on line

 

Número 1

EDIÇÕES ANTERIORES
Todos os números >>

DIRECTOR
Luís Krus
COORDENAÇÃO EDITORIAL
Pedro Chambel
Maria Adelaide Miranda


CONTACTO

Instituto de Estudos Medievais
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa
Av. Berna 26 C, 1069-061 Lisboa

ISSN 1646-740X

estudosmedievais@fcsh.unl.pt

 

 

 

ano 1 ● número 1  ● 2005


Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe na Raposeira*

Ana Maria de Passos Parente
IEM

 

* Excerto da dissertação de Mestrado de História da Arte - Escultura Figurativa na Arquitectura Religiosa do Algarve, na Baixa Idade Média, Lisboa, Universidade Nova de Lisboa - Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, 1987 .
Este estudo já tem perto de vinte anos e, entretanto, a Ermida já sofreu beneficiações, havendo mesmo, actualmente, uma vedação que limita o seu perímetro. Passou a ter guarda e horário de visitas.
Mas, quanto a nós, a grande alteração resulta do novo traçado da via que liga Vila do Bispo/Raposeira a Lagos. Esta estrada passa mais distante do templo e num plano mais elevado, destruindo a anterior visão de encantamento, da descoberta repentina numa curva do caminho.

 

I.   Localização e Leitura Formal

Nossa Senhora de Guadalupe na Raposeira é uma pequena ermida que se ergue num vale aberto, entre duas breves colinas, a pouca distância da Raposeira/Vila do Bispo, a norte da estrada que liga estas duas povoações a Lagos (Fot.1).

Passa despercebida por se encontrar um pouco para o interior em relação ao traçado da estrada e por os dois leves relevos que a envolvem, a ocultarem aos olhos dos passantes.

O acesso faz-se por um curto troço de estrada secundária, que termina no largo fronteiro à porta principal do templo (Fot.2).

De pequenas proporções exteriores, com aspecto sóbrio, onde o contraste da pedra[1], de cor característica, - no portal e degraus, no óculo, nos cunhais e contrafortes -, é realçado pela brancura da cal das paredes (Fot.3). Essa mesma pedra encontra-se espalhada nos terrenos circundantes.

O ingresso faz-se pelo portal que se abre na fachada principal, centrado, simples, de arco quebrado pouco acentuado, mas equilibrado (Fot.4).

O arco é formado por duas arquivoltas, sem qualquer tipo de decoração, sendo a interna saliente, de rebordo arredondado e, a externa, reentrante, como que negativo da primeira. Ambas se continuam nos pés direitos com as mesmas secções, dando origem, a interna, a uma coluna.

A leitura das arquivoltas e correspondentes pés direitos apenas é interrompida pelos dois capitéis que, embora apresentando decoração cordiforme, são diferentes.

O corpo do capitel do lado norte acompanha o movimento do pé direito, marcando, no entanto, a reentrância com menor amplitude e é encimado pelo ábaco a toda a largura, de moldura inferior em corda e a superior, escavada, com secção angular.

O capitel do lado sul está colocado apenas sobre a coluna e, no seu corpo, horizontalmente, aparece uma corda em relevo (Fot.5). O ábaco, à semelhança do capitel oposto, tem o mesmo motivo na moldura inferior e, na superior, apresenta aresta denticulada, semelhante a corda desgastada pela erosão. Continua-se o capitel numa pequena imposta, que acompanha a concavidade do pé direito e termina, exteriormente, por uma cabeça em relevo, de configuração arredondada, com boca, nariz, olhos e cabelos apontados. Inferiormente, sublinhando-a, e como que envolvendo um colunelo inexistente, surge um curto e curvo encanastrado (Fot.6).

Ao lado do saimel norte do arco encontra-se, à vista, uma pedra que, pela sua configuração, parece dar continuidade a algo que há muito já desapareceu.

Sobre o portal abre-se um pequeno óculo, de profundo enxalço, que circunscreve uma cruz em pedra, de braços iguais e centro vazado.

No interior a espacialidade é diferente. O templo parece mais amplo.

O portal, interiormente, apresenta-se de verga levemente abaulada (Fot.7).

