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Instituto de Estudos Medievais
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa
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ISSN 1646-740X

estudosmedievais@fcsh.unl.pt

 

 

 

ano 1 ● número 1  ● 2005

◄◄ [INDICE]

O Gharb al-Andalus em dois geógrafos árabes do
século VII/XIII: Yâqût al-Hamâwî e Ibn Sa‘îd al-Maghribî

António Rei 
Bolseiro  FCT
Instituto de Estudos Medievais / FCSH - UNL


Introdução

A geografia árabe não é muito conhecida em Portugal, mesmo aquela que descreve a Península Ibérica, e principalmente, as descrições árabes do espaço hoje português.

Além de algumas traduções parciais e pontuais, do punho de David Lopes[1], e, mais recentemente, de José D. Garcia Domingues[2], dispôs-se apenas, ao longo das últimas três décadas, do inserido na antologia Portugal na Espanha Árabe, organizada por António Borges Coelho[3].

Se as primeiras têm a virtude de serem traduções obtidas directamente dos textos árabes, e por vezes de autores menos conhecidos e explorados, a última coligiu as três principais, e mais substanciais, fontes geográficas árabes então conhecidas sobre o ocidente peninsular, e que eram:

 o texto tradicionalmente atribuído a al-Râzî [4], o de al-Idrîsî [5] e o de al-Himyarî [6].

Mas o panorama sobre os autores árabes que escreveram sobre al-Andalus é muito mais vasto sendo de toda a urgência que o mesmo se amplie, pois a ausência de novos textos em língua portuguesa tem tornado, no contexto geográfico, o discurso um pouco gasto e repetitivo.

Assim, escolhêmos dois autores do século VII da Hégira / XIII d. C., Yâqût al-Hamâwî e Ibn Sa‘îd al-Maghribî, para uma primeira contribuição ao panorama em questão. Apenas pontualmente traduzidos para português pelos dois arabistas atrás identificados, poderemos considerá-los como ‘praticamente inéditos’.              

           Apresentamos aqui a totalidade das informações que ambos redigiram sobre o espaço português.

Autores mais tardios, é certo, têm, no entanto, as suas obras, a vantagem de poderem ajudar à reconstituição de fontes mais antigas, parcialmente ou totalmente desaparecidas, como são os casos de al-Râzî, al-‘Udhrî [7] e al-Bakrî [8].

Yâqût al-Hamâwî é anterior a Ibn Sa‘îd al-Maghribî, embora ambos tenham composto as suas obras no século VII / XIII, o primeiro um monumental dicionário geográfico do mundo então conhecido; e o segundo duas obras, uma antologia poética, com introduções de tipo geográfico, um verdadeiro tratado de geografia.

Optámos por uma tradução que tentasse seguir tanto a letra como o espírito dos textos em causa.

**********

Abû cAbd Allah Yâqût ibn cAbd Allah al-Hamawî

(Ásia Menor, 575/1179 - Alepo, 626/1129)

 

Vida

Nascido na Ásia Menor, cerca de 575 / 1179, foi capturado em jovem e levado a Bagdad, onde foi vendido. O seu amo, um rico mercador, reconhecendo os seus dotes de inteligência, permitiu-lhe que se dedicasse aos estudos. Em 596 / 1199-1200 obtém a sua liberdade. Nas inúmeras viagens que realizou a partir de então, e nas leituras que fez, recolheu informações que lhe serviram para, na segunda metade da década de 1220, compor o seu famoso Dicionário Geográfico, o Mu‘jam al-buldân. Veio a falecer em Alepo, em 626 / 1129[9].

O Dicionário Geográfico  “Mu‘jam al-buldân”

Tendo escrio esta obra na fase final da sua vida, entre 1225 e 1229, é, sem dúvida, uma fonte para todo o mundo islâmico, no início do século VII da Hégira / XIII da Era cristã.

Tem ainda a particularidade, de extrema importância, de procurar clarificar e fixar as grafias dos topónimos tratados ao longo do Dicionário, para tentar acabar com confusões.

Para al-Andalus, recupera topónimos que proviríam de obras desaparecidas, na totalidade ou em parte, como de al-Râzî, ou al-Bakrî, entre outros. A sua fonte textual andalusî foi Ibn Ghâlib. [10]

 

Referências bibliográficas

- Yâqût, Mucjam al-buldan, ed. Beirute, 2ªed., 7 vols., Dâr Sâdir, 1995.

- trad.parc.espanhola  de  Gamal  cAbd  al-Karim (GAK), “La  España  Musulmana  en  la Obra de Yaqut (S. XII-XIII)”, Cuadernos de Historia del Islam (CHI), 6 (1974), Univ.de Granada.

- José António Rodriguez Lozano (RL), “Nuevos Toponimos Relativos a al-Andalus en el Mu‘jam al-Buldân de Yâqût”, CHI, 8 (1977), pp.57-84.

- R.Blachère, “Yakut”, Encyclopédie de l’Islam, 1ª ed., V vols., Leyden-Paris, 1908-1938, vol. IV, p. 1153.

**********

 

Mu‘jam al-buldân

Âlîsh ( melhor [Âlbash] > Elvas )

Com i no lâm, sem vogal e shîn com pontos. Cidade em al-Andalus. Entre ela e Badajoz, um dia. (Ed.: I, p. 56 ; trad.GAK, p. 61)

Akhshânba ( Ocsónoba - I )

Com a; depois ausência de vogal ; a no shîn com pontos; nûn sem vogal e com um só ponto. É uma região em al-Andalus. Imensamente conhecida pela abundância dos seus bens naturais. Entre ela e Silves são seis dias; e entre ela e Lepe (1), três dias. (Ed.: I, p.123; trad.GAK, p.63)

 

NOTA

     1. Lepe, povoação da província andaluza de Huelva.

 

Arûn ( melhor [Arûsh] > Aroche)

Com a e depois u, a wâw sem vogal; e nûn. Zona agrícola de al-Andalus, pertencente aos distritos fiscais de Beja. O seu linho excede o linho corrente em al-Andalus. (Ed.: I, p. 164; trad.GAK, p. 67)

 

Ushbûna  ( Lisboa - I )

É uma cidade de al-Andalus, também chamada Lashbû­na. Limita com Santarém perto do Mar Envolvente [Oceano Atlântico]. Existe nas suas costas um âmbar excelente.

Diz Ibn ­Haw­qal :“Encontra-se na desembocadura do rio de Santa­rém, em direc­ção ao mar.”(1)  Diz ainda : “Da foz do rio que é em Almada, até Lisboa, e daí a Sintra, são dois dias.”(2) (Ed.: I, p. 195; trad.GAK, pp. 69-70)

NOTAS

      1. Não foi detectada esta passagem na edição de Ibn Hawqal que utilizamos, Kitâb Sûrat al-Ard (Liber Imaginis Terrae, ed.J.H. Kramers, col. B.G.A.,vol.II, Leiden, 1967). Provirá possivelmente de um outro manuscrito do texto de Ibn Hawqal (geógrafo e viajante oriental do século X, cf. ob.cit.).      2. Na p. 115 da edição referida na nota anterior, a passagem aparece como segue : “[...]Da foz do rio até Lis­boa, um dia, e de Lisboa a Sintra, dois dias[...]”.

Al-Andalus

Al-Andalus [...] estende-se do limite da Galiza até à kura de Santarém, [daí] até Lisboa [e] até Jabal al-Ghûr e demais cidades que vão até Gibraltar [...](1).

O segundo lado (2) [...] [segue, depois da foz do Guadalquivir] para a ilha de Saltes, o rio Guadiana, Tavira, Santa Maria (3), Silves e daqui gira em direcção a Lisboa e Santarém, regressando depois ao Cabo de S.Vicente (4) , em frente a Silves, podendo o mar ser cortado entre Silves e o Cabo de S. Vicente, por uma distância de cinquenta milhas. Lisboa, Sintra e Santarém estão à direita de um alfoz. O Cabo de S. Vicente é um monte que se eleva entrando pelo mar cerca de quarenta milhas, onde se ergue a famosa Igreja dos Corvos.  Em seguida, abandonando o Cabo de S. Vicente, junto ao Mar Circundante (5), passa-se pelo alfoz de Arrifana, pelo alfoz de Mira (6) e cruzam-se aquelas regiões inflectindo para norte. 

