Alexandre Pinheiro Torres

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(1921-1999) Tradutor, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta, professor de literatura portuguesa, literatura brasileira e literaturas africanas de expressão portuguesa, foi o maior filósofo peripatético que conheci.


Nasceu em Amarante em 1921. Licenciado em Letras pela Universidade de Coimbra, foi, em 1965, convidado pela Universidade de Cardiff, na qual se viria a tornar catedrático de Literatura Portuguesa e Brasileira. O facto político-cultural que o levou ao exílio conta-se entre os gestos de que mais se orgulhara em toda a sua vida: em 1965 é nomeado membro do Júri do Grande Prémio de Ficção atribuído pela Sociedade Portuguesa de Escritores e propõe a atribuição de tal prémio ao livro Luuanda, de Luandino Vieira, que à data estava preso no Tarrafal, acusado de terrorismo. A atitude levou Salazar a proíbi-lo de ensinar em Portugal, obrigando-o ao desterro em Cardiff, onde foi recebido de braços abertos por um professor que o marcaria profundamente: Stephen Reckert. Em 1970 fundou a primeira cadeira independente de Literatura Africana de Língua Portuguesa Portuguesa em universidades inglesas. Historiador de literatura, crítico literário, poeta, romancista, tem igualmente uma vasta produção espalhada por jornais e revistas portugueses. Foi ainda distinguido com vários prémios nas áreas da poesia e do ensaio, dos quais se destacam: Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores; Prémio de Ensaio Jorge de Sena da Associação de Escritores e Prémio de Ensaio Ruy Belo. Foi eleito membro da Academia Maranhense de Letras de São Luís do Maranhão, no Brasil e recebeu ainda o título de Cidadão Honorário de São Tomé e Príncipe. Morreu em Agosto de 1999, vítima de doença prolongada, já reformado da Universidade Cardiff, onde deixou um testemunho de vida e de profissionalismo académico que nunca se apagará.

Preito
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Alexandre Pinheiro Torres (1921-1999), tradutor, romancista, poeta, crítico literário, ensaísta, professor de literatura portuguesa, literatura brasileira e literaturas africanas de expressão portuguesa, foi o maior filósofo peripatético que conheci. Dávamos grandes passeios ao domingo em Roath Park, um dos muitos parques de Cardiff, que o Alexandre não dispensava nas suas saudáveis passeatas meditativas. Cada caminhada valia um curso de literatura viva. Cada passo era devidamente medido pelo ritmo seguro da memória de um escritor que conheceu de perto alguns dos melhores escritores portugueses deste século, mas que com eles não partilha a mesma fama. Injustamente. O melhor elogio que posso fazer a um escritor que também foi professor é dizer que ele foi antes um notável professor que também foi escritor. Chegara eu a Cardiff em 1990 e o Alexandre resolveu adoptar-me como seu discípulo. Eu trazia na bagagem a pobre experiência de um jovem professor do ensino secundário formado na Faculdade de Letras de Lisboa. Desconfiado, o Alexandre quis ver primeiro com que linhas eu cosia o meu discurso. Na altura, eu julgava-me poeta e logo me aconselhou a desistir da ideia, tão debilitados eram os meus versos. (Agradeça-se de coração aberto a quem nos diz em boa hora que o que fazemos não tem futuro.) Queria então ser ensaísta e investigador e apresentei-lhe um primeiro texto para uma tese de doutoramento sobre a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen. O comentário foi iluminado: “Isto é uma merda! Vai esquecer tudo o que aprendeu na Faculdade de Letras, vai meter o estruturalismo na gaveta, e vamos começar tudo de novo. Primeiro é preciso reler os clássicos.” E assim me reeduquei. Hoje todos recordam mais o crítico literário e o escritor do que o professor Alexandre Pinheiro Torres. Porque este poucos portugueses conheceram e é pena, porque era o melhor de todos. Sempre senti que a obra literária de Alexandre Pinheiro Torres não iria nunca fazer justiça ao seu saber prático e livresco, quando o seu magistério era deveras singular. Só conheci outro filósofo assim, Agostinho da Silva, cujo saber estava sobretudo naquilo que dizia. A escrita de um filósofo assim é apenas uma síntese de uma obra que se grava na memória dos que tiveram o privilégio de aprender com ele. Ouvir um tal filósofo sabe a triunfo. As centenas de alunos britânicos do Professor Alexandre Pinheiro Torres jamais o esqueceram. Muitos escreveram à família, apresentando sentidas condolências. Quantos professores podem conquistar um aluno para além da morte?