O corpo do templo é formado por três tramos, marcados por dois largos arcos diafragma, que morrem a cerca de meia altura da parede e cujos ângulos chegam quase à cobertura de madeira (Fot.8). Têm rebordos, como que nervuras largas e grossas, que assentam sobre os capitéis lisos de uma espécie de mísulas (Fot.9). Estes capitéis alargam-se junto à parede, dando assento, igualmente, à pequeníssima espessura saliente dos arranques dos arcos, os quais, no exterior do templo, são sustentados por grossos contrafortes escalonados, perceptíveis na parede interior, a partir do nível inferior dos capitéis.

As nervuras dos arcos diafragma, tanto nos ângulos como no remate das arestas chanfradas dos seus perfis, apresentam pequenos elementos decorativos esculpidos (Fot.10).

Sobre o interior visível do contraforte do primeiro arco, do lado sul, encontra-se uma pia de água benta (Fot.11), circular, que se estreita ligeiramente na parte inferior. Esse estreitamento está sublinhado por uma finíssima aresta saliente, sobre a qual uma linha quebrada, igualmente fina e suave, circunda a pia. Entre dois dos espaços criados pela linha quebrada surgem, no mesmo tipo de relevo, uma cruz e uma circunferência.

No segundo tramo, ao lado da pia, abre-se uma porta para o exterior. Interiormente apresenta-se de verga abaulada e, exteriormente, de arco quebrado, com o ângulo pouco acentuado e de aresta chanfrada. Sem capitéis, continua-se pelos pés direitos, também chanfrados, interrompendo-se à altura de uma pequena imposta que, a poente contém um elemento decorativo, mais uma vez cordiforme (Fot.12).

A capela-mor, mais baixa, com arco triunfal quebrado, é de dois tramos, com cobertura de ogivas de nervuras espessas. Estas assentam em colunas incorporadas na parede até meio, com capitéis decorados. As três nervuras centrais, tanto de um lado como do outro, assentam em duas colunas colocadas a par, que, embora de bases e capitéis independentes apresentam socos e ábacos, moldurados, interligados (Fot.13 e Fot.14).

De cada lado do arco triunfal, e quase a ele encostada, encontra-se uma coluna, igualmente incorporada na parede, onde se apoia a nervura da ogiva, desempenhando a função que, quanto a nós, deveria pertencer ao próprio capitel daquele arco (Fot.15).

Todas as arestas das nervuras do arco triunfal, assim como do rebordo que se encontra no seu perfil, são chanfradas e terminam por um pequeno elemento decorativo em voluta.

As duas chaves do cruzamento das ogivas, decoradas, têm formas irregulares.

Circundando a capela-mor, interligando todos os ábacos, à excepção dos do arco triunfal, existe uma estreita imposta, saliente, de molduras.

No pano de parede do fundo, sobranceira à imposta, abre-se uma janela alta, de dois lumes, com arcos de volta perfeita.

Do lado sul, no pano de parede entre a coluna encostada ao arco triunfal e o par de colunas centrais, abre-se uma porta de comunicação com a sacristia, com arco quebrado, mas de feitura muito mais recente, visível no material utilizado.

 

II.  Leitura Decorativa

Além dos elementos decorativos já referidos, como sejam: no portal principal, as cordas, o encanastrado e o rosto; no óculo, a cruz de braços iguais e centro vazado; no portal lateral sul, mais um elemento em corda; e, por fim, na pia de água benta, a linha quebrada, a cruz e a circunferência; é, no entanto, nos capitéis e chaves da capela-mor que se encontra o maior programa decorativo.

Iniciamos a leitura pelos capitéis do lado norte e, assim, encontramos o primeiro (o do arco triunfal) e o segundo, que apresentam, nas arestas, elementos decorativos num só nível e que, embora carcomidos, parecem vegetalistas.

Os terceiro e quarto capitéis (os centrais) (Fot.16), continuam a ter decoração vegetalista na face anterior dos seus corpos: num, trata-se de uma haste horizontal com folhas carnudas, de nervuras assinaladas por fina aresta relevada; no outro, duas hastes cruzam-se, terminando em forma romboide, como folhas, com nervuras marcadas por arestas em cruz, sendo as intercepções e extremidades bem vincadas por pequenos orifícios.