                        (Ed.: I, pp. 272-274; trad.GAK pp. 91-97)

 

NOTAS Preliminar

       Esta notícia consta de excertos relativos ao espaço do ocidente peninsular, constantes na entrada em que Yâqût descreve a forma, e os limites extremos da Península Ibérica.

         1. Nesta relação de limites este Jabal al-Ghûr (Montanha das Profundezas; das Cavernas), talvez se relacione com as costas alcantiladas da zona de S. Vicente e Sagres.

         2. Esta parte é extraída da descrição do segundo lado do ‘Triângulo’, forma atribuída à Península Ibérica, que os autores árabes recorrentemente citam, as Crónicas do Mouro Rasis e Geral de Espanha de 1344 retomam, e que remonta pelo menos a Paulo Orósio de Braga.

        3. No texto:  Shantara (que a ser certo seria ‘Sintra’), por  Shantamariyya, nome por que era conhecida Faro. Trata-se, portanto, de um evidente lapso de copista, devido à semelhança gráfica entre os dois topónimos em árabe.

        4. No texto Taraf al-‘Urf. Ou esta designação está correcta donde ‘o extremo do promontório’, ou então seria uma confusão entre ‘urf  e gharb, que em árabe têm formas gráficas muito idênticas. Neste último caso teríamos ‘o extremo do ocidente’.

         5. Designação recorrente para ‘Oceano Atlântico’ (em árabe al-Bahr al-Muhît), que encontraremos também noutras notícias, também mesmo em outros autores árabes.

         6. No texto Hawz al-Madra. A grande semelhança na grafia árabe entre Madra e Mîra, e o facto daquela se situar a norte do Alfoz de Arrifana, o qual englobaria sensivelmente os actuais concelhos de Lagos, Vila do Bispo e Aljezur, leva-nos a fazer aquela leitura. Seria o alfoz da região de Odemira, ou Hawz al-Mîra. Ainda sobre esta questão, v. infra ‘al-Wadhra’.

 

 

 

Akshûniya ( Ocsónoba - II )

 

Com a no hamza; kâf sem vogal; e u no shîn com pontos; wâw sem vogal; i no nûn; e ligeira. Cidade no al-Andalus cujas dependências ligam com as de Lisboa. Está a ocidente de Córdova. É uma cidade com inúmeros bens terrestres e marítimos. No seu litoral encontra-se um âmbar superior, que nada deve ao da Índia (1). (Ed.: I, p. 240; trad.GAK, p. 82)

 

NOTA

      1. Sobre a questão do âmbar nas costas do Algarve, ver Adel SIDARUS e António REI,  “Lisboa e o seu termo segundo os Geógrafos Árabes”, Arqueologia Medieval 7 (2001), Mértola / Porto, CAM / Afrontamento, pp. 37-72, especialmente o Apêndice I : “Sintra ou Santarém (âmbar  e maçãs), pp. 69-70. Sobre tradições textuais envolvendo esta passagem nesta notícia sobre Ocsónoba, v. António REI, Memória de Espaços e Espaços de Memória - de al-Râzî a D.Pedro de Barcelos, pp.124-125.

 


Bashîla ( ? )

 

Um dos distritos de Ocsónoba, em al-Andalus. (Ed.: I, p. 429;trad.GAK, p. 120)

 

Al-Jawf ( ? )

 

Território baixo ou avançado no mar, no ocidente de al-Andalus, sobre o Mar Circundante. E é também, um dos distritos de Ocsónoba, de al-Andalus.

(Ed.: II, p. 188; trad.RL, pp. 66-67)   

 

Dimyâna ( ? )

 

Com i na sua primeira letra; com ausência de vogal na segunda; e com dois pontos em baixo; e depois  alif e nûn. Um dos distritos de Ocsónoba, em al-Andalus.   

            (Ed.: II, p. 475; trad.GAK, p. 163)

 

Rujîna ( ? )

 

Com u na sua primeira letra; com i na segunda; e depois da com dois pontos em baixo e sem vogal, nûn. Distrito de entre os distritos de Beja, em al-Andalus.

             (Ed.: III, p. 30;trad. GAK, p. 166)

 

 

Al-Zâwiya ( Lagos )

 

Um dos distritos de Ocsónoba, em al-Andalus. (Ed.: III, p. 128; trad.GAK, p. 172)

 

Al-Sand ( ? )

 

Com a na primeira letra, e sem vogal na segunda. Assim o encontrei na escrita de alguém da gente de Granada, atribuível a ele, em caligrafia de al-Andalus, exactamente. E diz: “É do distrito de Beja”. (Ed.: III, p. 268; trad.GAK, p. 186)

 

NOTA

Preliminar

           Gamal ‘Abd al-Karîm lê “al-Sanad”. Será esta a vocalização presente na edição de Yâqût feita por F. Wüstenfeld, e que G. ‘Abd al-Karîm usou como base para a sua tradução castelhana.         


Al-Sahl ( ? )

 

Como o contrário de difícil (1). É um dos distritos fiscais de Beja.   

                (Ed.: III, p. 290; trad.GAK, p. 187)

 

NOTA

1. Em árabe ‘sahl’, significa também ‘fácil’, daí a explicação do autor.

 

Sharq ( ? )

 

Com a pronúncia de “Oriente” contrário de “Ocidente”.  [...] Distrito de Beja [...] em al-Andalus. (Ed.: III, p. 337; trad.RL, p. 73)

 

Shaqabân ( Sacavém )

 

É um dos povoados de Lisboa, a oriente dela. Relaciona-se com ela Taytal ibn Ismâ‘îl al-Saqabânî, de quem há alguma poesia (1).

(Ed.: III, p. 354; trad.RL, p. 73)

 

NOTA

       1. Este poeta e místico da região de Lisboa, depois de ter vivido e estudado em Córdova, veio, mais tarde, a escolher a zona da albufeira de Sacavém para seu local de retiro espiritual, tendo lá edificado uma arrábida ou azóia. Lá permaneceu, até ao fim dos seus dias, dedicando-se às práticas espirituais. A sua fama perpetuou-se, tendo a arrábida ficado conhecida, durante bastante tempo, como a Arrábida de Taytal (cf. al-Dabbî, Bughya, nº 1212 ; al-Humaydî, Jadwa, nº 294 ; al-Marrâkushî, Dhayl, V/1, nº 390; e Ibn Sa‘îd, Rayât [ed.E.Garcia Gomez], nº 39.

A memória daquela arrábida ou azóia terá permanecido até hoje na região, concretamente no topónimo Azóia, próximo de Stª Iria da Azóia.

 

 Shilb ( Silves )

 

            É uma cidade no ocidente de al-Andalus. Entre ela e Beja, são três dias. Está a oeste de Córdova. É a capital do distrito administrativo de Ocsónoba. E entre ela e Córdova são dez dias para o cavaleiro veloz. Fui informado de que não há em al-Andalus, para lá de Sevilha, outra [cidade] como ela. Entre ela e Santarém, são cinco dias. Ouvi dizer a muitos: “ Poucos serão aqueles entre a sua gente que não digam poesia e não se interessem pela cultura. E se passares por um agricultor detrás da sua junta de bois, e lhe sugerires um mote, glosá-lo-á na hora [e de forma correctíssima]”(1). 

 (Ed.: III, pp. 357-8; trad.GAK, pp. 200-1)

 

NOTA

1. Esta passagem relativa à grande capacidade de improvisação poética dos habitantes de Silves e sua região, encontra-se também noutros autores árabes, como al-Idrîsî (Nuzhat al-Mushtâq (ou Kitâb Rujjâr), ed. E. CERULLI et all., Opus Geographicum, IX  fascl., Napoles‑Roma, IUON‑IIMEO, E.J.Brill, [Leyden], 1975, f.V, p. 543;  trad.parc. portug. J.P. MACHADO, “A Península Hispânica segundo um Geógrafo Arábico do Séc. XII” Boletim Soc. Geografia de Lisboa, nº1‑3, 1964, pp. 17‑53, p. 27), al-Himyarî, (al-Rawd al Mi‘târ, ed. IHSÂN ‘ABBÂS, 2ªed., Beirute, Nasser Foundation for Culture, 1980, p.342; trad. parc. francesa E. LÉVI-PROVENÇAL, La Péninsule Ibérique au Moyen Âge d’après le “Kitâb rawd al-mi‘târ fi habar al-aktâr” d’Ibn ‘Abd al-Mun‘im al-Himyarî, Leiden, E.J.Brill, 1938, p. 129), e al-Qazwînî (Âthâr al-bilâd, ed. Beirute, Dâr Sâder, 1380/1960, p.541; trad.parc.cast. Fátima ROLDÁN, El Occidente de al-Andalus en el “Âthâr al-bilâd” de al-Qazwînî, Sevilha, Alfar, 1990, pp. 119-121).  

