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Número 17 | Janeiro - Junho 2015 ISSN 1646-740X
 

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As Ordens Militares na Cultura Escrita da Nobreza (1240-1350). Representações nas Cantigas de Escárnio e de Mal Dizer. Dissertação de Mestrado em História apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Novembro de 2012. Orientação do Professor Doutor Bernardo Vasconcelos e Sousa e do Professor Doutor Luís Filipe Oliveira.

 

Cláudio Neto
Universidade de Cardiff, Cardiff School of History,
Archaeology and Religion / Instituto de Estudos Medievais
CF 10 3EU, Cardiff, Reino Unido
claudioacnneto@gmail.com

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Data do texto: 14 de Outubro de 2014

Os estudos sobre Ordens Militares constituem, actualmente, um dos campos mais vigorosos e frutíferos dentro do vasto espectro dos estudos medievais. A profusão anual de encontros académicos internacionais e a publicação de fontes e estudos relacionados com o tema têm não só realçado a importância do estudo das milícias religiosas cristãs, como têm também demonstrado como diversos dos aspectos mais clássicos dos estudos sobre a Idade Média se relacionam de forma estreita com o universo da espiritualidade militar. Recentemente, um balanço historiográfico realizado em Portugal pela mão de Luís Filipe Oliveira, Luís Adão da Fonseca, Maria Cristina Pimenta e Paula Pinto Costa[1] veio demonstrar que o medievalismo português se encontra a par desta tendência internacional, registando-se já uma quantidade decisiva de estudos relacionados com o fenómeno religioso-militar no reino medieval português.

Menos evidente e profusa tem sido, no entanto, a proliferação de estudos relacionados com os aspectos culturais das milícias religiosas, nomeadamente os dedicados a uma apreciação das atitudes da sociedade medieval relativas às Ordens Militares. Descendente de um já antigo interesse pelas críticas tecidas ao movimento Cruzado[2], a importância do estudo das diversas imagens tecidas sobre as milícias religiosas foi realçada por Norman Housley na sua obra de 1986 dedicada às relações entre o Papado de Avinhão e as Cruzadas[3]. Seria, no entanto, uma discípula de Housley, Helen Nicholson, a conduzir a bom termo o primeiro trabalho totalmente dedicado ao estudo das diversas imagens das Ordens Militares produzidas entre 1128 e 1291[4].

Apesar de dotados de uma grande abrangência geográfica, os trabalhos de Helen Nicholson deixaram de lado as realidades ibéricas, tendo ficado de fora do seu escopo o grande manancial de fontes existente a sul dos Pirenéus relativas a esta temática. Consequentemente, uma reflexão acerca da evolução da imagem das milícias religiosas ibéricas foi também deixada de parte no seu trabalho, estando ainda por realizar uma abordagem que permita compreender de que forma evoluíram as representações das Ordens Militares hispânicas durante a Idade Média. A lacuna subsiste, apesar de José Mattoso ter já sugerido, na sua Identificação de um País (1985), que um estudo do ambiente cultural próprio das Ordens Militares pudesse ser um elemento importante para uma melhor compreensão dos aspectos ideológicos relativos ao mundo dos guerreiros e da cavalaria cristã peninsular[5]. Não obstante, apesar do atraso, o panorama parece começar a inverter-se no que toca a abordagens relativas à evolução da imagem das milícias na Hispânia: tendo como objecto central o reino de Castela, o universo das representações das milícias religiosas ibéricas foi valorizado por Philippe Josserand como ponto de partida para o estudo das evolução dos papéis assumidos pelas milícias e pelos freires neste reino entre 1252 e 1369[6].