Eu sei como te estimavam, como se divertiam nas tuas prelecções, como os ensinavas a ler, a escrever e a estudar, como tinham por ti aquela admiração especial que costumamos reservar aos professores que de facto mudaram alguma coisa na nossa vida. Foi a Maria Olga, tua companheira sobredivina, quem, com invejável coragem, me deu a notícia do teu desaparecimento. Pressentiste a grande vaga, como dizia o meu avô paterno que vais encontrar aí, no Monte Olimpo, a guardar rebanhos, e ainda pudeste deixar escritas as tuas últimas vontades, que respeitaremos. Ouço e leio as notícias sobre ti. Apesar das boas intenções, lá vão comentando com algumas incorrecções: fazem-te director de um inexistente “Departamento de Literatura Brasileira e Portuguesa” da Universidade de Cardiff, quando sabemos que, uma vez instalado, nunca quiseste dirigir o Departamento de Estudos Hispânicos, por isso significar menos horas de leitura e de escrita; fazem-te fundador da cadeira de Literatura Portuguesa no Reino Unido, quando criaste a primeira cadeira de Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa; e alguns que tu desprezavas com razão, dizem agora que eram teus “amigos”, agora todos são teus “amigos”, quando sabemos que os teus verdadeiros amigos, aqueles que deveras estimavas, foram apenas Carlos de Oliveira e Alexandre O’Neill (apesar da zanga de 15 anos, recordava-lo sempre com grande saudade). Não levarás a mal que aqui deixe algumas confidências, porque é necessário fazer as contas com a história e porque não mereces que se acrescentem mais equívocos à tua própria história. Parece que agora vais ser lembrado acima de tudo pela tua ligação ao neo-realismo, para não falar das insinuações de seres um escritor comunista. Já suspeitávamos. Como vês, de nada te serve teres chegado ao fim da vida cansado destes preconceitos. De nada parece servir o cansaço de suportares esses fardos, quando nem sequer foste alguma vez membro do PCP e o único crime que cometeste foi o de seres compagnon de route de escritores convictamente comunistas. Não é por isto que querias ser lembrado.

Deixa-me dizer ao mundo que pelos menos duas boas outras razões tinham para se lembrarem de ti: primeiro, a responsabilidade do prémio da APE ao Luandino Vieira, o acto maior da tua vida de intelectual, conforme confessaste em jeito de balanço; segundo, a tua obra romanesca, que nada tem a ver com o neo-realismo, se fazem favor. (Ah, se a Caminho te tivesse dado as condições necessárias para publicares o malogrado Dicionário do Neo-Realismo Português, obra por cuja conclusão desesperaste e que fica sem destino, então é que não te livravas mais da condenação neo-realista ad infinitum!). Já não quiseste dar uma oportunidade à APE de te fazer a justiça de pelo menos um dos teus romances merecer o prémio anual, por isso tiveste de assistir desolado a derrotas consecutivas, em favor de romances de que ninguém mais se vai lembrar. Fica a certeza de que te divertiste à brava a escrever todo o Pentateuco Salazarista, porque uma das tuas maiores virtudes foi sempre a de teres um sentido de humor inteligentíssimo, porque o humor foi sempre o estado de espírito da tua escrita. Neste país de sisudos, o riso é pecado mortal.

Como era de esperar, ninguém omite a tua altercação com o Vergílio Ferreira. Trinta anos depois ainda falavas do assunto como um espinho que nunca deixou de incomodar. Fizeste-me uma experiência: antes de eu conhecer os textos da polémica, quiseste saber a minha opinião imparcial sobre o Rumor Branco. E que eu decidisse quem tinha razão. Li e disse-te que não me havia surpreendido com as pseudo-inovações literárias e gramaticais do Almeida Faria. Sem sair deste século, os modernistas ingleses, italianos e portugueses tinham ido muito mais longe nesses experimentalismos. Li depois os textos da polémica e nunca o Vergílio Ferreira contestou tal facto, que para mim era o pomo da discórdia. O resto era um assunto pessoal que não me dizia respeito. A minha conclusão “imparcial” era simples: O Almeida Faria não passava de um aprendiz de Joyce. A história que hoje podemos fazer dos últimos trinta anos dá-te razão, pois Almeida Faria não se tornou o grande escritor que Vergílio Ferreira augurara. O JL bem tentou a reconciliação. Na morte de Vergílio Ferreira, não guardaste ressentimentos. Até nesse momento ganhaste a razão.