 

Shantara ( Sintra )

 

Com vogal a e depois ausência de vogal, e com dois pontos encima e sem qualquer ponto diacrítico. Cidade dos distritos fiscais de Lisboa, em al-Andalus. Diz-se: Nela há maçãs, em que o perímetro de cada maçã é de três palmos (1). Deus sabe se isso é verdade. Está agora em poder dos cristãos, que a conquistaram no ano 543 (2).

  (Ed.: III, p. 367; trad.GAK, p. 209)

 

NOTAS

      1. Sobre as extrordinárias maçãs de Sintra, v. Adel SIDARUS e António REI, “Apêndice I - Sintra ou Santarém (âmbar e maçãs)”, do trabalho Lisboa e o seu Termo, nos geógrafos árabes, Actas do Colóquio «Lisboa - Encruzilhada de Muçulmanos, Judeus e Cristãos» / Arqueologia Medieval 7, Mértola/Porto, CAM/Afrontamento, 2001, pp. 37-72, p. 69-70 . Para a medida do “palmo”, ver Joaquín VALLVÉ, “Notas de metrologia hispano-árabe - El codo en la España musulmana”, Al-Andalus XLI (1976), pp. 339-354.

      2. A partir desta referência cronológica, que precisa de ser confirmada, a Sintra islâmica teria ainda resistido, no mínimo, mais sete a oito meses à conquista cristã, após a queda de Lisboa (21 de Outubro de 1147), pois o ano de 543 iniciou-se em 22 de maio de 1148 (G.S.P. FREEMAN-GRENVILLE, The Muslim and Chistian Calendars, Londres, Oxford University Press, 1963, p. 31).

 

Shantarîn ( Santarém )

 

(Trata-se de) duas palavras articuladas : shanta, uma palavra, e rîn (outra palavra), como se explicou anteriormente  (1). (Em) rîn o é vocalizado com i ; (sendo)o (mesmo) com dois pontos (em baixo); e (no fim há) nûn. É uma cidade com dependências fiscais confinando­ com as dependências de Beja, no ocidente de al-Anda­lus, para oeste de Córdova. Está situada junto ao rio Tejo, perto da sua desem­bocadura no Mar Circun­­dante.

É inexpugnável. Entre ela e Córdova, são 15 dias ; e entre ela e Beja, são 4 dias (2).

Ela agora é dos cristãos, tendo sido dominada no ano de 543 (3).

                                 (Ed.: III, p. 367; trad.GAK, p. 209)

 

NOTAS

      1. O autor refere ao artigo anterior sobre Shanta Ulâlyâ no leste peninsular (tex., p.366; trad., p. 208).

      2. Todo este § está ausente da tradução de Gamal ‘ABD AL-KARÎM.

      3. Algum erro de leitura se terá dado aqui pois a conquista de Santarém, em 15 de março de 1147 sucedeu ainda no ano islâmico de 541, e não no de 543 (> 1148/49) (cf. G.S.P. FREEMAN-GRENVILLE, ibidem ). Esta informação provirá de Ibn Ghâlib, o qual, no relativo à conquista cristã, tratou numa mesma passagem Lisboa, Sintra e Santarém. Yâqût decompôs essa passagem em tantas partes quantas as localidades referidadas. Para a Lisboa de Ibn Ghâlib, e para Lisboa e Sintra de Yâqût, v. Adel SIDARUS e António REI, ob.cit.

 


Shîrûsh  ( Xira [Vila Franca de]  ? )

 

        A sua parte primeira é como a do que a antecede: [ com i, depois sem vogal, e ]; depois wâw, e no fim outra shîn.  É um dos distritos de Santarém, em al-Andalus.      

                          (Ed.: III, p. 383; trad. GAK, p. 213)

 

NOTA

Preliminar

          Para esta identificação toponímica baseámo-nos apenas na semelhança fonética e na proximidade geográfica a Santarém.

 

Al-Sakhra ( ? )

 

        Com a pronúncia de um pedaço de rochedo pétreo. É um dos distritos de Ocsónoba em al-Andalus. (Ed.: III, p. 395; trad.RL, p.74)

 

 

Sakhra Haywa ( ? )

 

       Região no Ocidente de al-Andalus. (Ed.: III, p.395; trad.GAK, p.214)

                                

Saqlab ( antiga Scallabis )

 

          Vogal a (para a primeira consoante); ausência de vogal (para a segunda); vogal a para o lâm; e no fim do nome (temos) um com um só ponto [...] (1). E Saqlab (encontra-se) também em al-Andalus. Um dos distritos fiscais de Santarém. A sua terra é excelente. Diz-se que um makkûk quando semeado nessa terra, rende, para além dele, 100 cafizes e [ainda] mais (2). (Ed.: III, p. 416; ausente das trad.castelhanas)

 

NOTAS

Preliminar

      As citadas traduções espanholas não referem esta notícia, apesar de a conhecida compilação levada a cabo por ALEMANY BOLUFER, «La Geografia de la Península Ibérica en los autores árabes», Revista del Centro de Estudios Historicos de Granada y su Reino, (1919-21) a ter identificado (cf. D. LOPES, NATP, p.190).

     1. Se esta vocalização, segundo o autor, corresponde ao habitat dos  Eslavos no leste europeu, para a Hispânia, o esqueleto consonântico SQLB permitiria a leitura Saqallab (< Scallabis).

     2. O makkûk na Ásia Menor no século XII oscilaria entre os 41,75 kg e os 46,38 kg . O cafiz, também naquela região equivalia a 47,15 kg, ou seja, um valor idêntico ou ligeiramente superior (cf. E. ASHTOR, “Makâyil et Mawâzîn”, E.I.2, T.VI, 115-20). Cem cafizes seriam, assim, cerca de 4715 kg. Reproduzindo-se, de uma outra maneira, e em relação a outras unidades métricas, o mesmo índice de fertilidade mediana de 100 / 1 ou um pouco mais, que também aparece em al-Idrîsî (cf.ed.Napoles-Roma (1975), pp. 549-550; trad.J.P.MACHADO (1964) , pp.31-32), e reaparece em al-Himyarî (cf.ed.I. ‘ABBÂS(1980), p. 346; trad. LÉVI-PROVENÇAL (1938), p.139) e no Dhikr Bilâd al-Andalus...(cf. Luis MOLINA, Madrid, CSIC (1983): ed. p.53; trad. pp. 58-59).

      


Tabîra ( Tavira )

 

         Com a; depois com i; depois com com dois pontos em baixo; e . Pequeno povoado em al-Andalus. (Ed.: IV, p. 21; trad.GAK, p. 217)

 

Tartânash ( ? )

 

          Com a; depois sem vogal; repete o ; depois de alif , vem nûn; e no fim shîn pontuada. Zona agrícola (nâhya) de al-Andalus, pertencente aos distritos de Ocsónoba.