Estes e outros contributos sugeriam o interesse em se proceder a um levantamento que esclarecesse a forma como as Ordens Militares presentes no território luso – as milícias do Templo, do Hospital, de Avis, de Santiago e de Cristo – teriam povoado o imaginário dos diferentes corpos sociais do reino português durante a Idade Média e de que forma a instalação desta forma de vida religiosa teria produzido ecos na produção literária e diplomática do reino. Considerando a vastidão do tema relativamente aos limites em termos de tempo e de espaço disponíveis para a realização de uma dissertação de mestrado, optou-se por reduzir o inquérito à forma como as milícias religiosas se integraram na mundividência e na ideologia da aristocracia medieval portuguesa, utilizando-se, para o efeito, os testemunhos legados pelo fenómeno trovadoresco do Ocidente peninsular.

A primeira fase do trabalho consistiu, naturalmente, no levantamento das composições pertencentes ao corpus trovadoresco galego-português que, por um lado, envolvessem os freires ou as milícias, ou que, de algum modo, demonstrassem o interesse dos trovadores relativamente ao universo das milícias religiosas. Foi apenas no seio da sátira trovadoresca que se recolheram composições relacionadas com o objecto em estudo, por não se terem encontrado referências às milícias quer nas cantigas de amor, quer nas cantigas de amigo. Concretamente, recolheram-se dezasseis cantigas relacionadas com as milícias religiosas, com uma dispersão cronológica situada entre cerca de 1240 e 1350. Entre trovadores e composições, o levantamento consiste nos seguintes[7]: de Rui Gomes de Briteiros, “Joham fernándiz, aqui é chegado” (B 1544); de João Soares Coelho, “Dom Vuiturom, o que vos a vós deu” (V 1023); de Vasco Gil com Afonso X de Castela, “- Rei D. Afonso, se Deus vos pardom” (B 1512); de Vasco Gil com Pero Martins, “- Pero Martiins, ora por caridade” (V 1020); de Gonçalo Anes do Vinhal, “Ua dona foi de pram” (V 1003) e “Abadessa, Nostro Senhor” (V 1005); de Rui Pais de Ribela, “Comendador u m'eu quitei” (B 1438; V 1048) e “Meu senhor, se vos aprouguer” (B 1440; V 1050); de Gil Peres Conde, “Nom é amor em cas d'el Rei” (B 1525); de Pero Mendes da Fonseca, “Chegou Paio de Más Artes” (B 1600; V 1132); de Caldeirom, “Os d'Aragom, que soem donear” (B 1623; V 1157); de João Fernandes de Ardeleiro, “O que seja no Pavio” (B 1327; V 933); de Estêvão da Guarda, “Pois cata per u m'esp[r]eite” (B 1314; V 919) e “O caparom de Marvi” (B 1322; V 927); finalmente, de D. Pedro, conde de Barcelos, “Os privados, que d'el rei ham” (V 1038) e “Um cavaleiro havia” (V 1039). Para este levantamento, socorri-me das edições da sátira trovadoresca galego-portuguesa levadas a cabo quer por Manuel Rodrigues Lapa[8], quer por Graça Videira Lopes[9], bem como da edição online do corpus trovadoresco galego-português, levada a cabo pela equipa do projecto Littera[10].

Em termos metodológicos, verificou-se a necessidade de valorizar cada composição individualmente. Esta abordagem às composições observou o propósito de fixação de uma interpretação e de atribuição de um sentido às representações das milícias tecidas nos versos dos trovadores. Neste sentido, revelou-se fundamental um esclarecimento rigoroso dos pormenores vocabulares e das referências presentes nas cantigas, fossem estas toponímicas, contextuais, ou antroponímicas. Essencial para este processo foi também o manancial de conhecimento já disponível relativamente aos dados biográficos dos trovadores[11], sem o qual a tarefa de reconstituir os contextos de composição de cada uma das cantigas analisadas teria sido virtualmente impossível. Naturalmente, desta análise pormenorizada e individualizada das cantigas, da qual resultou a estrutura da dissertação, resultou uma ligeira perda em termos de visão de conjunto. No entanto, procurei realizar uma tentativa de síntese das conclusões gerais obtidas a partir da análise de cada uma das cantigas na conclusão do trabalho. Não seria, no entanto, possível partir para esta tentativa de síntese sem que se procurasse compreender cada uma das composições.