Vou continuar a ensinar na Universidade os teus romances, que é a melhor homenagem que se pode fazer a um escritor. Magister dixit. Vou continuar a escrever sobre a tua obra, mesmo que me tenhas dito que isso é “perigoso” e que me arrisco a partilhar a tua maldição. Paciência, o pior que me pode acontecer é exactamente o mesmo que acreditavas acontecer com os teus romances: ninguém os lê! Comprá-los é uma coisa, lê-los é que é difícil. Por isso te encheste de orgulho quando aquela livreira anónima da província te reconheceu e disse ter lido e gostado de O Adeus às Virgens. Na verdade, como dizias, bastava que os milhares de escritores que existem em Portugal se lessem uns aos outros para que as tiragens fossem dignas do esforço da escrita. É precisamente este esforço que é ignorado. Fica-me a boa vaidade com que me falavas dos escritores com quem privaste e com quem partilhaste o labor da escrita: da ajuda crítica para uma boa arrumação das folhas do manuscrito de Barranco de Cegos que o Alves Redol ia afixando nas paredes de casa às leituras privilegiadas que o Carlos de Oliveira te pedia no afã de conseguir uma obra reduzida ao essencial.

E serei tua testemunha do trabalho de campo aturadíssimo que fazias para escrever romances dignos do século. Saberás que o nosso Presidente da República anda atarefadíssimo a distribuir medalhas todas as semanas a ilustríssimos cidadãos portugueses, que não tendo feito por Portugal um décimo do teu trabalho e dedicação de mais de trinta anos, são certamente merecedores de mil honrarias. Dizem que não gostavas do teu País. Só quem não te conheceu de perto pode ajuizar assim tão disparatadamente. Não conheci fora de Portugal português mais fiel à sua pátria — esta é que nunca mereceu a tua abnegação pelas coisas genuinamente portuguesas, esta é que nunca há-de saber avaliar o quanto dignificaste o seu nome numa comunidade que aprendeu a respeitar os intelectuais portugueses com o teu exemplo. Pesa-me a tua herança. Confidenciaste-me todos os segredos da tua escrita. Revelaste-me todos os inéditos e livros “secretos” que guardavas ao abrigo do público, essa entidade divina em que há muito deixaras de acreditar. Não tiveste tempo de acabar as tuas memórias, que já andavam a inquietar muita gente. Querias seguir o bom exemplo de Raul Brandão, mas com mais nervo. Pena é que nem sequer tenhas tido tempo de chegar aos nossos dias, para descanso dos émulos. Ficam muitos arrufos na gaveta que o mundo ainda há-de conhecer, pour épater les bourgois. Eu fico aqui à espreita, a vigiar o mundo como me ensinaste, meu Sócrates privado.

CARLOS CEIA (publicado em Jornal de Letras, 11 de Agosto de 1999)


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Carlos Ceia e Alexandre Pinheiro Torres, Lisboa, 1997

(fotografia de Fernando Venâncio)

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Biblioteca, gabinete, sala de aula, na Universidade de Cardiff onde se respirava literatura e cultura de expressão portuguesa todos os dias. Foi nesta sala que decorreu a minha prova de doutoramento em 1993 e simboliza, para mim, a síntese de tudo o que ali aprendi.


 

Em memória (fiel) de Carlos de Oliveira

Alexandre Pinheiro Torres

A notícia da morte de Carlos de Oliveira, um dos meus mais antigos e queridos amigos, chegou aqui ao meu já excessivamente longo desterro de Cardiff – dezasseis anos! – através dessa máquina infernal que é o telefone. Caiu sobre mim no próprio dia em que o célebre autor de Uma abelha na chuva nos acenou o seu «adeus» físico ou corporal para sempre. As distâncias não nos servem de pára-choques. Não é por estarmos mais ou menos longe que a nossa morte ou a dos outros nos chega com mais ou menos atraso.

