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Número 13 | Janeiro - Junho 2013 ISSN 1646-740X
 

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Recensão
QUIRÓS CASTILLO, J.A. (Dir.) - Arqueología del campesinato medieval: la aldea de Zaballa, Vitória-Gasteiz: UPV, 2012

 

Catarina Tente
Instituto de Estudos Medievais FCSH – UNL Lisboa, Portugal
catarina.tente@gmail.com

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O livro em questão é terceiro número da série monográfica Documentos de Arqueología Medieval e tem como coordenador A. J. Quirós Castillo. Mais uma vez esta coleção publica um volume fundamental para quem se interessa pelo mundo rural medieval.

O livro reflete os resultados da investigação multidisciplinar levado a cabo pelo "Grupo de Investigación Consolidado en Patrimonio y Paisajes Culturales" na aldeia medieval de Zaballa. Esta foi arqueologicamente intervencionada no âmbito da minimização de impactes provocados pela construção de um novo centro penitenciário situado na vertente norte dos Montes de Vitória (Iruña de Oca, Alava, País Basco).

Zaballa é a uma das 305 localidades mencionadas na "Reja de San Millán", que no ano de 1025 estavam obrigadas ao pagamento de renda ao Mosteiro de San Millán de la Cogolla. Para que fossem localizados os restos materiais desta antiga povoação foi realizada uma prévia análise de fotografias aéreas (tendo sido particularmente úteis as resultantes de voos anteriores ao processo de concentração fundiária ocorrido nas últimas décadas na área alavesa) conjugada com a interpretação de imagens LIDAR. Esta metodologia de prospeção revelou-se adequada e funcional para nortear a prospeção de superfície, que é normalmente insuficiente para a deteção de vestígios de ocupação rural medieval. Aliás, a opacidade dos vestígios arqueológicos rurais foi a principal razão para que o desenvolvimento da arqueologia destas realidades fosse tão tardia em Espanha, e ainda mais em Portugal, e terá sido a principal causa para as inúmeras destruições já ocorridas ou pela sua deficiente interpretação cronológica e funcional.

As escavações arqueológicas de Zaballa decorreram entre Fevereiro de 2007 e Novembro de 2008 e afectaram não só a área ocupada pela aldeia como também as áreas anexas dedicadas ao cultivo, no total de 33 641,1m2. Trata-se de uma intervenção arqueológica de referência que permitiu a recuperação da totalidade dos restos materiais desta aldeia e possibilitou o delinear da sua evolução ao longo de cerca de 1500 anos (do século VI ao século XV).

Reuniram-se neste volume o contributo de 35 autores, de várias nacionalidades, que trabalharam temáticas diversas correlacionadas com a investigação desenvolvida. O volume de 649 páginas está organizado em sete capítulos: uma introdução geral, a descrição do sítio, a sequenciação arqueológica das unidades de ocupação de Zaballa, o estudo dos materiais arqueológicos, o estudo da arquitectura das estruturas da aldeia, a arqueologia dos espaços agrários e, por fim, uma proposta de interpretação do sítio.

O capítulo inicial destina-se ao enquadramento genérico do projecto e à clarificação dos marcos conceptuais da intervenção e da investigação subsequente.

O segundo capítulo integra três partes: a primeira sobre a geografia histórica do termo de Zaballa; a segunda parte é relativa à descrição dos aspectos geológicos da sua área de implantação; e a terceira diz respeito à análise da documentação escrita relativa à povoação e seus territórios e integra dois textos, um da autoria de J. Escalona Monge, que aborda o registo documental dos séculos XI e XII e outro redigido por J. R. Diáz de Durana que estuda a documentação dos séculos XV a XX.

O terceiro parte do volume é dedicado à descrição dos contextos arqueológicos identificados. Trata-se de um capítulo eminentemente técnico que ilustra o rigor do registo efectuado e que é fundamental para a compreensão da complexidade dos contextos arqueológicos. Todas as principais realidades arqueológicas descritas encontram-se bem documentadas do ponto de vista gráfico e fotográfico.

