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Número 12 | Julho - Dezembro 2012 ISSN 1646-740X
 

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A BITAGAP e o estudo da historiografia medieval portuguesa (a propósito da nova versão desta base de dados)[1]

 

Filipe Alves Moreira
Instituto de Filosofia / Universidade do Porto
filipe_24lit@aeiou.pt

RESUMOTEXTOFONTES E BIBLIOGRAFIANOTAS PALAVRA-CHAVECITAÇÃO imprimir PDF imprimir mail indice
 
 

Data do artigo: Março, 2011

O aparecimento de uma nova – e há muito aguardada – versão da BITAGAP (Bibliografia de Textos Antigos Galegos e Portugueses[2]), do projecto PHILOBIBLON[3], constitui uma excelente oportunidade para reflectirmos na importância desta ferramenta para o estudo da produção literária da Idade Média portuguesa. É o que aqui procurarei fazer com respeito a um sector específico dessa produção, a historiografia. Tecerei, nesse sentido, considerações acerca da utilidade e do contributo da BITAGAP para o seu estudo, incluindo nesse contributo algumas descobertas ou novidades disponíveis na nova versão desta base de dados. Aproveitarei também para perspectivar e problematizar, a partir destas premissas, a investigação mais recente nestes domínios.

Comecemos pelas vantagens da BITAGAP para o estudo da historiografia medieval portuguesa. Estas são, em boa medida, comuns a outras áreas de estudo e facilmente adivinháveis. A BITAGAP permite, com efeito, a) ter acesso a um elenco de todas as cópias actualmente conhecidas de todas as crónicas (e outros textos historiográficos) medievais e tardo-medievais portuguesas, bem como a notícias sobre manuscritos hoje desaparecidos ou de localização incerta, mas de que ficaram vestígios ou alusões inequívocas; b) adquirir conhecimentos básicos (ou melhor, basilares) sobre o conteúdo, as características materiais, o percurso e a história de cada uma dessas cópias; c) apreender ou estabelecer relações estemáticas, intertextuais ou de outra espécie entre cada uma ou várias dessas cópias; e d) ficar a par da bibliografia pertinente sobre cada um dos textos elencados. Tudo isto com a rapidez, comodidade e interactividade (incluindo a possibilidade de correcção ou aumento das informações disponibilizadas) que apenas as ferramentas informáticas, e especialmente a internet, possibilitam. Há, porém, uma importante especificação a fazer. Enquanto para as crónicas dos séculos XIII e XIV, as informações facultadas pela BITAGAP poderão encontrar-se noutros locais, residindo a vantagem da BITAGAP fundamentalmente na maneira como reúne, coordena e apresenta essas informações, já no caso das crónicas do século XV e princípios do século XVI, ou pelo menos no caso de algumas dessas crónicas, a situação é diferente, pois a BITAGAP contém, na verdade, o único elenco completo dessas obras e dos seus testemunhos. De facto, ao passo que contamos já com elencos completos, ou quase, dos manuscritos existentes das Crónicas de Fernão Lopes[4] e Zurara[5], muito pouco foi ainda feito no que respeita às obras de Duarte Galvão e Rui de Pina. Quem quiser saber, assim, quantas cópias existem das Crónicas de D. Sancho I a D. Afonso IV de Pina, em que bibliotecas se guardam e quais as suas características, não tem outra fonte de informações que não seja a BITAGAP[6]. Quase o mesmo se poderá dizer da tão importante Crónica de D. Afonso Henriques da autoria de Duarte Galvão, pois as listas de testemunhos elaboradas nos anos 10 e nos anos 40 do século passado revelam-se hoje muito insuficientes[7]. E isto, para não falarmos dos Sumários de Crónicas, género entre nós muito cultivado no final da Idade Média e princípio da Época Moderna, apesar de ainda muitíssimo pouco estudado[8].

