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O que é a metadona?

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REPORTAGEM

AGARRADOS À VIDA

 

   No Centro de Acolhimento (CA) pode dar-se o primeiro passo numa nova vida.  A cinco minutos do Casal Ventoso, onde já gastaram tempo demais, 44    toxicodependentes reaprendem a ter um tecto, a cumprir regras e a cuidar de   si. Não se fazem curas milagrosas, mas acalmam-se compulsividades. Os técnicos do CA ajudam a retomar comportamentos simples que impedem males maiores. Acima de tudo traz-se de volta alguma dignidade. E pela mão da metadona aliviam-se as saudades da heroína.

   O dia está quente. O tecto-clarabóia convida o sol a entrar. As ventoinhas penduradas demasiado altas travam uma luta desigual contra o calor de Junho. Desenhos garridos e disformes cobrem as paredes da sala ampla. Olhares curiosos perseguem-nos enquanto outros fitam os aquários sobrelotados onde peixes traçam círculos infinitos na sua prisão de vidro.

   Paramos à porta da sala dos monitores. É lá dentro que nos explicam os objectivos do funcionamento do Centro.

   São toxicodependentes sem abrigo do Casal Ventoso que ali vivem. Naquele espaço procura-se minimizar os riscos do consumo de drogas e encaminhar as pessoas para comunidades terapêuticas ou para a família.

   "No estado em que estavam não aguentavam ingressar directamente numa comunidades terapêutica. Queremos que tenham tempo para se estabilizarem e para adquirirem determinados hábitos", esclarece o psiquiatra de serviço, o Dr. Nuno Miguel.

   Ali prestam-se cuidados básicos de saúde, dá-se-lhes um tecto, roupa e alimentação. Incute-se responsabilidade. "Eles estão muito desorganizados. Procuramos que tenham cuidado com as consultas, com a medicação, que saibam programar o que vão fazer no dia seguinte", explica António Silva, 25 anos, monitor.

   A manutenção do espaço é da responsabilidade dos residentes que, divididos em quatro grupos, verde, azul, preto e cinzento estabelecem as escalas para as diversas tarefas como lavar a roupa, pôr as mesas ou lavar o chão. Tudo é feito em grupo, o que ajuda a recuperar o respeito pelo outro. Os 35 homens e as nove mulheres que ali vivem estão sujeitos às regras da casa. De entre todas, duas são fundamentais: não há lugar para a agressão nem para consumo de drogas dentro do Centro.

   Neste espaço de transição é suposto ficarem apenas três a quatro meses mas, alguns ficam por mais tempo. Filipe Lourenço, 38 anos, chegou há ano e meio, quando "o Centro ainda cheirava a tinta". Vinte anos de dependência deram tempo para cometer todo o tipo de "asneiras". Filipe era traficante no Casal Ventoso. Um dia viu a morte chegar perto demais. "Senti o coração grande, mas a bater muito devagar", diz-nos. "Estava num buraco escuro e a metadona foi a minha corda de salvação".

   Filipe não consome drogas há ano e meio. A metadona tomada pela manhã, antes ou depois do pequeno almoço, deixa-o lúcido para pensar na vida, no que foi, e no que é. E, principalmente, no que quer ser. "Um homem normal, com uma companheira e um emprego", afirma confiante. Mas sabe que ainda não está preparado, "não estou pronto para lidar com dinheiro, preciso de mais tempo". A terminar o "desmame" [redução da dose] da metadona, está de partida para uma comunidade terapêutica.

   Segundo os resultados da análise toxicológica realizada no dia 1 de Junho, Filipe pertence aos 66,6% dos residentes do CA que não estão a consumir drogas (heroína ou cocaína). A proximidade do bairro que os manteve cativos durante muito tempo e o facto de se poderem ausentar durante todo o dia fazem com que estes dados falem por si.

   Num programa de baixo limiar de metadona, como o que decorre neste Centro, não se objectiva a abstinência. Pela gravidade dos casos que ali se encontram, procura-se que os residentes consumam menos. Se não consumirem de todo, melhor. A metadona permite diminuir a ânsia de "meter" heroína e dessa forma potencia uma alteração dos comportamentos. As doses são determinadas caso a caso, mas o valor da dose mais utilizada no CA ronda as 80 mg. Valem as suas propriedades enquanto substituto opiáceo que suprimem os sintomas de "ressaca" da heroína. "Neste tipo de intervenção a metadona é importante para se conseguir desenvolver trabalho", afirma António Silva.

   "Pô-los a mexer, é a nossa função", explica André Cardoso, 26 anos, monitor. Para além das tarefas diárias os residentes podem ocupar os tempos livres no CA. Pintam, desenham, fazem jogos e trabalham numas peças para uma empresa de regadio, pelo que são pagos em tabaco. Ter o tempo ocupado é importante para se tirar o pensamento da paixão cega pela droga.

   Ainda assim, os dias são longos demais para quem, como Tiago Gomes, de 22 anos, o sangue ainda grita alto a dor do divórcio com o vício. Deu entrada no Centro há um mês e uma semana. Não está satisfeito. "São regras a mais e continuamos dependentes, desta vez da metadona", justifica. A metadona faz-lhe mal ao estômago e não gosta do seu sabor amargo disfarçado pelo cheiro intenso a banana.

   Tiago traficava drogas desde os oito anos, na Suíça, ao serviço dos pais que eram toxicodependentes. Aos 18 anos foi repatriado para Portugal e, após ter sido rejeitado pela família, tornou-se vigia do Casal Ventoso. Uma tez bonita, um rosto triste, sardas que lhe acentuam o ar de menino... Não fossem as cicatrizes profundas nos braços e ninguém lhe adivinharia o passado; um passado-presente, porque ainda consome drogas. Acredita que a sua cura não passa pela metadona. "Já estive limpo a valer e sem ajuda da metadona. Sei que consigo fazê-lo novamente", explica. Tiago é seguramente um caso complicado.

   A maior parte dos residentes são seropositivos. Algumas das mulheres saem durante o dia e continuam a prostituir-se. Os homens arrumam carros e fazem valer os contactos no mundo da droga para uns trocos. No fundo, o que se altera?

   "A metadona não transforma as pessoas e todos eles sabem que não se vão curar aqui", esclarece o Dr. Nuno Miguel. Curas milagrosas não existem. Nem no Centro de Acolhimento nem em lado nenhum. O tratamento dos toxicodependentes envolve todo um processo complexo de integração na sociedade.

   "Há pessoas que são encaminhadas para o tratamento e que o abandonam. Muitos não conseguem arranjar trabalho porque carregam o estigma da dependência e acabam por voltar à droga", comenta António Silva. É pela dificuldade do sucesso que por aqui cada pequena vitória tem um sabor especial. A vontade de vencer de Filipe e de outros como ele faz com que tudo valha a pena.

   Fim de tarde. Oito da noite. O sol desce, mas o calor ainda se faz sentir. É a vez do grupo azul a pôr as mesas. Os peixes continuam a nadar em círculos. Por hoje só mais um jogo de cartas e um pouco de televisão. Amanhã é outro dia.

                                             Informação adicional sobre o Centro de Acolhimento

 

UNL/FCSH/Ciberjornalismo/23-06-2000