NOTA EXPLICATIVA

  A relevância dum Dicionário no Feminino que abarque a realidade portuguesa dos séculos XIX e XX é facilmente perceptível quando se continua a constatar que Histórias, Cronologias e Enciclopédias, mesmo recentes, continuam a omitir acontecimentos e nomes que ajudaram a combater a exclusão social das mulheres.

Projecto colectivo de mais de seis dezenas de estudiosos/as, oriundos das mais diversas áreas do saber, que quadruplicaram a equipa inicial de Faces de Eva. Centro de Estudos sobre a Mulher, o Dicionário no Feminino teve como finalidade inicial colmatar a inexistência de instrumentos metodológicos na área dos Estudos Sobre As Mulheres em Portugal e promover condições para uma melhor percepção do empenho de mulheres e instituições, de diferentes gerações e meios, para alterarem a condição legal, social, política, económica, cultural, religiosa e familiar das mulheres na sociedade portuguesa. Entendido em sentido lato, o Dicionário, composto por cerca de três mil entradas, procurou abarcar a imprensa feminina do século XIX e primeiras décadas do século XX – tendo por base o arrolamento de periódicos feito por Ivone Leal para esse período –, congregações religiosas, associações, instituições, organizações de mulheres e nomes com sensibilidades e protagonismos antagónicos, de forma a fazer sobressair o maior número de aspectos da intervenção pública feminina, muito dela ignorada ou silenciada, como se as mulheres não tivessem passado, não fossem portadoras de memória e não lhes coubesse o seu quinhão no devir histórico.

O projecto em causa partiu do tratamento da imprensa feminina, iniciado com a Gazeta das Damas (1822) e Diálogo de Duas Velhas (1822) até ao Jornal-Magazine da Mulher (1950), e do registo de todas as colaboradoras, procurando constituir um banco de dados que permita reconstituir a elite feminina que teve, pela palavra escrita, intervenção visível na sociedade do seu tempo e, assim, recuperar parte substancial das suas protagonistas, tanto mais que, raramente, uma mulher escrevia apenas uma vez ou somente num periódico. Paralelamente às  entradas por cada periódico, abriu-se uma por cada redactora, editora, proprietária, colaboradora ou autora de escritos, de forma a cruzar informações e preparar pesquisas futuras. Entre os periódicos nacionais analisados, num total de 78, os que mais informações forneceram, até pelos anos que perduraram, foram o Almanaque das Senhoras, publicado anualmente entre 1872 e 1928, o que proporcionou uma visão ímpar da colaboração feminina de centenas de nomes e num momento de assimilação, divulgação e refutação dos ideais feministas; a Alma Feminina, órgão do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas editado entre 1917 e 1946; e Portugal Feminino, revista dirigida por Maria Amélia Teixeira entre 1930 e 1937. Analisou-se parte daqueles editados durante o século XIX, com relevo para os de autoria de Antónia Gertrudes Pusich e Guiomar Torrezão, que muito contribuíram para a divulgação e consolidação de novas ideias no país, bem como a imprensa feminista da primeira metade do século XX, correspondendo às diversas organizações de mulheres que se fundaram nas primeiras décadas do século XX. Tais diligências permitiram identificar no Dicionário o núcleo fundamental das activistas monárquicas, pacifistas, feministas, republicanas, socialistas e maçónicas, dando visibilidade, em muitos casos pela primeira vez, a mulheres que, dalgum modo, lutaram associadas pelos seus direitos, devendo-se à sua coragem e tenacidade a conquista de direitos básicos e essenciais para as mulheres, em resultado do esforço reivindicativo, ainda que exercido em circunstâncias adversas e confrontado com a crítica impiedosa dos contemporâneos. O levantamento e análise da imprensa católica e da Mocidade Portuguesa Feminina, envolvendo igualmente um universo de milhares de nomes, está em curso e será apresentado no âmbito do projecto que dá continuidade ao Dicionário. Outras entradas, agendadas e garantidas, por não terem sido concluídas atempadamente, deixaram-no, indubitavelmente, mais pobre.

