Como são tratados os doentes de SIDA em Portugal

Hoje em dia quase toda a gente conhece ou já conheceu alguém infectado pelo vírus da SIDA. De facto, a ideia de que esta é uma doença restrita a alguns grupos de risco (homossexuais, prostitutas, toxicodependentes) está completamente ultrapassada.

Os números são claros: entre 1992 e 1998 os casos de infecção VIH diagnosticados em homo e bissexuais diminuiram para menos de metade, ao passo que aqueles que foram observados em heterossexuais aumentaram para mais do dobro (ver quadro).

Segundo a Dra. Natália Madureira, médica do Serviço de Doenças Infecto-Contagiosas do Hospital Curry Cabral, há apenas um grupo que, por estar fortemente ligado a um comportamento de risco, se mantém como alvo preferencial da infecção: os toxicodependentes de drogas injectáveis.

"O problema destes doentes é que não têm uma estrutura social de apoio. Por vezes nem vêm através do médico de família, são recolhidos na rua por uma ambulância das urgências do hospital. E quando chegam aos nossos serviços já não trazem apenas a infecção VIH, vêm com toda uma série de problemas de saúde que é preciso resolver" conta Natália Madureira. "Alguns aparecem já num estado muito avançado da doença, inclusive com infecções oportunistas, e ainda não sabem que têm SIDA". A maioria, no entanto, chega a este hospital já com a certeza da infecção. Para trás ficaram as fases da suspeita, do teste, da espera e da confirmação.

Tudo começa com pequenos sintomas mais ou menos vulgares. Com efeito, os primeiros sinais de alerta que surgem normalmente nos doentes de SIDA são comuns a muitas outras infecções e distúrbios orgânicos mais correntes: gânglios inflamados, diarreia persistente, febre e transpiração nocturnas, lassidão, perturbações respiratórias, perda de peso sem razão aparente... Normalmente a hipótese de infecção só é considerada pelos médicos quando os sintomas persistem durante várias semanas e todas as outras possibilidades de patologia foram despistadas (ou quando o paciente esteve exposto a alguma situação de risco). Outros sintomas também observados nos indíviduos infectados pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH) são os fungos na boca e algumas doenças de pele, como o aparecimento súbito de manchas vermelhas e púrpureas na pele, na boca e nas pálpebras.

Quando alguém desconfia que pode estar infectado com o vírus da SIDA o primeiro passo a dar é consultar o médico de família. É ele que observa e avalia o quadro clínico e depois aconselha ou não a análise ao anticorpos VIH. Este teste só pode realizar-se com o conhecimento e consentimento do doente. Isto porque o próprio teste pode constituir um factor de angústia se o doente não fizer alguma preparação a nível psicológico, para o caso do resultado ser positivo. «Daí que só deveria submeter-se ao teste quem pensa ter estado numa real situação de risco, pelo menos 12 semanas antes» defende a mesma médica do Hospital Curry Cabral.

Depois de conhecido o resultado do teste, e sempre que este é positivo, o doente deverá ser encaminhado para um hospital com serviços vocacionados para o tratamento de pessoas infectadas com o vírus da SIDA, ou seja, que disponibilizem os medicamentos anti-retrovirais e que tenham médicos capacitados para o acompanhamento destes doentes, bem como o equipamento necessário à realização de exames complementares de rotina a que os seropositivos e doentes de SIDA devem submeter-se regularmente. Actualmente, todos os hospitais centrais e distritais encontram-se já nestas condições, mas ainda não é o suficiente.