Os estudos específicos da variada panóplia de artefactos e ecofactos identificados nas escavações são apresentados no quarto capítulo, tendo este sido subdividido em doze textos de diferentes autorias relativos às diversas categorias de espólio. Há um primeiro estudo sobre o material cerâmico, que se constitui como conjunto artefactual mais significativo. Este estudo apresenta as principais características tecnológicas e tipológicas das peças cerâmicas realizando uma sequenciação cronológica das mesmas. Este trabalho é seguido da apresentação da metodologia e dos principais resultados obtidos na análise petrográfica das pastas de 38 amostras de cerâmica. Os vestígios da atividade têxtil, apesar de escassos, são objecto de um pequeno texto, bem como o são os restos de actividade lúdica recuperados como marcas de jogo e um tabuleiro de jogo ric-rac ou alquerque gravado numa laje. Segue-se um texto sobre os metais que comportam objectos tão variados como elementos de adorno pessoal, armas, alfaias artesanais e agrícolas, elementos construtivos, objectos de uso domésticos entre outros. O estudo das moedas merece um subcapítulo próprio, sendo de destacar a presença de cerca de 43 elementos numismáticos, que se integram maioritariamente entre os reinados de Afonso VIII (1158-1214) e Henrique IV (1454-1474). O sétimo subcapítulo aborda um tema muito pouco estudado nos contextos posteriores à Pré-história recente, referimo-nos à análise dos utensílios de pedra lascada e os seus restos de talhe. Entre estes foi possível identificar elementos de trilho, de foice, raspadores e raspadeiras. O texto é exaustivo e interessante, todavia há a referir que os desenhos das peças foram demasiado ampliados, o que motivou a perda de alguma qualidade. O texto que se segue diz respeito ao estudo dos restos antropológicos exumados na necrópole de Zaballa, o que permitiu a identificação de 42 indivíduos, cuja idade à morte reflete uma esperança média de vida reduzida. Os autores destacam ainda o facto da população perinatal e infantil estar sub-representada o que não é compatível como o perfil demográfico de uma população rural pré-industrial. Esta situação não é anómala em contextos funerários medievais, principalmente no âmbito do mundo rural, e tem levantado algum debate sobre os rituais funerários dedicados exclusivamente às crianças, uma vez que é de supor que muitos nados-mortos e crianças tenham sido excluídos dos espaços funerários da comunidade. Os restos osteológicos de animais são também tema de estudo, tendo a sua análise possibilitado a identificação de variadas espécies domésticas, tais como a cabra, a ovelha, o cavalo, o cão, o gato, a galinha, o pato e o pombo. Entre os animais selvagens destaca-se o veado e a presença de variados roedores e anfíbios, que são excelentes indicadores do ambiente da aldeia e respectivos espaços de cultivo circundantes. O estudo sobre o registo botânico é apresentado no décimo subcapítulo sendo de registar o grande rigor metodológico levado a cabo pela equipa de arqueobotânica. Em síntese, o seu trabalho permitiu identificar restos de cereais, de leguminosas e de escassas amostras de espécies selvagens. A malacofauna é apresentada em seguida destacando-se a contabilização de 2357 restos de moluscos, a maioria pertencente a dezasseis espécies de caracóis terrestres. Ainda que escassas, é também reportada a existência de algumas conchas de ostra e de um bivalve de água doce. A última parte deste grande capítulo é um texto sobre a metodologia aplicada na conservação de alguns artefactos que são na sua maioria de natureza metálica. Por essa mesma razão teria sido mais funcional que o texto seguisse o subcapítulo a estes dedicado.

O quinto capítulo desta monografia refere-se à análise das estruturas arquitectónicas identificadas nas várias fases ocupacionais. O facto da maioria das estruturas identificadas serem constituídas por buracos de poste, fundos de cabana, fossas e silos torna particularmente difícil a perceção da sequenciação estratigráfica e temporal dos diversos contextos arqueológicos ali identificados, pelo que este texto é fundamental para a compreensão da complexa estratigrafia e sequência ocupacional da aldeia.

