Anorexia, nossa inimiga

 

Foi há 12 anos que se criou a Consulta de Doenças do Comportamento Alimentar (CDA) no Hospital de Santa Maria (HSM), em Lisboa. Desde então há um maior conhecimento da anorexia mas continua a ser difícil trazer os doentes à consulta. As causas são várias. É uma doença de tratamento difícil e prolongado, os médicos de família, ginecologistas e muitos psiquiatras ainda não sabem tratar a doença e não há consultas em número suficiente. Para além de Lisboa, só existem consultas específicas para distúrbios alimentares no Porto e em Coimbra. O que se revela muito insuficiente face a uma doença que se expande cada vez mais.

Dada a complexidade da anorexia é fundamental que o tratamento seja acompanhado por uma equipa multidisciplinar, constituída por psicólogos, dietistas e endocrinologistas. Cabe a um psiquiatra com experiência nesta doença fazer o diagnóstico. Normalmente o tempo de espera entre a triagem e a primeira consulta é de um mês. Mas nos casos graves o doente é atendido nas urgências, onde há sempre um psiquiatra de serviço.

"A anorexia é uma doença psiquiátrica com critérios diagnósticos bem definidos: recusa em manter um peso normal para a idade e altura, receio mórbido de aumentar de peso e alterações endócrinas decorrentes da falta de alimentação, que se traduzem em falta de menstruação nas mulheres e falta de interesse sexual nos homens." É desta forma que Daniel Sampaio, psiquiatra na consulta de DCA no HSM, define a anorexia.

Daniel Sampaio confessa que a anorexia o fascina porque apesar de todos os estudos realizados ainda não se conhecem as causas da doença. Sabe-se porém que a anorexia não é uma doença de moda e existem já dados consistentes que apontam para uma origem genética.

A grande maioria dos casos de anorexia trata-se em consulta externa - segundo dados clínicos têm aparecido cerca de 60 novos casos por ano. O internamento é só para situações muito graves, quando há um longo tempo de evolução da doença e uma alteração da condição física que coloca a vida em risco. Os critérios do internamento são: grande perda de peso, índice de massa corporal abaixo de 13, fracasso do tratamento em consulta, grande conflitualidade familiar e complicações médicas.

"São doenças que preocupam muito os familiares, que causam muito sofrimento e desencadeiam sentimentos de mau estar nas famílias", diz Daniel Sampaio. A percentagem de casos de anorexia é inferior a 0,5 por cento enquanto a bulimia se situa entre os dois e três por cento, segundo estudos a nível regional. Para o psiquiatra, "fala-se muito mais de anorexia, mas a bulimia é muito mais importante em termos de saúde pública". E acrescenta, "mas isto já vem tudo nos livros, já está tudo escrito, dito e falado". A impressão que fica é que não há nada de novo a dizer sobre estas doenças. Mas Dulce Bouça, psicoterapeuta na consulta de DCA do HSM, defende que há sempre algo a acrescentar no que diz respeito à relação terapêutica. "Só a terapia consegue levar uma pessoa a abandonar aquilo que se tornou o fulcro da sua vida e única razão de ser", afirma.

Devido a um apertado controlo sobre o seu corpo, o anoréctico tem imenso medo de estabelecer uma relação com alguém que detém o poder médico da doença. É fundamental para o tratamento que o terapeuta conquiste a confiança do doente. Para tal o terapeuta tem de reunir dois aspectos: por um lado aceitar as resistências do doente e por outro não desistir.

"O trabalho do terapeuta é muito duro. Eu costumo dizer que é mais difícil tratar-se do que continuar anoréctico", diz Dulce Bouça. Nessa relação de confiança e partilha entre médico e doente, tudo é negociado para que se consiga ultrapassar os momentos em que lutam por coisas diferentes. A cura implica que essa luta caminhe no mesmo sentido. Um índice de massa corporal igual ou superior a 18.5, regresso da menstruação e não haver mais preocupações com a imagem corporal e com a comida, são os critérios de cura. Segundo estudos realizados, apenas 40 por cento dos casos recuperam totalmente, 30 por cento recuperam parcialmente (verifica-se um aumento de peso e o regresso da menstruação mas persiste a preocupação com a imagem corporal), 20 por cento tornam-se crónicos e 5 a 10 por cento morrem.

É pelo facto de a parte psíquica e física da doença estarem interligadas que o tratamento da anorexia exige, além do psicólogo, o endocrinologista e o dietista. Durante muito tempo associou-se a origem destas doenças a factores endócrinos o que levou à inclusão desta especialidade na equipa multidisciplinar. Ainda hoje, a endocrinologia continua a ter um papel importante na consulta devido às complicações médicas destas doenças. Na anorexia nervosa a complicação mais grave é a osteoporose, na bulimia são as perturbações ao nível do esófago, dos dentes e do estômago devido aos episódios frequentes de vómito.

"O psiquiatra trata a doença psíquica e nós tomamos conta da parte física e das repercussões que o emagrecimento, sobretudo nos casos de anorexia, tem sobre o corpo: desequilíbrio nas análises, ausência de menstruação", diz Zulmira Jorge, médica endocrinologista da consulta de DCA do HSM. Para esta médica tem de se gostar mesmo da profissão, já que é difícil lidar com pessoas cuja mente vive aprisionada na relação entre o corpo e a comida.

Também Patrícia Nunes, dietista de DCA do HSM se mostra apaixonada pela profissão, o que não é difícil dada a relação positiva que geralmente estabelece com os doentes. A comida é o tema de conversa que os une. Mas esta não é uma relação fácil. "É preciso ter treino com estas doentes", afirma. O objectivo da dietista é que o doente consiga atingir o peso mínimo para se manter física e psiquicamente bem através do reequilíbrio da alimentação. Mas uma só consulta não chega. Antes da prescrição da dieta há todo um ritual a ser cumprido. É necessário fazer uma recolha da história alimentar do doente desde a infância até ao momento actual e pedir um diário alimentar, onde o doente regista tudo aquilo que come. "Nós temos é que ter a capacidade, como técnicos, de saber averiguar se é verdade ou mentira o que eles escrevem no diário. Podemos não conseguir na primeira consulta, mas depois é muito mais fácil", diz Patrícia Nunes com base na sua experiência. Por fim, é necessário recolher os dados antropométricos ( peso, altura, análises) e os dados psico-sociais (com quem é que a doente vive, quem é que prepara as refeições, se come sozinha ou acompanhada, se come em casa ou fora de casa). Só com estes dados é que se vai poder indicar uma dieta porque cada doente é um caso. "As dietas são prescritas conforme a pessoa que temos à frente", explica.

O paciente tem um acompanhamento regular, de 15 em 15 dias ou de mês a mês quando as coisas correm bem, para o dietista poder avaliar se a dieta está a ser cumprida. "As bulímicas conseguem aderir mais facilmente. As anorécticas no inicio não, mas depois sim. Também tem a ver com o contrato que se faz com o próprio doente. Começa a ganhar uma certa confiança e aderem muito mais facilmente". Para tal é necessário fazer novamente uma educação alimentar que passa pelo combate a certos mitos que se tem acerca da alimentação e pelos conselhos alimentares sobre novas receitas para fugir à monotonia das refeições. Por exemplo, o bulímico que gosta de doces pode ser ensinado a confeccionar doces que não engordam e o anoréctico pode fazer outro tipo de refeições que não sejam cozidos e grelhados.

É com estas ideias e empenho que os psicólogos, endocrinologistas e dietistas lutam de mãos dadas contra uma doença difícil mas não invencível.

 

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