À medida que os anos ou dias se vão encurtando, as pessoas que mais estimamos (algumas até idolatramos) vão diminuindo no seu número. E, embora o mundo se vá superpovoando, não são as novas multidões que vão preencher o vazio enorme que uma pessoazinha só é capaz de produzir. E o Carlos de Oliveira deixou um vácuo imenso na vida dos seus inúmeros e dedicadíssimos amigos. Digo verdadeiros amigos. Talvez amigos cuja amizade terá começado pela admiração ou pelo especial fascínio que ele irradiava, o fascínio da simpatia, da simplicidade, da honestidade, da modéstia, do talento, da fidelidade, da camaradagem, da inteligência (eu sei lá!) e acabava na verificação de que tais qualidades nunca sofriam quebra, de que ele era um espelho de constância inabalável na exemplaridade delas. Quantos escritores portugueses não têm uma dívida de gratidão para com ele? Julgo que muitíssimos.

De um montão de notas onde, ao longo de muitos anos, tenho vindo a registar conversas com escritores de vários quadrantes, nacionais e estrangeiros, respigo duas ou três, das muitas páginas de um bate-papo com Carlos de Oliveira, que data já de Novembro de 1964.

«Você sabe, ó Alexandre Pinheiro Torres, que é que publiquei de útil?», dispara-me a certa altura.

Se eles se me dirige usando o meu nome por inteiro é porque quer dar ênfase especial ao que vai fazer. Atenção, pois. Atenção? Neste momento nem preciso de reler os meus comentários de há dezassete anos. Sei que perguntei a mim próprio quando é que o Carlos deixaria de se convencer de que o que escrevera não tinha qualquer préstimo. Pedia ou não ele insistentemente aos amigos que não lhe falassem nisso? Isso, o quê? Aquilo a que ele chamava esse grande equívoco: a sua obra. «Eu não sou escritor», repetia. «Escritores são vocês ou eles.» Dizia isto com uma seriedade fria, por detrás da qual não sabemos se havia a gargalhada. mas de quem se riria ele? De nós (por certo), dos tais eles (quem seriam?), dele próprio (como saber?)? Fosse como fosse, era muito difícil conseguir que Carlos de Oliveira se referisse aos seus livros. Só de longe a longe, quase envergonhado, aparentemente inseguro, mostrava uma ou outra coisa inédita a alguns dos seus mais íntimos (Herberto Helder, Gastão Cruz, Abelaira, Dionísio, Gomes Ferreira, Alzira Seixo, que sei eu?) e aguardava, ansioso, uma resposta. A situação nunca deixava de me intimidar quando o Carlos nela me envolvia. Não sabia senão fazer-lhe um elogio caloroso. Como poderia ser doutra forma? Resmungava: «Você, afinal, é como os outros.» Levantava-se bruscamente (passava-se isto sempre em sua casa, que nos cafés é que ele não lia ou deixava ler nada a ninguém), e tornava-se às vezes incómodo na obstinação de que o que acabara de mostrar teria, por força, qualquer defeito, talvez fosse tudo mau (era a hipótese mais aceitável). Para que diabo lhe servia o amigo se este lhe escondia a verdade?

«Olhe», asseverou-me nessa tarde de Novembro, «a única coisa que publiquei de útil foi, por exemplo, a obra de Afonso Duarte, que reuni com o Cochofel. Foi, por exemplo, ter passado meses a coligir por jornais e revistas os contos do Manuel da Fonseca, foi ter quase forçado o José Gomes Ferreira a publicar, em 1948, a Poesia-I e Poesia-II, foi ter ido desenterrar da papelada do Rodrigues Miguéis a sua D. Genciana, foi ter arranjado editor para muitos dos meus camaradas. Esses sim, esses sim, verdadeiros escritores. Percebe»

Sim, não percebia. Não, sim, percebia. Porque a verdade é que nunca se furtou a ler originais de quantos amigos não duvidavam do seu gosto apuradíssimo. Melhor: da sua extraordinária capacidade de ler, entender e valorizar as escritas mais diferentes. Capacidade única. Tinha, sem dúvida, o condão de saber onde residia a qualidade.