Com efeito, a análise aturada das composições revelou uma relativa atenção dos trovadores no que toca o fenómeno da espiritualidade militar. Se esta atenção não se manifesta com grande impacto quantitativo no seio das sátiras trovadorescas que actualmente se conhecem (apenas dezasseis composições num universo de perto de cinco centenas de cantigas de escárnio e de mal dizer), ainda assim as composições relacionadas com as Ordens Militares fornecem-nos dados importantes acerca da forma como a aristocracia medieval portuguesa retratou os freires através da pena dos seus trovadores.

A análise das cantigas do século XIII revelou, em primeiro lugar, que a visibilidade dos homens das milícias religiosas nas composições dos trovadores se manifesta através de um conjunto de críticas que destaca não só a sua condição de comendadores, como também associa esta condição a um perfil social vincadamente humilde, marcado sobretudo pelo anonimato, isto é, a ausência da sua identificação enquanto indivíduos através do nome. Os trovadores traçam o retrato de comendadores anónimos, de costumes questionáveis, de origens obscuras, que ascendem a cargos de administração na sua milícia a custo de processos menos ortodoxos. Quando o olhar dos trovadores sobre as milícias se afasta deste tópico, as milícias são geralmente referidas de forma genérica, sublinhando-se o seu carácter colectivo, e associando-as a momentos de crise político-militar, nomeadamente aos momentos de guerra civil que ocorrem nos reinos português e castelhano ao longo do século XIII.

No conjunto de composições trovadorescas do século XIII que se referem às milícias, a tendência que se encontra é a da ausência de uma identidade pessoal, como se os freires fossem anulados na sua individualidade. São estes indivíduos não nomeados que compõem o elenco de comendadores satirizados, associados com práticas pouco recomendáveis a homens que tinham contraído votos, como aquele comendador que se tinha tornado demasiado íntimo de uma mulher, a ponto do marido da senhora em questão lhe ter que suplicar que ele lha devolvesse[12], ou aquele outro comendador que se teria envolvido numa situação pouco clara com uma certa abadessa, a qual se tinha desenvolvido a ponto do comendador beneficiar de um generoso acolhimento no mosteiro desta sua anfitriã[13]. Plenas de humor, as peripécias em que os trovadores põem a ridículo os homens das milícias servem, no entanto, para traçar um quadro em que se vão expondo as baixas origens sociais destes homens, conotados com os meios urbanos e com uma administração imoral e ineficaz dos seus bens. Bem sugestivo, a este respeito, é o retrato que Gonçalo Eanes do Vinhal faz de uma casa da Ordem de S. João, dando-nos a conhecer uma situação insólita em que uma mulher se teria envolvido com os freires, obtendo destes um conjunto bastante dilatado de mercês à custa das suas mínguas[14].

Sob o olhar dos trovadores, são estes homens anónimos, votados ao desdém da Nobreza, que ascendem à posição de administradores de bens estratégicos pertencentes às Ordens Militares. Homens obscuros, aparecem representados pelos trovadores como pouco dignos de se revestirem da dignidade de comendador, utilizando todos os recursos para mascararem as suas origens humildes e ascenderem na hierarquia das milícias – como teria feito um certo Paio, cujas más artes lhe teriam granjeado o lugar de comendador na Ordem de Santiago, apesar de, no olhar de Pero Mendes da Fonseca, este ser um homem de baixa condição, reles e pouco dotado para o desempenho do cargo, não obtendo sequer o favor do órgão electivo da milícia de Uclês[15]. Pela pena deste trovador, a explicação para a ascensão fulminante deste freire não poderia ser outra que a utilização de artes mágicas e outros ardis, a ponto de utilizar uma figura conhecida do folclore tradicional português – o Paio de más artes – para o nomear, evitando a atribuição de uma individualidade e deixando assim uma caracterização sugestiva dos comendadores da Ordem.

