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Número 18 | Julho - Dezembro 2015 ISSN 1646-740X
 

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Recensão

QUIRÓS CASTILLO, Juan Antonio (ed.) – El poblamiento rural de época visigoda en Hispania. Arqueología del campesinato en el interior peninsular. Bilbau: Universidad del País Vasco, “Documentos de Arqueología Medieval 6”, 2013.

 

Catarina Meira
Universidade Nova de Lisboa, FCSH/UNL
2785 Cascais, São Domingos de Rana, Portugal
catarinabmeira@gmail.com

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Data do texto: 26 de Abril de 2015

O livro que aqui me proponho a analisar – El poblamiento rural de época visigoda en Hispania. Arqueología del campesinato en el interior peninsular – consiste no sexto volume da série monográfica “Documentos de Arqueología Medieval” publicada sob a responsabilidade da Universidad del País Vasco e do seu diretor editorial Juan Antonio Quirós Castillo. A finalidade desta prestigiada coleção monográfica é a de editar estudos, atas de encontros, teses ou resultados provenientes de escavações no domínio da Arqueologia e da História Pós-Clássica, mantendo um padrão de qualidade e de singularidade dos textos.

Este volume é o resultado de um projeto de investigação multidisciplinar denominado «Desigualdad en los paisajes medievales del norte peninsular» cujo financiamento partiu da iniciativa conjunta do Ministerio de Ciencia e Innovación do Governo de Espanha e do Governo Basco e é fruto da colaboração entre as empresas de Arqueologia Strato e Área Sociedad Cooperativa Madrileña com a Universidad del País Vasco. Para este número contribuíram 11 autores que trabalham essencialmente no território espanhol e que fazem do mundo rural altomedieval o centro dos seus estudos.

As 432 páginas que compõem este trabalho encontram-se divididas em 7 capítulos, os quais podem ser sumariados em 4 partes distintas: uma primeira introdutória, que apresenta o contexto geográfico, o tema da arqueologia dos espaços domésticos e as estratégias metodológicas adotadas nas escavações arqueológicas do centro peninsular; uma segunda, onde se expõem detalhadamente os resultados das intervenções em 11 sítios; uma terceira, de índole mais analítico, em que se discute em volta da arqueologia funerária, da arquitetura doméstica e dos registos faunístico e palinológico; e, finalmente, uma última parte dedicada a uma proposta de interpretação relativa à articulação do território em questão durante a Alta Idade Média.

O capítulo inicial, designado Introducción. ¿Por qué la arqueologia preventiva ha hecho posible la arqueologia del campesinato altomedieval? (pp. 29-63), corresponde a uma introdução no qual se debatem as condições em que a arqueologia preventiva se desenvolveu no centro da Península Ibérica. As intervenções arqueológicas nos 11 sítios que se dão aqui a conhecer começaram a ser realizadas na última década do século XX, no âmbito de obras de urbanização ou de implantação de infraestruturas de traçado linear (caminhos ferroviários, estradas, gasodutos e linhas de transporte de eletricidade). Deve-se à arqueologia preventiva a “refundación” da arqueologia altomedieval que ocorreu muito devido à introdução de uma série de inovações metodológicas de carácter prático e teórico que impactaram qualitativamente o registo arqueológico. Dessas aportações há a sublinhar: a escavação em grandes áreas, que possibilitou a descoberta de assentamentos de extensas dimensões datados da Alta Idade Média e que permitiu estabelecer relações entre as distintas estruturas que os integravam; a compreensão dos processos formativos e a natureza dos depósitos arqueológicos secundários, de modo a apurar a funcionalidade, a sequência ocupacional e a natureza das ocupações; e, por fim, a conceptualização do registo material através de uma definição mais clara dos conceitos de “aldeia” e “granja”.

O segundo capítulo – El registro arqueológico del campesinato del interior peninsular en época altomedieval (pp. 65-258) – apresenta os resultados originados pelas escavações de oito aldeias e de três granjas altomedievais, localizadas nas províncias de León, Valladolid, Segóvia e Madrid. Os dados expostos, que se pautam pelo seu teor técnico, foram organizados em fichas cujos campos permitem uniformizar a informação e caracterizar de forma mais esquemática os contextos arqueológicos, possibilitando ao leitor uma comparação mais imediata entre os sítios analisados. As realidades arqueológicas mencionadas neste capítulo dispõem de um registo gráfico e fotográfico de grande qualidade. Também não se pode deixar de apontar a relevância das tabelas que apresentam os resultados de datações por Radiocarbono e por Termoluminiscência, as quais se assumem cada vez mais como métodos imprescindíveis para a atribuição de cronologias absolutas.