A Dra. Natália Madureira explica-nos como é feita a distribuição dos doentes infectados pelo VIH, no serviço onde trabalha: «Todas as semanas eu e cada um dos meus colegas abrimos uma vaga para um destes doentes. Mesmo assim ainda ficam algum tempo em lista de espera, mas nós não podemos fazer melhor: às vezes já é difícil abrir uma vaga... O problema é que temos todos os outros doentes que já estão a fazer a terapêutica e que não podemos reencaminhar para o médico de família, uma vez que ele não tem acesso à medicação. Tanto quanto me é dado observar, os casos novos de infecção estão a aumentar e nós os médicos continuamos a ser os mesmos. Logo há que espaçar as consultas o que, não sendo desejável, é o que nos é possível». No momento estão a trabalhar no Serviço de Doenças Infecto-Contagiosas do Hospital Curry Cabral, sete médicos e quinze enfermeiras. À medida que a esperança média de vida dos doentes de SIDA vai aumentando, aumenta também a sobrelotação do serviço, isto se pensarmos que todas as semanas dão entrada sete novos doentes.

Depois da primeira consulta o doente deve iniciar a terapêutica que por vezes pode ser complexa e difícil de seguir. «É fundamental que os doentes tomem os medicamentos a horas certas e sigam à risca a terapêutica prescrita. Essa é a razão pela qual, em alguns casos, é preferível manter os doentes no Hospital de Dia na primeira fase do tratamento» afirma a mesma médica. O Hospital de Dia é um serviço que permite aos doentes, mesmo não estando internados, passar o dia no hospital, onde a evolução da sua situação clínica pode ser mais facilmente vigiada e os medicamentos administrados correctamente.

Por ser um tratamento que provoca frequentemente efeitos secundários significativos e dolorosos e pela tendência para se verificarem interacções medicamentosas no início da terapêutica, acontece que alguns pacientes preferem não se submeter a ela quando ainda não têm sintomas da doença. Na opinião da Dra. Natália Madureira este é um grave erro. «Todos os doentes, independentemente de terem ou não sintomas, devem iniciar a medicação anti-retroviral o quanto antes. Esta é a única forma de retardar a destruição gradual do sistema imunitário, enquanto ainda há um grande número de células saudáveis».

Para além do Hospital de Dia e do Serviço de Consultas Externas para os doentes em sistema de ambulatório (isto é, que não estão internos), o Hospital Curry Cabral dispõe ainda de um Serviço de Internamento a que os pacientes podem recorrer nas fases mais críticas da doença. «Hoje em dia é cada vez mais longo o período que os doentes desta síndrome resistem em sistema de ambulatório. Tem havido uma melhoria substancial dos medicamentos, sobretudo a nível dos próprios anti-retrovirais» afirma aquela médica. Existe também um pequeno departamento de apoio psicológico, o chamado grupo de psiquiatria de ligação, constituído por dois médicos-psiquiatras e um psicólogo, que presta assistência a todos os serviços do hospital e, portanto, também a este, dedicado às doenças infecto-contagiosas, mas que na prática, se ocupa sobretudo de doentes com infecção VIH. «Perguntamos sempre aos doentes se querem usufruir deste tipo de acompanhamento. E nem todos os doentes querem» conta a Dra. Natália.

Para o médico, acompanhar um doente de SIDA é sempre um desafio. «Nós na medicina interna somos treinados para tentar integrar os vários sintomas do doente, com vista a conseguir um diagnóstico o mais preciso possível da patologia em questão» continua Natália Madureira, «Neste caso, temos de fazer precisamente o contrário. Ou seja, temos de estar atentos porque estes doentes têm sempre mais que uma patologia. Por vezes, quando o doente sai da consulta com o diagnóstico completo, são cinco ou seis alíneas. E temos de ter isso em atenção aquando da escolha dos medicamentos. Por vezes não é a medicação mais desejável mas sim a possível dado o quadro clínico do doente.»

Desejável seria que a ciência avançasse mais célere em direcção a uma cura eficaz, ou que, pelo menos existisse uma consciencialização mais forte no sentido de prevenir o alastrar desta epidemia. Esta cosciencialização passa sobretudo pela revisão de conceitos e comportamentos profundamente enraizados socialmente, o que só é possível através da informação.