Anónimos, humildes, indignos: assim se apresentam aos olhos dos trovadores os comendadores das Ordens Militares. Nas sátiras do século XIII, estamos longe das representações heróicas dos freires em batalha, derramando o sangue para protecção e dilatação da cristandade, fazendo da Cruzada a sua ocupação primária. Pelo contrário, são as dimensões materiais, muitas vezes figuradas nos seus mantos, que servem de mote para a referência às milícias. Sob a máscara do grupo, surgem-nos estes freires, distanciados do universo nobiliárquico, assumindo uma caracterização que atinge um profundo pendor negativo na tenção travada entre Vasco Gil de Soverosa e Pero Martins. Aqui, não é apenas um ou outro comendador que serve de alvo às invectivas lançadas por Vasco Gil. O ataque é dirigido a toda a milícia são-joanina, caracterizada como um verdadeiro bando de malfeitores, homens avarentos e pouco dignos de confiança[16].

É de notar, no entanto, que no seio da caracterização profundamente negativa dos homens das milícias, não se encontrem referências a fracassos militares, nem denúncias de uma falta de empenho na prossecução do combate ao muçulmano. Não obstante, é também um facto que o papel militar das milícias religiosas é quase omisso nas cantigas dos trovadores, sugerindo talvez uma vontade de não mencionar a importância que os freires detiveram nos êxitos militares cristãos obtidos contra o Islão peninsular. No fundo, se os trovadores não podiam acusar os freires de não se empenharem na Cruzada, talvez a única estratégia que tinham para evitar que os humildes homens das Ordens povoassem as memórias do reino com os seus feitos fosse omiti-los, votando-os ao esquecimento e salientando sobretudo as suas origens vilãs e as suas faltas. Mesmo assim, ainda no século XIII, a única acusação aberta de cobardia dirigida aos homens das milícias surge no cantar ainda enigmático de Caldeirom, que compara a cobardia de aragoneses e catalães à cobardia dos cavaleiros do Hospital[17]. Outra referência genérica à Ordem do Templo e à Ordem do Hospital, num cantar de Gil Peres Conde[18], está provavelmente relacionada com a guerra civil que opôs Afonso X ao seu herdeiro no final do seu reinado. A leitura que estas referências genéricas às milícias sugerem é a de uma lenta degradação da imagem colectiva das milícias, relacionada não com os destinos da reconquista, mas antes com o seu progressivo envolvimento nos conflitos entre cristãos na Península, momentos em que o valor dos freires enquanto membros de corpos militares organizados e bem adestrados para a guerra os tornava aliados estratégicos para os diferentes partidos em conflito.

Assim terá acontecido, já no século XIV, durante o conflito que opôs D. Afonso IV a Afonso XI de Castela entre 1336 e 1338. A guerra entre Portugal e Castela demonstrou a importância que o monarca castelhano atribuía ao posicionamento da milícia de Alcântara durante o conflito, a ponto de substituir sucessivamente dois mestres desta Ordem durante este período. A milícia procurava beneficiar da sua posição fronteiriça, chegando ao extremo de oferecer a menagem dos castelos que senhoreava ao monarca português. É este contexto que serve de pano de fundo a uma sátira de Estêvão da Guarda dirigida a um escudeiro de um destes mestres Alcantarinos, que provavelmente buscaria junto de D. Afonso IV apoio contra o monarca castelhano[19]. Mais uma vez, o progressivo entrosamento das milícias na política dos reinos cristãos peninsulares atraía o escárnio dos trovadores.

Como já referi, os retratos caricatos e as peripécias envolvendo comendadores constituem a grande tendência na sátira trovadoresca dirigida às milícias. No entanto, se no século XIII se detecta, sobretudo, uma marca genérica de anonimato, esta corrente parece alterar-se na centúria seguinte sem, porém, desaparecer. A sátira de João Fernandes de Ardeleiro constitui ainda um bom exemplo do retrato anónimo dos comendadores. Revoltado por ter perdido bens em Pavia, no Alentejo, o trovador lança um ataque ao comendador anónimo que lhe tinha usurpado os bens, que caracteriza de uma forma que faz recordar o Paio de Pero Mendes da Fonseca, precisamente por este comendador também fazer uso de artes mágicas[20]. Anónimo é também o mestre de uma Ordem de Cavalaria, alvo de um cantar da autoria do conde de Barcelos, D. Pedro, filho bastardo de D. Dinis[21]. A tendência para o desprezo da identidade destes homens permanecia até ao último fôlego do fenómeno trovadoresco em galego-português, mais uma vez acompanhada por uma crítica que se sustentava nas origens urbanas deste mestre e nos negócios que detinha com uma barregã sua na cidade de Lisboa.

