barcelos, tinha à época a sede da sua casa, terá sido educado com grande esmero, conhecendo-se o nome do seu educador – mestre Fernão d´Álvares, “que passava por ser um dos maiores latinistas do seu tempo[5], formado em Salamanca e que foi professor de Gramática e Filosofia, no Porto e em Lisboa. Vivendo próximo do círculo da corte e uma vez que era neto do rei, D. Afonso, decerto, contactou com os melhores mestres, pois pelo que se conhece é legítimo afirmar que foi um dos mais cultos da sua geração. Tinha formação literária – não só aprendeu latim, como sabia falar o suficiente para estabelecer um diálogo, sem necessitar de intérprete – , formação militar – era adestrado na arte das armas e da cavalaria, que exercitou em inúmeras ocasiões – e formação cortesã – aprendeu as mais finas regras de etiqueta e do protocolo, sabia dançar, prosar e escrever. Teve pois, uma educação de príncipe, a par dos filhos de D. João I, seus tios, que eram praticamente da sua idade.[6]

Mas, não só em educação ombreou com os tios; também em bens e fortuna se lhes pode equiparar. Em 1422, teria D. Afonso 19 ou 20 anos, o avô materno decidiu distribuir pelos netos todos os bens que lhe restavam, antes de se retirar para o Convento do Carmo, cabendo ao primogénito, herdeiro da casa iniciada pelo Conde de Barcelos, mas cujo património pertencia originalmente a D. Nuno Álvares Pereira, receber o título de Conde de Ourém e os bens situados na zona da Estremadura, neles estando incluída a vila de Porto de Mós, assim como uns paços em Lisboa, situados nas imediações da cerca do Convento de S. Francisco, junto à muralha fernandina[7], ou perto dos Estaus[8], que seriam provavelmente, a residência do Condestável, junto da corte. Assim, o jovem D. Afonso passou a deter, desde muito novo, património considerável e um título, podendo iniciar casa, sendo um homem independente, situação pouco comum, só vivida pelos filhos de D. João I, a quem o monarca concedeu ducados ou a direcção de ordens militares[9].

Próximo da corte, neto do rei e pertencendo à geração dos infantes, D. Afonso decerto revelou qualidades pessoais que terão levado D. João I a iniciá-lo nos assuntos diplomáticos, acção a que não terá sido alheio o Conde de Barcelos, seu pai.[10]

O 4º Conde de Ourém realizou ao longo da sua vida cinco grandes viagens – quatro no âmbito de missões diplomáticas e a última em missão militar:

- em 1429-30 viajou pela Flandres e pela Alemanha, fazendo parte da comitiva que acompanhou a Infanta D. Isabel aos países baixos, para casar com Filipe-o-Bom, Duque da Borgonha;

- em 1431 esteve no reino de Aragão, possivelmente a negociar o acordo de paz entre Navarra, Aragão e Portugal, assinado em Torres Novas a 11 de Agosto de 1432;

- em 1436-38 foi o responsável pela embaixada portuguesa ao Concílio de Basileia, tendo viajado por Itália e ido, finda a missão, até à Terra Santa;

- em 1451-52, estadeou novamente por Itália, tendo sido o responsável da comitiva que foi até Roma com a Infanta D. Leonor, irmã de D. Afonso V, casar com o Imperador do Sacro Império Germânico, Frederico III; ao que tudo indica, terá depois acompanhado a noiva até à Alemanha;

- e em 1458, foi o responsável pela organização, no Porto, de uma das armadas da expedição a Marrocos, tendo tomado parte da conquista de Alcácer Ceguér, ao lado de D. Afonso V, seu primo e último rei que serviu.

A razão pela qual considerámos importante estudar as viagens que o 4º Conde de Ourém realizou, prende-se como facto deste nobre ter edificado entre 1436 e 1455, nos seus domínios, uma notável e singular obra mecenática, numa acção irrepetível em grandeza e originalidade para a época, que se materializou na remodelação urbana de Ourém, sua vila condal, com a redefinição do perímetro muralhado, a construção de uma fonte pública (Fig. 2), um paço (Fig. 3) e uma colegiada, da edificação de um outro paço em Porto de Mós (Fig.4), remodelando para tal o primitivo castelo românico, e a encomenda e aquisição de obras de arte, nomeadamente um Relicário[11] em prata dourada (Fig.5), destinadas a embelezar e engrandecer as obras de arquitectura por ele edificadas[12].

Fig. 2 – Fonte pública de Ourém – fachada e vista lateral (acesso à bica)
Fig. 3 – Paço de Ourém –torres baluarte, fachada sul e norte do edifício do paço
Fig. 4 – Paço de Porto de Mós
Fig. 5 – Relicário oferecido por D. Afonso, 4º Conde de Ourém, à Colegiada da sua vila condal. Prata dourada. Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa.
Fig. 6 – Beccatelli do Paço de Ourém – na fachada oeste e pormenor

No panorama da arquitectura doméstica portuguesa aqueles dois paços, edificados na mesma região, quase que em simultâneo, são peças únicas, jamais repetidas ou sequer imitadas, tanto no que respeita ao seu modelo global, como aos curiosos elementos – os beccatelli  (Fig. 6)  que singularmente as identificam e que constituem uma espécie de imagem de marca do seu proprietário. É certo que encontrámos alguns exemplos posteriores que parecem de alguma forma ter recebido influência destas obras. Mas nunca mais foram vistas mísulas piramidais a apoiar varandas/balcões ou a coroar construções, pátios interiores com colunas e capitéis jónicos ou uma acção arquitectónica global sobre um pequeno aglomerado urbano. A acção do 4º Conde de Ourém e Marquês de Valença, é no século XV excepção à regra – enquanto a nobreza portuguesa continuava a construir as suas torres ou modestos paços sobradados, D. Afonso, nos seus domínios ergueu dois edifícios de feição e estilo gótico erudito que se afirmaram na paisagem e se impuseram no local, repletos de novos elementos, curiosas novidades que o seu cosmopolitismo e cultura permitiu apreciar e a sua fortuna adquirir.

O Conde de Ourém conheceu boa parte da Europa, o Próximo Oriente e algumas das recém conquistadas praças portuguesas do norte de África. E se atendermos que estadeou em Londres, em várias cidades da Flandres (Brujes, Gant) e talvez noutras da Borgonha, dos reinos ibéricos (Toledo, Valência, Barcelona), de Itália (Pisa, Florença, Bolonha, Milão, Siena, Roma, Veneza) e do norte da Europa (Basileia, Estrasburgo, Bona, Colónia) tendo chegado a Jerusalém (com passagem pelo Cairo e Damasco), certo é concluirmos que conhecia as mais importantes, desenvolvidas e influentes cidades do mundo civilizado de então. (Fig. 7)

Fig. 7 – Mapa com o roteiro das viagens de D. Afonso, 4º Conde de Ourém

Fig. 8 – Cripta da antiga Colegiada de Ourém (actual Igreja de Nª Sª das Misericórdias). Vista interior

Fig. 9 – Arca funerária de D. Afonso, 4º Conde de Ourém e Marquês de Valença

Fig. 10 – Retrato presumível de D. Isabel de Portugal chamado “Sibyla Persica”, Malibu, Museu J. Paul Getty e Filipe-o-Bom, recebe a “Crónica de Hainnaut”. Miniatura da mesma; desenho de Rogier van der Weyden, séc. XV.

Pelos dados e documentos relativos às viagens que D. Afonso realizou foi-nos possível definir, relativamente a cada uma delas, o respectivo roteiro, encontros e contactos estabelecidos, bem como a cronologia dos périplos realizados. E dos relatos que chegaram até nós, de dois deles – ida a Basileia em 1436/7 e a Itália em 1452 – poderemos inclusivamente presumir interesses, gostos e temperamento, até.

A primeira viagem que o 4º Conde de Ourém realizou levou-o à Flandres, para o casamento de sua tia, a Infanta D. Isabel com o Duque da Borgonha (Fig.10). A viagem foi feita por mar e o percurso, entre Lisboa e os territórios de Filipe-o-Bom passou por Vigo, Ribadeo (um pequeno porto no Golfo da Biscaia) e Plymouth. Em Inglaterra D. Afonso terá estadeado, pelo menos em Londres. Seguiu depois para a Flandres aportando a Éclusa[13], mesmo no final de 1429. Depois da cerimónia do casamento que se realizou naquele porto no dia 7 de Janeiro de 1430 e dos festejos que se realizaram em Brujes, a comitiva portuguesa que o Conde de Ourém integrava, terá viajado durante os primeiros meses daquele ano, ao que parece com os duques pelos seus territórios, num périplo que terá passado por Gant, Lille, Arras, Perone, Noyon, Bruxelas e Malines[14]. Não se sabe mesmo se não terá chegado a ir até à cidade de Nuremberga[15].

Desconhecemos o tempo que demorou esta viagem, mas há indícios que indicam que talvez em Setembro/Outubro de 1430 o seu regresso se tenha verificado[16], quase um ano depois sobre a data da partida.

Esta primeira viagem do Conde de Ourém e tudo o que aconteceu em volta dela – contactos diplomáticos, participação em recepções, cortejos régios, banquetes e festas, visitas a cidades, consideradas na época, as mais cosmopolitas e desenvolvidas tanto comercial como artisticamente – permitiram-lhe a visualização de um mundo, para ele totalmente novo, diferente, admirável que, decerto, lhe terá despertado interesses artístico-culturais. Beleza, grandiosidade, requinte e luxo eram características da corte borgonhesa. O relato da entrada em Bruges[17], descreve um monumental cortejo, que demorou duas horas a atravessar a cidade que estava toda engalanada – das janelas dos edifícios pendiam tapeçarias e panos coloridos[18] – e onde os intervenientes se apresentavam ricamente vestidos com fatos de seda, veludo, cetim, damasco e os servidores do duque, com o seu emblema bordado nas vestes, todos os dias, enquanto duraram as festas comemorativas do enlace, vestiam roupas de cor diferente. Filipe-o-Bom tinha mandado ampliar e redecorar a sua residência especialmente para aquela ocasião[19]. O palácio de Prinsenhof[20], no coração de Bruges, deveria apresentar-se mais belo do que nunca: uma nova sala, em madeira, foi propositadamente construída para as festas e não faltariam novidades artísticas, tanto em termos arquitectónicos como do respectivo recheio – tapeçarias, peças de ourivesaria, talvez mesmo pinturas. O banquete foi servido em baixela de ouro e prata. No exterior da residência régia foi montada uma fonte, em forma de leão – o leão da Flandres – , de onde jorrava vinho à descrição; dentro do pátio do palácio, junto à nova sala onde se realizou o banquete, de outras duas, um cervo e um unicórnio respectivamente, jorravam, da primeira, alternadamente, vinho e licor de hipocráz[21] e da segunda água de rosas para quem se quisesse refrescar. D. Isabel assistiu de uma das varandas do Groote Markt ou Beffroi des Halles, na praça principal de Brujes, às justas e torneios, feitos em sua honra para comemorar o casamento.