               (Ed.: IV, p.29;trad. GAK, p.217)                       

 

Tartawânsh ( ? )

 

          Com a; depois sem vogal; outra ; depois wâw; depois do alif, nûn e shîn pontuada. Um dos distritos de Beja, em al-Andalus. (Ed.: IV, p. 30; trad.GAK, p. 217)

 

Targhalla ( ? )

 

         Com a no princípio; sem vogal na segunda; a no ghain com ponto; e a no lâm intensificado. Cidade em al-Andalus, dos distritos de Ocsónoba. (Ed.: IV, p. 31; trad.GAK, p.220)

 

        

Tutâliqa ( Toutalga )

 

       Com u na sua primeira; sem vogal na segunda; depois outro ; e depois alif, e lâm com i; e qâf.  Pequeno povoado em al-Andalus, pertencente ao distrito de Beja, onde há uma mina de prata pura. (Ed: IV, p. 50; trad.GAK, p. 227)

 

NOTA

Preliminar

        Topónimo identificado na Serra da Adiça, concelho de Moura (cf. Cláudio TORRES, “Povoamento antigo no Baixo Alentejo. Alguns problemas de topografia histórica”, Arqueologia Medieval nº 1(1992), Mértola / Porto, CAM / Afrontamento, pp.189-202, p.189; e REPORTÓRIO  TOPONÍMICO  DE  PORTUGAL, Lisboa, Ministério do Exército, III vols., 1967, vol.III, p.117: ‘Ribeira de Toutalga’. 

      Acresce que tal topónimo ocorre na Serra da Adiça, sendo ‘adiça’, do árabe al-dîsa > “o trilho ou a passagem subterrânea” (Federico CORRIENTE, Diccionário Árabe-Español, 2ªed., Madrid, IHAC, 1986, p. 262), daí o sentido de ‘mina’, enquanto ‘galeria do subsolo’, corroborando a actividade mineira da região.     

 


Al-Fahs ( Alferce )

 

          É um dos distritos de Ocsónoba.     (Ed.v.IV, 227; trad.GAK, 229-30)

 

NOTA

Preliminar

       Este topónimo foi muito recentemente correlacionado com a povoação de Alferce, no actual concelho de Monchique (cf. Abdallah KHAWLÎ, “Quelques réflexions sur l’histoire de l’Algarve pendant les premiers siècles de l’islamisation (VIII-XIème siècle)”, Xarajîb 2 (2002), CELAS, Silves, pp. 21- 40).

 

 

Qâshruh ( Castro Marim )

 

      Depois do shîn, vem com u; e sem vogal. Encontram-se o alif e o shîn, ambas sem vogal. Dos distritos de Niebla. Encontrei noutro manuscrito, escrito em caligrafia de al-Andalus: Qâtîduh. Sendo isto certo (1).

                                                  (Ed.: IV, p. 297; trad. RL, p. 77)

 

NOTA

      1. Referido pelo próprio autor a existência de um outro manuscrito em que o topónimo figura mal copiado e portanto dando origem a uma outra leitura. Aquelas duas grafias em árabe são muito próximas.

 

Qastalla ( Cacela )

 

        Com a na primeira letra; sem vogal na segunda; com a no ; intensificação do lâm; e . Cidade em al-Andalus. (Ed.: IV, p. 347; trad. GAK, p. 251)                

 

Qasr Bâja ( Alcácer do Sal )

 

         Cidade em al-Andalus, pertencente às zonas rurais de Beja. Está próxima do mar. Diz-se que o ambâr existe nas suas costas. (Ed.: IV, p. 356; trad.GAK, p. 253)                    

NOTA

Preliminar

      Único caso conhecido até ao momento em que Alcácer do Sal surge designada, como ‘Qasr Bâja’ > ‘Castelo de Beja’.

 

Qulumriya ( Coimbra )

 

         Com u na primeira e na segunda letras; sem vogal no mîm; e i no ; e um simples. Cidade em al-Andalus, a qual está hoje nas mãos dos cristãos (1). Que Deus os humilhe!

               (Ed.: IV, p. 391; trad.GAK, p. 256)

 

NOTA

       1. ‘Cristãos’ neste texto, de autor oriental, designados como Afranj ‘francos’. Esta expressão passou a designar, no oriente, a partir do período das Cruzadas, os cristãos em geral.


Lashbûna ( Lisboa II )

 

         Diz-se também Usbuna, com alif . É uma cidade de al-Andalus, cuja jurisdição confi­na com as terras de Santarém. É uma cidade antiga, próxima do mar e situ­ada a oeste de Córdova. Nas suas montanhas há bons falcões e produz o melhor mel de todo o al-Andalus, que se conhe­ce como al-ladharnî (1); parece-se com o açúcar, conservando-se embru­lhado em pano, para que não se suje. A cidade está junto ao rio Tejo e perto do mar. No seu solo há jazidas de ouro puro e nas suas costas encontra-se um âmbar excelente. Os fran­cos apoderaram-se dela no ano de 573 [/ 1177] (sic) (2) e creio que continua em seu poder.

                               (Ed: V, p. 16; trad.GAK, p. 271)

NOTAS

      1. Único autor que apresenta uma denominação para o famoso mel da zona de Lisboa

      2. Lapso do copista, pois a data da conquista foi 542/1147 (cf. G.S.P. FREEMAN-GRENVILLE, ob.cit., p.31).

 

 

Murjîq (  Marachique > Castro da Cola, Ourique )

 

        Com u, e depois sem vogal; com i no jîm; , com dois pontos embaixo, sem vogal; e qâf.

Fortaleza dos distritos fiscais de Ocsónoba, em al-Andalus. (Ed.: V, p. 103; trad. RL, p. 81)

 

Massâna ( Messines ) 

 

        Com a; depois uma intensificação; e depois do alif vem nûn.  Uma das zonas rurais de Ocsónoba, em al-Andalus. (Ed.: V, p. 125; trad.GAK, p. 286)

                                                           

Malmâr ( ? )

 

          Com a, e dois mîm/s; no final, . Pertence ao distrito de Ocsónoba, no al-Andalus.  

                        (Ed.: V, p. 195; trad.GAK, p. 289)

NOTA

Preliminar

         Para este topónimo foi aventada muito recentemente a hipótese de poder tratar-se da povoação de Marmelete, no ocidente algarvio (cf. Abdallah KHAWLÎ, ibidem).

 

 Munt Ashyûn ( Monte Sião ou Monsanto ? )

       [Primeira letra da palavra]com vogal u , depois sem vogal[para a segunda letra] , e com dois pontos. [Na segunda palavra]depois do alif , sîn com pontos diacríticos, debaixo do qual [há] dois pontos, e no seu final nûn. É uma cidade dependente de Lisboa, no al-Andalus.  Disse al-cAbdarî: « Munt é o nome de “monte”; e estão relacionados com ele todos os lugares [montanhosos], como dizendo-se monte tal e tal. (Ed.: V, p. 207; trad.GAK, p. 290)

NOTA Preliminar       Remetemos totalmente para o aparato crítico presente em Adel SIDARUS e António REI, ob.cit., pp.54-55.

Munt Afût ( aliás [ Munt Aqût ] > Monteagudo, Mértola )

        Com . Fortaleza das zonas rurais de Beja, em al-Andalus. (Ed.: V, idem; trad.GAK, idem)

NOTA Preliminar    A confusão resultante na grafia da segunda palavra, advém do facto de o qâf  no ocidente islâmico (Magrebe e al-Andalus) e o no oriente poderem então ser facilmente confundidos, pois ambos apresentavam apenas um ponto diacrítico sobreposto. Ibn Ghâlib, o autor andalusî que foi a fonte para Yâqût, escreveu o qâf com apenas um ponto, e este último, leu a letra como, pois o qâf no oriente sempre teve dois pontos sobrepostos.

 

Mîrtula ( Mértola )

       Com i; juntam-se duas letras sem vogal; , duplamente pontuada encima, com u; e lâm. Castelo dos distritos fiscais de Beja. É o mais inacessível dos castelos do ocidente e o mais poderoso deles. De construção antiga, está sobranceira ao rio Guadiana.  

                      (Ed.: V, p. 232; trad.GAK, p. 295)

 

   

Wadhra ( Odemira )

 

      Com a; depois sem vogal; e .  Pertence aos distritos de Ocsónoba, em al-Andalus.     

                      (Ed.: V, p. 369; trad.GAK, p. 302)

 

NOTA   Preliminar       Devido à semelhança gráfica em árabe entre WadhraMîra, (embora Madra esteja um pouco mais próxima de Mîra, v.supra al-Andalus’) pensamos tratar-se da actual Odemira, cujo nome seria então o nome que hoje se reporta exclusivamente ao rio, ou sera Mîra. Para mais dados sobre esta questão, v. António REI, “Azóias / Arrábidas no Gharb al-Andalus e o movimento dos Muridîn”, Xarajîb 2 (2002), CELAS - Silves, pp. 53-61.