No capítulo seguinte aborda-se a investigação desenvolvida no âmbito da arqueologia off-site, que assentou principalmente na realização de análises micromorfológicas e químicas de amostras de solos, bem como de perfis polínicos, o que veio permitir caracterizar os espaços agrários da aldeia.

Por fim, o último capítulo diz respeito a uma interpretação conjugada dos vários dados obtidos na investigação desenvolvida e é da autoria do coordenador da investigação e do livro. Nesta parte conclusiva o autor conta a história da aldeia caracterizando-se de forma exaustiva as sua várias fases ocupacionais. Os vestígios mais antigos remontam ao final do século V e parecem estar relacionados com a instalação de uma granja ou quinta. Não obstante a cronologia recuada desta fase, não há no registo arqueológico nenhum vestígio cultural de tradição romana. Segue-se uma das fases da história desta aldeia mais bem representada no registo arqueológico. Entre c. 700 e c. 950 dá-se um progressivo adensamento populacional que irá proporcionar o desenvolvimento de uma aldeia não agrupada, que ocupa cerca de 9000 m2, constituída por várias unidades domésticas separadas por espaços agrários. A maior pressão antrópica sentida nesta fase levou à ampliação das áreas de cultivo documentadas nas proximidades da aldeia. Entre c. 950 e c. 1200 ocorre uma profunda alteração na morfologia da povoação, abandona-se e destrói-se as unidades domésticas anteriores e transforma-se a área onde se implantavam numa plataforma sob a qual se constrói uma igreja dedicada a Santo Tirso. Junto desta vão aparecer silos que foram interpretados como espaço de armazenagem de produtos obtidos no pagamento de rendas. A fundação desta igreja é assim vista como o instrumento através do qual as elites supra-locais (nesta fase não se documentam edifícios ou enterramento de privilegiados no seio da aldeia) legitimam a extracção de rendas aos camponeses e iniciam a sua acção directa nos destinos da população aldeã. Apenas no decurso do século XII esta estrutura religiosa se transformará em igreja paroquial o que comportou, entre outras alterações, o surgimento do cemitério. Simultaneamente, assiste-se igualmente à construção planificada de um bairro no fundo do vale e a uma remodelação das suas vertentes, através da implementação de socalcos agrários. O quarto período que se baliza entre c. 1200 e c. 1450 corresponde à aldeia baixo medieval. Pela primeira vez é possível documentar no registo desta aldeia a presença efetiva de potentes locais, percecionados quer em enterramentos de exceção quer na identificação de bens materiais de maior valor e prestígio. Os períodos subsequentes marcam o progressivo abandono da aldeia e da igreja, que é episodicamente transformada em espaço habitacional durante o século XVI para ser completamente destruída já no decorrer do século XVII.

Em suma, trata-se da primeira publicação monográfica sobre a investigação histórica e arqueológica de uma aldeia medieval e, face à qualidade e rigor científico evidenciado neste volume, é, a meu ver, uma obra de referência para as futuras publicações de inúmeras outras aldeias medievais intervencionadas arqueologicamente nos últimos 15 anos em Espanha. Considero que o volume é ainda de leitura obrigatória para quem se debruça sobre os processos de senhoralização e/ou feudalização dos territórios peninsulares. Efectivamente, em Zaballa pôde-se documentar arqueologicamente um dos modelos usados pelas elites para se apropriarem do espaço e do trabalho camponês. Neste modelo a acção senhorial implicou a fundação no século X de uma igreja privada, que a tempo promove um programa de captação de rendas camponesas.

O trabalho realizado em Zaballa é ainda o exemplo de que a investigação desenvolvida no âmbito da denominada arqueologia preventiva pode ser norteada por princípios éticos, patrimoniais e metodológicos rigorosos que possibilitem o desenvolvimento de uma investigação plural e interdisciplinar.

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Referência electrónica:

BOISSELLIER Stéphane – TENTE Catarina – "QUIRÓS CASTILLO, J.A. (Dir.) – Arqueología del campesinato medieval: la aldea de Zaballa, Vitória-Gasteiz: UPV, 2012". Medievalista [Em linha]. Nº13, (Janeiro - Junho 2013). [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em
http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA13/tente1309.html

ISSN 1646-740X

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