Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
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O Estranho Caminho de Delfos: Uma Leitura da Poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen, Lulu.com, ed. revista, 2011.

O Professor na Caverna de Platão
As Recentes Políticas para a Formação de Professores em Portugal e o Futuro da Profissão (Editora Caleidoscópio, 2010)

O Que É Afinal o Pós-Modernismo?
Lulu.com, 2010
[reedição do livro (esgotado) publicado em 1998 pelas Edições Século XXI]

Ensaios do Seminário de Inglês sobre o Pós-modernismo na Literatura e na Cultura Anglo-Americanas, 2ª edição, Lulu.com, 2011.
(1º ciclo: licenciatura em Línguas, Literaturas e Culturas)

O Professor Sentado
Um Romance Académico, nova edição de autor, revista, Lulu.com, 2010 (1ª ed., Edições Duarte Reis, Lisboa, 2004).
Recensões a O Professor Sentado
De docentes universitários, mesmo quando empenhados e interventivos, como é Carlos Ceia, não se aguarda logo um romance, esse produto lúdico e portador de riscos. Mas com o «publicista» Carlos Ceia as coisas são outras. Em ensaios provocatórios, além de instrutivos (como A Literatura Ensina-se? ou O Que É afinal o Pós-Modernismo? ou Sexualidade e Literatura), habituou-nos à sondagem do que seja «conveniente», ou «correcto», na investigação literária. A esta luz, o seu romance O Professor Sentado surgiu ainda como uma surpresa, mas já longe do escândalo.
Narra-nos as peripécias António Chagas, professor da Universidade Imperial de Lisboa, departamento de Estudos Literários e Culturais, cujo catedrático, Carlos Magalhães, sonha ser Reitor, aspiração arriscada para um «estuprador de virgens» segundo um dossiê agora perdido, talvez em mãos da aluna e amante, irmã também duma celebrizada romancista «light». A ameaça esfuma-se, a reitoria também, mas a placidez académica do mundo é reposta num reconfortante colóquio em Cambridge, aonde vão o Magalhães mais o Chagas e colegas, um deles crítico literário do «Mensageiro», importante jornal dos sábados. Pelo meio, ficou uma directora-geral apatetada e corruptível, que homologa um curso de «Engenharia Cultural» em universidade familiar. Um «shopping» de Miraflores serve de local diário de conclave e mexerico.
A profundidade da trama é decepcionante. Mas a expectativa está, desde início, nos «muitos extras» da coisa. Porque o romance vai-nos oferecendo o seu completo «making of», o dicionário das personagens (que galhofam sobre «o nosso Carlos Ceia») e até já a sua recensão crítica, atribuída a Maria Alzira Seixo, no inconfundível, pitonísico, linguajar que um dia foi seu, e agora ainda bem-vindo. É que este romance de pacatíssimas aventuras académicas quis-se também isto: uma reflexão sobre a escrita, «metaficção elevada ao absurdo» planeada e assumida. O leitor ideal será - cedo nos é dito - aquele que suplicar: «Me engana que eu gosto».
Esta «auto-paródia» (termo original) vai revelar-se um ameno estendal das receitas pós-modernistas: o fragmentário, as descontinuidades, os efeitos de espelho ou «mise-en-abyme». Aqui o sucesso é assinalável, ajudando a digerir uns nada subtis ajustes de contas, o genérico didactismo que desactiva uma oportuníssima sátira, as juntas demasiado rangentes desta narrativa «à clef». Ficamos aguando por um Carlos Ceia que, ao mostrar «como» se é satírico, o seja também, com garbo e manhas a valer. Conseguiu O Professor Sentado tornar-se o nosso primeiro, autêntico, «romance académico» que (pág. 68) nem os ilustres Miguel Miranda e Frederico Lourenço produziram? Numa coisa, sim: no explícito, descarado, esforço por sê-lo. Esse descaramento é uma sadia fonte de gozo.