Prácticas y ritos funerarios é o título que dá nome ao terceiro capítulo (pp. 259-288). São postas em perspetiva as linhas de investigação que ao longo do tempo nortearam este tema. As necrópoles altomedievais foram inicialmente tratadas como testemunhos de povos invasores que, entrando na Península Ibérica, recheavam as suas sepulturas de armas e de adereços de adorno pessoal muito sumptuosos. As teorias histórico-culturalistas, caracterizadas por uma visão etnicista desses espólios, ainda hoje constituem as bases de muitas propostas interpretativas para os espaços funerários pós-romanos. Com a finalidade de reformular os modelos anteriormente vigentes, Alfonso Vigil-Escalera Guirado, autor deste capítulo, propõe uma nova abordagem à complexa variedade dos registos funerários: é elaborada uma distinção entre necrópoles pós-imperiais (p.e. necrópole da aldeia de El Pelícano, Madrid), necrópoles visigodas (p.e. necrópole da aldeia de Gózquez, Madrid) e necrópoles hispanovisigodas (p.e. necrópole da aldeia de La Indiana, Madrid) a partir de fatores relativos à arquitetura funerária, à orientação das sepulturas, à presença e ao tipo de espólios, à própria implantação desses espaços e à sua longevidade temporal. A diversidade de modos de inumação é sintetizada em três grupos, que se definem através do carácter mais ou menos privado do depósito funerário e da visibilidade dos rituais. As evidências arqueológicas apontam para a deposição de corpos em necrópoles comunitárias, de cariz nitidamente público, que estariam associadas a uma aldeia e em utilização durante o período de ocupação da mesma; em sepulturas isoladas ou em pequenos grupos, nas quais se cumpriam os preceitos rituais, mas num âmbito mais restrito, porventura familiar; ou em estruturas não funerárias (p.e. silos, poços, entre outras), onde não são reconhecíveis quaisquer sinais de tratamento funerário. O autor deste capítulo faz questão de ressaltar que o último tipo de enterramento não é assim tão pouco frequente nos assentamentos rurais altomedievais, uma vez que se verificam em 44% dos sítios catalães, em 40% dos sítios madrilenos e em 13% do norte da Meseta. São também tecidas considerações acerca da diversidade arquitetónica das sepulturas e sobre o facto de, sendo raras as sobreposições e interceções entre elas, ser possível a existência de marcadores à superfície que as sinalizassem.

O quarto capítulo, intitulado La arquitectura doméstica en las aldeas meseteñas altomedievales (pp. 289-328), aborda com detalhe as estruturas domésticas presentes nos contextos escavados, de acordo com a sua classificação tipológica. Na Meseta Norte foi possível contabilizar um total de 206 fundos de cabana (também conhecidos pela literatura internacional por sunken featured building; grubenhäuser; ou fonds de cabanne), dos quais 49% tinham planta ovalada e 37% planta subretangular. Foram igualmente registadas 47 estruturas aéreas, ou seja, aquelas construídas ao nível do solo com embasamentos de pedra e paredes e coberturas em madeira, telha ou materiais vegetais. Um pouco mais raro é o caso das longhouses (ou timberhouses), que apesar de atingirem por vezes os 30 metros de largura, a sua construção totalmente em madeira é mais difícil de detetar. Sem exceção, os três tipos de contextos domésticos caracterizaram-se pela presença de estruturas complementares que respondem às necessidades das distintas unidades domésticas – zonas produtivas sob a forma de fornos, espaços de produção de tecidos, estábulos, zonas de acumulação de água e zonas de armazenamento. Este tipo de testemunhos não devem ser estudados isoladamente, mas antes, como menciona Carlos Tejerizo García, como “unidades de ocupación”: as referidas unidades constituem meios articuladores para a organização e para o desenvolvimento do espaço construído, além de desempenharem a função de núcleos básicos da produção e de mecanismos de regulação das relações sociais das comunidades.

O capítulo seguinte – El registro faunístico de los asentamientos rurales altomedievales (pp. 329-344) – trata um dos temas que a arqueologia preventiva e a arqueologia das comunidades rurais altomedievais põem em discussão. O estudo das faunas é uma componente fundamental na hora de afinar o registo bioarqueológico e de debater questões relativas à economia e à alimentação, sendo possível inclusivamente distinguir os depósitos secundários dos de origem. Nas aldeias da Meseta abordadas neste volume, a caça não terá representado um papel determinante na alimentação, assinalando-se ainda assim a presença de cervo, javali, coelho e lebre. Mais representativos são os animais de gado caprino (ovelhas e cabras) e bovino (vacas), registando-se também a presença do porco, do cavalo, do asno, da mula, da galinha, da perdiz, do ganso, do cão e do gato. A esperança média de vida dos animais ajuda, por vezes, a perceber a sua vocação produtiva: algumas espécies eram orientadas para o transporte e para os trabalhos agrícolas (boi, vaca, cavalo), enquanto outras estavam vocacionadas para a obtenção de produtos secundários como a carne, o leite e a lã (vaca, cabra, ovelha). Como se constata, as aldeias altomedievais do centro da Península Ibérica teriam uma atividade ganadeira não especializada e produziriam o suficiente para suprir as suas necessidades internas. Idoia Grau Sologestoa, a autora deste texto, sublinha a importância das análises de isótopos estáveis para determinar a base da dieta destas comunidades.