Deve por outro lado dizer-se que a BITAGAP tomou algumas opções que não seriam, à partida, obrigatórias numa base de dados deste tipo, mas que muito a enriquecem e muito ajudam os investigadores e estudiosos. Sucede isto, por exemplo, com as bibliografias disponibilizadas. Sendo a BITAGAP, antes de mais, uma base de dados de manuscritos (ou de impressos quando só eles sobrevivem, como é o caso da Crónica do Condestável), esperar-se-ia, porventura, que as bibliografias fornecidas dissessem respeito apenas, ou predominantemente, a questões editoriais, ou de alguma maneira atinentes à materialidade dos testemunhos elencados. A opção não foi, todavia, essa, mas sim a de acolher também estudos que focassem exclusiva ou predominantemente questões interpretativas ou de exegese literária, histórica e histórico-literária, separando, sempre que possível, os estudos do primeiro tipo (os que dizem respeito ao testemunho) dos estudos do segundo tipo (que dizem respeito ao texto, à obra). Trata-se de uma feliz opção: para a BITAGAP, porque alarga potencialmente o seu público; para os estudiosos, porque lhes fornece apoio bibliográfico independentemente dos objectivos, interesses e metodologias de cada um. Outra vantagem que há que reconhecer nas bibliografias fornecidas (pelo menos no caso das bibliografias relacionadas com textos historiográficos, que são aqueles de que me cumpre falar) é o cuidado em não deixar de fora nem a investigação mais recente, independentemente do grau de difusão ou aceitação que tenha já alcançado, nem a investigação mais antiga, por muito datada ou mesmo ultrapassada que a possamos considerar. Dir-se-ia que a BITAGAP pretende, acima de tudo, facultar aos interessados informações sobre a investigação que foi sendo e vai sendo realizada, deixando-lhes a tarefa de se pronunciarem, depois, sobre o seu interesse e validade, ou de a aproveitarem como quiserem e souberem.

Isto não significa, como é evidente, que a BITAGAP não adopte nunca determinadas teses, em detrimento de outras. Quando a BITAGAP diz, por exemplo, que o autor da Crónica de 1419 foi Fernão Lopes[9]; quando fala na Crónica da Conquista do Algarve como uma obra autónoma[10]; quando diz que o fragmento de Nobiliário da Biblioteca da Ajuda[11] é um testemunho do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, e que este teve duas refundições[12]; ou quando considera que a chamada Crónica da Guiné incorpora um outro texto de Zurara (dito o Panegírico do Infante D. Henrique)[13] – em todos estes casos, a BITAGAP está a adoptar determinadas teses, determinados pontos de vista, e não poderia evitar fazê-lo, visto que de alguma maneira teria de organizar e apresentar os dados. Mesmo assim, tem o cuidado de assinalar o carácter dubitativo de várias dessas formulações mediante o recurso ao ponto de interrogação e ao registo de hipóteses alternativas, assim como tem o cuidado de apontar em que investigador, ou em que estudos, baseia as suas afirmações. Parece haver, pois, a preocupação de juntar tanto quanto possível rigor e exaustividade, fornecendo o máximo de informação bibliográfica possível.