Houve a preocupação de não omitir nenhum dos nomes que constaram da pesquisa – partindo do critério inicial de terem falecido –, já que só a acumulação de informação permitirá a reconstrução de muitos dos percursos femininos para os quais ainda possuímos poucos dados, mesmo que neste momento estes sejam irrelevantes ou pouco valorizáveis. A grafia foi, na generalidade, actualizada e é preciso considerar que alguns nomes podem não ser os correctos: nem sempre a imprensa reproduz os nomes de forma exacta e com a mesma versão. Também aqui, só a complementaridade das pesquisas e a sua prossecução pode corrigir as inexactidões. Há, no entanto, a consciência de que algumas entradas podem corresponder a pessoas, felizmente, ainda activas, sobretudo as últimas filiadas do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e da Associação Feminina Portuguesa para a Paz. Nestes casos, espera-se que o Dicionário estimule a reconstituição dos seus percursos, nomeadamente através da História Oral.

Parte dos nomes publicitados só agora começam a ser identificados e a merecer atenção. Desconhece-se inclusivamente a identificação completa, desde os nomes e filiação à naturalidade e datas de nascimento e morte. Esse é um dos motivos por que as entradas estão ordenadas por ordem alfabética, evitando eventuais duplicações. Por outro lado, tentou-se recuperar a identidade feminina, não a fazendo depender do apelido, como sucedeu durante demasiado tempo, e optou-se pela entrada pelo nome completo – e não pelo mais conhecido, usando nestes casos entradas remissivas. O mesmo sucedeu com Condessas, Duquesas, Marquesas e Viscondessas que, juntamente com as Irmãs e Madres, surgem, sempre que possível, pelo nome de baptismo e/ou de casamento. Excepção feita a D. Maria II e a Maria Luísa de Souza e Holstein, por questões de operacionalidade, em virtude, respectivamente, dos seus treze e dezasseis nomes. Incluíram-se ainda cerca de duas centenas de pseudónimos, um quarto não identificados.

Com lacunas, é necessário frisar que o Dicionário não procurou cobrir a totalidade do universo feminino dos séculos XIX e XX, empreendimento ciclópico e inviável, mas valorizar a intervenção intelectual, cívica, associativa, política, educativa e religiosa de mulheres redescobertas a partir da imprensa coeva, já que nomes conhecidos da cultura e da ciência têm merecido destaque que não se justificaria aqui, a não ser como complemento de dados. Malgrado as omissões, lacunas e insuficiências, é possível encontrar nele actrizes, cantoras líricas, católicas, comunistas, condessas, deputadas, dirigentes associativas, domésticas, escritoras, feministas, jornalistas, liberais, maçónicas, marquesas, mestras de Escolas Régias de Primeiras Letras, miguelistas, monárquicas, operárias, presas políticas, professoras, rainhas, republicanas, resistentes e socialistas, a par de muitas anónimas que não se integram nestas classificações. Ao ser concebido como uma obra aberta e plural, deverá ser completada periodicamente, seja com novas informações ou com o acrescento de outras entradas. Embora balizado a partir do século XIX, incluíram-se escassos nomes de nobres e de mestras de primeiras letras nascidas no século XVIII mas cuja actividade se exerceu predominantemente no século seguinte. Só assim foi possível resgatar algumas das envolvidas nas lutas entre liberais e miguelistas, bem como contemplar um maior leque de educadoras de raparigas.

Outro risco assumido com a metodologia seguida foi o de nem todas as entradas conterem idêntica dimensão e minuciosidade, variando a explanação segundo o material recolhido através da consulta de milhares e milhares de páginas da imprensa. Se há centenas de biografias mais completas, inéditas quanto ao conteúdo em muitos casos, há muito mais nomes cuja informação se resume a uma actividade, iniciativa, atitude ou escrito. Nestes casos, há muito a fazer e a acrescentar. Além disso, o Dicionário vale como um todo, com relacionamento intrínseco entre as biografadas, como se verifica pelo recurso ao asterisco (*), e não apenas pela individualização de cada uma. Também foram introduzidos nomes masculinos – Arnaldo Brazão, Fazenda Júnior, Jaime Pereira de Almeida, João Baptista de Castro, Luís de Almeida Nogueira –, resultado do papel desempenhado em determinados momentos em defesa da emancipação da mulher. Já o Padre Júlio Marinho não pode ser dissociado da Obra de Protecção às Raparigas.

