O imperfeito do verbo viver

   

Ao que parece, já não há nada de novo a dizer sobre Anorexia Nervosa. Ou pelo menos assim pensa o homem que nos últimos anos mais entrevistas tem dado e mais livros tem escrito sobre o tema em Portugal. O seu nome quase dispensa apresentações.

Daniel Sampaio é professor universitário, médico especialista em psiquiatria,  coordenador do Núcleo de Estudos do Suicídio e um dos responsáveis pela consulta de Doenças do Comportamento Alimentar no Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Há vinte anos que dedica a sua vida ao estudo da família, da adolescência e da Anorexia Nervosa, uma doença mental difícil de entender que sempre o fascinou. 

Num tom condescendente, o Professor repete a lição mais uma vez. E explica como nesta doença se vive livre numa prisão.

 

Ainda há pessoas que ao deparar-se com um problema de anorexia não o identificam?

Daniel Sampaio  – Acho que já não. A anorexia nervosa é hoje uma doença muito conhecida. Não há um jornal ou canal de televisão que não tenha feito uma reportagem sobre este tema.  O que se passa é que é uma doença de tratamento difícil e prolongado. As pessoas sabem que têm uma anorexia nervosa, e os familiares também o sabem, mas é difícil trazê-las à consulta.

 

Os pais identificam logo a doença dos filhos e sabem onde os devem trazer para  o tratamento?

DS – Sim. O problema é não haver consultas em número suficiente. Temos recebido pessoas do Alentejo e dos Açores, e essas pessoas sabem muito bem qual é a doença. Não têm é acesso fácil ao tratamento e o tratamento não é fácil. Mas nos últimos cinco anos a situação mudou radicalmente e a Associação dos Familiares e Amigos dos Anorécticos e Bulímicos (AFAAB) teve um papel importante. Eu e a Dr. Dulce Bouça fomos os fundadores desta associação, que faz sobretudo acções de informação e prevenção em escolas e nas quais nós temos participado e dado algum apoio.

 

A anorexia é muito mais que perder peso... Como define esta doença? 

DS – É uma doença psiquiátrica com critérios diagnósticos bem definidos: recusa em manter um peso normal para a idade e altura, receio mórbido de aumentar de peso e alterações endócrinas decorrentes da falta de alimentação, que se traduzem em falta de menstruação nas mulheres e falta de interesse sexual nos homens. A anorexia pode ter dois sub-tipos: a anorexia nervosa restritiva, caracterizada por uma recusa em comer, e a anorexia nervosa bulímica, caracterizada por crises de voracidade alimentar de carácter compulsivo – as pessoas comem muito, em excesso, e várias vezes ao dia – e por aparecimento de manobras compensatórias para perder peso, como por exemplo vómitos, diuréticos, laxantes, jejuns, exercício físico excessivo.

 

A bulimia é apenas uma variante da anorexia ou é uma doença à parte?

DS – A anorexia é uma doença conhecida desde o século passado. Para além da anorexia, há uma outra doença chamada bulimia nervosa que se descobriu em  1979 e que começou por se considerar apenas uma variante da anorexia nervosa. Mais tarde verificou-se que havia pessoas com bulimia que nunca tinham tido anorexia.

 

Qual das duas doenças apresenta maior número de casos?

DS – Ao contrário do que se diz, a anorexia é uma doença rara, enquanto a bulimia é mais frequente. Não são doenças muito frequentes quando comparadas com a depressão ou com a ansiedade. Mas são doenças que preocupam muito os familiares, que causam muito sofrimento e desencadeiam sentimentos de mau estar nas famílias. Quanto à anorexia temos estudos a nível regional que indicam que a percentagem de casos é inferior a 0,5 por cento, enquanto a bulimia anda à volta dos 2 a 3 por cento. Fala-se muito mais de anorexia, mas a bulimia é muito mais importante em termos de saúde pública.... Mas isto vem tudo nos livros, já está tudo escrito, dito e falado.

 

Então se diz que já está tudo escrito, o que é que nos pode dizer de novo sobre esta doença?

DS – Nada.

 

Qual é o número de pessoas que estão neste momento a ser tratadas na consulta de Doenças do Comportamento Alimentar do Hospital da Santa Maria?

DS - Não lhe sei dizer exactamente. Têm aparecido cerca de 60 novos casos por ano. Em tratamento é difícil dizer, há pessoas no início do tratamento, outras no fim, outras que  vêm só de tempos a tempos. Mas são seguramente várias centenas de doentes em tratamento, talvez já ultrapasse os 200 casos.

 

No seu livro “Vivemos Livres numa Prisão” diz que a anorexia é uma doença que o fascina. Porquê?

DS - Porque é uma doença misteriosa. Apesar de todos os estudos que têm sido feitos, ainda não se sabe quais as causas da anorexia. Sabemos que não é uma doença de moda ou de cultura. Existem dados muito consistentes de que há uma base genética nesta doença. Há uma vulnerabilidade genética que é depois posta em marcha pelas circunstâncias de vida da pessoa. O que já está provado é que é uma doença relacionada com o metabolismo da serotonina, que é um neurotransmissor que tem a ver com o controlo do apetite. Portanto, as pessoas com anorexia e bulimia têm o metabolismo da serotonina perturbado.

 

Como se trata essa perturbação da serotonina  ?