O capitel seguinte apresenta longas folhas, recortadas e curvas, que saem dos ângulos do seu corpo (Fot.17).

A sul, as duas arestas do corpo do capitel do arco triunfal apresentam: de um lado, uma cabeça de bovino, com olhos, narinas, boca e chifres, bem definidos; e, do outro, um rosto humano sobre o comprido, com queixo pronunciado, olhos, nariz e boca, também bem assinalados (Fot.18).

O capitel seguinte, o segundo, é atravessado por uma folha oblonga de nervuras peniformes.

No corpo do terceiro capitel, em cada aresta, surge um rosto(?) ou máscara(?), envolvido por um modelado singular, trabalhado em três níveis, que sugere barba, ou elemento de vestuário ou armadura (Fot.13).

Dos vértices do quarto capitel, e sublinhando as arestas, nascem duas folhas de lóbulos arredondados e de recorte muito profundo (Fot.13).

As duas arestas do quinto capitel apresentam folhas bifurcadas, dispostas em dois níveis. Centrado na face anterior do capitel encontra-se um elemento circular, em relevo, de centro vazado e eixos oblíquos, sugerindo movimento de rotação (Fot.19).

As duas chaves, com formas muito irregulares, contêm vários elementos decorativos, mas só alguns são susceptíveis de leitura. Esta dificuldade deve-se principalmente ao estado do material.

Apenas uma apresenta elementos figurativos, antropomórficos (Fot.20). São três rostos, um voltado para o centro, com cabelo, colando o seu desenvolvido queixo a um outro pequeno rosto, redondo, com cabelo, olhos, nariz e boca, assinalados. Unindo as duas bocas existe um elemento, não identificável (língua?, fio?, fita?). A terceira face, redonda, colocada diametralmente oposta às anteriores, tem, boca, nariz e olhos, apontados. Da boca, bem aberta, sai uma forma longa (língua?) e fusiforme, com nervuras, que sugere uma folha ou um peixe. Outros elementos semelhantes, com nervuras em fino relevo, em espinhado ou em cruz, completam a composição da chave. No centro repete-se a forma discoidal, com eixos oblíquos, idêntica ao já mencionado num capitel.

A outra chave apresenta, exclusivamente, elementos carnudos e recortados.

Toda a decoração descrita, tanto vegetalista como figurativa, é extremamente fruste, agravada pela forte erosão que apresenta, para o que contribuiu, sem dúvida, a qualidade da pedra utilizada.

 

III.   Nossa Senhora de Guadalupe – Possíveis Origens do Seu Culto

A leitura integral que tentámos realizar deste monumento, não se cingindo apenas aos elementos figurativos representados, foi o resultado de uma necessidade sentida de articulação entre todas as formas encontradas.

Segundo a tradição, o culto de Nossa Senhora de Guadalupe, na Península, remonta à época visigótica, quando o Papa Gregório Magno, que lhe era muito devoto, enviou a imagem da Virgem ao Bispo de Sevilha, Leandro, por seu irmão Isidoro.

Quando da ocupação muçulmana, para que não houvesse profanação, enterraram essa imagem, tendo ela assim permanecido até ser reencontrada por um pastor, no século XIV[2], em condições ditas milagrosas.

O pastor tinha perdido uma vaca junto ao rio Guadalupe, perto de Cáceres, encontrando-a morta ao fim de três dias de buscas. Fez, como era costume, o sinal da cruz sobre ela, antes de a esfolar para aproveitar a pele, e, eis que o animal volta à vida. Simultaneamente apareceu-lhe Nossa Senhora, que o incumbiu de participar o facto aos padres da sua terra, para que, naquele local, onde escavando encontrariam a imagem, construírem um templo em sua homenagem.

O pastor, de regresso a casa, encontrou um filho morto e prestes a ser enterrado. Aos seus rogos dirigidos à Virgem novo milagre se produziu e o filho ressuscitou. Os padres presentes, testemunhas do facto e tomando conhecimento do que já se tinha passado, procederam segundo as indicações recebidas. Desenterraram relíquias, a imagem e uma carta explicativa das razões de se encontrar ali e qual a sua origem[3].