Ainda dessa tarde de 1964. Pergunto:

«Se nada do que você escreve vale seja o que for, porque publicou então recentemente uma reedição da Casa na duna? Porque o reescreveu tanto? Porque reescreve tanto?»

«Quando escrevi esse romance pela primeira vez, tinha eu dezoito anos, fi-lo um tanto «de fora». Foi essa a impressão que vim a ganhar pouco depois. Claro que esse escrever «de fora» que mais visível em Alcateia. Repare, a Casa na duna encontrava-se esgotada há mais de vinte anos. Se eu estivesse interessado numa carreira de escritor teria logo publicado uma terceira edição, quando a segunda se esgotou. Ocasiões não me faltaram. E ter-se-ia vendido, até estou certo disso. Mas depois de se ter esgotado a segunda edição resolvi esperar um ano. Afinal, esse ano foram vinte. No fundo, foi uma experiência que eu quis fazer. Cada vez que pegava no livro mais ele me repugnava. Lá ia emendando, aqui e acolá. Foi assim que fui entrando nele. A certa altura, senti que já não estava a escrevê-lo «de fora». Desejei então publicá-lo. Quanto mais não fosse para saber como era recebido pelo público e pela crítica. Pode chamar a isso uma experiência de validade. O certo é que um crítico da Amadora, ou do jornal lá da terra, foi o único que exprimiu uma opinião sincera: o livro já fizera a sua época, mesmo reescrito era uma obra, datada, não se aguentava mesmo com a nova volta que lhe dera.

«Que livro não será datado?», contesto. «Não ser datado não será, antes, o defeito? Seja como for, Carlos, não acredite nesse crítico da Amadora. Na vida de um escritor há sempre um crítico da Amadora a tocaiá-lo.»

«Ainda bem», atalha. «A questão é que temos de nos perguntar se não serão mesmo os críticos das Amadoras deste mundo que nos dizem a verdade…»

«Sim, é possível, mas esse crítico escreveu também que no seu livro havia uma confusão de planos temporais, como se fosse possível dizer isto depois de Joyce, ou Huxley, e muitos outros…»

«Pequenos lapsos», sorri-se, «de grandes talentos críticos. Não há ninguém imune às escorregadelas. Estou agora a lembrar-me que o próprio Eduardo Lourenço, pessoa aliás que estimo imenso desde os bancos da Universidade de Coimbra, donde toureava o Miranda Barbosa que, levou a bola preta do Vieira de Almeida, me acusa algures de nos meus romances nunca ninguém se rir. Muito bem, ninguém se ri, e depois? A verdade é que eu, ao menos, o autor que sou eu, encontra-se a rir por detrás de várias cenas de Uma abelha na chuva. Você não se recorda daquela cena em que o Álvaro Silvestre pensa que está a morrer e afinal descobre que está apenas perdido de bêbado? Há aqui, pelo menos, uma certa dose de ironia que a crítica não viu. É dela a culpa? Estou eu a culpar o Eduardo Lourenço? Não. A culpa é só minha. Olhe, o Vergílio Ferreira, esse, topou logo. Parece ter-se sentido tocado por eu ter tratado tão grotescamente o grande e horrível assunto da morte. Disse-me: «Com a morte não se brinca.»

Não vou mais longe no divulgar dessa conversa, cuja transcrição ele depois leu, proibindo-me de a dar a conhecer em vida sua. Mesmo depois de amigo morto não tenciono torná-la pública tão cedo. «Com a morte não se brinca», terá dito então o futuro autor de Alegria breve. O que quer dizer que talvez a vida também não me dê tempo a dar conhecimento urbi et orbe do que me disse nessa tarde de há dezassete anos. Porque a morte chega-nos a todos, implacável, quando menos esperamos, até pelo telefone.

 

N.º 11 ·     Lisboa ·    21 de Julho de 1981

 


Fiction in the Portuguese-Speaking World: Essays in Memory of Alexandre Pinheiro Torres

Edited by Charles M. Kelley

pp xii268 Demy 8vo June 2000 hardback
ISBN 0-7083-1455-4

This collection of sixteen essays provides a fascinating and wide-ranging survey of major writers of fiction from Portugal, Brazil and Portuguese-speaking Africa. It brings together a substantial body of work, written from a variety of perspectives and dealing with a wide range of themes and authors, by scholars working in Great Britain, Portugal and Brazil.