DS - Nalguns casos trata-se com anti-depressivos. Nos casos de bulimia nervosa é útil que as pessoas tomem fluoxtina (vulgo Prozac), um anti-depressivo que actua ao nível da serotonina e que previne as crises bulímicas. Na anorexia os fármacos têm pouca indicação, usam-se apenas nas situações em que a pessoa está um pouco nervosa e necessita de dormir um pouco melhor. Mas o tratamento das duas doenças é psicoterapêutico. Na anorexia nervosa faz-se psicoterapia individual e psicoterapia familiar, na bulimia nervosa só psicoterapia individual e medicamentos.

 

Na bulimia não se faz psicoterapia familiar?

DS - Só nas pessoas muito novas. Mas a bulimia aparece no final da adolescência ou no início da idade adulta, enquanto a anorexia aparece no início ou na fase média da adolescência. As pessoas que aparecem com bulimia são normalmente estudantes universitários ou empregados e têm um grau de autonomia maior em relação à família, daí que não haja tanta indicação para a terapia familiar.

 

A anorexia nota-se muito mais a nível físico que a bulimia...

DS - A bulimia nervosa passa muito tempo despercebida. Há casos em que a doença se desenvolve ao longo de dois ou três anos sem que ninguém se aperceba. Na anorexia isso não é frequente porque diminui o peso e a família nota.

 

A que outros processos estas doentes recorrem para perder peso?

DS - Laxantes, diuréticos, exercício físico intenso. Temos cá uma rapariga internada com uma anorexia bulímica que andava 40 quilómetros por dia. Temos outra na consulta que fazia 800 flexões e abdominais por dia. Tudo para perder peso. Geralmente são pessoas muito determinadas e inteligentes. Tentam sempre superar-se, estudam muito e numa fase inicial os resultados escolares melhoram. Mas só numa fase inicial, porque a certa altura ficam completamente exaustas e deixam de estudar.

 

Como é que surgiu a ideia de criar a consulta de DCA no HSM?

DS - Porque havia muitos pedidos, quer na endocrinologia quer na psiquiatria, e então achámos que era melhor juntar e tentar uma consulta específica, que entretanto não funciona muito bem porque tem falta de psiquiatras e psicólogos. O tempo de espera é grande e as condições de tratamento não são as melhores. Há uma primeira triagem e só depois as pessoas são marcadas para a consulta. O tempo de espera pela primeira consulta é normalmente um mês.

 

Se já toda a gente sabe o que é a anorexia como é que se explica que o diagnóstico da doença continue a ser tão tardio?

DS - Médicos de família, ginecologistas e alguns psiquiatras ainda não sabem tratar esta doença, porque dá muito trabalho, requer uma grande disponibilidade e não se resolve com medicamentos. Tentar resolver a situação com anti-depressivos e pílula são manobras erradas que atrasam o tratamento. Nós temos feito um grande esforço no sentido de esclarecer os clínicos gerais, mas esse trabalho não está conseguido. Continua a ser mais fácil ir ao ginecologista e tomar uma pílula para menstruar, e ficar toda a gente muito satisfeita, do que ir a um psiquiatra e iniciar um tratamento que dura pelo menos um ano e que implica uma grande mudança.

 

E as doentes estão dispostas a encarar essa mudança?

DS - O grande problema é que estas doenças aparecem em pessoas que estão mal consigo próprias e com os outros. No livro eu chamei a isso sentimentos de inadequação. Depois iniciam uma dieta, e isso sim é a parte da doença que é moda: as pessoas quererem ter um corpo elegante e magro. Na fase inicial em que estão a perder peso, por estranho que isso possa parecer, estas pessoas têm uma identidade e um único sentido para a vida: controlar a fome. Alguns autores dizem que as doenças do comportamento alimentar são doenças adaptativas, que ajudam a pessoa a adaptar-se perante as dificuldades que está a ter. Durante um período isso funciona, a pessoas sente-se bem, só que depois vêm as consequências físicas. E a certa altura o processo torna-se imparável.

 

Há rapazes a serem tratados na consulta de DCA do HSM?

DS - Há, mas são menos. A anorexia nervosa e a bulimia nervosa são doenças raríssimas em rapazes. Pensa-se que isso se deve ao facto de a pressão para ser magro ser superior nas raparigas. Na adolescência, só cerca de cinco por cento dos doentes é que são rapazes, mas na pré-adolescência já há mais casos. Neste momento, temos cerca de quinze rapazes em tratamento aqui na consulta. Mas estão a aparecer cada vez mais casos e pode ser que isso venha a alterar a situação.

 

Qual é o papel dos pais no tratamento?

DS - É fundamental, principalmente na anorexia nervosa. Fazer terapia familiar abaixo dos 18 anos é uma indicação obrigatória nestes casos. O que acontece é que por falta de tempo e de técnicos nem sempre isso é feito. Uma sessão familiar demora uma hora e é preciso uma disponibilidade de tempo que não há. Na terapia familiar o papel do médico é moderar, melhorar a comunicação e retirar a culpa dos pais, que não têm culpa nenhuma de ter um filho anoréctico.

 

Quais as condições em que uma pessoa é internada por causa da anorexia?

DS - Grande perda de peso, índice de massa corporal abaixo de 13, fracasso do tratamento em consulta (nunca menos de um ano), grande conflitualidade familiar e complicações médicas. Neste momento estão internadas no hospital seis pessoas.

 

Quando é que se pode considerar que uma pessoa está curada de anorexia?

DS - Os critérios de cura são: um índice de massa corporal igual ou superior a 18,5, que é o mínimo que se pode ter, presença de menstruação, e acabar com as preocupações com a comida. Quarenta por cento dos casos fica curado. O que não é muito, se compararmos com as percentagens de cura da depressão, que chegam aos 80 e 90 por cento.