Por outro lado, embora a BITAGAP seja predominantemente uma base de dados de manuscritos e impressos, a sua organização multi-estratificada vai para além deles, favorecendo um conjunto de distinções e possibilitando um cruzamento de informações que, sendo importantes no estudo de qualquer texto medieval, são-no sobretudo, parece-me, no que respeita a obras que tenham uma complexa tradição manuscrita, como as crónicas tardo-medievais portuguesas. Penso, por exemplo, na distinção entre texto e testemunho, em manuscritos compósitos, ou mesmo em noções tão usadas – mas nem sempre de fácil conceptualização… – como refundição, interpolação, segunda redacção, abreviação, etc. Em todos estes casos, é necessário dar conta da complexidade e heterogeneidade do universo descrito, e a melhor maneira de o fazer é encarar cada texto de cada manuscrito como uma entidade individualizada, sem que por isso se abandone forçosamente a noção tradicional de obra. Conjugar esses diferentes níveis será o segredo, e foi certamente isso que levou a BITAGAP a criar um sistema classificatório baseado em manuscritos [manid], e um outro baseado em textos [texid], que vai ao ponto de distinguir os diferentes reinados de uma mesma crónica. Posso exemplificar as vantagens deste tipo de sistema recorrendo à Crónica de 1419. Uma base de dados elaborada em moldes tradicionais talvez se limitasse a dizer que existem duas cópias desta obra: uma, contida num manuscrito da Biblioteca Pública Municipal do Porto[14], outra contida num manuscrito da Casa Cadaval[15]. Mas a realidade é bem mais complexa que isso. Por exemplo, o manuscrito da Casa Cadaval contém porções textuais de quatro crónicas (todavia unidas de forma particularmente hábil), sem contar com dois fólios que lhe foram posteriormente agregados e albergam um texto de identificação problemática. Estes dois manuscritos não abrangem, de resto, a mesma extensão da Crónica de 1419, pois o do Porto vai apenas, como é sabido, até ao reinado de D. Afonso III, enquanto o da Casa Cadaval inclui ainda, se bem que incompletos, os reinados de D. Dinis e D. Afonso IV. É importante dar conta de tudo isto, e a melhor maneira de o fazer é de facto individualizar cada texto de cada um desses manuscritos, adjudicando-lhes números e entradas próprias. Este tipo de distinções parece-me, aliás, a pedra angular metodológica para o estudo das crónicas portuguesas medievais e tardo-medievais. Da mesma forma que a análise das crónicas espanholas dos séculos XIII e XIV conheceu um momento decisivo quando, em meados do século passado, a crítica deixou de falar apenas em «crónicas» e voltou aos manuscritos tomando cada um deles como objecto de estudo[16], também a análise das crónicas portuguesas muito tem a beneficiar, certamente, com esse tipo de abordagem, para a qual encontra na BITAGAP um bom ponto de partida. Veja-se, por exemplo, o que tem sucedido com a Crónica de 1344. A investigação em torno desta crónica conheceu importantes avanços na última década e meia, quando a crítica retomou uma linha de investigação praticamente abandonada, em Portugal, desde o magnífico trabalho de Lindley Cintra, a qual assenta na distinção entre primeira redacção (da autoria do Conde de Barcelos) e segunda redacção (anónima e cujo texto foi editado por Cintra[17]). Mas faltará ainda dar o passo seguinte, e estudar cada texto de cada um dos manuscritos subsistentes, pois são notórias as divergências verificáveis entre eles[18]. Este procedimento deve, além disso, entender-se enquanto parte de uma espécie de viragem metodológica, que encare os textos não apenas do ponto de vista do seu emissor e da sua constituição interna (supostamente) original, mas também do ponto de vista dos seus receptores. Não apenas enquanto «produto», mas também enquanto «produto continuamente em processo», parafraseando uma célebre afirmação de W. Iser.

Uma outra opção tomada pela BITAGAP que me parece especialmente relevante é a sua decisão de alargar o corpus cronístico em apreço, de forma a incluir crónicas e sumários de crónicas elaborados durante os primeiros anos, ou durante as primeiras décadas, do século XVI. O texto de apresentação da BITAGAP justifica já esta opção, mas gostaria de deixar mais algumas razões que a secundam. Em primeiro lugar, não é indiscutível que todos os textos que vêm assinalados como sendo do século XVI não possam ser, na realidade, no todo ou em parte, de épocas anteriores. Estou convencido de que os Sumários de Crónicas conhecidos foram todos elaborados depois de 1500 e são, fundamentalmente, resumo das crónicas de Duarte Galvão, Rui de Pina, Fernão Lopes e Zurara. Mas não é cem por cento seguro que assim seja: num dos poucos estudos que até hoje um desses Sumários suscitou, William Bentley entendia[19] que certo Sumário da BN (COD. 248[20]) tinha sido, pelo contrário, uma das fontes desses cronistas. E haverá que ter em conta a possibilidade de diferentes fases de redacção, interpolações, actualizações, etc. Por outro lado, e mesmo admitindo que estes Sumários resumem as crónicas daqueles autores, esse facto torna-os testemunhos indirectos dessas crónicas. E é interessante fazer notar que alguns dos manuscritos destes Sumários são materialmente anteriores a grande parte dos manuscritos hoje conhecidos de Lopes, Zurara, Pina ou Galvão, podendo, por conseguinte, fornecer importantes dados acerca da fixação ou da recepção das obras destes autores. Por outro lado, e porque os Sumários não se limitam a resumir as crónicas do século XV, mas incorporam também matéria estranha a essas crónicas, eles serão também testemunhos indirectos de outras obras medievais. Através da compilação de Rodrigues Acenheiro é possível, por exemplo, ter acesso à forma primitiva de uma narrativa sobre o princípio do reinado de Afonso VII de Castela e Leão que aparece também numa das versões da Estoria de España de Afonso X, mas alterada pelo seu redactor[21]. E vários Sumários de Crónicas contêm o texto integral de uma carta de Afonso IV de Portugal a Afonso XI de Castela e Leão que Rui de Pina parcialmente censurou na crónica de sua autoria relativa ao reinado do Bravo[22]. Finalmente, também a estes Sumários se pode aplicar uma das razões pelas quais Cristina Sobral justificava a inclusão de textos das primeiras décadas de quinhentos no corpus da hagiografia medieval portuguesa: os Sumários de Crónicas são também, certamente, «escritos por autores que devem a sua formação e as suas leituras ao século XV»[23].