As entradas temáticas, embora em número restrito, totalizando uma vintena, comportam sínteses importantes: Artistas Portuguesas: Exposição de 1977; Casamento; Congressos Abolicionistas; Congressos Feministas e de Educação; Culto da Nossa Senhora em Portugal; Deputadas à Assembleia Nacional (1935-1974), com referência a cada uma das 22 mulheres eleitas; Divórcio; Ensino Industrial Feminino Oitocentista; Esoterismo no Feminino; Família; Folhetos Volantes sobre as Mulheres; Joalharia no Feminino; Literatura Infantil; Livre-Pensamento; Maçonaria no Feminino; Maçonaria, Republicanismo, Feminismo; Manuais de Civilidade; Mariologia; Mulheres nos Colégios eleitorais do Presidente da República em 1965 e 1972; Procuradoras à Câmara Corporativa (1938-1974).

Para além dos trinta textos sobre congregações religiosas femininas, espalhadas todo o país, há ainda quatro dezenas dedicados a associações, caixas, comissões, grupos, ligas, com destaque para o Instituto do Professorado Primário e para o associativismo pacifista, feminista e republicano e obras de protecção às crianças.

A Bibliografia encontra-se organizada em três módulos, sobretudo no caso das biografias: manuscritos (mss.) ou fontes; textos da biografada; e obras, estudos, textos, notícias ou informações acerca da entrada. No caso dos textos da biografada, estão ordenados cronologicamente, independentemente de se tratarem de artigos publicados na imprensa ou obras; na bibliografia sobre a biografada, está organizada pelo primeiro nome do autor e, quando este não está identificado, surge por ordem cronológica. Também aqui se procurou dar ênfase aos artigos e notícias recolhidas dos periódicos, com vista a futuros desenvolvimentos, sendo de realçar que parte da produção escrita feminina passou pela imprensa e foi aí que ganhou eco. Em casos pontuais, houve colaboradores que optaram por não inserir bibliografia.

Os textos encontram-se assinadas pelos autores responsáveis pelos conteúdos, excepto nos casos em que resultam do cruzamento de informações retiradas de cada um daqueles pela equipa que coordenou o Dicionário e que se considerou importante individualizar ou recorrer à entrada remissiva. Aliás, sempre que necessário, e de forma a capitalizar os dados, recorreu-se a esta.

Quanto às transcrições e bibliografia, actualizou-se, com raras excepções, a grafia, respeitando-se a pontuação original.


*     *     *

 
Cinco anos depois do protocolo celebrado entre a Comissão para a Igualdade e para os Direitos das Mulheres e a Fundação para a Ciência e Tecnologia (1999), é possível editar o Dicionário no Feminino.

Resultado de contributos diversificados que se souberam complementar, ele não teria sido exequível sem o voluntarismo, a generosidade e a dedicação dos autores das entradas, a quem estamos gratos pela disponibilidade manifestada em todas as circunstâncias e por terem acreditado nele. Uma palavra especial de agradecimento para o espinhoso trabalho desenvolvido na retaguarda, em simultâneo com as suas investigações, por
António Ferreira de Sousa , Ilda Soares de Abreu e Maria Emília Stone. O projecto contou ainda com as Bolseiras Ângela Mendonça e Joana Henriques, para além de António Ferreira de Sousa .

O Dicionário continua aberto à colaboração de todos/as que queiram corrigir ou acrescentar dados, discordem de interpretações propostas ou queiram cooperar com outras entradas e novos conteúdos. Concebido como uma obra aberta, desejamos que constitua um ponto de partida para outras investigações. Espera-se o contributo de todos na permanente reescrita dum Dicionário no Feminino mais abrangente e actualizado.

  João Esteves
  Dezembro de 2004




Voltar atrás....


Página Principal | Quem Somos | Colóquios | Base de Dados | Novidades | Revista | Publicações | Dicionário | Arquivo | Contactos
Copyright Faces de Eva - Centro de Estudos sobre a Mulher - UNL | Desenvolvido por CITI - UNL