Porém, é no século XIV que surgem sátiras em que os alvos são plenamente identificados. Estêvão da Guarda lança um ataque a Rui Fafes, comendador da milícia de Santiago, em que surge mais uma vez o motivo da crítica das origens sociais dos freires, desta vez encarnando num jogo construído em torno de uma peça de vestuário exuberante[22]. Já D. Pedro, conde de Barcelos, satiriza dois privados de D. Afonso IV por dominarem a Corte com a sua avareza[23]. Um deles, Gomes Lourenço de Beja, que alcançou a dignidade de comendador-mor da Ordem de Santiago, é conhecido pela animosidade a ele votada pelo filho bastardo de D. Dinis na Crónica Geral de Espanha de 1344, onde o autor vinca o facto de Gomes Lourenço ser um simples advogado, filho de um mesteiral de Beja. As origens humildes de Rui Fafes e a avidez de poder e avareza de Gomes Lourenço serviam de mote para uma crítica que, apesar de feroz, também punha a nu a integração dos freires nas lógicas de poder dos monarcas portugueses. De facto, a aproximação entre os freires e a Corte tornava as milícias ambientes propícios para o recrutamento de fiéis e competentes servidores da Coroa. Rui Fafes e Gomes Lourenço de Beja encaixam bem neste papel e as críticas a eles dirigidas são testemunho do crescimento da importância das milícias nos negócios do reino, em detrimento de velhos sectores da Nobreza que se viam alheados da privança régia e se iam tornando marginais nos jogos de poder da Corte.

Através da análise dos cantares referidos podemos traçar um percurso pela cultura trovadoresca relacionado com o tratamento que as Ordens Militares receberam dos compositores de cantares em galego-português entre cerca de 1240 e 1350. O que se pode concluir sobre este tópico a partir dos testemunhos trovadorescos foi exposto, nos seus traços gerais, no trabalho acima descrito. No entanto, no que toca ao universo da cultura nobiliárquica do Ocidente peninsular, a busca pela forma como a aristocracia integrou as milícias nas suas memórias e na sua mundividência encontra-se ainda num estado incipiente. Resta ainda proceder à análise de um manancial substantivo de textos e fontes de outra natureza, de modo a que se possa começar a compreender de forma mais completa as atitudes da Nobreza face às milícias religiosas. Para além do universo aristocrático, subsiste ainda por aflorar um vasto conjunto de representações e memórias produzidas no reino português sobre as milícias religiosas, que foram sendo produzidas neste espaço desde o século XII. O que esta dissertação de mestrado pretende ser, sobretudo, é um primeiro passo no estudo deste tema, que se espera contribuir para uma compreensão mais lata do universo da espiritualidade militar na Europa Medieval.
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[1] OLIVEIRA, Luís Filipe; FONSECA, Luís Adão da; PIMENTA, Maria Cristina; COSTA, Paula Pinto -  “The Military Orders”. in MATTOSO, José (dir.) –The Historiography of Medieval Portugal c. 1950-2010. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, 2010, pp. 425-457.

[2] Uma primeira abordagem ao tema pode ser recolhida na já clássica obra de Palmer Throop, publicada pela primeira vez em 1940: THROOP, Palmer A. – Criticism of the Crusade: a study of public opinion and crusade propaganda. Philadelphia: Porcupine Press, 1975. O continuado interesse pelo tema e a necessidade de revisão dos pontos de vista de Throop encontrou resposta pela mão de Elizabeth Siberry: SIBERRY, Elizabeth – Criticism of Crusading. 1095-1274. Oxford: Clarendon Press, 1985.