Nasce então uma pequena ermida que, depois da visita de Afonso XI, antes da batalha do Salado, em 1340, foi por ele protegida e transformada em grande centro de peregrinação, com mosteiro e instalações próprias, entregues, em 1389, aos Jerónimos[4]

Poderá ter sido a partir da batalha do Salado, onde Espanhóis e Portugueses, durante o reinado de D. Afonso IV, lutaram lado a lado como cruzados, e onde o rei português se empenhou pessoalmente, que o culto da Virgem de Guadalupe tenha entrado a nossa fronteira.

Há notícias de peregrinações dos nossos maiores ao grande Mosteiro do país vizinho, tanto no século XV como no século XVI[5].

Na época do Infante D. Henrique, encontram-se inúmeras referências à “Ermida, de Nossa Senhora de Guadalupe a única desta invocação no Algarve”[6], embora haja muitas espalhadas pelo país[7].

O nome de Guadalupe deve ter emanado após renovação do seu culto[8], como consequência do local da sua aparição que, segundo uns viria de Agua de lupe[9] ou augua de lupe[10] e, segundo outros, teria tido, embora não baseado em qualquer estudo etimológico, a seguinte evolução: “Agua de luceAgua de lupeAgualupeGuadalupe[11].

Numa das nossas deslocações de estudo à ermida da Raposeira, encontrámos um emigrante da terra, em oração, que nos testemunhou ser frequente, quando era jovem, ir em peregrinação a esta ermida, em anos de seca e noites de luar, com o povo da região, acompanhados pelos respectivos animais de ajuda no campo (mulas, cavalos, burros, vacas, etc.), pedir à Virgem a água que tanta falta lhes fazia. Enquanto os crentes entravam no templo, os animais mantinham-se no exterior, à porta.

 

IV.    História e Proposta Interpretativa

A este “objecto” que conseguiu resistir aos terramotos que assolaram a região[12], considerado monumento nacional, têm sido atribuídas diversas paternidades.

Todas as fontes o classificam como romano-gótico. Alguns pensam-no como pertença dos Templários[13], datando-o do século XIII. Para outros é contemporâneo do Infante D. Henrique[14]. Por último, Alberto Iria dá-o como provável do reinado de D. Fernando, chegando a atribuí-lo ao seu “mestre de pedraria” e “vedor de obras João Garcia Toledo” baseando-se numas iniciais encontradas na “mísula esquerda do primeiro arco”[15].

Adianta a possibilidade de ter sido mandada construir por algum “rico lavrador” ou “armador de pesca” que se tivesse libertado, assim como sua mulher e filho (baseando-se na chave da abóbada com três rostos), do cativeiro sofrido às mãos dos mouros.

São imensas as referências a esta ermida durante o longo período em que o Infante D. Henrique permaneceu na região, nela ouvindo missa e recolhendo-se[16], sem que nunca se afirmasse ter ele estado ligado à sua fundação.

Pela observação da obra e comparando-a com o que se fazia no País, em plena época gótica, parece impensável ter, este pequeno e retirado templo, as suas raízes nesse período e, ainda menos, que o Infante, Senhor tão poderoso, fosse o seu doador. No entanto não se exclui a sua intervenção, patrocinando alguma campanha de beneficiação ou restauro[17].

Pelo já exposto, poder-se-á considerar os meados do século XIV como ponto de partida para o seu possível surgimento.

Após observação atenta de todos os elementos, tanto decorativos como arquitectónicos, apenas a cobertura da capela-mor corresponde a uma característica do estilo gótico.

Tudo o resto nos leva a um românico sem tradição local, mas que, no passado, no Norte do País, tinha proliferado, assimilando nas suas formas decorativas, muitas persistências de fonte pré e protohistórica, que tinham permanecido como invariáveis culturais.

Foi esta singela ermida que, pelo seu conjunto, nos “obrigou” a recuar cronologicamente na época inicialmente proposta para o nosso estudo.

A predominância da corda (mais tarde recuperada pelos escultores manuelinos), elemento decorativo de grande predilecção dos celtas[18], surge aqui em profusão.