Originally planned to honour the retirement from university teaching of the distinguished novelist, essayist and poet Alexandre Pinheiro Torres (1920-1999), Fiction in the Portuguese-Speaking World is now offered as a celebration of the life and works of this prolific writer and dedicated teacher.

Editor: Charles M. Kelley is Lecturer in the School of European Studies, University of Wales, Cardiff.
Contributors: David Frier, Maria Manuel Lisboa, Juliet Perkins, Eunice Cabral, Carlos Ceia, David Brookshaw, Maria Guterres, Clive Willis, Mark Dineen, Hilary Owen, Regina Zilberman, Charles Kelley (School of European Studies, University of Wales, Cardiff), John Gledson, Robert J. Oakley.

 


Alexandre Pinheiro Torres ou A História Como Ficção Literária
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Na morte recente de Alexandre Pinheiro Torres, que pelo Porto viveu algumas das suas peregrinações antes de se radicar em Cardiff e aí conhecer o fim após mais de trinta anos de uma quase cidadania britânica, mesmo que não deixasse nunca de escrever em português, é ainda muito agradável reler este romance Espingardas e Música Clássica, que foi escrito em 1962 e levou vinte e cinco anos a ser publicado, porque em tempos salazaristas não seria fácil nem cómodo pôr a circular um romance que começou a ser escrito (ou a vida do juiz Tadeu de Albuquerque assim se “redescobriu” nesse dia) em 19 de Dezembro de 1961, exactamente no mesmo dia em que a União Indiana invadiu e ocupou em definitivo, sem nenhum espanto do Mundo, as possessões da chamada Índia Portuguesa (Goa, Damão e Diu), quase não se ouviram tiros devido a um poisar de armas calmo, desinteressado e talvez pouco patriótico, disseram, por ser realmente escasso o número militares e marinheiros que se poderiam opor à invasão.Assim, toda a acção narrativa deste romance de Alexandre Pinheiro Torres se conclui em 2 de Janeiro de 1962, aquando do assalto ao quartel de Beja, porque a Emissora Nacional não deixou de emitir ao longo de todo o dia música clássica para suavizar ou esconder a verdade dos tiros desferidos e o juiz Tadeu estranhava muito que fosse então possível escutar a “Morte e Transfiguração” de Richard Strauss em memória de quem caíra baleado pela força das espingardas.

Mas todo o romance se coloca num paralelismo literário e romanesco com Amor de Perdição, nessa forma de herança ficcionista camiliana de que Pinheiro Torres muito se reclama nos romances que publicou e com maior incidência em Sou Toda Sua, Meu Guapo Cavaleiro (1994) ou neste em que se repetem os nomes das personagens de Camilo e onde toda a intriga se constrói, não tanto em redor de um “amor de perdição” e antes de um amor de salvação ou de libertação, porque Teresa e Simão se emancipam por outros interesses e sobretudo porque o clima narrativo ou os quadros em que a acção se desenrola têm entre si um intervalo temporal com mais de cem anos. Porém, o propósito de sobrepor personagens e situações numa forma paradigmática de o leitor saber e conhecer que o próprio romance de Camilo ainda é muito lido nas paragens para lá do Marão, se por um lado facilita a complexa trama ficcional do romance, por outro talvez avise o leitor de que a verdadeira ficção se constrói sempre a partir da própria realidade e a grande razão para criar um romance é ainda a verosimilhança da sua história, intriga e enredo romanesco. E por isso Alexandre Pinheiro Torres se encarrega de prevenir o leitor, dizendo num dos primeiros capítulos do romance: “O autor que conta a história que o leitor terá a paciência de levar até ao fim avisa, neste passo, que não acredita em sonhos. Nem crê que um romance seja uma adivinha. É suficientemente ingénuo para estar convencido de que tudo se tem de basear em factos. Ora o mais visível e mais palpável para as gentes de Ribatâmega era a paisagem. E, depois da paisagem, também o facto de o povo que por ela se dispersa não a ver se não como uma personagem com a qual permanentemente dialoga” .