Além de tudo isto, a equipa da BITAGAP vem desde há anos efectuando, como é sabido, uma pesquisa por diversos arquivos e bibliotecas conducente à descoberta de novos manuscritos e fragmentos, ou, e não será isso menos importante, à correcta identificação de textos presentes em manuscritos já conhecidos, mas mal catalogados e erroneamente classificados. Os resultados desta pesquisa têm sido notáveis (bastará pensar, por exemplo, nos numerosos fragmentos de traduções portuguesas e galegas das Sete Partidas de Afonso X[24], que, pelos vistos, ainda não cessaram de surgir, demonstrando que a obra legislativa do Rei Sábio teve entre nós uma difusão porventura maior do que se pensava). E também no que respeita às crónicas, a equipa da BITAGAP, nas suas próprias investigações ou em conjugação com investigações alheias, tem vindo a obter resultados que constituem importantes avanços e permitirão certamente abrir novos caminhos. O volume Fragmentos de textos medievais portugueses da Torre do Tombo[25] mencionava já a descoberta de alguns fólios de mais uma cópia da Crónica de D. João I[26], e dava conta de um manuscrito, até então desconhecido, que continha um conjunto de Crónicas dos reis de Portugal desde D. Afonso Henriques até D. Afonso IV, seguidas de Sumários de Crónicas dos reis seguintes, até D. João II[27]. Mas várias outras novidades poderão ser encontradas na mais recente versão da BITAGAP, e com estas novidades terminarei, comentando-as brevemente.

Poderei começar por afirmar que as mais recentes pesquisas da equipa da BITAGAP permitiram solucionar, não digo por completo, mas em grande medida, dois dos principais enigmas editoriais, digamos assim, da cronística medieval e tardo-medieval portuguesa. O primeiro relativo à chamada Crónica da Conquista do Algarve; o outro, envolvendo os Sumários de Crónicas compilados por Rodrigues Acenheiro. Quanto à chamada Crónica da Conquista do Algarve[28], a comunidade científica tinha-se habituado a trabalhar com a transcrição, feita no século XVIII, por Fr. Joaquim de Santo Agostinho[29], pois os dois manuscritos que este frade desenterrara dos arquivos de Tavira estariam supostamente perdidos. Ora bem: graças a Pedro Pinto (investigador cujas buscas sistemáticas pelos mais diversos arquivos e bibliotecas cumpre salientar) poderemos hoje garantir que pelo menos um desses manuscritos (por sinal o mais moderno) subsiste ainda e, aparentemente, não chegou nunca a sair de Tavira[30]. A relevância desta descoberta não necessitará de mais comentários, e o texto editado por Fr. Joaquim poderá, a partir de agora, ser cotejado com um testemunho manuscrito. Mas, não contente com isto, Pedro Pinto localizou ainda uma outra cópia, até este momento totalmente desconhecida, da mesma Crónica do Algarve, desta vez num manuscrito da Biblioteca Nacional[31]. Para além da importância intrínseca destas descobertas, é de esperar que venham a contribuir para que a crítica estude atentamente, e de vários pontos de vista, esta Crónica, começando talvez pelo seu estatuto de obra autónoma[32] (mas isso são já outras questões…).