A cruz de braços iguais, inscrita, representada, no Norte, em várias igrejas românicas (como Santa Eulália de Arnoso); na própria Sé de Braga, no portal sul, etc., temo-la aqui, no óculo da fachada principal.

As formas circulares, (ancestralmente ligadas ao culto solar)[19] (Fot.21 e Fot.22), umas de eixos oblíquos como o da chave da abóbada e do capitel e, a outra, simples mas perfeita circunferência, na pia de água benta, assim como a linha quebrada[20], rítmica, que debrua a mesma pia, continuam o rol de elementos queridos aos celtas, retomados pelos homens do românico. Esses celtas que não foram exclusivos do Norte e, bem pelo contrário, tiveram implantação e permanência no sul, precisamente nesta região.

Parece reforçar esta linha de pensamento, da sobrevivência de formas, o grande gosto por esses rostos que proliferam, ora nos ângulos diedros dos capitéis, ora na chave da abóbada, ora no próprio portal principal.

Pela sua configuração e queixo exageradamente desenvolvido, são ainda a do capitel sul, do arco triunfal e um dos da chave, que mais se aproximam do esquema que deles faz SAXL e WITTKOWER[21], em obra comum.

Os outros rostos parecem, igualmente, poder entrar na comparação com reproduções encontradas[22].

As próprias chaves da abóbada que, pela irregularidade dos seus contornos, mais sugerem pedras recuperadas, não deixam de lembrar os discos de barro, da arte da primeira idade do ferro[23], onde os elementos se amalgamavam, tendo, como fim mágico, afastar possíveis malefícios. Aqui talvez desempenhem função de ex-votos, em especial a que contém os rostos[24].

Mesmo a cabeça de bovino representa uma tradição, tanto na arte celta como, mais tarde, na românica, embora o milagre de Guadalupe, ao torná-lo protagonista, justificasse a sua presença.



[1] Luis Pereira de SOUSA, O Terramoto do 1º de Novembro de 1755 em Portugal, vol I, Lisboa, Tipografia do Comércio, 1919.“A ermida de Nª. Sª. De Guadalupe, assenta sobre os grés triássicos, com a inclinação de 22º para S.O. e é construída com esses grés.”

[2] A data estimada para o acontecimento por Gaspar BARREIROS, na Chorografhia, Coimbra, 1968, folha 31, situa-se entre 1330 e 1340. Para Frei Agostinho de SANTA MARIA no Santuário Mariano, Lisboa, !707-1718, a aparição deu-se; umas vezes em 1240: Tomo IV, Lisboa, 1712, p. 202,  “appareceo pelos annos de 1240, pouco mais, ou menos, a Rainha dos Anjos a hum vaqueyro”; outras, em 1440: Tomo II, Lisboa, 1707, p. 266,  “E como a Senhora de Guadalupe se   manifestou em Hespanha pelos annos de 1440, pouco mais, ou menos” e ainda, no Tomo IV, Lisboa, 1712, p. 256, e Tomo V, Lisboa, 1716, p. 229.

 [3] Gaspar BARREIROS, “Nossa Senhora de Guadalupe” in Chorographia, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1968, folha 28 e seguintes.

 [4] Op. Cit. Nota 3 folha 33.

[5] Gaspar BARREIROS na sua Chorographia faz, inclusivamente, o rol das dádivas feitas pelos Portugueses à Virgem.Os seus nomes são citados também por:Almeida FORTUNATO, História da Igreja em Portugal, vol. I, Porto, Portucalense Editora, Sarl., 1967, p. 472. “O culto de Nossa Senhora, que excitou sempre a devoção dos Portugueses, recebia novas consagrações em toda a cristandade nos séculos XIV e XV. [...] Um dos mais notáveis santuários consagrados à virgem na Península era o da Santa Maria de Guadalupe, que atraía grande número de fiéis; lá foi D. Afonso V ao regressar de África”;e, “Assembleia Geral Ordinária de 20 de Julho de 1962”, Acta in Boletim-Academia Portuguesa da História vol. 26, 1962, p. 103. Nesta acta consta que Alberto Iria “citou o regresso dos expedicionários do desastre de Tânger (1437) que foram em romaria a Guadalupe”; e, na p. 105 “em  romaria ou não, ao Santuário de Guadalupe, pagaram as suas promessas ou votos: D. Afonso V, D. Manuel I, Afonso de Albuquerque, D. João III, Nuno da Cunha, D. Sebastião.”