Brujes, no início do século XV, era ainda uma importantíssima cidade mercantil. Nela se cunhava moeda e tinha residência a corte. Artisticamente era também muito desenvolvida. Em 1430 D. Afonso deverá ter visto nesta sua estada uma bela e curiosa cidade, atravessada por canais bordejados de casas de feição completamente diversa da que estava habituado a ver. Na praça principal da cidade situavam-se inúmeros edifícios civis cuja imponência muito devem ter impressionado o 4º Conde de Ourém: o já referido Beffroi, construído por volta de 1300, a que faltava ainda a torre quadrangular que o rematou, e os edifícios, sede das numerosas guildas, que rodeavam a praça, elementos fundamentais da vida económica, política e social da urbe. Também o palácio comunal estava já edificado. Bela peça de arquitectura gótica do século XIV é actualmente um dos mais antigos edifícios da cidade. A Igreja de Nossa Senhora estava também já erguida, mas decerto, a que maior curiosidade despertou em D. Afonso terá sido a Basílica do Santo Sangue, o mais antigo edifício religiosos de Bruges, construída no século XII e que albergava a referida relíquia[22].

D. Afonso e parte da comitiva portuguesa presidida pelo Infante D. Fernando, terão acompanhado os duques na viagem pela Flandres. E nas cidades e castelos visitados, não deverão ter faltado recepções e festas, onde a magnificência da corte borgonhesa se continuou a afirmar. A este propósito convém realçar que o Duque da Borgonha possuía em Gant, primeira paragem daquele périplo, um imponente castelo fundado no século X e ampliado no século XII –  Gravensteen – , onde, decerto, D. Isabel e o marido devem ter ficado alojados e onde novas festas se realizaram. Nesta cidade estava já erguida a magnífica catedral gótica, dedicada a S. João – mais tarde consagrada a S. Bavão – e o Lakenhalle – mercado das lãs – situado na praça da catedral, que em 1430, andava em construção. O deslumbramento deve ter sido total pelo que, mesmo sem qualquer referência documental que o confirme, não é difícil ajuizarmos que D. Afonso nunca mais deverá ter esquecido os dias passados na Borgonha e de tudo quanto, nesta que foi a sua primeira saída de Portugal, lhe foi proporcionado ver e admirar.

A segunda missão diplomática levou-o, ao que tudo indica, a um território mais próximo, sendo segura a sua presença em Aragão, provavelmente em Barcelona, no Verão de 1431, como o atestam cartas do respectivo monarca dirigidas a D. Duarte e D. João I datadas de 22 de Setembro e 20 de Outubro, respectivamente. O secretismo da missão de que ia incumbido impede-nos de saber mais: em que data partiu, que caminho tomou, onde estadeou, com quem se encontrou e quando regressou a Portugal[23]. Barcelona era no início do século XV, um importante entreposto comercial e do seu porto saíam regularmente embarcações que atravessavam o Mediterrâneo estabelecendo a ligação à costa francesa e à península itálica. A viagem Barcelona-Livorno por mar era a forma mais rápida de atingir aquele destino. Barcelona era portanto uma cidade bastante desenvolvida, possuidora de notáveis edifícios. Nesta altura D. Afonso poderá ter visto o Palácio comunal (Palau de la Generalitat), cuja feição gótica é actualmente apenas visível no pátio interior, que data de 1416 e tem traça de Marc Safont, o Palácio Real (Palau Reial Major), residência dos condes-reis da cidade desde o século XIII e que foi construído incorporando a antiga muralha romana, sendo o actual campanário parte de uma torre de vigia. Outro edifício de carácter civil que muito provavelmente D. Afonso viu foi a Llotja (bolsa de mercadorias), construída no final do século XIV como sede do Consolat de Mar[24]. Próximo situava-se a Igreja de Stª Mª del Mar, eregida também no século XIV com planos de Bérenguer de Montagut[25]. A Catedral, apesar de só ter sido concluída no século XIX, já estaria globalmente edificada, uma vez que o início da sua construção, que assentou sobre os vestígios de um templo romano e de uma mesquita mourisca, remonta ao início do século XIV pelo que deverá ter sido visitada pelo 4º Conde de Ourém.

A viagem mais longa que o 4º Conde de Ourém realizou, não só pelo percurso efectuado como pelo tempo que demorou, na que foi a sua terceira saída de Portugal, foi a primeira missão em que aparece oficialmente nomeado para a chefiar: a ida ao Concílio de Basileia.

A comitiva, que era extensa – 124 ou 125 pessoas – saiu de Lisboa no dia 11 de Janeiro de 1436[26] e o 4º Conde de Ourém só deve ter regressado a Portugal nos primeiros dias de Novembro de 1438, tendo estado, portanto, em viagem, durante quase três anos. Julgamos mesmo possível, que tencionasse estar fora mais tempo, mas a morte de D. Duarte a 9 de Setembro de 1438 terá, talvez, antecipado o regresso. Desta viagem existe um relato, escrito por um anónimo que decerto integrou a comitiva: Diário da Jornada que fez o Conde de Ourem ao Concílio de Basilea. Como o Conde d´Ourem foy ao Concilio de Basilea e o que passou no caminho, e assi ao Papa[27], texto curioso e muito rico em pormenores que tem como protagonista D. Afonso. Esta narrativa informa-nos sobre o périplo, a distância percorrida em cada jornada, os locais de pernoita, as paragens e visitas mais demoradas e faz a descrição de algumas localidades, da sua organização social, hábitos, costumes, episódios e acontecimentos.

O itinerário, cujo destino era Basileia mas que o levou até Colónia, passou por 140 localidades: atravessou a Península Ibérica, com paragens de dois ou três dias, no máximo uma semana, em Ávila, Toledo, Álcalá de Henares, Valência e Tortosa. A meio de Abril D. Afonso e a sua comitiva entraram em Barcelona, onde se detiveram 6 semanas, decerto à espera de ventos favoráveis e organizando os preparativos para a viagem de barco que os levaria a Livorno. A chegada àquele porto ocorreu a 18 de Junho de 1436. A viagem por Itália prosseguiu a um ritmo mais lento por Pisa, onde esteve cinco dias, Florença, onde estadeou catorze e Bolonha onde se demorou, dez semanas. A saída daquela cidade ocorreu a 10 de Outubro, rumo a Basileia. Passou por Parma, Modena, com uma estada de nove dias e Milão onde esteve quinze. A 13 de Novembro entrava na primeira localidade dos domínios do Duque de Saboia – Vercelli. Depois de atravessar os Alpes e de ter passado por Lausane, no dia 2 de Dezembro o 4º Conde de Ourém chegou a Basileia, onde esteve cinco meses e onze dias. Depois de abandonar o Concílio, a viagem prosseguiu no dia 13 de Maio em direcção ao norte da Europa: entre 22 e 23 de Maio esteve em Bona e no dia 30 do mesmo mês, o relato da viagem termina em Colónia. Não conhecemos, nem a data nem o caminho de regresso. Parte da comitiva voltou a Itália para se despedir do Papa[28] em Bolonha e pensamos que daí tenha regressado a Portugal. Quanto a D. Afonso sabemos que pediu autorização a D. Duarte para se separar dela[29], para ir aos lugares santos. Temos até a na Crónica do Condestável parte do roteiro desta viagem: Cairo, Damasco, Jerusalém[30]. Assim, na península itálica ter-se-á dirigido para Veneza, de onde sabemos que embarcou em Setembro de 1437, com destino à cidade santa, como disso deu notícia uma carta do Doutor João Beleágua escrita em Bolonha em 31 de Agosto, daquele ano[31].

Como terá sido o regresso? Decerto pelo Mediterrâneo, em direcção à Península, rota aliás muito comum e frequentemente seguida pelas cruzadas. Pena é não sabermos este percurso. Onde estaria D. Afonso quando soube da morte de D. Duarte? Tendo em conta que o monarca morreu no início de Setembro de 1438 e que passados praticamente dois meses, o Conde de Ourém já estava em Portugal, fácil é depreender que deveria estar próximo da Península Ibérica, talvez no norte de África (em Ceuta?), de onde se chegava a Portugal, se os ventos o permitissem, em poucos dias[32].

Esta terá sido de facto, pela extensão do percurso, pelo tempo que demorou e pelo que viu, a mais importante e interessante viagem que D. Afonso empreendeu. O relato do anónimo acompanhante assinalou, nas paragens mais demoradas, as visitas e contactos, que terá considerado mais interessantes e notáveis pelo que é possível depreender dos seus interesses, gostos e personalidade.

Quando chegava a qualquer localidade, a comitiva era sempre recebida pelas autoridades locais com presentes, geralmente vinho e/ou comida, e em cidades de maior importância como Valência, Barcelona, Florença, Bolonha, Vercelli, Lausane, Basileia ou Estrasburgo, a descrição narra recepções que se revestiam de grande importância: eram usados os melhores fatos e a comitiva seguia em cortejo pelas principais ruas das cidades, com arautos, charamelas e trombetas. Verdadeiras entradas régias[33], organizadas provavelmente à semelhança do que, cinco anos antes, D. Afonso tinha visto na Borgonha. (Fig.11) O destaque e dignidade destas entradas revelam a importância e consideração que as mais diversas cortes tinham por Portugal e pelo seu embaixador, que se apresentava acompanhado de grande comitiva – sinal de poder e riqueza – e cujos sinais exteriores – vestuário luxuosos, aparato, grandiosidade – eram sinónimo de requinte e singularidade.