FERNANDO VENÂNCIO
Carlos Ceia, O Professor Sentado: Um Romance Académico, Lisboa, Edições Duarte Reis, 2004, pp. 197. (ISBN: 972-8745-12-5)
O Professor Sentado, trazido a lume pelas Edições Duarte Reis em Setembro de 2004, é o primeiro romance de Carlos Ceia e é também, segundo se alega adentro do texto ficcional, o primeiro romance português que se auto‑apelida em subtítulo de Um Romance Académico. Não é, como o próprio narrador autoral admite, o primeiro romance académico português, apontando‑se dentro do texto, desde logo, no âmbito deste género, em Portugal, a existência de dois trabalhos de Frederico Lourenço (referência óbvia a Pode um Desejo Imenso e O Curso das Estrelas, publicados pela editora Cotovia em 2002), sendo que a estes poderíamos acrescentar, como precursor, o romance O Jardim das Plantas, da autoria do Professor de Agronomia Luís S. Campos (Ed. Autor, 1994). Mas não sendo O Professor Sentado o primeiro romance académico português, também não deixa de ser, a partir de Portugal, o seguimento que a tradição do romance académico britânico não teve, ou deixou de ter à medida que os seus autores “maiores, Malcolm Bradbury e David Lodge, derivaram para narrativas mais facilmente enquadráveis noutros subgéneros ou modos de escrita. De facto, não só o narrador se confessa de modo explícito “sob a influência e completamente intoxicado pelo romance académico britânico” (p. 159), como pede ao leitor que“reconheça ainda que o tema da viagem do scholar também faz parte integrante desta história, o que a ajudará a ser inscrita na outra história do género literário em questão” (ibidem). E conclui de modo incisivo:“Académico que não viaje não tem identidade” (ibidem).
E O Professor Sentado, de Carlos Ceia, viaja, talvez como nenhum outro. Viaja, em primeiro lugar, entre o meio cultural britânico e o português. Viaja não só pela ansiedade (bloomiana) da influência, como principalmente por algo a que poderíamos chamar a ansiedade da irrelevância, que é a ameaça mais constante pendendo sobre o académico na área das ciências sociais e humanas, como vários vectores de desenvolvimento da obra recorrentemente denunciam, em sentidos diversos. Neste exercício extremo de experimentalismo literário poucas estratégias podem ser novas. A inserção, a páginas trinta e três - trinta e quatro, do autor real Carlos Ceia em diálogo com a sua própria personagem Augusto Chagas repercute efeitos surpresa já tentados no romance português, como aconteceu, por exemplo, em Que Pena Ela não se Chamar Maria, de Regina Louro (Relógio d’Água, 1985). Mesmo a feição mais evidente de desdobramento de obra e autor numa multiplicação de alter‑obras e alter‑egos autorais, que permite a Carlos Ceia tornar‑se, adentro do universo textual que cria, no seu próprio crítico, não é mais do que a apoteose polifónica de estratégias que já foram postas em prática, com mais moderação, por autores do mundo literário anglo‑americano, como Nabokov, por exemplo, fez em Pale Fire. No entanto, nenhuma linha de texto surge como gratuita, antes o romance se desenvolve linha a linha, sobre o eixo da procura de uma forma crescentemente complexa para dar conta de uma realidade académica (em grande parte, mental) também ela de complexidade crescente - e de utilidade questionável, porque sem um objectivo que autorize a ideia de uma redenção possível: daí a opção pelo pendor lúdico, tongue‑in‑cheek, constantemente assumido pela perspectiva da narração, daí o próprio lado de diversão ou de intriga “palaciana” na nomeação das personagens, com Conceições que talvez se pudessem, ou não, chamar Claras, e Mancebos que quiçá responderiam por Macedos. Não nos deixemos, no entanto, enganar pela vertente de exercício intelectual jocoso desta narrativa. Importa, por um lado, retirar este texto do domínio daquilo a que podíamos chamar um certo “paroquialismo” da Universidade portuguesa (patente ainda, por exemplo, no romance de Luís S. Campos) e inscrevê‑lo no cânone de uma, por assim dizer, literatura global que sobrevoa virtualmente a Europa e os EUA, fruto, ela mesma, de uma cultura universitária também cada vez mais global, e a partir da qual o centro (anglo‑americano) pode vir a ser renovado, revivificado pelas suas margens (de que a lusofonia faz parte). Ou antes, poderia, não fosse o facto de um romance escrito em português, para encontrar destinatários nos centros culturais do mundo ocidental, precisar ainda de tradução. Por outro lado, é este um texto em que Carlos Ceia profusamente mente para melhor conseguir chegar à verdade. Atesta‑o a inverosimilhança expressionista dos diálogos, frequentemente impossíveis de admitir em qualquer universidade real das que conhecemos, mas não obstante portadores do que os académicos diriam uns aos outros se pudessem (“Não estamos aqui só para elogiar. O candidato revelou muitas fragilidades...” – diz a arguente de um júri de uma dissertação de mestrado, a que a personagem Augusto Chagas responde “Mas não tantas como as que a senhora professora revelou sobre a poesia de Álvaro Feijó, de quem não soube apreciar um único verso” [p. 65]). A desfaçatez quase onírica de muitas passagens consente também uma chamada de atenção para as potencialidades da ficção como modo exploratório dos significados do real concreto: no meio da imensidade de resmas de papel impresso com dados supostamente objectivos sobre a realidade e as condicionantes do meio universitário português, é bem possível que O Professor Sentado, de Carlos Ceia, investigado e produzido no clima de liberdade que só a ficção permite, se destaque como provavelmente o melhor exercício de auto‑conhecimento surgido na Universidade portuguesa do presente, na área das Humanidades.