 [6] “Assembleia Geral Ordinária de 20 de Julho de 1962”, (Acta) in  Boletim-Academia Portuguesa de História vol. 26, 1962, p. 103: “O Senhor Dr. Joaquim Alberto Iria diz o seguinte: relativamente à Ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, na Raposeira, a única dessa invocação existente no Algarve [...]”

 [7] Encontram-se muitas referências a Imagens de Nossa Senhora de Guadalupe no Santuário Mariano [op. cit., nota 2], mas não consta a da Raposeira.

 [8] Fr. Agostinho de SANTA MARIA, Santuário Mariano Tomo IV, Lisboa, 1712, p. 203 “Cavando no mesmo em que a vaca estava morta, descubrirão nelle huma Imagem sua; & que lhe edificassem nelle huma casa, aonde ella fosse servida, & buscada de todo o mundo. Fez-se isto como a Senhora mandou, & se descubrio a Imagem da Senhora, a quem derão o titulo do mesmo lugar do seu aparecimento. [...] Estes são em breve os principios da Senhora de Guadalupe, & não de Agua de Lupe, como alguns erradamente dizem, & esta he a origem deste celebre titulo.”

 [9] Monumentos Henricina vol. VII (1439-1443), Coimbra, 1965, p. 104.

 [10] Gomes Eanes ZURARA, Crónica dos Feitos da Guiné, vol. II,  Lisboa, 1949, p. 242: “Dos outros Mouros que filharam en Tider, envyarom Lançarote e os outros capitães, [...] e a Santa Marya de augua de Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos”.Repetido por Mário MARTINS em Peregrinações e Livros de Milagres na Nossa Idade Média, Coimbra, 1951, pp. 66 a 68: “V – Peregrinações a Nossa Senhora, no séc. XV [...]Pescadores e marinheiros faziam promessas a algum santuário da Mãe de Deus. E assim, escreve Zurara que Gil Eanes, Lançarote e outros capitães, de volta da Ilha Tider, mandaram um escravo para se vender, a Santa Marya da augua da Lupe, hua ermida que está naquelle termo de Lagos.” 

[11] Serafim CRUZ, Senhora de Guadalupe: Bosquejo Histórico da Ermida de Águas Santas – Maia, Porto, 1973, p. 25: “Que quer dizer «Guadalupe». Não tenho qualquer contribuição filológica sobre este interessantíssimo assunto. O nosso povo, por vezes simplificador em assuntos de etimologia, diz «Agua de Lupe». Será «Lupe» a contrafacção de «lúcida»? [...] «Lupe» seja a contrafacção de lúcida, límpida, saborosa, pura, água santa, [...]Não estou, reafirmo, documentado para essa afirmação, positiva. Mas é de admitir esta ginástica vocabular: Aguadeluce - Água de Lupe – Agualupe – Guadalupe.”

 [12] Op. cit., nota 1Pereira de SOUSA transcreve o que diz Silva LOPES na Corografia ou Memória Económica, Estatística, e Topográfica do Reino do Algarve, Lisboa, Academia das Sciências, 1841, pp. 218/219: “Raposeira, aldeia pequena e pobre, da qual só 13 casa ficarão de pé, e essas arruinadas pelo terramoto, tendo então 90 fogos [...] Entre esta aldeia e a Figueira, pouco distante na estrada a N., está a igreja de Nª. Sª. Da Guadalupe, mui antiga e que se diz foi dos Templários, a qual nada sofreo no terramoto”;e, Augusto Soares d’ Azevedo Barbosa de Pinho LEAL, em Portugal Antigo e Moderno vol. I, Lisboa, Livraria Editora de Mattos Moreira e Comp., 1873, p. 51:Esta egreja [N. S. Da Guadalupe] e umas casas que lhe ficam próximo, nada soffreram com o referido terramoto [1755], o que o povo attribui a milagre da Senhora.”