Fig. 11 – “Carlos IV, o Belo, acolhe em Paris a sua irmã Isabel, rainha de Inglaterra, 1325. Miniatura extraída das Chroniques de Sir Jean Froissart, sé. XIV, Paris, Biblioteca Nacional de França. As «entradas» reais e dos príncipes glorificavam a função de encontro, de acolhimento e de festa, cujo lugar principal, material e simbólico é a porta da capital.”

Os contactos pessoais descritos no relato, revelam ligações ao mais alto nível: o 4º Conde de Ourém esteve com o Rei de Castela, que visitou em Alcalá de Henáres; em Barcelona encontrou-se com a Rainha de Castela que estava acompanhada da irmã, tendo as duas senhoras sido recebidas por D. Afonso às portas da cidade, tendo depois, sido recebido nos paços onde pousavam, para novo encontro, em que se despediu. Em Bolonha foi recebido, pessoalmente, na corte pontifícia pelo Papa Eugénio IV e contactou com os mais altos representantes cardinalícios. Conheceu também Francisco Sforza, genro do Duque de Milão e Gattamelata, um importante condotiero[34]. Visitou as cortes dos duques de Milão e de Saboia, onde foi faustosamente recebido com jantares, caçadas e festas realizadas em sua homenagem. E no Concílio encontrou-se com inúmeros representantes das diversas delegações presentes, de entre os quais destacamos os embaixadores do rei de Castela[35].

Das visitas que fez a edifícios e monumentos notáveis, o relato assinala que o 4º Conde de Ourém terá privilegiado sobretudo paços régios ou castelos de nobres e edifícios religiosos; poucos são os referidos de carácter civil. Assim, em Valência, cuja estada demorou oito dias, D. Afonso viu os Paços do rei, fora da cidade, respectiva capela e horto, os Paços de um cónego e o orto d´El-Rey, que he dentro na dita cidade, a que chamão Terecena, (...) e dentro estão duas capelas e dous preguatoiros, (...) e outros edificios como de See[36]. Em Tarragona visitou a Sé e perto de Barcelona o Mosteiro de Stª Mª de Montserrat. Em Pisa, onde esteve cinco dias, é assinalada a respectiva Catedral e Baptistério, bem como são feitas apreciações quanto à beleza das pinturas, pavimento e portas da catedral; no baptistério foi admirada a respectiva pia bem como o púlpito. Em Florença destacam-se os Paços do Marquês de Ferrara onde D. Afonso terá pousado[37], o conjunto monumental do Duomo, sublinhando a beleza e singularidade das portas do Baptistério e os dois hospitais da cidade (um para homens e outro para mulheres). Em Bolonha impressionaram as altas torres, muito comuns na cidade, destacando-se especialmente uma delas, a Torre da Guarda, que a vêm a dez legoas e deziam que aquella era a mais alta torre que avia em Italia[38]. Em Milão viu a Catedral, ainda em construção[39], e visitou não só o Castelo do Duque na cidade, mas também um outro, afastado da urbe, onde foi recebido por Carlo Maria Visconti e nele foi feita montaria em sua honra. Naquela região visitou ainda o Mosteiro de S. Pedro Martel. No caminho para Basileia há referência ao Mosteiro de São Bernardo, em Sam Remy, local de extrema importância como ponto de apoio na passagem dos Alpes e os paços do Duque de Saboia e do Príncipe do Piemonte, seu filho, em Lausane. Curiosamente em Basileia onde a estada se prolongou por mais tempo e cujo relato também ocupa a maior parte do texto, apenas é assinalada a catedral onde decorriam os trabalhos do Concílio. Em território do Sacro Império, é destacada, em Ruão huma igreja mui boa[40], que não é identificada. Em Estrasbourgo, o relato fala das vinte e seis pontes da cidade, da sua Sé e respectivos orgãos, que dezia o Conde de quantos elle vira que aquelle erão os melhores[41]. Em Bona é feita referência à Sé e em Colónia, onde o relato é interrompido, de novo se destacam edifícios religiosos: a Sé muito grande e boa e, se for acabada, será muy formosa[42], como os túmulos dos três reis magos que aí se encontravam e os mosteiros de São Francisco e das Onze Mil Virgens.

Esta viagem pela península itálica que levou o Conde de Ourém até Basileia permitiu-lhe contactar com um ambiente completamente diferente daquele que tinha visto na Flandres. Frequentemente, o relato assinala conflitos latentes e situações de insegurança, demonstrativos do ambiente instável que se vivia nalgumas cidades-estado. E esta luta travava-se não só no campo de batalha, mas também nos edifícios públicos de reunião e administração comunal, cuja construção era promovida e paga pelas associações comerciais e/ou artesanais – e nos que o senhor patrocinava – paços, capelas privadas ou outras construções, ricamente decoradas com pinturas e esculturas. Naqueles territórios, no início do século XV, uma cultura mecenática estava em germinação e dava já passos seguros no sentido de uma atitude de valorização e enriquecimento cultural e artístico que foi levada a cabo, a partir do início do século XV, por inúmeros encomendadores privados, naquela zona tão particular da Europa mediterrânica.

Tudo o que ficou assinalado nos texto e que expressamente é referenciado, constitui um conjunto bastante interessante de obras de arquitectura que o Conde de Ourém viu: vários paços régios (10) e outros de natureza mais modesta (6), estaus (8), castelos (14) e alcáçovas (2) e edifícios de carácter religioso: Catedral de Tarragona, Mosteiro de Montserrat em Barcelona, Catedral e Baptistério de Pisa, Catedral, Torre e Baptistério de Florença, Basílica de S. Petrónio em Bolonha, Catedral de Milão, Mosteiro de São Bernardo nos Alpes e as catedrais de Basileia, Ruão, Estrasburgo, Colónia e Mosteiro de São Francisco e das Onze Mil Virgens, na mesma cidade.

Mas, certamente, outros edifícios igualmente importantes e que o texto não assinala, devem ter sido observados. Esta afirmação fundamenta-se no facto de, sendo as estadas do 4º Conde de Ourém por vezes prolongadas e sendo aqueles edifícios marcos significativos nas cidades, decerto foram vistos. Podemos afirmar que em Valencia D. Afonso terá, pelo menos, visto a respectiva Catedral, construída entre meados do século XIV e o início do seguinte, que já apresentava o seu campanário – el Miquelete, uma torre octogonal que se erguia a mais de 51m, concluída em 1429.

Barcelona onde esteve seis semanas não seria uma novidade para ele. O relato assinala o local onde terá ficado instalado: ... na praçaa de Santa Anna, que era a paa[*r] donde pousava o Conde ...[43]. No actualmente denominado Bairro Gótico, a toponímia regista uma Rua de Santa Ana, junto à Praça da Catalunha. Decerto esta é uma designação recente, pelo que se apresenta provável que D. Afonso tenha pousado num edifício desta praça, que no século XV deveria evocar o nome da mãe de Nossa Senhora. O relato descreve com pormenor os encontros que     D. Afonso teve com a Rainha de Castela que estava acompanhada da irmã, no paço onde pousavam. O texto não assinalou o nome pelo qual era conhecido, mas pela importância e posição de quem nele se hospedou só poderia tratar-se do palácio real, localizado próximo da catedral,  confirmando assim que D. Afonso conheceu, com algum detalhe (a passagem do relato do encontro descreve-o demorado[44]) este importante paço de Barcelona e teve oportunidade de admirar novamente a magnífica arquitectura gótica daquela cidade.

Relativamente à estada em Florença que ocorreu entre 8 e 21 de Julho, julgamos que se terá revelado muito significativa, não tanto pelas questões relacionadas com a missão diplomática do Conde de Ourém mas porque nesta tão importante cidade da Toscânia se vivia um singular momento: no final do mês seguinte ou seja a 30 de Agosto de 1436 seria sagrada a cúpula do Duomo[45], ainda não rematada pelo lanternim que mais tarde a coroou, em 1461. Por estes tempos, a fama de Brunelleschi deveria ecoar pela cidade e com ela a renovação da arquitectura florentina. Sabemos que o estaleiro da catedral, onde estariam algumas das máquinas concebidas/inventadas por aquele arquitecto e que possibilitaram o fecho da cúpula, passados mais de sessenta anos sobre a conclusão das obras, ainda era ponto de atracção e passagem obrigatória de viajantes curiosos[46]. O que não seria em 1436 a um mês da inauguração da grande obra?

Florença decerto esperou e recebeu com algum entusiasmo e até curiosidade a presença de tão importante nobre, neto do famoso rei D. João I e do não menos conhecido e já com fama de santo, D. Nuno Álvares Pereira. Aliás, os florentinos bem conheciam e consideravam um outro português que naquela cidade era prior do mais célebre mosteiro beneditino, a Abadia de S. Bartolomeu de Fiesole, mais conhecida pela Badia di Firenze: Dom Gomes Ferreira (1383/5?- 1459)[47], homem muito considerado e que mantinha relações de amizade com alguns dos mais notáveis intelectuais e artistas locais. Um dos seus conversos era até irmão de Filippo Brunelleschi[48], pelo que não seria de estranhar que aquele religioso conhecesse até o famoso arquitecto. Apesar de Dom Gomes não estar em Florença[49] quando o Conde de Ourém por lá passou a caminho de Basileia, é muito natural que D. Afonso tenha tido vontade de visitar a sede da congregação dirigida por um seu compatriota que sabia ser muito considerado tanto na corte portuguesa, já desde o tempo do seu avô[50], como também pelo Papa Eugénio IV de quem Dom Gomes era amigo pessoal desde os tempos do noviciado. Provavelmente o Conde de Ourém terá sido guiado por outro monge, talvez mesmo um português[51], que lhe terá mostrado as obras já concluídas no primeiro piso da Badia que se encontrava em fase de remodelação total. Em 1436 estavam já prontos o Oratório e o Claustro inferior – o célebre Claustro das Laranjas[52] – e o Refeitório, estando em fase de conclusão o segundo piso (claustro superior e dormitório novo), terminado no ano seguinte[53].