 

 

Yâbura ( Évora )

       Região do ocidente de al-Andalus.   (Ed.:V, p. 424; trad. GAK, p. 305)

 

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Abû-l-Hasan cAlî ibn Mûsâ Ibn Sacîd também conhecido como al-Maghribî   

(Granada, 610/1213 - Tunes, 685/1286)

 

        Vida

       Nasceu perto de Granada em 610/1213, em Qal‘at Banû Sa‘îd ou Qal‘at Yahsûb, actual Alcalá la Real. Em 638/1240 partiu para Meca, vindo o seu pai a falecer duran­te a viagem, dois anos depois, em Alexandria. Ibn Sa‘îd permaneceu no Egipto até 648/1249, tendo sua fama de literato começado então a expandir-se no Oriente. Tendo então retomado a sua viagem a Meca, veio depois de visitar o Irão, Iraque e Síria, até vir a falecer em Tunes, no ano de 685/­1286 [11].

 

         A obra :  Al-Mughrib fî hulâ-l-Maghrib          

        Trata-se de uma antologia poética, cuja compilação, iniciada por al-Hijârî[12], se prolongou por mais de um século, e de que Ibn Sa‘îd foi o compilador final. O autor apresenta quase sempre notícias geográficas introduzindo as povoações que foram berço de um ou vários dos letrados referidos; são essas notícias que apresentaremos aqui. Embora Ibn Sa‘îd refira, algumas vezes, explicitamente al-Râzî como ­­sua fonte, as informações em causa tê-las-á recebido directamente de al-Hijârî, o qual, esse sim, terá tido como fonte al-Râzî.[13]

 

Referências bibliográficas ao Autor e à sua Obra

- Ibn Sa‘îd al-Maghribi, Al-Mughrib fî hulâ-l-Maghrib, ed. Shawqî DAYF, 2 vols., Cairo, Dâr-al-Ma‘aref, 1964 (tex.ár.).

- trad.parc.espanhola e estudo Mª. Jesús VIGUERA MOLÍNS, “El “Reino” de Badajoz en el ‘Mugrib’ de Ibn Sa‘îd”, Bataliús II - Nuevos Estudios sobre el Reino Taifa , Madrid, Letrúmero, 1999, p.225 - 248.  

- Ch. PELLAT, “Ibn Sa‘îd al-Maghribî”, Encyclopédie de l’Islam, 2ª. ed., t.III, p. 950-1.

-  Hussayn MU’NIS, La Geografia y los Geógrafos en la España Musulmana, Madrid, IEI, 1967, pp. 461-95(tex.ár.);

- Francisco PONS  BOIGUES, Ensayo bio-bibliografico sobre los historiadores y geografos arabigo-españoles, 2ª ed. Amesterdão, Philo Press, 1972 (1ª ed., Madrid, 1898), “Aben Said el Magrebí”, nº 260, pp. 306-310 ;

- Emilio GARCIA  GÓMEZ, El libro de las banderas de los campeones de Ibn Sa‘îd al-Maghribî, 2ª ed., Barcelona, Seix Barral, 1978 (1ªed., 1937), pp. LII-LV; 

- Muhsin Hâmid al-’AYADÎ, Ibn Sa‘îd al-Andalusî, Cairo, Livraria Renascença Egípcia, 1972, pp. 45-73(tex.ár.) ;   - Rachel ARIÉ, “Un lettré andalou en Ifriqya et en Orient au XIIIe siècle : Ibn Said”, Historia y Cultura del Islam Español, Granada, EEA-CSIC,1988.

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Al-Mughrib fî hulâ-l-Maghrib

 

 

REINO DE BADAJOZ

 

        Reino poderoso no noroeste de al-Andalus. Tornou-se dos cristãos.

        E o texto reparte-se da seguinte forma:[...] Cidade de Mérida,[...] Cidade de Badajoz,[...] Fortaleza de Medellín,[...] Fortaleza de Terena, [...] Cidade de Évora,[...] Cidade de Trujillo,[...] Fortaleza de Juromenha.               (Ed. p. 360; trad. p. 231)

 

Hisn Talanna ( Fortaleza de Terena )

 

       Das fortalezas de Badajoz, a qual é  agora dos cristãos.    (Ed. p.373; trad. p. 234-5)

NOTA

Preliminar

         No título está a forma árabe “Qalanna”.  Sobre a  identificação linguística deste termo, que será um equívoco de copista ou de leitura do termo Talanna >Terena, ver David LOPES, Nomes Árabes de Terras Portuguesas (NATP), p.123. Maria Jesús Viguera identifica Qalanna com ‘Cabañas del Castillo’, pequeno povoado da zona de Badajoz.

        Esta nota introduz notícia sobre um letrado e funcionário oficial (kâtib) dali natural, chamado Abû Zakariyâ ibn Sa‘îd ibn Mas‘ûd al-Ansârî.

 

Madînat Yâbura ( Cidade de Évora )

 

       A cidade de Évora é uma das cidades famosas no Reino de Badajoz (1), e muito recordada por Ibn ‘Abdûn na sua poesia (2). Tendo-a fortificado al-Muzhaffar  ibn al-Aftas,  colocou  nela o seu filho al-Mansûr. Da mesma forma foi seu governador al-Mutawwaqil, e o filho de al-Mutawwaqil (3). Ela agora  pertence aos cristãos (4).                 (Ed. p. 374; trad. p. 235)

 

NOTAS

        1. Realmente foi a segunda cidade mais importante do Reino Taifa de Badajoz.

        2. Sobre Ibn ‘Abdûn, o mais famoso poeta e intelectual da Évora islâmica, ver José MOHEDANO BARCELÓ, Ibn ‘Abdûn de Évora (c.1050-1135), Univ. Évora, 1982;  IDEM, “Ibn ‘Abdûn de Évora. Poeta, erudito y hombre de Estado. La crisis espiritual del siglo XI en al-Andalus”,  Bataliús II - Nuevos estudios sobre el Reino Taifa, Madrid, Letrúmero, 1999, pp. 61-106.

      3. Referência a alguns dos membros da dinastia dos Banû al-Aftas: al-Muzhaffar  ibn al-Aftas, foi o segundo monarca daquela dinastia (437/1045 - 460/1067-68); o seu filho Yahyâ al-Mansûr, foi o terceiro (460/1067-68 - 464(?)/ 1072(?)); ‘Umar  al-Mutawwaqil, o quarto e último (464(?)/ 1072(?) - 487/1095). O filho de al-Mutawwaqil aqui referido teria sido, como era habitual, o filho mais velho, o qual se chamou al-Mansûr. Todos mortos pelos Almorávidas em 1095, juntamente com o seu pai, nem ele nem qualquer dos seus irmãos chegou a reinar. (Cf. Rachel ARIÉ, España Musulmana (siglos VIII-XV), vol.III da História de España (dir. M.Tuñon de Lara), Barcelona, Labor, 1984, p. 505).

      4.A conquista cristã de Évora, facto posterior a al-Hijârî, que faleceu em 550/1155 (cf. F.PONS BOIGUES, ob. cit., p. 221) terá sido passagem acrescentada por algum membro dos Banû Sa‘îd.


Hisn Jullumâniya ( Fortaleza de Juromenha )

     (Ed. p.378; trad. p. 235-6)

 

NOTA

Preliminar

        Sem qualquer informação geográfica específica, para além da sua integração geral no Reino de Badajoz, surge referida como local de origem de um poeta muçulmano do século XI, Abû Zakariyâ Muhammad ibn Zakî al-Jullumânî, o qual também residiu em Lisboa. Poeta errante, terá também residido em Toledo, pois buscou através de uma qasîda (obra poética) o mecenato de al-Ma’mûn, um dos monarcas Dhú-Núnidas da Taifa de Toledo.

 

 

REINO  DE  SILVES

 

       Reino colindante com o reino de Sevilha, situando-se a noroeste deste último. Recolhe-se nas suas costas âmbar, proveniente do Mar Circundante.