 [13] Em Portugal Antigo e Moderno, op. cit. na nota 12.“Ente Rapozeira e a Aldeia da Figueira está a egreja de Nossa Senhora de Guadalupe, muito antiga, e que consta ter sido dos Templários”;e, no Guia de Portugal II vol., Lisboa, Biblioteca Nacional, 1927, p.310: “A sua construção [de Nª.Sª. de Guadalupe] deve datar do séc. XII, e já no reinado de D. Dinis se lhe encontram referências; é possivelmente fundação dos Templários.” 

[14] Op. cit., nota 1“Julga-se que esta ermida foi mandada fazer pelo infante D. Henrique.”

 [15] Op. cit., nota 6, p.104.

 [16] Alberto IRIA, Itinerário do Infante D. Henrique no Algarve, Faro, 1960, p. 19.

 [17] Em algumas nervuras e pormenores decorativos – de caracter aparentemente vegetalista -, que se encontram no limite da chanfradura das aduelas de fecho dos arcos diafragma, assim como as pequenas volutas de remate da chanfradura dos saiméis dos referidos arcos e do triunfal, manifestam uma finura de execução que não tem correspondência nos outros elementos decorativos já descritos. 

[18] Fernando de ALMEIDA, Arte Visigótica em Portugal, Lisboa, 1962, pp.40, 87.

 [19] Joseph DECHELETTE, Manuel d’ Archeologie – Pré Historique, Celtique et Gallo-Romaine II – I Partie : Age du Bronze, Paris, Auguste Picard, Editeur, 1924, pp. 458/459. Encontramos aqui o que o autor designa por a “ arbre geneologique des signes solaires”. Reunindo os principais derivados da roda: círculos, cruzes, estrelas, suásticas curvilíneas e rectilíneas, espirais, sinais em «S». Tendo sido quase todos utilizados como representação do Sol, desde a Idade do Bronze.O símbolo com o número 15, é bem a esquematização do elemento decorativo presente tanto na chave como no capitel de Nossa Senhora de Guadalupe.

 [20] Aarão de LACERDA, História da Arte em Portugal, Porto, Portucalense Editora, Sarl., 1942, p. 42;e, ainda“Ermida de Nossa Senhora de Nossa Senhora de Guadalupe  (Vila  do Bispo)” in Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, nº 82, 1955, pp. 30/31. A “pia de água benta, curioso exemplar da arte rudimentar de algum ignorado lavrante [...] É feita de um calcário rijo.A sua forma é singularíssima e a sua ornamentação constituída por traços relevados, numa cruz e em arruelas, não destoaria numa ardósia pré-histórica.” 

[21] SAXL e WITTKOWER, British Art and the Mediterranean, London, Oxford University Press, 1948. No ponto 3. deste trabalho os autores estudam “The Human Face in Celtic Art” 

[22] F. CABROL E H. LECLERQ, “Celtique (Art)” in Didtionnaire d’ Archeologie Chrétienne et de Liturgie, II Tome, II Partie – C., Paris, Létoosey et Ané, Editeurs, 1913, pp. 2933 a 2935. As figuras 2311, 2312 e 2313 reproduzem portais de igrejas numa fase já adiantada da arte celta, mas onde são visíveis as tendências pré-históricas e em que esses rostos aparecem em capitéis, aduelas e mesmo como chave de arquivolta.Não deixa de ser curiosa a ilustração 2314, da página 2935 (embora não para este estudo), que reproduz um capitel de Inchagolle, onde aparece um rosto com uma corrente na boca. Seria um modelo perfeito para os escultores manuelinos aplicarem, e, possivelmente, falar-se-ia na representação de um escravo a ferros. 

[23] Alguns exemplos encontrados no sul de Itália, uma cultura mediterrânica, encontram-se reproduzidos na obra já citada na nota 18, no volume referente ao Premier Âge du Fer ou Époque de Hallstatt, Paris, Editions Auguste Picard, 1927, p. 374. 

[24] Se se confirmasse a hipótese levantada por Alberto IRIA, na obra citada na nota 6, quando o autor fala sobre a construção da ermida, querendo ver, nessa chave, a representação dos três elementos de uma família, que teria escapado ao cativeiro às mãos de mouros e, pelo facto, erigindo o templo em acção de graças.