Sem bases documentais, mas relacionando factos, acontecimentos e datas, julgamos que é possível afirmar que o Conde de Ourém esteve em Florença, num dos anos mais importantes para a cidade que festejava efusivamente a conclusão da sua bela catedral, cujo fecho da respectiva cúpula, tinha demorado tantos anos e que alguns julgavam até ser impossível. Mesmo em frente, D. Afonso terá certamente admirado a bela Loggia dei Lanzi, famoso pórtico destinado a cerimónias públicas construído entre 1376-81 e terá passeado pela Piazza della Signoria e entrado no Palácio Vecchio (1429-1314), com desenho de Arnolfo di Cambio. Deve ter também visitado a residência da Potestade (ou Palácio del Bargello), edifício cuja construção se iniciou no século XIII e cuja loggia e grande sala datam do século XIV. E viu com quase toda a certeza, para além da Catedral que o relato assinala, as obras de Brunelleschi, que nesta altura estavam já edificadas em Florença: a Igreja de São Lorenço, cujos trabalhos tinham sido iniciados em 1423, o Hospital dos Inocentes, construído em 1420 e talvez a Capela dos Pazzi, em construção, uma vez que, iniciada em 1430 só foi concluída em 1444. E se não conheceu o famoso arquitecto, terá talvez tido oportunidade de contactar possivelmente com o irmão que, possivelmente elucidou D. Afonso sobre as novidades arquitectónicas e estilísticas concebidas por Filippo Brunellechi. O Conde de Ourém esteve pois em Florença num ano importantíssimo, talvez mesmo, no preciso momento que constituiu o ponto de viragem e afirmação de uma nova estética que acabava de nascer com a conclusão da emblemática e grande opera da cidade, a Catedral de Santa Maria del Fiore. Pena é não termos registos mais completos desta passagem por Florença que nos elucidariam sobre o que de facto D. Afonso viu, e sobretudo, com quem contactou na capital da Toscânia.

Em Bolonha, importante cidade pontifícia, são inúmeros os edifícios notáveis que na terceira década do século XIV já estavam construídos e que o Conde de Ourém também terá visto, tendo até entrado muito provavelmente num deles: na praça principal situavam-se os palácios comunal, iniciado no século XIII, o chamado do rei Enzo, do mesmo século, e o dos Notários também do século XIV-XV, onde julgamos estava alojado o Papa[54], e onde D. Afonso foi recebido. Um outro edifício, a Mercanzia ou Loggia dos Mercadores, estava já erguido uma vez que tinha sido concluído no final do século anterior. O edifício que albergava a universidade (a mais antiga da Europa que no século XIII tinha já 10 000 estudantes), também deve ter sido visitado. Quanto a edifícios religiosos, para além da catedral de S. Petrónio, podiam já ser vistas as igrejas Dei Servi (séc. XIV), com uma Madona de Cimabue, a de San Stefano, constituída por um complexo conjunto de edifícios medievais, e a de S. Domingos, onde está o túmulo daquele santo. Em Modena, onde a comitiva esteve nove dias, D. Afonso terá tido oportunidade de ver a respectiva catedral, de feição lombarda, tendo o mesmo acontecido, certamente em Lausane.

Sobre a ida a Jerusalém, não existem quaisquer registos sobre a viagem, o itinerário e o que terá visto. De concreto apenas temos as sumárias referências da Crónica do Condestável e a carta, a que já fizemos referência, que noticía que em Setembro de 1437, D. Afonso estava em Veneza. Fundada sobre 117 ilhas no século IX, gozando de uma situação geográfica invejável entre o Oriente e o Ocidente que lhe possibilitou alcançar um enorme poder económico e político, Veneza era, a mais importante potência comercial e marítima da Europa, sendo o Adrático “mar veneziano” de Corfu ao Pó, vivendo, nesta primeira metade do século XV, o seu período de maior apogeu Decerto que a imagem desta tão singular cidade seria bem diversa da actual,  pois muitos dos seus mais notáveis edifícios datam do século XVI, XVII e XVIII. No entanto a Basílica de S. Marcos marcaria já a praça com o mesmo nome, assim como o Palazzo Ducale – residência do dodge, sede do governo, palácio de justiça e prisão, edificado no século XII, cuja feição seria então ainda completamente medieval pois as grandes transformações que sofreu, apesar de iniciadas no século XIII, decorreram sobretudo no século XVI. Mas o Ca´d´Oro, o mais elegante palácio veneziano do século XV andaria em construção (concluído em 1440, D. Afonso deve tê-lo visto com a imagem dourada que lhe deu nome, quando voltou a passar por Veneza em 1452), estando já edificado o Ca´Foscari outra notável residência quatrocentista. Quanto a edifícios religiosos destacamos a Igreja de S. João e S. Paulo (1234-1430),  a  Igreja de Stª Maria Gloriosa dei Frari,  dos franciscanos e a maior de Veneza e a Igreja de S. Zacarias, cuja imagem actual é da renascença, mas originalmente medieval mantendo-se deste tempo o campanário do século XIII e a Igreja de S. Michele com o seu claustro do século XIV.

Em Jerusalém, a ida ao Santo Sepulcro seria paragem obrigatória, destino de viagem até. Quanto ao que mais terá sido visto apenas poderemos presumir que a passagem pelo Cairo e Damasco e outras terras lhe terá proporcionado contactos com uma cultura que, apesar de não ser sua desconhecida, pois era muito forte a presença muçulmana na Península Ibérica, foi naqueles locais apreciada de forma plena e autêntica.

A quarta missão diplomática do Conde de Ourém levou-o novamente a Itália. Realizada no âmbito do casamento de D. Leonor com Frederico III, Imperador da Alemanha (Fig.12), a embaixada portuguesa saiu de Lisboa no dia 25 de Novembro de 1451, por via marítima e fez a sua primeira paragem em Ceuta, no final de Novembro. Na costa francesa, deteve-se para abastecimento na actual Monte Carlo e em Marselha, onde parte da tripulação foi visitar a gruta de Stª Madalena e os túmulos de Stª Marta e S. Lázaro. Em Itália as cidades que os relatos assinalam como locais que D. Afonso visitou e estadeou são: Livorno/Pisa, onde chegou no início de Fevereiro, Siena, Assis, para visitar ao túmulo de S. Francisco e Stª Clara nos respectivos mosteiros e Roma, onde entrou no dia 8 de Março de 1452, para assistir ao casamento e coroação dos imperadores nos dias 15 e 19 do mesmo mês, respectivamente.

Fig. 12 – Pinturicchio, Libreria Piccolomini, Catedral de Siena. Este fresco representa o encontro entre Frederico III e D. Leonor. Afirma-se que o personagem masculino que se encontra à esquerda, em primeiro plano, de costas é D. Afonso, Marquês de Valença.

Os documentos escritos que chegaram até nós relatando estes acontecimentos[55] não são muito explícitos quanto à identificação de locais visitados pelo Conde de Ourém. Debruçam-se, sobretudo, sobre os actos relacionados com o enlace, deixando para um plano quase esquecido o cenário que os enquadrou. O documento mais extenso e que nos dá mais informações, sob este ponto de vista, é o relato de Nicolau Lanckerman. Relativamente a Ceuta, primeira paragem da comitiva portuguesa, na viagem que levou D. Leonor a Itália, o relato tece considerações sobre a cidade: Oh que grandes Palacios e enormes, fortes e admiráveis construções de torres e baluartes! (...) Ceuta é uma grande cidade, o dobro maior que Vienna no Ducado da Austria[56]. Acrescenta que existem três igrejas cristãs, situadas em edifícios originalmente pagãos: no maior, foi instalada a catedral, consagrada à Virgem Maria; uma segunda, situava-se fora dos muros maiores da cidade e era dedicada a Stª Mª da Graça, tendo nela sido celebrado missa, pelo narrador, a que assistiu D. Leonor; na terceira igreja cristã de Ceuta, cujo orago era S. Tiago, tinham instalado os frades menores um convento. Quanto aos palácios é feita referência específica àquele onde a  princesa se alojou: um grande Palacio em que outr´ora habitaram o Rei d´Africa e Annibal[57]. Constituído por um amplo edifício e um belo jardim onde cresciam espécies da flora local, este palácio é ainda caracterizado como tendo parte das paredes e os pavimentos formados com admiravel belleza, de diversas pedras polidas, de varias côres, como as paredes da Igreja de São Marcos em Veneza e três casas de banho lindissimas e dispostas de uma maneira admiravel e deliciosa[58]. Foi aliás no jardim deste palácio que D. Leonor plantou um arbusto como sinal de despedida de Portugal, que certamente sabia, não mais voltaria a ver.

Até Itália não é feita referência descritiva a mais nenhum local ou edifício. Já em Siena é referida a porta da Sé e em Roma os paços de S. João de Latrão, onde ficaram alojados os noivos e que D. Afonso visitou, para além da antiga Catedral de S. Pedro, onde foram realizadas as cerimónias de casamento e unção dos imperadores, e das igrejas de S. Paulo e S. João e outros logares sagrados intra e extra muros da Cidade[59], que o narrador diz terem sido visitados pelo Marquês de Valença e respectiva comitiva. O texto de Pedro de Sousa acrescenta que D. Afonso terá querido expressamente visitar Assis, com o objectivo de prestar homenagem junto dos túmulos de S. Francisco e Santa Clara que estavam nas respectivas igrejas, o que obrigou a um desvio do caminho entre Siena e Roma, para poder fazê-lo. Não nos parece que o Conde de Ourém tenha seguido para Nápoles com o casal imperial após a coroação, mas há indicações em como se juntou, mais tarde a D. Leonor, para a acompanhar à Alemanha, em Junho de 1452.

Poderão colocar-se várias dúvidas: onde e quando se terá de novo juntado D. Afonso à Imperatriz para seguir depois viagem com ela? Sabendo que D. Leonor chegou a Neustat a 19 de Junho e que a comitiva portuguesa, que não a acompanhou, embarcou para Lisboa a 25 de Julho, será que D. Afonso regressou de novo a Pisa, passado pouco mais de um mês, para vir junto para Portugal? A resposta a esta questão parece-nos afirmativa pois esta seria a única justificação para que a comitiva portuguesa permanecesse em Itália, entre Abril e Julho de 1452, esperando assim o regresso do seu senhor. Verdadeiramente, nenhum dos registos escritos nos esclarece sobre o que se terá passado nestes três meses, bem como nos tempos seguintes, pois não conseguimos encontrar a data de regresso ao reino do 4º Conde de Ourém.