Quando o próprio romance se inicia com uma discussão sobre a dicotomia recensão/crítica, e diante de nós se ergue a angústia de “não aceitar nenhum pensamento sem se interrogar aprioristicamente sobre a validade desse pensamento” [10], com o objectivo de “provar premissas reconhecidas na obra de arte como verdadeiras” [10] (o que nos valeria o toque de Midas dos críticos) ou a inevitabilidade de nos ficarmos pelas fileiras dos recenseadores, ou seja, de quem “mostra apenas as premissas e não se preocupa em provar nenhuma”[10], e ambos os conceitos se nos afiguram sobremaneira pretensiosos, que fazer? A mesquinhez subtil da paráfrase maldosa vem-nos à ideia, à laia de insulto pós-moderno (digamos, porque nos dá algum jeito, que não é criticado – ou recenseado – como deve ser quem quer), mas até esse caminho o Autor nos veda, porque o enredo principal deste romance por camadas, ou “multi-layered novel”, é precisamente a ausência, assumida e gabarolada, de um fio condutor da acção. Fica-nos a sensação, quiça precipitada e pouco intelectual, de que a junção dos pequenos episódios e grandes dramas académicos com as reflexões informadas acerca das tendências, vícios e milagres da teoria da literatura nos deixaria nas mãos mais um fragmento exposto, e de que não existe no google expressão mais elogiosa para o Autor.
, mais não seja como parasita simbiótico. Parece-nos algo que agradaria ao editor, e de certa forma até já acontece com os nossos congéneres compilados na página do Autor (http://www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia). Mas enfim... sabemos que não é carraça quem quer.
em http://www.bookcrossing.com/journal/691433, neste caso a propósito de
como o www.bookcrossing.com. E em homenagem à ficção que sai do armário e assume a realidade (ou vice versa, que ainda é melhor), fica já prometida a libertação, em tempo e local a definir, de um exemplar desta obra (ver http://www.bookcrossing.com/journal/3114585 e aguardar notícias). É o mínimo que se pode fazer pelo primeiro romance que inclui uma referência explícita ao movimento BC.
São muitas e outras as pequenas “fatias da vida” (a arte da tradução literal é um manancial de poesia) que povoam de interesse este romance. Algumas são facilmente identificáveis (a Caparica é já ali, senhores doutores...) na academia, e só são cómicas porque há muito aprendemos a rir da tragédia: catedráticos mal formados e estagnados, a lógica capitalista e insinuar-se como ciência e estratégia para o ensino superior, jogos de poder insignificantes e injustiças inenarráveis. Outras fazem parte do dia-a-dia mais corriqueiro, como plágios e paixonetas pela Rita Ferro, ou confissões íntimas do Autor. E são estes estilhaços de ficção com cheiro a dias comuns que amparam o recheio mais apetitoso da obra – que se mantém obscuro até agora por culpa do Autor do romance, que o quis assim cheio de resistências e birras, e não da recenseadora.
E porque a literatura também tem entranhas tangíveis, e os trabalhadores do livro são muitos e insuspeitos (assistentes editoriais explorados e agora despedidos, uni-vos!), há que dizer um bocadinho de mal da paginação e do layout, que por vezes não facilitam a leitura (o que pode ser mais uma estratégia desconstrutiva profunda). E louvar todas as gralhas (os livros, como as pessoas e as personagens dos contos do Eça, não se querem perfeitinhos), que até são poucas, mas uma há que não vamos deixar passar: o bicharoco que nos traumatizou as infâncias cinzentas nos anos oitenta foi o digníssimo Calimero, que é já tão infeliz e choramingas que bem podia passar sem lhe trocarem o nome na página 168.
Agradeço à Mariana a chamada de atenção para a gralha sobre o Calimero. É de facto imperdoável, logo eu que gostava tanto do patinho... Que maldade lhe fiz, mas as gralhas são uma praga nos meus livros e ainda não aprendi a extingui-las à primeira edição. Cada vez que sai um novo livro elas vingam-se de qualquer tentativa minha de perfeccionismo. Quanto às referências aos leitores-ex-alunos, seria uma outra história, em outro registo diferente, com uma trama mais arrojada, enfim, um livro que não cabia neste Professor Sentado. E já agora, a opção pela fonte gráfica encolhidinha, a cansar a vista de página em página, só se justifica por razões económicas (o dilema foi do Editor: como meter um romance de cem mil palavras em 200 páginas!). De outra forma, nem livro havia. Contingências! No resto, como em outras recensões, não meto o bedelho. Estou mortinho como autor. O leitor que se divirta a ler como quiser.
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