       E reparte-se o texto da seguinte forma:[...] Cidade de Silves,[...] povoado de Shannabûs, [...] povoado de Ramâdah, [...] Cidade de Santa Maria (Faro), [...] Cidade de Loulé, [...] Cidade de Cacela.                                                     (Ed. p. 380)

 

Madînat Shilb ( Cidade de Silves )

 

       Do Livro de al-Râzî: “A sua construção ergue-se sobre um rio onde se fazem sentir as marés do Mar Circundante. E entre Silves e Córdova, para um cavaleiro, são nove dias” (1).  

      É uma cidade louvável e famosa por causa dos intelectuais. Nela cresceu al-Mu‘tamid Ibn ‘Abbâd, e nela se situa o Palácio das Varandas, em relação ao qual diz [este príncipe a] Ibn ‘Ammâr:

                                  «Saúda o Palácio das Varandas da parte de um jovem

                                          Que tem um perpétuo anseio por esse Palácio».

       Antes de que al-Mu‘tamid Ibn ‘Abbâd lá se criasse, o seu pai, al-Mu‘tadid, apoderou-se desse reino. E recém-chegado al-Mu‘tamid a Sevilha, nomeou governador de Silves o seu filho al-Mu‘tadd (2).

E os seus governadores agora vêm de Sevilha (3). (Ed. p. 381)

NOTAS Preliminar

Silves é tratada como cabeça de “reino” ou “senhorio”.

       1. Usa o literal e pouco comum «dias», para referir ‘dias de viagem’, em vez de «jornadas».

       2. Esta notícia sobre al-Mu‘tamid e a relação deste príncipe com a cidade de Silves, sob os pontos de vista cultural e historico-administrativo tê-la-á Ibn Sa‘îd  recolhido de al-Hijârî.

       3. Sendo Sevilha a capital almóada no al-Andalus, esta notícia será possivelmente do punho de Ibn Sa‘îd, ou de seu pai.


Qaryat Shannabûs  ( Povoado de Estômbar ou de São Brás de Aportel  (?) 

    Dos melhores e mais pequenos povoados dele [do Reino de Silves]. (Ed. p. 389)

NOTA Preliminar

      Sobre a questão linguística que envolve este topónimo: se será mesmo Shannabûs,  tradicionalmente identificado com Estombar; ou se deverá ser entendido como uma corruptela de Shanbaras (que seria S.Brás de Alportel), v. David LOPES, NATP, p. 131-2.

 

Qaryat Ramâda ( Povoado de ? )

     Menciona al-Hijârî: “É um dos povoados de Silves”. (Ed., p.392)

NOTA Preliminar

      Ainda não identificado o topónimo, é, no entanto, referido como dando origem à nisba (referência antroponímica ao lugar de origem ou de residência) de um poeta, chamado Abû ‘Umar Yûsuf ibn Hârûn al-Ramadî al-Kindî (Idem, pp. 392-394).

 

Madînat Shantamariyya ( Cidade de Santa Maria [Faro] )

      Cidade famosa, conhecida como Santa Maria do Ocidente, pois há uma Santa Maria do Oriente (1). Actualmente é dos muçulmanos.   (Ed. p.395)

NOTA

          1. Esta “Santa Maria do Oriente” é a actual Albarracín, no Levante espanhol. Sobre este último topónimo ver David Lopes, NATP, p.132.

 

Madînat al-‘Ulyâ ( Cidade de Loulé )

        [Do Reino de Silves] uma das cidades do noroeste. (Ed. p. 398)

 

Madînat Qastalla ( Cidade de Cacela )

        Conhecida como Cacela do Ocidente. (Ed. p. 400)

REINO DE BEJA

       Reino do noroeste, que se tornou dos cristãos.

       E reparte-se o texto em duas partes:[...]Cidade de Beja, [...] Fortaleza de de Mértola.  (Ed. p.402)

 

Madînat Bâja ( Cidade de Beja )

     Do Livro de al-Râzî: “A cidade de Beja é das mais antigas cidades de al-Andalus. Foi construída nos tempos de César, o primeiro dos Césares que foi quem começou a medir a terra e a repartí-la. As suas terras são solos para agricultura e ganadaria. As suas flores são excelentes para as abelhas, produzindo-se muito mel. As suas águas são apropriadas para o curtimento de peles, não havendo curtimento que se lhe possa comparar”. (Ed. p.403)

NOTA Preliminar

       Notícia com grande identidade textual relativamente à primeira parte da notícia sobre Beja que existe na Crónica Geral de Espanha de 1344 (ed. L.F. Lindley Cintra, vol. II, p. 65),  v. António REI, Memória de Espaços e Espaços de Memória - de al-Râzî a D.Pedro de Barcelos, pp. 109 e 121-122.   

 

Hisn Mârtula ( Fortaleza de Mértola )

       Uma das fortalezas de Beja. É uma fortaleza poderosa. Estava em poder dos muçulmanos quando eu estava em al-Andalus (1).    (Ed. p. 406)

NOTA

        1. Sobre a importância desta última afirmação, relativamente à datação da conquista cristã de Mértola, v. António REI, “A fronteira no Sudoeste Peninsular (1234-1242) - novas visões da “Reconquista” a partir do al-Mughrib... de Ibn Sa ‘îd de Granada”, Arqueologia Medieval nº 8, no prelo.

 

REINO  DE  LISBOA

         Reino poderoso junto ao Mar Circundante. Tem permanecido em poder dos cristãos.     

      E o texto reparte-se da seguinte forma: [...]Cidade de Lisboa, [...]Comunidade (1) de Alcabideche, [...] Cidade de Sintra, [...] Santarém.        (Ed. p. 410)       

NOTA

   1. Alcabideche surge diferentemente identificada pelo autor. Nesta parte introdutória surge como dawla > ‘comunidade’ (cf. Ibrâhîm MUSTAFÂ et al., Al-Mu‘jam al-Wasît [Dic. Língua Árabe ], II vols., Cairo, 1378-81 / 1958-61, reimp. Teerão, al-Maktabatu-l-‘Ilmiyya, s.d., I vol., p.304); e na notícia vem como qarya > ‘povoado’.


Madînat Ushbûna ( Cidade de Lisboa )

       Do Livro de  al-Râzî : “É uma cidade antiga a ocidente de Beja. É dotada de benesses na excelência dos seus frutos e nas possibilidades para a caça e para a pesca. E os falcões das suas montanhas são os melhores de todos os falcões e os mais propens­os a serem ensina­dos. E nas suas montanhas há colmeias de abelhas, e o mel é puro e branco como o açúcar, e que é embrulhado em pano por não haver nele humida­de” (1).

     Foi, no tempo dos reis de Taifas, de al-Mutawwaqil ibn al-Aftas (2). Este fê-la governar (durante um certo tempo) por Abû Muhammad ibn Hûd, que se tinha refugiado junto dele vindo de Saragoça.

       Tomaram-na os cristãos no fim do período dos Almorávidas. (Ed. p. 411)

NOTAS Preliminar

      Sobre Lisboa e Sintra nas fontes geográficas árabes , v. Adel SIDARUS e António REI, “Lisboa e seu Termo segundo os Geógrafos Árabes”,  Arqueologia Medieval nº 7, Porto / Mértola, CAM / Afrontamento, 2001, pp.37-72, pp. 43-44.

        1. Até este ponto constata-se também grande identidade textual com a parte inicial da notícia de Lisboa presente na Crónica Geral de Eespanha de 1344, v. António REI, Memória de Espaços e Espaços de Memória..., pp. 110-111 e 123-124.

     2. Sobre este monarca da Taifa de Badajoz, v.supra ‘Évora’ n. 3. Este Ibn Hûd, de seu nome completo Abû Muhammad al-Judâm ibn Hûd, foi um filho do monarca da Taifa de Saragoça , Ahmad  al-Muqtadir billâh (438/1046 - 475/1082) (cf. Christophe PICARD, Le Portugal musulman (VIIIe - XIIIe siècle), Paris, Maisonneuve & Larose, 2000, p.258; R. ARIÉ, ob.cit., p. 508). Lisboa pertenceu realmente durante alguns períodos do século XI, ao Reino Taifa de Badajoz.