O sexto capítulo, designado Antropización en el paisaje vegetal de época visigoda en el centro peninsular a través del registro paleopalinológico (pp. 345-356), refere-se aos resultados de análises polínicas efetuadas em sítios arqueológicos e depósitos naturais de três âmbitos geográficos distintos. O estudo aqui apresentado demonstra que as bacias do Tejo e do Douro e o Sistema Central revelam grande variabilidade subregional ao nível dos tipos de paisagem, das espécies vegetais e dos modos como o Homem se apropriou do meio natural que o envolvia. Uma agricultura pouco especializada aliada a uma atividade pecuária pouco móvel são os principais motivos para que, em época visigoda, a paisagem do interior peninsular tenha sido muito modificada. A desflorestação através de incêndio terá afetado essencialmente as zonas de bosque e especialmente aquelas onde o pinheiro e o carvalho predominavam. Os dados obtidos pela Paleopalinologia mostraram-se o cultivo do cereal, da azeitona, da uva e provavemente da avelã.

Un ensayo de interpretación del registro arqueológico é o título do derradeiro capítulo desta monografia (pp. 357-399). Alfonso Vigil-Escalera Guirado e Juan Antonio Quirós Castillo avançaram com uma proposta que visou todos os sítios arqueológicos analisados, no sentido de proporcionar uma visão mais esclarecedora acerca da articulação do território mesetenho durante a Alta Idade Média. Este ensaio teve em conta as limitações do registo arqueológico, nomeadamente no que diz respeito à relação entre a extensão escavada dos assentamentos e a extensão que se estima que eles tivessem, e dos próprios processos formativos, que ainda levantam muitas dúvidas ligadas à natureza dos depósitos secundários e à residualidade de materiais atribuíveis a outras cronologias. Apesar das condicionantes, este estudo revela que todos os sítios partilham de alguns aspetos comuns: ausência de estruturas defensivas, implantação nas imediações de cursos de água e a utilização durante um período limitado quer das estruturas habitacionais, quer das estruturas produtivas e de armazenamento. O sistema económico destas comunidades encontra-se hoje mais percetível, uma vez que as atividades agropecuárias e artesanais cuja base assenta na metalurgia, na produção de cerâmica utilitária e arquitetónica e mais raramente na de vidro são visíveis arqueologicamente. Tudo indica que esses sítios integrassem redes de produção e de distribuição desses produtos a diversas escalas, nas quais também fariam parte outros núcleos de hierarquia política superior e dos quais dependeriam. O achado de materiais de importação em algumas das aldeias estudadas pode ser prova de relações de tipo vertical estabelecidas com elites sediadas em “núcleos secundários” ou nos centros urbanos. Os autores referem que a malha de povoamento altomedieval é até mais densa que a de época romana e que, embora se veifiquem diferenças regionais, o território do interior peninsular se encontrava relativamente estruturado. A partir de meados do século VIII e até meados do século IX assistiu-se a um ponto de viragem na dinâmica dos estabelecimentos camponeses. Esta investigação aponta para a concentração das populações rurais junto a centros secundários – nomeadamente sítios em altura - onde se fixaram as antigas aristocracias, alheadas do poder dominante: o emirado muçulmano.

Como se constata, esta monografia é sintomática dos desenvolvimentos que a Arqueologia Medieval e particularmente a arqueologia das comunidades camponesas altomedievais têm tido nos últimos anos. A publicação deste volume acaba por ser uma obra de referência para aqueles que se interessem pelo estudo do povoamento rural de época visigoda (séculos V-IX d.C.), tendo como modelo o panorama que as investigações arqueológicas no interior da Península Ibérica proporcionaram. Os textos aqui patentes mostram resultados impressionantes nos domínios da arquitetura das estruturas domésticas das aldeias mesetenhas, dos rituais funerários, dos registos faunísticos e polínicos e das dinâmicas de articulação do território em questão.

O atual estado da investigação e os resultados obtidos através dos progressos metodológicos promovidos pela arqueologia preventiva posicionam Espanha como um país de vanguarda, ao nível de outros países europeus. A esperança é de que os estudos sobre Alta Idade Média em Portugal lhe sigam o exemplo.

 

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Referência electrónica:

MEIRA, Catarina – “Recensão: QUIRÓS CASTILLO, Juan Antonio (ed.) – El poblamiento rural de época visigoda en Hispania. Arqueología del campesinato en el interior peninsular. Bilbau: Universidad del País Vasco, “Documentos de Arqueología Medieval 6”, 2013”.

Medievalista [Em linha]. Nº 18 (Julho – Dezembro 2015). [Consultado 01.07.2015]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA18/meira1809.html

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