Quanto aos Sumários de Rodrigues Acenheiro[33], a circunstância de terem sido editados pela Academia das Ciências no século XIX[34] tornara-os já objecto de alguma atenção por parte da crítica, que, sobretudo depois dos trabalhos de Magalhães Basto[35] e Diego Catalán[36], pôde compreender a importância destes Sumários, entre outras coisas, para o estudo de crónicas medievais portuguesas e espanholas hoje total ou parcialmente perdidas[37]. Mas os manuscritos que tinham sido usados pelos editores oitocentistas eram um mistério, e toda a gente se limitava a usar essa edição, presumindo ou afirmando que tais manuscritos estariam perdidos. Diligências do Prof. Arthur Askins e de mim mesmo permitiram, contudo, identificar, creio que sem margens para qualquer dúvida razoável, certo manuscrito da Biblioteca da Ajuda[38] com a cópia usada pelos editores do século XIX para anotarem variantes em relação ao texto-base. E foi também possível chegar à conclusão de que o manuscrito base dessa edição seria, com bastante probabilidade, um manuscrito que se encontrava em princípios do século XIX na livraria do mosteiro de Alcobaça e estará hoje perdido ou em local ignorado[39]. Além disso, foi ainda localizada e descrita uma outra cópia, mais antiga que o manuscrito da Ajuda, embora infelizmente mutilada em alguns pontos, na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra[40]. Tal como sucede com a Crónica do Algarve, também estes Sumários e os materiais neles compilados podem, por isso, ser a partir de agora estudados com maior segurança textual.

Poderei registar ainda a identificação de uma nova cópia da chamada Crónica Breve do Arquivo Nacional em certo manuscrito da Biblioteca Pública Municipal do Porto[41]. Neste caso, não estamos perante uma descoberta, mas sim perante a reavaliação de dados conhecidos. Na verdade, o manuscrito em questão tinha sido editado em 1931[42]; mas não só ninguém tinha identificado a cópia da referida crónica que nele se acha, como chegou, inclusivamente, a ser admitido que este manuscrito estava ainda inédito[43]. Trata-se de um interessante exemplo de como é fundamental a correcta identificação dos textos presentes nos manuscritos. Diferente das descobertas, ou das correctas identificações, mas igualmente importante, é o caso de mansucritos recentemente incorporados em bibliotecas, ou de manuscritos ainda não catalogados. E também aqui a BITAGAP tem dado a conhecer ultimamente algumas novidades, das quais me limito a referir uma cópia lacunar da Crónica de D. Afonso Henriques adquirida pela Torre do Tombo[44], e cópias da Crónica de D. Pedro de Meneses, de Zurara, e da Crónica de D. Dinis de Rui de Pina, que pertencem à Biblioteca do Porto mas não foram ainda catalogadas[45].

Terminarei com um exemplo prático da utilidade da BITAGAP para o estudo das crónicas portuguesas. Há pouco, mencionei a Crónica de 1419 e as duas cópias extensas que dela subsistem. Já desde os anos 40 era, todavia, conhecido um manuscrito[46] em que juntamente com as crónicas de D. Afonso Henriques de Duarte Galvão e de D. Sancho I, D. Afonso II, D. Afonso III, D. Dinis e D. Afonso IV de Rui de Pina, se encontrava copiado o relato do reinado de D. Sancho II de acordo com a Crónica de 1419. Esta cópia não é, todavia, caso único. No decorrer da minha investigação sobre essa crónica, pude localizar mais dois manuscritos que continham, para além das crónicas de Duarte Galvão e Rui de Pina, a cópia do reinado de D. Sancho II de acordo com a Crónica de 1419 e não de acordo com a respectiva crónica de Pina[47]. Ora, foi precisamente a consulta da BITAGAP e a leitura dos incipits e explicits dos textos desses manuscritos que me levaram à suspeita, posteriormente confirmada, de que eles continham cópias, não da Crónica de D. Sancho II, como estava indicado, mas sim do reinado de D. Sancho II de acordo com a Crónica de 1419. Quer dizer: a BITAGAP tem sempre muito que ensinar, mesmo que esteja (como tudo quanto é produto do homem) continuamente sujeita a revisões. A sua missão é também, por isso, a de nos lembrar que, como salientava D. Catalán, nos estudos medievais «es preciso el conocimiento directo de las fuentes y que es en la lectura de los manuscritos que la Edad Media nos ha dejado (…) donde el estudioso de la literatura medieval puede hacer descubrimientos que justifiquen la profesión de investigador en las Humanidades»[48].