Mas a hipótese de D. Afonso ter aproveitado novamente para viajar ganha alguma plausibilidade atendendo a que, data de 1453 a encomenda que realizou, cujo registo o designa por Marchese di Valença, à oficina de Lucca della Robia em Florença, de um conjunto de peças que foram embarcadas no ano seguinte para Lisboa e que se destinavam, segundo Rafael Moreira, à Igreja da Colegiada de Ourém que por aquele tempo andava em construção[60]. Aliás, aquele autor, a este propósito, refere que D. Afonso passou por Florença em 1453. Terá permanecido na Alemanha durante alguns meses e regressado de novo a Itália? Ou teria alguém de confiança em Itália, através de quem fez as referidas encomendas?

Os dados que recolhemos da vida do 4º Conde de Ourém apenas nos permitem localizá-lo com toda a certeza em Portugal a 25 de Junho de 1455, quando o pequeno D. João II foi jurado herdeiro. Há portanto um hiato de tempo, razoavelmente  dilatado, em que não sabemos o que terá feito D. Afonso. Saiu de Portugal, em missão para Itália, no final de 1451; em Março de 1452 estava em Roma e em Junho do mesmo ano na Alemanha; e, enquanto o casal imperial esteve em Nápoles (partiu de Roma no final de Março e regressou a Veneza a meio de Maio), D. Afonso não o acompanhou. Não sabemos quando voltou a Portugal. Mas para quem tinha tão importantes obras em curso nos seus domínios atrevemo-nos a adiantar que ele terá regressado logo que foi dada como terminada a missão diplomática de que ia incumbido – Julho de 1452 – , pois as empresas que tinha iniciado – obras em Ourém e Porto de Mós – necessitavam da sua presença para a conclusão. E quanto às encomendas que se efectivaram quase um ano depois, embarcadas para Lisboa em Maio de 1454, terá tratado delas enquanto D. Leonor esteve em Nápoles, aproveitando assim os meses de Abril e Maio de 1452 para estadear mais uma vez pela península itálica, talvez novamente por Florença onde, agora sim, poderia ter tido a oportunidade de ver as escultura e cerâmicas polícromas de Luca della Robbia aplicadas na Catedral e respectiva sacristia (1445/1451) e na Sacristia Velha de S. Lorenzo (1443). Daqui ter-lhe-á ficado certamente a vontade de possuir peças cerâmicas da oficina daquele artista, embarcadas para Portugal em 1454, cuja encomenda terá sido efectivada em 1453, possivelmente através de um encarregado de negócios que sabemos D. Afonso tinha em Florença[61].

A última viagem de D. Afonso foi, como referimos, feita no âmbito da missão militar da tomada de Alcácer Ceguér. A frota que organizou no Porto reuniu-se em Lagos à do monarca e daí seguiu para a costa marroquina onde, no início de Outubro de 1458, aportou a Alcácer. Uma vez que o rei foi depois a Ceuta é provável que o Conde de Ourém o tenha acompanhado, avistando, assim, pela segunda vez aquela cidade.

Por tudo quanto dissemos, parece-nos claro que D. Afonso terá contactado com o que de melhor, mais interessante e original se fazia na época que, curiosamente, tomava feição diferente, caso se tratasse da Flandres ou de Itália, tendo estado frente a estes dois mundos, cujas realizações, com intenções semelhantes, se materializaram nestas duas culturas que marcaram a vanguarda artística do século XV, de forma completamente diversa.

Ainda em Portugal, o 4º Conde de Ourém deverá ter conhecido Jan van Eyck, que acompanhou a embaixada borgonhesa a Lisboa em 1428-29. O célebre pintor esteve em Avis, junto da corte, nos primeiros meses de 1429, com a missão de retratar a Infanta D. Isabel[62]. D. Afonso também lá se encontrava. É portanto quase certo que se terão cruzado. Será que o viu trabalhar? Terá visto obras suas? Na Flandres terá tido essa oportunidade. Lá van Eyck era um artista reconhecido – era já pintor da corte – e iniciava as primeiras experiências que o levariam à liderança do movimento de inovação pictórica da pintura flamenga. E das inúmeras personalidades que D. Afonso contactou no âmbito desta embaixada, destacamos as figuras de Baudoin de Lannoy, Senhor de Molembaiz e governador de Lille, um dos embaixadores que vieram a Lisboa em 1428-29 para negociar com D. João I o acordo de casamento, a quem Van Eyck pintou um retrato em 1432 (Retrato de Boudoin de Lannoy – Fig. 14)[63] e Nicolas Rolim, destacado nobre próximo de Filipe-o-Bom – foi uma das suas testemunhas de casamento – que chegou a chanceler da Borgonha e que patrocinou o famoso retábulo A Virgem do Chanceller Rolim (Fig. 15), também pintado por van Eyck em 1451, destinado à capela da sua família na Igreja de Notre Dame-du-Chastel em Autum. Estes nobres terão sido talvez dos primeiros a encarnar o espírito mecenático que se generalizou mais tarde no meio aristocrático. De facto, o Papa Nicolau V, em 1450, nomeou Rolim patrono oficial daquela igreja, tantas tinham sido as dádivas artísticas feitas pelo chanceler. É assim muito provável que o Conde de Ourém tenha visto o retrato do embaixador flamengo que data precisamente de 1432 e, apesar da efectivação da encomenda do Chanceler Rolim se ter verificado muito posteriormente à sua estada na Borgonha, cremos que a sensibilidade, o espírito e o ambiente que se vivia na Flandres nos anos 30 de quatrocentos, terão marcado definitivamente o seu gosto.

Fig. 13 – Cópias dos presumíveis desenhos realizados por Van Eyck de D. Isabel de Portugal
Fig. 14 – Jan van Eyck, Retrato de Baudoin de Lannoy. 1432. Gemaldegalerie, Berlin.
Fig. 15 – Jan van Eyck, A Virgem do Chanceller Rolim, c. 1435. Museu do Louvre, Paris.

Quanto à arquitectura, a Flandres apresentava nos seus edifícios uma feição semelhante à que se usava em Portugal (já tardo-gótica) mas com algumas diferenças significativas: de escala, muito maior, e de tipologia dado que, para além dos edifícios religiosos, muitos eram os de carácter civil igualmente grandiosos e belos que marcavam Gant ou Bruges, de entre os quais já deveriam destacar-se as sedes comunais, situadas na praça principal ou paços régios e nobres, luxuosamente decorados com panos e argentarias várias.

Nos alvores de um novo tempo D. Afonso esteve precisamente nas principais cidades dos dois territórios – Flandres e península itálica – onde novas ideias e formas começavam a florescer. As viagens que empreendeu, foram feitas em anos de clara mudança, difíceis até de classificar – 1430 na Flandres, 1436 na Toscânia ou 1452 em Roma, constituem precisamente pontos de viragem estéticos. Recordemos a este propósito que o Cordeiro Místico de Van Eyck foi colocado na Catedral de S. João (actual S. Bavão) em 1432; que a cúpula do Duomo de Florença foi inaugurada pelo Papa Eugénio IV em 1436; que data de 1450 a decisão do Papa Nicolau V de reformular a Basílica de S. Pedro em Roma, fazendo a encomenda do projecto a Leon Batista Alberti, remodelação aliás integrada no grande projecto de modernização da cidade; e que no ano de 1452 aquele arquitecto publicou o tratado De re aedificatoria. Fácil é fazer corresponder estes factos às passagens que o 4º Conde de Ourém fez pela Flandres, Florença e Roma, que nestes momentos cruciais, como é característico de tempos de mudança, deveriam fervilhar de novidades, contestação e discussão. Feliz coincidência ou talvez não, o facto é que 100 anos antes da divulgação de um novo ideário estético que só chegou a Portugal ia já avançado o século XVI, D. Afonso conheceu-o, observou-o. E, tal fortuna que só o acaso pode explicar, proporcionou-lhe o enriquecimento visual e estético que, junto à cultura e erudição de que era detentor e que soube cultivar e desenvolver, possibilitaram a edificação nos seus domínios de uma obra inovadora e marcante, digna da sua estatura intelectual e do seu singular estatuto nobre.

Índice das Imagens e respectiva legenda

Fig. 1 – Painel dos Cavaleiros (pormenor). Painéis de S. Vicente. Nuno Gonçalves. Segunda metade do século XV. D. Afonso, 4º Conde de Ourém e Marquês de Valença é a segunda figura de opa verde com colar – identificação avançada por José de Figueiredo, seguindo a observação de Virgílio Correia em 1924, da semelhança com o respectivo jacente (1485-87). >> VER

Fig. 2 – Fonte pública de Ourém – fachada e vista lateral (acesso à bica) >> VER

Fig. 3 – Paço de Ourém –torres baluarte, fachada sul e norte do edifício do paço >> VER

Fig. 4 – Paço de Porto de Mós (postal editado pelo IPPAR) >> VER

Fig. 5 – Relicário oferecido por D. Afonso, 4º Conde de Ourém, à Colegiada da sua vila condal. Prata dourada. Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa. (“Nos confins da Idade Média: arte portuguesa séculos XII-XV”, Catálogo da Europália, ob. cit., p. 249) >> VER

Fig. 6 – Beccatelli do Paço de Ourém – na fachada oeste e pormenor >> VER

Fig. 7 – Mapa com o roteiro das viagens de D. Afonso, 4º Conde de Ourém (RIBEIRO, Gonçalo Morais, “Viagens do Conde de Ourém”, Actas do Congresso Histórico D. Afonso 4º Conde de Ourém e a sua época, ob. cit., p. 222) >> VER

Fig. 8 – Cripta da antiga Colegiada de Ourém (actual Igreja de Nª Sª das Misericórdias). Vista interior >> VER

Fig. 9 – Arca funerária de D. Afonso, 4º Conde de Ourém e Marquês de Valença (postal editado pelo IPPAR) >> VER

Fig. 10 – Retrato presumível de D. Isabel de Portugal chamado “Sibyla Persica”, Malibu, Museu J. Paul Getty (LEMAIRE, Claudine e HENRY, Michéle, Isabelle de Portugal Duchesse de Bourgogne, ob. cit., capa) e Filipe-o-Bom,, recebe a “Crónica de Hainnaut”. Miniatura da mesma; desenho de Rogier van der Weyden, séc. XV. (História de Arte, Vol. 4, Ed. Planeta De Agostini, 1996, p. 155) >> VER

