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Número 11 | Janeiro - Junho 2012 ISSN 1646-740X eng
 

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Recensão
TRINDADE, Luísa, Urbanismo na composição de Portugal. Tese de Doutoramento em Arquitectura apresentada à Universidade de Coimbra, Faculdade de Arquitectura, 2010

 
José Mattoso
Director da Medievalista
jjmtts@hotmail.com

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A tese de doutoramento de Luísa Trindade representa, na minha opinião, um passo importante na historiografia medieval portuguesa. Este juízo de valor baseia-se no facto de tratar com manifesta competência e segurança um tema praticamente novo em Portugal – a história do urbanismo – e de o fazer num quadro estrutural, isto é, na sua relação com as condições culturais, sociais, económicas e políticas do país durante o mesmo período. Não se trata, efectivamente, de uma investigação destinada a acumular dados mais ou menos bem classificados, mas de descobrir e explicar o que eles significam para um conhecimento completo da realidade histórica no período considerado.

Com efeito, Luísa Trindade não se limita a fornecer mais uma contribuição para a bibliografia da já bem nutrida história das cidades portuguesas, como ela tem sido praticada entre nós desde os anos 70, em particular a partir do impulso que lhe deu A. H. de Oliveira Marques, e que produziu, efectivamente, uma valiosa série de monografias que alargaram de facto o capital de dados e factos desse capítulo da nossa historiografia. Como a Autora sublinha no seu Prefácio, embora a história das cidades medievais portuguesas conte com uma informação abundante, não produziu praticamente nada sobre as características e a evolução do urbanismo, ou seja os vários tipos de plano adoptados entre nós, a dinâmica que faz evoluir as sua formas, as funções e hierarquia dos elementos próprios das cidades (a rua, a praça, a sede do poder, o casario, os quintais, a igreja, o equipamento defensivo, etc.), os fenómenos que condicionam e explicam as soluções adoptadas através dos tempos, a política desenvolvida pela coroa em relação ao controle da orgânica urbana, etc.

O objectivo nuclear era o estudo das «cidades de fundação», isto é, aquelas que foram inicialmente planificadas segundo um modelo coerente. A Autora analisa 22 casos típicos de «cidades de fundação», demonstra a pertinência da sua classificação na referida categoria e mostra como evoluiu cada um deles até ao começo da Idade Moderna. Trata-se não só de cidades de uma certa importância como Bragança, Caminha, Chaves, Lagos, Sines, Tomar ou Valença, mas também de outras menores como Cedovim, Portel ou Torre de Moncorvo. Não se limita a demonstrar o carácter planificado da distribuição da área edificada. Recorre a um interessante processo de verificação das dimensões e proporções das casas de forma a determinar as características dos padrões adoptados, e das variantes verificadas. O recurso a uma abundante e excelente documentação gráfica torna a leitura agradável e a argumentação perfeitamente convincente.

Fica assim plenamente demonstrado que este tipo de cidades resulta de decisões políticas muito concretas, adoptadas durante os reinados de Afonso III e de D. Dinis, e que obedeciam a normas típicas mas flexíveis. As formas impostas pelos homens do rei repetem-se em todo o reino e fazem claramente parte de uma política centralizadora de desenvolvimento económico, demográfico e militar. São uma clara iniciativa do poder administrativo da coroa. Nada têm que ver com as tradições culturais próprias das grandes áreas geográficas preexistentes: o Norte senhorial, o Norte concelhio e o Sul moçárabe. As cidades de fundação exerceram, de facto, um papel unificador. Daí o título da tese: «Urbanismo na composição de Portugal» - uma alusão à terminologia que escolhi para os dois volumes da minha Identificação de um país: oposição e composição.

Trata-se, portanto, de uma verdadeira tese, isto é da demonstração de um princípio interpretativo de um conjunto de dados históricos. A quase total ausência de estudos anteriores sobre o urbanismo português levou, porém, a Autora a traçar uma verdadeira história completa desse tema, suprindo assim a ausência de panorâmicas anteriores. Nas páginas destinadas ao enquadramento da sua «tese» expõe, com excelente conhecimento de causa, o «estado da arte» acerca de todos os problemas fundamentais do urbanismo medieval. Os futuros investigadores de questões afins dispõem assim de uma base segura acerca das questões fundamentais da sua área de pesquisa. Assim, por exemplo, acerca da diferença entre a cidade muçulmana e a cristã, Luísa Trindade não se contenta com o estereótipo habitual do plano desordenada ou mesmo caótico da primeira por oposição ao carácter ordenado ou geométrico do segundo. Procura as razões de tal diferença. Verifica que resulta da prevalência da casa familiar (normalmente com pátio) do mundo islâmico, e do processo de agregação e justaposição de novas casas de membros do mesmo clã, por um processo análogo ao da reprodução celular, por oposição ao plano ortogonal herdado dos romanos e ao plano alongado e estruturado por ruas paralelas, formando normalmente um conjunto rodeado por uma muralha. O modelo deste tipo, prevalecente nas regiões nortenhas, não possui inicialmente edifícios de governo. A igreja fica à margem, geralmente no topo do rectângulo formado pelo casario. Um dos elementos mais característicos da sua evolução é o aparecimento do edifício do concelho e as alterações que impõe ao plano inicial. Em alguns lugares, o plano altera-se devido ao aparecimento de bairros das duas minorias étnicas típicas da Península Ibérica, a judiaria e a mouraria. Em alguns casos o crescimento demográfico leva à construção de casas adossadas às muralhas; noutros a depressão demográfica cria vazios na malha dos lotes familiares. A fotografia aérea e o desenho topográfico mostram a quase uniformidade das dimensões dos lotes familiares e da largura das ruas. Esta regularidade torna-se indício dos padrões usados pelos agrimensores.

O excelente conhecimento da Autora da bibliografia especializada, em particular da espanhola e francesa, permite-lhe interpretar minuciosamente os dados seleccionados e explicar a par e passo o significado dos indícios materiais inscritos no plano e a sua relação com as conjunturas económicas, demográficas e políticas, quer as de carácter geral, quer as próprias dos casos estudados e analisados.

Enfim, na imensa torrente historiográfica actual, dominada por uma grande massa de monografias puramente descritivas e com âmbitos restritos, a tese de Luísa Trindade destaca-se em grande relevo pelo seu carácter abrangente, pelas suas virtualidades enquanto definidora dos vários níveis de importância dos fenómenos observados, como resenha de elementos significativos pela sua função estrutural, e como recolha de uma bibliografia especializada criteriosamente escolhida. A história do urbanismo medieval português começa realmente com ela.

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Referência electrónica:
MATTOSO, José – «Recensão» - TRINDADE, Luísa - Urbanismo na composição de Portugal. Tese de Doutoramento em Arquitectura apresentada à Universidade de Coimbra, Faculdade de Arquitectura, 2010. Medievalista [Em linha]. Nº11, (Janeiro - Junho 2012). [Consultado dd.mm.aaaa]. Disponível em http://www2.fcsh.unl.pt/iem/medievalista/MEDIEVALISTA11\mattoso1111.html.
ISSN 1646-740X.
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