Ora, reside aqui a questão maior e mais antiga que o romance coloca: a de se saber se importa mais a forma do que o conteúdo, porque o Autor, mesmo com a intenção bem camiliana de retratar uma outra “realidade”, quase parece perder de vista que estava a escrever um romance e não uma obra monográfica de costumes ou de ritos de uma fidalguia de velha cepa talvez em decadência, mesmo que derive em linha recta de dom João III, o Piedoso. Mas também julgamos que, na linha temática e problemática de outros romances e com a persistente e reconhecida experiência de crítico e ensaísta, o que Pinheiro Torres procura fazer é sobretudo a denúncia de velhos hábitos, estabelecer uma dialéctica entre o real vivido e conhecido e na própria fragmentaridade das histórias que narra querer ainda proclamar, como afirmou em tempos num dos textos “teóricos” de Ensaios Escolhidos, que “o romance acaba porque a burguesia está no fim, porque a sociedade que tornou possível o romance está a desaparecer. Mas o fim de um “tipo de sociedade” é apenas o sinal do início de outro diferente“. Mas, pelo sentido denunciador das suas histórias desde a revelação de A Nau de Quixibá até ao seu último romance, passando por Tubarões e Peixe Miúdo (1986) e O Adeus às Virgens (1992), o que mais importa salientar na ficção narrativa de Pinheiro Torres é a sua visão irónica e nostálgica de revisitar outros tempos, lugares e gentes, não como forma de saber olhar de longe o que foi o seu percurso literário, mas desejar, numa prosa vernácula, castiça e vibrátil, traçar a nossa “realidade” social e humana em todos os seus planos, não com o sentido de uma pura “invenção” camiliana e antes com o “realismo” visual e literário de um Eça, que tudo sabe fixar e determinar para dar da nossa identidade um quadro muito sério e profundo do que afinal tem mudado tão pouco no correr dos séculos. E, sendo Espingardas e Música Clássica um romance escrito em tempo de silêncio e de mordaça, melhor se entende que passados quase quarenta anos sobre a sua escrita seja hoje um livro de ficção que se lê como forma de retratar uma verdade social e política com todos os altos e baixos, nos mandos e desmandos de toda a espécie, e nessa atitude literária de reinventar a realidade vivida em tempos salazaristas, quando o mundo parecia ter parado em nosso redor e a verdade se não alargava para lá do pequeno “quintal” ibérico em época de tantas amarguras. Ora, tudo isso é dado no romance de Alexandre Pinheiro Torres com a força da razão e não apenas como forma de verdade ficcionista para reinventar ou redescobrir antigos fantasmas, servindo-se da sua carga irónica e mordaz para determinar os sinais de fogo desse tempo português, no contraponto ou propositado paralelismo camiliano. Mas, na variedade das figuras e situações que atravessam o romance, é evidente que o autor de A Nau de Quixibá sabe articular muito bem toda a intriga romanesca para, como acentua Luís de Sousa Rebelo no seu prefácio a esta edição, “dentro da grande tradição clássica da narrativa portuguesa nos dar um romance de verdadeira e genuína modernidade”, que se lê com redobrado prazer por se afirmar como “a história de um amor de libertação, um romance serenamente optimista, de raíz lírica e comovida ante os segredos e os desafios do futuro”.
Por isso, na releitura deste Espingardas e Música Clássica, sabemos como nos deixa fundas saudades a partida para sempre de Alexandre Pinheiro Torres, mas fica connosco uma admirável obra literária que se reparte pela poesia, ensaio e ficção e é sem dúvida das mais relevantes da literatura portuguesa dos últimos trinta ou quarenta anos.

Alexandre Pinheiro Torres
ESPINGARDAS E MÚSICA CLÁSSICA
Ed. Caminho / Lisboa

Serafim Ferreira,

Jornal a Página da Educação, ano 9, nº 92, Junho 2000, p. 29


BIBLIOGRAFIA

POESIA

  • Quarteto para Instrumentos de Dor, separata do livro Poemas para Florbela, Tip. Martins e Irmäo, Porto (1950)
  • Novo Génesis, Tip. Martins & Irmão, Porto (1950)
  • A Voz Recuperada, J. R. Gonçalves, Porto (1953)
  • A Terra do Meu Pai, Plátano, Lisboa (1972)
  • O Ressentimento de um Ocidental, Moraes, Lisboa (1981)
  • A Flor Evaporada, D. Quixote, Lisboa (1984)
  • Trocar de Século/Century Slip – Poema / A Poem, translated by Dedorah Nickson, Instituto Português do Oriente, Macau (1995)
  • A Ilha do Desterro, Caminho, Lisboa (2ªed., 1996)