Fig. 11 – “Carlos IV, o Belo, acolhe em Paris a sua irmã Isabel, rainha de Inglaterra, 1325. Miniatura extraída das Chroniques de Sir Jean Froissart, sé. XIV, Paris, Biblioteca Nacional de França. As «entradas» reais e dos príncipes glorificavam a função de encontro, de acolhimento e de festa, cujo lugar principal, material e simbólico é a porta da capital.” (In: LE GOFF, Jacques, Por Amor das Cidades, Lisboa, Editorial Teorema, 1999, p. 22) >> VER

Fig. 12 – Pinturicchio, Libreria Piccolomini, Catedral de Siena. Este fresco representa o encontro entre Frederico III e D. Leonor. Afirma-se que o personagem masculino que se encontra à esquerda, em primeiro plano, de costas é D. Afonso, Marquês de Valença. (FRASSI, Sílvia, Lo Sbarco dell´Imoeratrice Eleonora (1452): Documenti Inediti Sulle Relazioni Fra Pisa e il Portogallo nel Quattrocento, Tesi di Laurea in Lettere, Università Degli Studi di Pisa, Facoltà di Lettere e Filosofia, 2001/02, p. 90) >> VER

Fig. 13 – Cópias dos presumíveis desenhos realizados por Van Eyck de D. Isabel de Portugal (LEMAIRE, Claudine e HENRY, Michéle, ob. cit., pp. 168 e 182) >> VER

Fig. 14 – Jan van Eyck, Retrato de Baudoin de Lannoy. 1432. Gemaldegalerie, Berlin. (FERRARI, Simone, ob. cit., p.56) >> VER

Fig. 15 – Jan van Eyck, A Virgem do Chanceller Rolim, c. 1435. Museu do Louvre, Paris. (História da Arte, Vol. 5, Planeta de Agostini, p. 190) >> VER



[1] Os pais casaram em Novembro de 1401 e deste matrimónio nasceram 3 filhos, pela seguinte ordem: D. Afonso, D. Isabel e D. Fernando, conhecendo-se apenas o ano de nascimento do último dos irmãos – 1403. Cf. Lita Scarlatti, Os homens de Alfarrobeira, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1980, p.165; e António Caetano de Sousa, História genealógica da casa real portuguesa, Livro VI, Coimbra, Atlântida, 1946-1955, Cap. I, p. 7 e Cap. III, p. 62.

[2] D. Afonso, Conde de Barcelos e 1º Duque de Bragança era filho natural de D. João I, nascido quando este tinha 14 ou 15 anos, “em tempo em que ElRey (...) ainda não tinha empunhado o Sceptro, e era Mestre da insigne Ordem de Cavallaria de S. Bento de Aviz” ( in António Caetano de Sousa , op. cit, Livro VI, Cap. I, p. 3). Foi educado por Gomes Martins de Lemos, no círculo dos frades franciscanos de Convento de Leiria. Durante os anos da crise D. João manteve-o, junto com uma irmã, D. Beatriz, oculto, mas depois de aclamado rei, viveu sempre próximo da corte. Acompanhou o pai nas lutas pela independência, e foi armado cavaleiro pelas mãos do novo monarca, em Tui, no ano de 1398. D. João I sempre o protegeu e teve por ele especial afeição – “... se não era o mais herdado, era o mais querido” (in  Frei Rafael de Jesus, Monarchia lusitana, Tomo I, Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, 1958). Ao casar foi perfilhado e nobilitado sendo-lhe atribuído o título de Conde de Barcelos, até aí pertença do sogro que o transfere para o novo genro, com o acordo régio. O título de Duque de Bragança foi-lhe atribuído bastante mais tarde pelo Infante D. Pedro, em 1442, durante o período de regência após a morte de D. Duarte. Cf. J.T. Montalvão Machado, D. Afonso, primeiro duque de Bragança, Edição do autor, Lisboa, Depositária: Livraria Portugal, 1964, p. 103  e D. Afonso 8º conde de Barcelos e fundador da Casa de Bragança, Separata da Revista Guimarães, Vol. LXXIII, Guimarães, 1963, p. 10; e Joel Serrão e A. H. Oliveira Marques, “Portugal na crise dos séculos XIV e XV”, Nova história de Portugal, Vol. IV, Lisboa, Editorial Presença, 1987, p. 553. 

[3] Filha única de D. Nuno Álvares Pereira e de D. Leonor Alvim, cujo casamento foi determinado pelo pai do futuro condestável, que decidiu unir o filho, com 16 anos, a uma distinta viúva possuidora, na região de Entre Douro e Minho, de uma das mais avultadas fortunas do norte do país. Desta união nasceram 3 filhos – dois rapazes e uma rapariga, tendo apenas sobrevivido D. Beatriz. Cf. Mafalda Soares da Cunha, A Casa de Bragança, 1383-1483, Trabalho de síntese para as provas de aptidão pedagógica e científica ao Departamento de História e Arqueologia da Universidade de Évora, Évora, 1988, p. 36.

[4] “...que o levaram a ser apelidado pelo professor Pedro Dias, de “mais um membro da Ínclita Geração.” in José Manuel Poças das Neves, “Entre Fernando Pessoa e Miguel Torga – Uma abordagem à história de D. Afonso”, Actas do congresso histórico D. Afonso, 4º conde de Ourém e a sua época, Câmara Municipal de Ourém, 2004, p. 243.

[5] Lita Scarlatti, op. cit. pp.166 e 167.

[6] D. Duarte nasceu em 1392, D. Pedro em 1394, D. Henrique em 1396, D. Isabel em 1397, D. João em 1400 e D. Fernando em 1402.

[7] Cf. Augusto Vieira da Silva, “Os paços dos duques de Bragança em Lisboa, (Reconstituição topográfica dum trecho da Lisboa desaparecida)”, Separata de Olissipo, Nº 20 e 21 Boletim do grupo amigos de Lisboa, 1942.

[8] “Tinha em Lisboa, os paços antes pertencentes ao avô, situados no Rossio, ao Paço dos Estaus” in  Lita Scarlatti, op. cit., p. 168.

[9] D. Pedro era Duque de Coimbra e D. Henrique, Duque de Viseu;  D. João foi Mestre da Ordem de Santiago e D. Fernando da Ordem de Avis.

[10] Pela mão dos três filhos, o Conde de Barcelos exercia a sua influência junto do poder régio: D. Isabel casou com o Infante D. João em 1422, passando a fazer parte da família real; D. Fernando, Conde de Arraiolos (título também concedido pelo avô em 1420) foi direccionado para a área militar tendo desempenhado o cargo de fronteiro-mor e sido responsável por várias missões deste âmbito.

[11] Notável peça da ourivesaria portuguesa do século XV, “é de tipo invulgar, pois alia a existência da habitual arca a um pé mais próprio de custódia que de qualquer outro objecto de culto” (in Pedro Dias, O gótico, História da arte, Edições Alfa, Lisboa, Vol. IV, p. 150). Cf. Maria Antónia Pinho de Matos (coord.), Nos confins da Idade Média: arte portuguesa séculos XII-XV, Catálogo para o Festival Europália Portugal 91, Lisboa, Instituto Português de Museus, 1992, p. 248.

[12] A antiga vila de Ourém é actualmente uma das freguesias do Concelho de Vila Nova de Ourém – Nossa Senhora das Misericórdias. O antigo aglomerado, situado no alto de um morro com 328m de altura, perdeu importância a partir do final do século XVIII, pois o terramoto de 1755 quase que o destruiu por completo, obrigando a população a mudar-se para a freguesia mais próxima, a Aldeia da Cruz, situada no sopé do monte e que a partir de1841 passou a ser a nova sede do concelho. O perímetro da antiga Ourém, praticamente inalterado desde então e cuja definição ficou estabelecida desde as obras levadas a cabo por D. Afonso, permite ter uma ideia muito aproximada de como era esta singular vila no século XV. A Fonte pública apresenta-se muito bem conservada e ainda hoje da sua bica jorra abundante e fresca água. O edifício da Colegiada ruiu por completo em 1755, tendo o actual sido construído entre 1760 e 1770, com projecto de Carlos Mardel. Da construção original apenas restou a Cripta, onde o 4ª Conde de Ourém foi sepultado em 1487 (Fig. 8), num túmulo de autoria de Diogo Pires-o-Velho (Fig. 9). O Paço que D. Afonso mandou edificar junto ao primitivo castelo da vila, constituído pelo edifício de habitação propriamente dito e duas torres baluarte que assentam na muralha, apesar de bastante danificado revela uma imagem de grandiosidade que marca a paisagem. As torres foram restauradas durante os anos 40-50 do século XX e apresentam-se num razoável estado de conservação; o mesmo não se pode dizer de significativos troços da muralha. Quanto ao edifício do paço, não tem cobertura e o interior está quase totalmente esventrado. Resta apenas um pavimento, a que se pode aceder, com algumas paredes interiores onde é ainda possível ver algumas portas com o respectivo aro, paredes exteriores com a marcação dos respectivos vãos, algumas conversadeiras e vestígios de lareiras. No conjunto sobressai um original e razoavelmente bem conservado friso decorativo, aposto na fachada norte do edifício, assim como uma varanda e respectivos apoios que o rematam. Quanto ao paço que D. Afonso mandou edificar em Porto de Mós, remodelando o interior da primitivocastelo românico, estava no início do século XIX quase completamente caído por terra. Foi alvo do interesse da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que nele levaram a cabo, a partir dos anos 30 do século XX, obras de restauro que se prolongaram por mais de 50 anos. Algumas intervenções, nos anos 40-50 fizeram desaparecer para sempre muito do que tinha resistido à degradação que o tempo e os homens exerceram. Da obra quatrocentista podemos ainda ver a grande varanda voltada a sul e o pátio interior, originalmente porticado, de que restam alguns elementos de suporte de desenho muito original, assim como é possível ter ainda uma ideia global da intervenção levada a cabo no século XV.