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[1] Trabalho de investigação desenvolvido no âmbito da bolsa de investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia com a referência SFRH/BPD/72825/2010.

[4] Pelo menos do caso das Crónicas de D. Pedro e D. Fernando, há os elencos elaborados por Giuliano Macchi para as suas edições: G. Macchi, ed., 2007a; G. Macchi, ed., 2007b. A respeito da Crónica de D. João I, o panorama estará ainda mais difuso, mas veja-se as indicações fornecidas em W. Entwistle, e L. Cintra, ed., 1977. São também imprescindíveis diversos trabalhos de Teresa Amado, como T. Amado, 2007a; e T. Amado, 2007b.

[5] Em várias das edições entretanto realizadas, embora nem todas sejam igualmente exaustivas no que diz respeito ao elenco, descrição, ordenação e estudo de manuscritos. Nos últimos anos, e depois da excelente edição da Crónica de D. Pedro de Meneses [M. T. Brocardo, ed., 1997], há a registar uma recente edição da Crónica de D. Duarte de Meneses, realizada no âmbito de uma dissertação de doutoramento: A. Fernandes, 2007.

[6] Tenho em mãos, presentemente, um estudo da tradição manuscrita destas Crónicas.

[7] Aludo, naturalmente, aos elencos apresentados pelas edições desta Crónica da responsabilidade do Conde de Castro Guimarães [C. de Castro Guimarães, ed., 1918] e de A. R. Nykl, ed., 1942. A primeira destas edições reproduz o texto do manuscrito da Casa Museu Castro Guimarães, de Cascais, e a segunda é uma edição crítica parcial, limitada aos capítulos da Crónica cujo texto serviu de fonte a Camões para a elaboração d’Os Lusíadas.

[8] Que me ocorra, os únicos estudos que se ocupam de algum Sumário que não o da autoria de Acenheiro (ou a eles se referem) são: A. M. Basto, 1960; W. Bentley, 1925; D. Catalán, 1962; L. Cintra, 1999 e J. Sena, 1988. Eu próprio tive ocasião de fornecer mais elementos sobre vários Sumários de Crónicas na minha dissertação de doutoramento: F. A. Moreira, 2010. As lacunas existentes no actual estado de investigação sobre estes textos são todavia ainda muitas e muito notórias.

[9] Texid 1238. A autoria material de Fernão Lopes não é consensual, se é que alguma vez o será (e o mesmo pode dizer-se de qualquer outra proposta de autoria avançada pela crítica). Não deixa, porém, de ser revelador que o próprio texto desta Crónica indique quem foi o seu autor, no sentido medieval do termo: o Infante D. Duarte. Pode ver-se um estado da questão sobre a problemática da autoria da Crónica de 1419 na Parte I da minha dissertação, mencionada na nota anterior.

[10] Texid 9374. Como é sabido, a (re)descoberta da Crónica de 1419 em meados do século XX, e a constatação de que grande parte do texto por ela dedicado ao reinado de D. Afonso III coincidia literalmente com o da Crónica do Algarve levou alguns investigadores (Magalhães Basto, Cintra) a proporem que os manuscritos desta última Crónica fossem, na realidade, cópias parciais da Crónica de 1419. Esta tese foi depois contestada (maximamente por A. Branco, 1997), mas de forma que não me parece poder considerar-se definitiva.