 

Qaryat al-Qibdhaq  ( Alcabideche )

      Um dos povoados de Lisboa. (Ed., p. 413)

Madînat Shantara ( Cidade de Sintra )

           É cidade famosa pelo viço. Lá existem as invulgares maçãs, àcerca das quais conta Ibn  Alîsa‘, entre outros : não transporta [qualquer] animal senão três exemplares das mesmas. É agora dos cristãos. (Ed., p. 415)

NOTAS Preliminar

        Sobre os factos e os personagens referidos esta notícia, v. A. SIDARUS e A. REI, “Lisboa e o seu Termo nos Geógrafos Árabes”, pp. 44 e 69-70.

 

Madînat Shantarîn ( Cidade de Santarém )

           Do Livro de al-Râzî : “A oeste de Beja (1), está edificada sobre o rio Tejo, perto do lugar onde este entra no mar (2). E os seus terrenos são o extremo da generosidade e da bondade”.

          Os seus governadores procediam de Lisboa. Ela é agora dos cristãos.

                                                 (Ed. p. 417)

NOTAS Preliminar

     Na estruturação da obra, a “cidade de Santarém” (madînat Shantarîn) aparece integrada no “reino de Lisboa”(mamlakat al-Ushbûna). Mais do que “reino”, aqui a palavra mamlaka deverá ser aqui entendida enquanto “senhorio”.

     1. Melhor ‘a noroeste’.

       2. Santarém é localizada próxima do mar, porque o estuário do Tejo já era considerado como sendo um braço de mar, o tradicional ‘mar da palha’( v. sobre esta questão, Adel SIDARUS e António REI, “Santarém e o seu Termo nos Geógrafos Árabes”, Qurtuba nº 8, no prelo).  Esta passagem encontra-se também em outros autores árabes, além de Ibn Sa‘îd e de Yâqût : em al-Rushâtî, Ibn Ghâlib (e os textos da Crónica do Mouro Rasis e da Crónica Geral de Espanha de 1344, a ele devedoras [cf. supra n. 4 à Introdução ]), al-Qazwînî e Abû-l-Fidâ.

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Kitâb bast al-ard fî-l-tûl wa-l-‘ard 

          Trata-se de uma obra geográfica organizada em função dos Sete “Climas”, e de coordenadas geográficas atribuídas a numerosas localidades. Terá Ibn Sa ‘îd tentado com esta obra completar a obra de al-Idrîsî, acrescentando-lhe para isso informações de precisão geográfica que faltavam àquela.[14]

 

Referências bibliográficas

- Ibn Sa‘îd al-Magribi, Kitab bast al-ard fî-tul wa-l-card = Kitab al-Gugrafiyya, ed.Juan Vernet (Ed.V), Tetuão, Instituto Mulay al-Hassan, 1958

- ed. Isma‘îl al-‘Arabi (ed.A), Beirute, Manshurat al-Maktaba al-Tigariyya li-l-Tiba‘a wa-l-Nasr wa-l-Tawzi‘, 1970.

- trad. e ed. parc. de Juan Vernet, España en la Geografia de Ibn Sacid al-Magribi , Septª de Tamuda, Ano VI, Sem.II, Tetuão, Editorial Genades, 1958, pp.307-326.

- H. Mu’nis, Târîkh al-Jaghrâfiya..., p.495-517.

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 Kitâb bast al-ard fî-l-tûl wa-l-card

Clima V - Secção primeira

       [...] Em seguida [desde a ilha de Saltes] em direcção à foz do grande rio Guadiana, o qual cruza Mérida e Badajoz, são nove milhas. Seguindo para Tavira, vinte e três milhas, situando-se esta a noroeste do rio Guadiana. Depois, indo para a foz do rio de Santa Maria (1), dezoito milhas. Depois, para a foz do rio de Silves (2), vinte e oito milhas. Depois, para o golfo de Arrifana (3), quinze milhas. Depois para o Cabo dos Corvos oitenta milhas, e entra no mar este cabo vinte e duas milhas. Ele é a latitude extrema do Clima Quinto, cuja longitude é 6º.[...]  

NOTAS

        1. O ‘rio de Santa Maria’ é o rio Letes.

      2. Ou seja, o rio Arade.

      3. Este ‘golfo de Arrifana’, refere-se claramente à baía de Lagos, e não à região de idêntico nome no actual concelho de Aljezur. Sobre o alfoz de Lagos, também designado ‘da Arrifana’, e respectivas problemáticas de identificação, v. A. REI, “Azóias / Arrábidas no Gharb al-Andalus e o Movimento dos Muridîn”, Xarajîb 2 (2002), pp. 53-61.  

 

 

Clima VI - Secção primeira

       [...] O primeiro que encontras dele [o Clima] sobre o Mar Envolvente é a Igreja dos Corvos, famosa junto das gentes do mar. Entre ela e o Cabo dos Corvos, o qual foi referido no extremo da latitude do Clima Quinto, são sete milhas. A longitude ali, tomada desde as Ilhas Eternas (1), é de seis graus. Daí até onde está o rio Sado, no Golfo do Âmbar, quarenta milhas (2). Sobranceiro a ele [o Sado] está o Castelo com ele relacionado*, tendo os Cruzados no nosso tempo tido aí uma famosa batalha (3). Situava-se no extremo das fronteiras do Islão daquela região. Desde aqui [Alcácer do Sal] até à desembocadura do grande rio de Lisboa, o mesmo que cruza Toledo, há quaren­ta milhas, e desde o mar até Lisboa, trinta (4). Esta situa-se na margem sul (sic) do rio, onde a longitude é de 7º 0' e a latitude de 42º 40'. A norte e a oeste da cidade encontram-se braços de mar que formam albufeiras salgadas (5). Os viajantes dizem que o Tejo se vai alargando na sua desembo­cadura até chegar a medir 10 milhas. A norte desta desembocadura, a trinta milhas de distância, encontra-se a cidade de Sintra em cuja costa se recolhe muito âmbar. Era a mais extrema marca islâmica, junto à costa, antes da cega guerra civil. A norte dela [Sintra] situava-se o extremo da grande Cordilheira da Serra (6), a qual divide al-Andalus em duas metades, situando-se a norte a cidade de Montemor-o-Velho, das terras da Galiza, e donde saem pequenas barcas (7).  Situa-se a norte de um rio (8) que se derrama, desde a referida Cordilheira, no Mar Circundante. A norte da foz do rio, está Coimbra; e a norte da [Cordilheira] fica a cidade de Salamanca, famosa na terra de Portugal, e fim da extensão do Clima VI, cuja longitude é 7º20' e a latitude 45º. Entre ela e a cidade de Coimbra, capital da Galiza, são duas jornadas. Ela está a NE do rio. Na Cordilheira da Serra, disseminadas, do oriente de al-Andalus até ao seu ocidente, há muitas fortalezas de nomes não-árabes. E de entre elas, nesta parte, está a Fortaleza de Almeida (9). Diz-se que a Mesa de Salomão, sobre ele seja a paz, estava guardada nela. E daí a tomou Târiq quando conquistou Toledo, havendo entre ambas duas jornadas, e sendo a fortaleza a norte (10). E a sul da Cordilheira da Serra está a cidade de Cória, a qual foi a fronteira dos muçulmanos na época dos reis de Taifas, com longitude de 8º e 30' e latitude 44º. A sul dela [Cória] e a sul do rio de Toledo (11)  situa-se a cidade de Santarém, com longitude de 8º e 10' e latitude 42º 35'. Prosseguindo para leste dela, a sul do [mesmo] rio, situa-se a Fortaleza da Ponte da Espada. Entre elas há 80 milhas.[...].

 

                              ( Ed. V: pp. 99-100 e 111-112;  Ed.A: pp. 178-179 ; trad., pp. 314 e 317-318 )

 

NOTAS

      1. Estas ‘Ilhas Eternas’ serão as Ilhas Canárias (cf. Luís de ALBUQUERQUE, Os Descobrimentos Portugueses, Lisboa, Alfa, 1983, p. 8)

      2. No texto: ‘nahr Bû Dânis’ > ‘o rio de Abû Dânis’, ou seja o rio que passa em Alcácer do Sal, que na altura tinha o topónimo ‘Al-Qasr Abî Dânis’ > ‘o castelo de Abû Dânis’, sendo Abû Dânis o epónimo de uma família que dominou Alcácer desde o século IX (cf.Ch.PICARD, ob.cit., pp.194-196).