[13] Devido ao progressivo assoreamento do Zwin, a partir do sinal do século XV, Éclusa foi perdendo importância como porto exterior que servia Bruges, levando a que Antuérpia passasse a ser, no início do século XVI, a nova capital  do comércio flamengo. Desde meados do século XIX, Éclusa ficou isolada do mar para sempre; situada junto à fronteira da Bélgica, pertence actualmente ao território holandês e é designada por Sluis que em flamengo também quer dizer éclusa/comporta.

[14]“After a full week of celebration, Phillip and Isabel left January 16 for a rigorous tour of all his terrirorial possessions. Among other cities her itinerary included Ghent, Lille, Arras, Perone, Noyon, Brussels, and Malines.”in  Aline Bercume Taylor, The diplomatic career of Isabel de Portugal. 1435 to 1437, Tese de doutoramento em Filosofia, Universidade do Colorado, Michigan, Ad. Ann Arbor, 1978, p.6.

[15] Cf. Domingos Maurício Gomes dos Santos, “O Infante D. Fernando na Flandres e na Alemanha?”, Separata da Revista Brotéria, Vol. LXXXVIII, Lisboa, Edições Brotéria, 1968.

[16] A 24 de Outubro de 1430, o 4º Conde de Ourém solicitou ao Papa um indulto para absolvição de todos os pecados e indulgência plenária, a que se juntou o mesmo pedido de D. Beatriz, condessa de Arrundel e D. Constância, segunda mulher do seu pai. Julgamos que este pedido terá sido expedido já de Portugal – “ O Conde de Ourém D. Afonso, sobrinho do rei de Portugal, pede o indulto para qualquer confessor o absolver de todos os pecados em artigo de morte e de lhe conceder a indulgência plenária, continuando o efeito de absolvição, mesmo que não morra. Solicitam o mesmo indulto D. Beatriz, viúva e condessa de Arundel, filha do rei de Portugal, e a mulher do Conde de Barcelos Dona Constânça.” in António Domingues de Sousa Costa, Monumenta portugaliae vaticana, Vol. IV, Braga, Editorial Franciscana, 1970, p. 586.

[17] Jacques Paviot, Portugal et Bourgogne au XVeme siécle (1384-1482), Centre culturel Calouste Gulbenkian, Commission Nationale pour les Comémorations des Découvertes Portugaises, Lisbonne-Paris, 1995, Doc. 92, pp.205-218.

[18] “...e fez adornar as ruas com panos da Flandres preciosidades d´aquelas com que ainda hoje os nossos olhos se maravilham” in  Domingos Maurício Gomes dos Santos, op. cit., p. 88.

[19] En icelluy hostel docques oultr les sales, chambres et logiez par-avant y edifiéz, dont il y a largement, fut faire une haulte, longue et largue sale de bois, tout de neuf, pour servir seulement le temps de la feste dudit mariage. in Jacques Paviot, op. cit., p. 215.

[20] Desta importante residência dos Duques da Borgonha, em Brujes, hoje praticamente nada resta. Constituída por um vasto conjunto de edifícios sofreu vários incêndios. As sucessivas reconstruções alteraram profundamente a sua feição medieval. Actualmente, 3 edifícios já do século XIX, ocupam o recinto. Uma operação de reabilitação do local motivou a realização de sondagens arqueológicas, durante o ano de 2004, que trouxeram à luz do dia estruturas de suporte, fundações e sistemas de esgotos, bem como conseguiram identificar ainda de pé, parte de uma parede do donjon do antigo palácio ducal e um pequeno edifício daquele conjunto.

[21] Bebida quente, composto de canela e amêndoa moídas, misturado com aguardente e açucar.

[22] D. Afonso possuía inúmeras relíquias que estavam na Colegiada de Ourém. Após o terramoto, as que foi possível recuperar dos escombros da igreja foram distribuídas pelas igrejas das freguesias de Ourém.

[23] No dia 1 de Novembro desse ano – 1431 – morreu D. Nuno Álvares Pereira, avô de D. Afonso. Apesar de não existirem referências quanto à sua presença durante as exéquias, cujos relatos de Fernão Lopes e do anónimo biografo da Crónica do Condestável são pouco detalhados, parece-nos provável que, se estava ausente, quando soube da notícia, tudo tenha feito para regressar o mais depressa possível a Portugal, portanto, ainda no final de 1431.

[24] O edifício medieval foi totalmente remodelado no final do século XVIII: no piso térreo foi instalada a bolsa da cidade e nos andares superiores funcionou, entre 1849 e 1970, a Escola de Belas Artes de Barcelona, que Picasso e Miró frequentaram; alberga actualmente a Biblioteca Pública e repartições do estado.

[25] Cf. José Custódio Vieira da Silva, A arquitectura gótica catalã e a arquitectura do tardo-gótico alentejano: estudos e influências, Porto, Instituto da Cultura e da Língua Portuguesa, 1989, p. 6.

[26] O ano da saída de Portugal, nas fontes que consultámos não recolhe unanimidade. Uns consideram  1435 – Duarte Nunes de Leão, Caetano de Sousa e Montalvão Machado – enquanto outros, o ano seguinte – António Pereira de Figueiredo, Damião Peres, Lita Scarlati , Aida Dias e Joel Serrão no Dicionário de história de Portugal, aponta as duas datas, em 2 artigos diferentes: no relativo a Diogo Mangancha, afirma ter este estado no Concílio em 1436-37; mas no de Vasco de Lucena diz que este célebre jurista acompanhou aquela embaixada em 1435. A razão para apontarmos com toda a certeza o ano de 1436, como ano da partida de Lisboa, prende-se com o seguinte facto devidamente documentado: o Conde de Ourém pediu a D. Duarte para hir fora do regno, a veer tera onde se entom for[a] como ficou registado no texto de Frei João Álvares (Obras, edição crítica com introdução e notas de Avelino de Almeida Calado, Coimbra, 1960, p.19). A mesma obra situa a data deste pedido por alturas da chegada do Abade D. Gomes, a Portugal, com a Bula da Cruzada (obtida do Papa pelo 4º Conde de Ourém, na sua passagem por Bolonha onde se encontrava a corte pontifícia, antes de integrar os trabalhos do Concílio em Basileia, e que foi expedida a 8 de Setembro de 1436), que ocorreu “em princípios de 1437 em pleno período de preparativos para expedição de Marrocos” (in Damião Peres, História de Portugal, p. 51). Fica assim clara a cronologia da viagem: saída de Lisboa em Janeiro de 1436; estada em Bolonha para negociações com o Papa, entre 24 de Julho e 10 de Outubro do mesmo ano; expedição da bula a 8 de Setembro; chegada do Abade D. Gomes no início de 1437.

[27] Existem três transcrições deste texto: a primeira está inserida na História genealógica da casa real portuguesa de António Caetano de Sousa; a segunda, no estudo de Lita Scarlati, Os homens de Alfarrobeira (1980); Diário da jornada do conde de Ourém ao concílio de Basileia (apresentação e leitura de Aida Dias), editado pela Câmara Municipal de Ourém em 2003, é a mais recente.

[28] ho Conde d´Ourem, nom teendo esperança de aver affecto sua mais estada, se despedio do Concilio e com sua companhia foy visitar ho Sepulcro Santo de Jerusalem, e ho Bispo Dom Antam e os outros Embaixadores se tornáram em Italia, a despedir com ho Papa Eugenio as cousas que em nome d´ElRey lhe tinha concedidas; (...) e  os outros Embaixadores se vieram para Portugal. in Crónicas de Rui de Pina, Introdução e revisão de M. Lopes de Almeida, Porto, Lello e Irmão, 1977, p. 508

[29] E em esto chegou a estes regnos, por delegado do Santo Padre Eugenyo quarto, aaquele tenpo prosidente na egreja de Roma, frey Gomez, abade de Florença, (...). E considerando ElRey sobre a licença que lhe este Ifante [D. Fernando] tiinha pedida pera se hir a Ingraterra e como o Conde d´Areolos, seu sobrinho, isso mesmo lhe pedia licença pera hir em companhia delRey de Castela aa conquista de Graada, e o Conde d´Ourem lhe pedia também licença pera se hir fora do regno, a veer tera onde se entom for[a], ... in , Frei João Álvares, Obras, edição crítica com introdução de Avelino de Almeida Calado, Coimbra, 1960, p. 19.

[30] Cf. António Machado de Faria, Crónica do condestável de Portugal D. Nuno Álvares Pereira, Lisboa, Academia Portuguesa de História, MCMLXXII, p. 232.

[31] Em Veneza he Airas Ferreira, Gonçalo de Soussa, Diego Gil, vedor do conde dOurem; querem pasar ao Sepulcro em galle que passa este mês de setembro, com que o conde he hj pera pasar. in António Domingues de Sousa Costa, O infante D. Henrique na expansão portuguesa, Braga, 1960, Doc. XXIII, pp. 147-8.

[32] Dez dias foi o tempo que demorou a viagem entre Lisboa e Ceuta da embaixada que levou D. Leonor a Itália, quando ali fez a sua primeira paragem.

[33] Consulte-se sobre este assunto o estudo de Ana Maria Alves, As entradas régias portuguesas – uma visão de conjunto, Colecção Horizonte Histórico, Lisboa, Livros Horizonte, 1986.

[34] A sua imagem ficou imortalizada numa estátua de Donatello, erguida em 1453, na Praça da Basílica de Stº António de Pádua, a primeira estátua equestre esculpida depois da Antiguidade.

[35] Bispo de Cartagena e Burgos – R. Selemoh Helevi, judeu convertido, grande erudito e escritor – e seus filhos: Gonzalo de Santa Maria, Bispo de Astorga, Plasencia e Sigenza, conselheiro do rei e auditor apostólico e D. Afonso de Cartagena, mais tarde sucessor do pai na mitra de Burgos, autor de várias obras filosóficas e teológicas. Cf. I, Litta Scarlatti, op. cit., pp. 172-73.

[36] DIAS, Aida, op. cit., p. 20.

[37] E assi entrou o Conde honradamente em Florença e foi pousar em huns paços que som do Marquês de Ferrara, ... Ibidem, p. 37.

[38] Ibidem, p. 40. Presumimos que seja a Torre Asinelli, construída em 1109, com cerca de 100 m de altura, a mais alta da cidade

[39] E sabei que a See que tem, que he muy grande e muy larga e bem fermosa, se for acabada. Ibidem, p. 47. Curiosamente a Catedral de Milão só foi definitivamente concluída no século XIX.