ROMANCE

 ENSAIO

TRADUÇÃO

  • A Conquista do Everest, de Eric Shipton, Civilização, Porto (1959)
  • A Capital do Mundo e Outras Histórias, de Ernest Hemingway, trad. de Virgínia Motta e Alexandre Pinheiro Torres, Livros do Brasil, Lisboa [D.L. 1959]
  • Um Gato à Chuva, de Ernest Hemingway, Livros do Brasil, Lisboa [D.L. 1960]
  • Viajando na Noruega, de Beth Hogg e Garry Hogg, Civilização, Porto (1960)
  • Lendas do Mundo Antigo, de Nathaniel Hawthorne, Civilização, Porto (1961)
  • A Ilha do Tesouro Robert Louis Stevenson, Civilização, Porto (1961)
  • A Vida Quotidiana na Babilónia e na Assíria, de Georges Coutenau, trad. Leonor de Almeida e de Alexandre Pinheiro Torres, Livros do Brasil, Lisboa [D.L. 1961]
  • O Índio do Packard, de William Saroyan, Guimaräes Editores, Lisboa (1961)
  • O Raposo, de D.H.Lawrence, Livros do Brasil, Lisboa, [D.L. 1962]
  • Viajando na Inglaterra, de Geoffrey Trease, Civilização, Porto (1962)
  • O Mundo das Formas, de Henri Focillon, trad. de Maria José Lagos Trindade e Alexandre Pinheiro Torres, Edições Sousa & Almeida, Porto [D.L. 1962]
  • Viajando na Suíça, de Mariann Meier, Civilização, Porto (1963)
  • História de Jenni; O Ouvido do Conde Chesterfield, de  Voltaire, Editora Arcádia, Lisboa (1964)
  • A Casa na Praia, de Daphne du Maurier, Inova, Porto (1973)
  • Contos, de Ernest Hemingway trad. de Alexandre Pinheiro Torres e Fernanda Pinto Rodrigues, Livros do Brasil, Lisboa, [1975]
  • As Torrentes da Primavera, de Ernest Hermingway, trad. de Maria Luísa Osório e Alexandre Pinheiro Torres, Livros do Brasil, Lisboa, [1975]
  • A Virgem e o Cigano, de D. H. Lawrence, Livros do Brasil, Lisboa [D.L. 1961]
  • Os Cavalos Também se Abatem, de  Horace Maccoy, Europa-América, Mem Martins (1973)
  • História da Filosofia, de  Julián Marias, 7ª ed., Sousa & Almeida, Porto (1985)
  • O Mundo que Nós Perdemos, de Peter Laslett, Cosmos, Lisboa (1976)

ANTOLOGIAS

  • Antologia da poesia brasileira do Padre Anchieta a João Cabral de Melo Neto, 3 vols., Lello & Irmäo, Porto, 1984.
  • Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-portuguesa (sécs. XII-XIV), introd., notas, paráfrases e glossário, 2ª ed., 2 vols., Lello & Irmäo, Porto, 1987.
  • Novo Cancioneiro, Caminho, Lisboa, 1989.

LINKS


Para uma bibliografia passiva

  • CABRAL, Leila Maria Rodrigues Daibs: «Espingardas e Música Clássica e Em Liberdade – intertextos / intertempos (uma contextualização intertextual / paródica)», Tese de Doutorado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), Universidade de São Paulo, 2005. [Download da tese em pdf]
  • LISBOA, Eugénio de Almeida – “Últimas Teimosias”, Jornal de Letras e Ideias, nº753, 11 a 24/8/1999 (na morte de Alexandre Pinheiro Torres).

One Comment

  1. Ivo Flores says:

    Poemas de “A Ilha do Desterro”, foram musicadas por Ivo Flores, e algumas destas composições podem ser ouvidas nas seguintes hiperligações :
    A Ronca
    https://www.youtube.com/watch?v=ATmlNSrpHag
    Triunfar ou Perecer
    https://myspace.com/ivofloresmusicouleur/music/song/15-triunfar-ou-perecer.mp3-95005883-105803300

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