[3] HOUSLEY, Norman – The Avignon Papacy and the Crusades. 1305-1378. Oxford: Clarendon Press, 1986.

[4] NICHOLSON, Helen – Templars, Hospitallers and Teutonic Knights. Images of the Military Orders. 1128-1291. Leicester: Leicester University Press, 1993. Desde a publicação deste trabalho, a autora tem contribuído para o estudo do tema noutras ocasiões: Cf. NICHOLSON, Helen – Love, War and the Grail. Templars, Hospitallers, and Teutonic Knights in Medieval Epic and Romance.1150-1500. Leiden/Boston: Brill, 2004; Idem – “Critiques”. in BÉRIOU, Nicolle; JOSSERAND, Philippe (dirs.) – Prier et Combattre. Dictionnaire européen des ordres militaires au Moyen Âge. Paris : Fayard, 2009, pp. 273-275; Idem – “Représentations”. in BÉRIOU, Nicolle; JOSSERAND, Philippe (dirs.) – Prier et Combattre. Dictionnaire européen des ordres militaires au Moyen Âge. Paris : Fayard, 2009, pp. 782-785.

[5] MATTOSO, José – Identificação de um País. Oposição. Lisboa: Círculo de Leitores, 2001, p. 103.

[6] JOSSERAND, Philippe – Église et Pouvoir dans la Péninsule Ibérique. Les Ordres Militaires dans le Royaume de Castille (1252-1369). Madrid : Casa de Velázquez, 2004, pp. 33-228.

[7] Opto aqui por citá-las através da sua ordem nos cancioneiros: B = Cancioneiro da Biblioteca Nacional; V = Cancioneiro da Vaticana. Para as edições do corpus satírico trovadoresco de que fiz uso, vide infra n. 8, 9 e 10.

[8] Cantigas d’Escarnho e Mal Dizer dos Cancioneiros Medievais Galego-Portugueses. Ed. Manuel Rodrigues Lapa. Lisboa: Sá da Costa, 1995.

[9] Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses. Ed. Graça Videira Lopes. Lisboa: Estampa, 2002.

[10] Cantigas Medievais Galego-Portuguesas [online] [última consulta a 8 de Outubro de 2014], disponível em http://cantigas.fcsh.unl.pt/.

[11] Neste aspecto, baseámo-nos sobretudo nos trabalhos de António Resende de Oliveira, especialmente OLIVEIRA, António Resende – Depois do espectáculo trovadoresco: a estrutura dos cancioneiros peninsulares e as recolhas dos séculos XIII e XIV. Lisboa: Colibri, 1994.

[12] B 1438, V 1048; B 1440, V 1050 [pp. 42-47 do trabalho ora apresentado. Colocarei entre parêntesis rectos as páginas da dissertação relativas à análise das cantigas referidas no texto].

[13] V 1005 [pp. 38-42].

[14] V 1003 [pp. 35-38].

[15] B1600,V 1132 [pp. 53-63].

[16] V 1020 [pp. 28-35].

[17] B 1623, V 1157 [pp. 63-73].

[18] B 1525 [pp. 47-53].

[19] B 1314, V 919 [pp. 83-94].

[20] B 1327, V 933 [pp. 76-82].

[21] V 1039 [pp. 109-115].

[22] B 1322; V 927 [pp. 94-100].

[23] V 1038 [pp. 100-109].

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Referência electrónica:

NETO, Cláudio – “Apresentação de Tese /Thesis Presentation. As Ordens Militares na Cultura Escrita da Nobreza (1240-1350). Representações nas Cantigas de Escárnio e de Mal Dizer. Dissertação de Mestrado em História apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Novembro de 2012. Orientação do Professor Doutor Bernardo Vasconcelos e Sousa e do Professor Doutor Luís Filipe Oliveira”.

Medievalista [Em linha]. Nº 17 (Janeiro - Junho 2015). [Consultado 01.01.2015]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA17/neto1711.html

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