      3. Esta famosa batalha, “em nosso tempo” ou seja de que o autor foi contemporâneo (Ibn Sa‘îd nasceu em 1213), foi a que deu origem à conquista de Alcácer do Sal em 1217, realmente com apoio dos Cruzados (cf. Dic. História de Portugal (dir.J.Serrão), VI vols., Porto, Figueirinhas, 1989, vol.I, p.79) como também nos diz Ibn Sa‘îd.

      4. Claramente exagerada a distância. Talvez antes ‘três’ do que ‘trinta’, facilmente confundíveis em árabe.

      5. Estas albufeiras salgadas eram as de Sacavém, Camarate, Frielas e Unhos, a norte; e as de Alcântara e Hortanavia a oeste cf. A. SIDARUS e A. REI, “Lisboa e o seu Termo nos Geógrafos Árabes”, p. 45, n.4.

     6. No texto: ‘Jabal Shârra’, ‘montanha da serra’, forma de tipo tautológico, em que o primeiro termo é árabe e o segundo é romance modificado pelo mesmo árabe. Refere-se à grande Cordilheira Central Ibérica.

      7. No texto: ‘buraykât’, que, curiosamente, se trata do plural do diminuitivo árabe aplicado ao termo romance ‘barka’ (barca), pequena embarcação.

      8. O Rio Mondego.

      9. No texto: ‘hisn al-mâ’ida’  > lit. ‘fortaleza da mesa’, sendo que ‘al-mâ’ida’ é ‘a mesa’.

      10. Sobre a questão da conquista de Almeida por Târiq ibn Ziyâd, e da relação do topónimo daquela povoação com a mítica mesa de salomão ou do Templo de salomão, v. António REI, “Târiq ibn Ziyâd e o seu exército em Almeida e na Cidade da Ammaya (Marvão) em finais de 711 - inícios de 712”, Ibn Maruán nº 12, no prelo.

      11. Será antes ‘ juzante.



[1] David  LOPES, “Os Árabes nas Obras de Alexandre Herculano”, Boletim de Segunda Classe da Academia das Sciencias de Lisboa, vol.III (1909-10), pp. 50-84, 198-253, 323-377; e vol.IV(1910-11), pp.321-40; IDEM,  “Páginas Olisiponenses” (introd., selecção e notas de Fernando Castelo-Branco), Publicações Culturais da Câmara Municipal de Lisboa, 1968; IDEM, Nomes Árabes de Terras Portuguesas (org.J.P.Machado), Lisboa, Sociedade de Língua Portuguesa e Círculo David Lopes, 1968.
[2]José D. Garcia DOMINGUES, “O Garb extremo do Andaluz e ‘Bortuqal’ nos historiadores e geógrafos árabes”, Bol. Soc. de Geografia de Lisboa, nº 78 (1960), pp. 327-62 (c/ 2 mapas + 1 est.); IDEM,  “Conceitos e limites do Ocidente Extremo do Andaluz nos geógrafos, historiadores e antologistas árabes”, III Congresso UEAI (1966), pp. 331-48; IDEM, “Aspectos geográficos da Lisboa muçulmana”, Rev.Municipal de Lisboa, nº XXVIII/ 112-113 (1967), pp. 7-13; 
[3]António Borges COELHO, Portugal na Espanha Árabe, 2ªed., 2 vols., Lisboa, Caminho, 1989 (1ªed. :      4 vols., Seara Nova, 1972-75).
[4]Abû Bakr Ahmad ibn Muhammad al-Râzî, é considerado o Pai da Historiografia Árabe Andalusi. Nasceu em Córdova, no ano de  274 / 888. Personagem letrado e cronista da corte califal de ‘Abd al-Rahmân III, foi também próximo do futuro califa, e grande bibliófilo, al-Hakam II. Compôs a obra Akhbâr Mulûk al-Andalus, que foi completada por seu filho e sucessor no cargo de cronista oficial, ‘Îsâ al-Râzî. Faleceu na sua cidade natal em 344 / 955. Cf. António REI,  Memórias de Espaços e Espaços de Memória - de al-Râzî a D. Pedro de Barcelos, Dissertação de Mestrado, FCSH-UNL, 2002, pp. 54-55, 199-204 .Sabemos hoje que o texto atribuído a al-Râzî, e traduzido para português nos séculos XIII-XIV, conhecido como Crónica do Mouro Rasis, não é do seu punho, tratando-se afinal de uma compilação do século XII, possivelmente a perdida Farhat al-anfus de Ibn Ghâlib, e na qual este último autor usou, como fontes, al-Râzî e al-Bakrî. Cf. Idem, passim. Para Ibn Ghâlib,v. idem, pp. 61-62, 199-204 e passim.
[5]Abû ‘Abd Allâh Muhammad ibn ‘Abd Allâh ibn Idrîs al‑Sharîf al‑Idrîsî. Nasceu em Ceuta, em  493 / 1099, sendo de ascendência nobre. Estudou em Córdova, e viajou pela Pen´nsula Ibérica, Norte de África e Ásia menor. Acabou instalando-se na Sicília, sob a protecção do rei Rogério II, a pedido de quem compôs a famosa Nuzhat al‑Mushtâq ou Kitâb Rujjâr.  Terá falecido na sua cidade natal por volta de 560 / 1164-5. Cf. Idem, pp. 59-60.
[6]Abû ‘Abd Allâh  Muhammad ibn ‘Abd Allâh ibn ‘Abd al-Mun‘im al‑Himyarî. Pouco se sabe da sua vida. Natural de Ceuta,  foi jurista e assessor do juiz ou do notário da cidade. O seu Rawd al-Mi‘târ é um dicionário geográfico, que, para o espaço ibérico, recolheu informaçõs de al-Idrîsî e de al-Bakrî. Cf. Idem, pp. 66-67.
[7]Abû l‑‘Abbâs Ahmad ibn ‘Umar ibn Anas al‑‘Udhrî. Nasceu em Dalía, povoado da região deAlmeria, em 393/1002. Foi ainda jovema Meca, tendo permanecido e estudado no Oriente entre 407/1017 e 416/1025. Regressado a al‑Andalus, começou a ensinar. Al‑Bakrî foi um dos seus discípulos. Compôs a obra geográfica Tarsî‘ al-Akhbâr. Faleceu em Almeria, em 477 / 1085. Cf. Idem, pp. 56-57.
[8]Abû ‘Ubayd ‘Abd Allâh ibn ‘Abd al‑ ‘Azîz  al‑Bakrî, nasceu em 405 /1014, originário da família dos senhores da Taifa de Huelva‑Saltes. Em 1051, com a conquista dos seus domínios, exilou-se em Córdova. Aluno de Ibn Hayyân e de al‑‘Udhrî, foi ainda ministro e diplomata em várias cortes.Usando muita informação escrita e oral, compôs o primeiro grande tratado de tipo universal que surgiu em al-Andalus, Kitâb al-Masâlik wa-Mamâlik. Vivia em Córdova quando os Almorávidas chegaram à Península, e aí terá falecido em 478 / 1094. Cf. Idem, pp. 57-58.
[9]Cf.Idem, pp. 62-63.
[10]Ibidem
[11]Cf. Idem, pp.63-64.
[12]Abû ‘Abd Allah Muhammad ibn Ibrâhîm al-Hijârî, de Guadalajara. Cf.Francisco PONS  BOIGUES, Ensayo bio-bibliografico sobre los historiadores y geografos arabigo-españoles, 2ª ed. Amesterdão, Philo Press, 1972 (1ª ed., Madrid, 1898), “El Hicharí (Abdallah b. Ibrahim)”, nº 178, pp. 221-223; Rachel ARIÉ, “Un lettré andalou en Ifriqya et en Orient au XIIIe siècle : Ibn Said”, Historia y Cultura del Islam Español, Granada, EEA-CSIC,1988., p.10.
[13]António REI, ob.cit., p.64.
[14] J.Vernet, España en la Geografia de Ibn Sacid al-Magribi, p. 307-11.