[11] Manid 1082.

[12] Texid 1173. O alcance e a caracterização das duas supostas refundições do Nobiliário do Conde D. Pedro têm sido ultimamente problematizadas por M. R. Ferreira, que parece inclinada a atribuir aos refundidores desta obra um papel menos activo e profundo do que até agora tem sido aceite. Veja-se, sobretudo, M. R. Ferreira, 2010a e M. R. Ferreira, 2010b. Penso, porém, que depois dos trabalhos do Prof. Mattoso tem sido algo esquecido um outro e importante problema, que é o das várias divergências existentes entre os dois principais testemunhos do Livro de Linhagens [Manid 1082e Manid 1323]. O fragmento da Biblioteca da Ajuda foi não há muito editado por M. T. Brocardo, 2006.

[13] Texid 1060.

[14] Manid 1077.

[15] Manid 1146.

[16] Cf. D. Catalán, 1997.

[17] A retoma e o aprofundamento desta linha de investigação são, em Portugal, especialmente visíveis nos trabalhos de I. Barros Dias, 2003; A. Fournier, 1995; I. Dias, 2003; M. R. Ferreira, 2005; A. Rei, 2008; J. Gomes, 2006; e F. A. Moreira, 2009b. Menciono apenas os trabalhos mais importantes, ou de maior vulto, de cada um destes autores sobre esta problemática.

[18] Especialmente, e como aliás é comum na tradição das Crónicas Gerais de Espanha, nas partes dedicadas aos monarcas mais recentes (de Fernando I de Castela e Leão em diante). Diga-se, entretanto, que em Espanha (onde é especialmente aguda a consciência da importância de estudos sobre manuscritos específicos) algumas importantes observações vão sendo feitas neste domínio. Aengus Ward e Diego Catalán conseguiram, assim, demonstrar que o chamado Arreglo Toledano da Crónica de 1344 se baseou no texto do manuscrito L da Crónica de 1344 [Manid 1081], facto que poderá abrir importantes vias de investigação. Cf. D. Catalán, 2005, pp. 313-321.

[19] W. Bentley, 1925.

[20] Manid 25295.

[21] Refiro-me ao episódio da prisão de D. Urraca e Pedro de Lara pelo futuro Imperador Afonso VII. Cf F. A. Moreira, 2009a.

[22] Texid 10199.

[23] Sobral, 2007.

[24] Texids 1211, 1214, 1132, 1212, 9709, 1133, 1217, 1219, 1218, 9826, 1215, 1134.

[25] Askins et alii, 2003.

[26] ASKINS et alii, 2003, p. 14.

[27] ASKINS et alii, 2003, p. 18.

[28] Texid 9374.

[29] J. S. Agostinho, 1792. O texto foi depois ultimamente reeditado por F. V. P. Fonseca, ed., 1987.

[30] Manid 2447.

[31] Manid 25331.

[32] Veja-se a nota 10.

[33] Texid 10802.

[34] C. R. Acenheiro, 1824.

[35] A. M. Basto, 1960, pp. 327 – 346.

[36] D. Catalán, 1962, pp. 214 – 289 e 413 – 422.

[37] Veja-se também F. A. Moreira, 2009a e J. C. Miranda, 2010.

[38] Manid 4422.

[39] Podem ver-se notícias deste manuscrito em A. Nascimento, 1979.

[40] Manid 3956.

[41] Manid 3158.

[42] A. Dornelas, ed., 1931.

[43] A. Sousa, 2009, pp. 51-52.

[44] Manid 25870.

[45] Respectivamente, manid 26551 e 26550.

[46] Manid 1309.

[47] Manid 3595 e Manid 1684.

[48] D. Catalán, 1997, p. 32.

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  PHILOBIBLON; BITAGAP; Historiografia portuguesa medieval.
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Referência electrónica:

MOREIRA, Filipe Alves – “A BITAGAP e o estudo da historiografia medieval portuguesa (a propósito da nova versão desta base de dados)”. Medievalista [Em linha]. Nº12, (Julho - Dezembro 2012). [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA12\moreira1206.html.

ISSN 1646-740X

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