[40] Ibidem, p. 79.

[41] Ibidem, p. 80.

[42] Ibidem, p. 83.

[43] Ibidem, p. 26.

[44]  E a Rainha estava assentada em hum estrado (...) e o Conde lhr fez huma muy grande mesura (...) e fêllo assentar a cabo de si em huma almofada muito fermosa e estiverom assentados per espço de duas oras fallando. (...) E foi o Conde fallar à Iffante em hma camara que estava a paar da camara da Rainha (...) e  estiverom fallando per espaço de três oras. Ibidem, p. 27.

[45] “The project for Brunellechi´s most important and most revolutionary work, the cupola of the Cathedral, dates from 26 May 1417; on 7 August 1420 the supporting wall was in course of construction, and on 30 August 1436 the completed cupola was blessed.” in John Pope-Hennessy,  Italian renaissance sculpture, Vol. II, London, Phaidon, 2002, p. 344.

[46] “Par ailleur, il est historiquement certifié que cette machine est restée sur la place de Florence prés de soixante-dix ans aprés la construction de la coupole: elle a pu donc être object d´étude pour Leonard, ou pour d´autres.” in António Manetti, Filippo Brunellechi 1377-1446, Paris, École Nationale Supérieure des Beaux-Arts, 1985, p. 28.

[47] Filho de um fidalgo de D. João I, de nome João Martins, D. Gomes estudou Direito em Pádua; em 1412/13 aderiu à Ordem de S. Bento  fazendo o noviciado em Stª Justina, um mosteiro dirigido pelo Abade Ludovico dos Barbos de Veneza e ao qual também pertencia Gabriel Condulmer, futuro Papa Eugénio IV. O mosteiro começou a ganhar fama e expandiu-se tendo Dom Gomes sido um dos noviços que integrou o primeiro grupo que se instalou em        S. Fortunato de Bassano, tendo voltado a Stª Justina para professar no início de 1414. A partir de 1418, foi encarregue de governar 16 monges, ao ser nomeado prior e reformador da Badia Florentina que estava em decadência havia alguns anos, tendo sido a mesma por ele dirigida até 1439, data em que Eugénio IV o nomeou Geral da Ordem Camaldulense. Em 1441 regressou definitivamente a Portugal, tendo sido feito Prior de Santa Cruz de Coimbra, que governou até à morte. Cf. Eduardo Nunes, Dom Frey Gomes, Abade de Florença (1420-1440), Dissertação de doutoramento em História apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Vol. I, Braga, Edição do autor, 1963.

[48] “...em virtude da entrada para o mosteiro, no ano anterior [1426], de Tommaso di Ser Brunelescho. (...) Tommaso era irmão do genial Filippo di Ser Brunelescho (ou Filippo Bruneleschi).” in Eduardo, Nunes, Ibidem., pp. 139-140.

[49] Dom Gomes esteve em Portugal, em missão pontifícia entre Março de 1436 e o início da Primavera do ano seguinte; sabemo-lo já em Florença em Maio de 1437. Cf. António Domingos de Sousa Costa, “D. Gomes, reformador da Abadia Florentina de Florença e as tentativas de reforma dos mosteiros portugueses no século XV”. Studia monastica, Vol. 5, Fasc. 1, Abadia de Montserrat (Barcelona), 1963, pp.83-87.

[50] “Foi também ele [Abade Dom Gomes] que deu hospedagem ao Infante D. Pedro, quando este veio a Florença”. in, Guido Batelli, A Crasta das Laranjas (uma lembrança de Portugal), Porto, Prometeu, 1950, p. 4.

[51] Em 1425, quando Dom Gomes esteve em missão em Portugal e Espanha, deixou à frente do mosteiro Frei Álvaro, prior claustral e quando este teve que se ausentar, designou para o mesmo cargo Frei João, ambos portugueses. Cf. Eduardo Nunes, op. cit.,  p. 80.

[52] “... claustro pequenino e verdadeira jóia da Renascença, que se chama a Crasta das Laranjeiras, porque na sua origem as arcadas eram ornadas com grandes vasos de laranjeiras. (...) É preciso ter presente que “laranja”, em italiano, chama-se vulgarmente “portugal”.in Guido Batelli, ob. cit., p.4.

[53] Cf. Eduardo Nunes, op. cit., pp. 243-48.

[54] Aos tres dias do mez de Setembro o Doutor Diogo Affonço Mangaancha leo a ostentação, e teve humas Conclusões em Direito na Igreja de S. Petronio da mesma Cidade de Bolonha, que estava pegada com o Sacro Palacio, ... ( in António Pereira de Figueiredo, e António Gomes, Portuguezes nos concilios geraes, Lisboa, 1787, p. 51).  Junto à Catedral existem, actualmente, dois edifícios: um do século XVI e o Palácio dos Notários do século XIV-XV, pelo que é provável que neste último, tivesse funcionado a residência papal, na altura em que o Conde de Ourém esteve em Bolonha.

[55] Um conjunto de 4 cartas enviadas, respectivamente  de Siena, Roma, Nápoles e Veneza a D. Afonso V, de Lopo d´Almeida (Cartas de Itália, editadas por Rodrigues Lapa, Imprensa Nacional, Lisboa, 1935), que integrava a comitiva portuguesa, escritas entre Fevereiro e Maio de 1452; uma carta dirigida  a D. Jaime, 4º Duque de Bragança, como resposta a um pedido deste, sobre a maneira como se tinham desenrolado aqueles acontecimentos, escrita entre 1496 e o início do século XVI, por Pedro de Sousa, também acompanhante da embaixada portuguesa (texto publicado por Caetano de Sousa na História genealógica da casa real portuguesa e também na obra de Lita Scarlatti,  Os homens de Alfarrobeira); e o relato Jornadas de Nicolau Lanckermann (texto traduzido por Luciano Cordeiro e está inserido na sua obra Uma sobrinha do Infante, Emperatriz da Allemanha publicada pela Imprensa Nacional, em 1894), escrito em 1503 por este emissário, enviado a Portugal como representante de Frederico III para a celebração do casamento por procuração. É de todas, a descrição mais desenvolvida que narra o que foi presenciado, desde a sua saída da Alemanha em Março de 1451 até à chegada da infanta àquele território, em Junho de 1452.

[56] Relato de Nicolau de Lanckermann, op. cit., p.125.

[57] Ibidem, p. 126

[58] Ibidem.

[59] Ibidem, p. 137.

[60] “O que tem sido ignorado, é que o mais antigo testemunho conhecido da exportação dessas obras em terracota vidrada de Florença destinou-se a Portugal, e precisamente ao Conde de Ourém. Uma anotação referente ao carregamento de 7 caixas (7 chasse di lavorj de terrachotta envetriata del Marchese di Valença) surge ao lado de embalagens de salitre e brocado de carmesim, numa lista de bens entregues a 28 de Maio de 1454 em Pisa a um Bernardo de Évora, a fim de serem embarcadas para Lisboa (che lo mãdasi a Lisbona).

Embora Sir Pope-Hennessy pense tratar-se de um medalão com escudo de armas, não podemos deixar de aproximar essa encomenda – que não seria grande a julgar pelo escasso número de peças (um retábulo podia conter de 80 a 200, como os de La Verna ) – de outra recentemente revelada por Mendes Atanázio: a de duas “histórias” começadas a pagar a Lucca della Robbia a 9 de Fevereiro de 1453 pelos mesmos banqueiros Cambini por conta dum “Marquês” que não identifica (sono per parte di 2 storie envetriate che fa per il marchese di portoghallo), sendo incerto se uma imagem da Virgem (Madonna Maria) mencionada a seguir tinha o mesmo destinatário. Não temos qualquer dúvida de que este era o Conde de Ourém, já que usava o título de marquês ao conduzir para a Itália a futura imperatriz, e que os dois dados documentais completam-se: as peças embarcadas em Pisa em 1454 são obviamente as mesmas que ele havia encomendado ao passar por Florença no ano anterior. Essas duas “histórias” (medalhões, sobreportas ou retábulos) destinavam-se provavelmente à sua igreja de Ourém, que o terramoto de 1755 arruinou.” in Rafael Moreira, A arquitectura do Renascimento no sul de Portugal – a encomenda régia entre o moderno e o romano, p. 16.

[61] “Ao regressar a Portugal, o Marquês de Valença deixara várias encomendas aos Cambini.”, mercadores-banqueiros florentinos através de quem, por meio dos seus procuradores em Lisboa, Bartolomeu Di Iacopo di Ser Vanni, D. Afonso recebeu, pelo menos em 1452, pagamentos para os gastos da embaixada que chefiou Cf. RAU, Virgínia, “Bartolomeo Di Iacopo Di Ser Vanni Mercador-Banqueiro Florentino «Estante» em Lisboa nos Meados do Século XV”, Separata da revista Do Tempo e da História, IV, Lisboa, 1971, pp. 99-117. “Muitas individualidades ou mercadores faziam operações mercantis e financeiras de que necessitavam, tanto em Bruges como no “levante” e na “Corte” de Roma através e por intermédio da companhia Cambini, bem como das suas filiais e correspondentes.” in Virgínia Rau, “Alguns estudantes e eruditos portugueses em Itália no século XV”, Separata da revista Do tempo e da história, V, Lisboa, 1972, p. 43.

[62]Há conhecimento de que foram realizados dois registos da princesa mas o paradeiro dos mesmos é desconhecido. Conhecem-se hipotéticas reproduções daqueles desenhos (Fig. 13), não se sabendo se terá sido pintado algum retrato a óleo. Cf. Claudine Lemaire, Michéle Henry, Anne Rouzet, Isabelle de Portugal, Duchesse de Bourgogne, 1397-1471, Bibliotèque Royale Albert Ier, Bruxeles, 1991, pp. 141 e 146 e J. Cardoso Gonçalves, O casamento de Isabel de Portugal com Filipe-o-Bom duque da Borgonha e a Ordem do Tosão de Ouro, Lisboa, Imprensa Moderna, 1930, p. 21.

[63] Cf. Claudine Lemaire, Michéle Henry, Anne Rouzet, op. cit., p. 28 e Simone Ferrari, Van Eyck El maestro flamenco de la luz, Barcelona, Electa Bolsillo, 2005, pp. 56-7.